Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Falando em faxina...

 

 

Há quanto tempo que você não faz uma boa faxina na sua casa? Com certeza muitos irão responder que fazem toda semana, ou a cada quinze dias, que é meio que o padrão da nossa sociedade. Mas, faxina de verdade mesmo, faz quanto tempo?

Talvez ao limpar o armário da cozinha, você encontre panelas que sem uso há anos. Eletrodomésticos empoeirados e enferrujados esquecidos no fundo dos balcões... Quantos apetrechos inúteis comprados no calor da emoção e nunca utilizados?

 E no guarda roupas? Quantas peças guardadas há anos esperando você emagrecer/engordar para usar de novo? E, se você conseguir atingir seu objetivo, estas peças de roupa ainda estarão na moda? Você realmente vai voltar a usar? Porque convenhamos, não é só o corpo da gente e a moda que mudam: tem coisas que a gente não vai mais usar porque passou o momento. Você pode voltar a ter o corpo de quando tinha 18 anos, mas isso não significa que a roupa que você usava naquela época vai cair bem em você agora. Mesmo que você ainda seja jovem, a sua cabeça não é mais a mesma, e você não se vê mais como antes. Aliás, com o tempo, passamos a nos olhar cada vez com maior rigor.

Da mesma forma que com os objetos, a gente precisa fazer uma boa faxina no coração de tempos em tempos. Tem certos sentimentos que não cabem mais dentro do peito, ou que já estão mais que ultrapassados. Por que guardar velhas mágoas? Para que deixar aquela vontade de dar um abraço em alguém esquecida num cantinho da memória? E aquele “me desculpe” ou “eu te perdôo” que você sufoca? Ou será que é você o sufocado?

Meus queridos, que tal aproveitar o início do ano para fazer uma boa faxina? Abra espaço para o novo: móveis, utensílios, roupas e sentimentos novos. Abra as janelas da casa, deixem que a luz do sol entre e que o vento renove o ar de cada cômodo. Faça o mesmo com o seu coração: deixe que o vento leve os sentimentos ruins que não combinam mais com você e permita que o seu novo eu floresça.

Você merece ser feliz.

E os outros também merecem. 

 

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 21/01/2018 às 17h49 | cereshmrc@gmail.com

Sorria menos, por favor.

Tenho observado que grande parte dos meus amigos saiu das redes sociais. Inclusive notei até que os que nunca estiveram numa me parecem bem mais felizes (embora eu ache engraçado quando eles fazem algum comentário do tipo “não sei, como que é isso?” quando a gente se refere ao stories, por exemplo). Junto a isto, também tenho me analisado, e notado que ando acessando as redes cada vez com menor frequencia, e que não apenas não me faz falta como me parece ser até mais divertido.

Na semana passada enviei uma boneca de pano pra uma priminha linda que mora em São Paulo, e me lembrei que no ano anterior eu tinha recebido um bilhetinho manuscrito do vô dela e do quanto isso tinha me feito feliz. Não tive dúvidas, procurei papel de carta (ainda existe, acreditam?), uma caneta e sentei para escrever. A primeira sensação, preciso confessar, foi de dor no punho. Quanto tempo faz que não escrevo mais a mão? Nem me lembro… no consultório, no hospital, em casa, tudo informatizado. Caneta só pra assinar o nome, e pense que não uso talão de cheques há anos, então até isso é pouco.

Escrevi a primeira cartinha, a segunda, e logo tinha escrito para vários primos. E senti novamente o sabor de colocar no papel os sentimentos, e parece que assim, manuscritos, eles ficam até mais palpáveis. Sim, ao manuscrever cada cartinha, meu coração transbordou de amor e algumas lágrimas até chegaram aos olhos, a garganta apertou de saudade…

O que isso tem a ver com o início da conversa? Simples, estamos cansando de mundos de fachada, de poses de comercial, de vidas perfeitamente fakes. Por isso, estou pensando seriamente em sair das redes sociais, pelo menos por um tempo. Quero recordar que sou e somos reais, que sorrimos mas também choramos, temos momentos de raiva, de dor, de solidão. Não é só de alegria que a vida é feita, aliás, é nos momentos difíceis que a gente cresce.

Há alguns dias, um amigo me fez refletir muito nisso: quantos amigos de verdade você tem? Então, por favor, sorria menos. Seja mais você. O mundo precisa de gente de verdade.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 21/12/2017 às 12h58 | cereshmrc@gmail.com

Sobre amar e sobre amor

 

              De uma coisa eu tenho certeza: não estaremos aqui para sempre. Ou melhor, a única maneira de ficar aqui para sempre é ser diferente. O mundo está cansado do mesmo. Mesmas roupas, mesmos modos, mesmas idéias. É preciso que se reinvente a vida, que se dê um novo significado a existência. Sim, à vida. Esta mesma, que anda tão desvalorizada ultimamente...

Não gosto mais de ler jornais, de ver noticiários: a morte está presente o tempo inteiro. Ou ela ou seus cúmplices: a cobiça, o desespero, a vingança, o desamor... Ouvimos muitas vezes as pessoas falando em violência gratuita, mas é pior do que isso. É violência paga, financiada pelas manchetes de jornais e por leitores ávidos pelo sofrimento alheio. E é neste momento que pergunto o que estamos fazendo.

Nesta época de fim de ano, de festas, todos se tornam repentinamente solidários, e as instituições que acolhem os desamparados (sejam idosos ou crianças), ficam cheios de doações. De doações materiais, porque ninguém tem tempo de parar e dar alguns minutos de seu tempo. Ninguém pergunta como eles estão, porque não quer ouvir. Não queremos saber sobre as outras intermináveis 364 noites do ano. Não conseguimos suportar esta dor, e preferimos nos esconder atrás dos rostos sorridentes dos anúncios e dos cartões impressos de boas festas.

Há alguns anos temos o hábito de sair na noite de Natal, enquanto todos ceiam com sua famílias,  e levar comida e artigos de higiene pessoal, que arrecadamos em doações dos amigos, para os moradores de rua. Só Deus é testemunha do que vemos, dos sorrisos puros, das palavras que ouvimos,  do brilho nos olhos de cada um. Lembro-me bem de um homem jovem, que nos parou e fez um pedido: “vocês podem fazer uma oração por minha filha? Ela está com a mãe e faz tempo que não vejo...” Ou o senhor que estava sentado no calçadão, aparentemente embriagado, com as pessoas passando rapidamente ao seu redor e o ignorando, quando paramos o carro e nos dirigimos a ele. Ele nos agradeceu com os olhos cheios de lágrimas e disse que tinha certeza que Deus não tinha esquecido dele. Guardo estas memórias num compartimento especial do coração e elas me alimentam a cada dia.

No dia 24 de dezembro, quando você estiver com sua família comemorando a noite de Natal numa ceia linda com a mesa farta, tente não fechar as cortinas. Talvez do lado de fora esteja uma outra mãe/pai/filho(a)/avô/avó esperando apenas por um sorriso, uma palavra e um prato de comida. Talvez naquela noite você tenha a oportunidade única de ajudar alguém a se resgatar.

E, fazendo desta forma, talvez você crie o hábito de enxergar, e se torne, como tantos outros anônimos, alguém diferente para a humanidade. E, então, mesmo que o sopro da vida se apague e cerre seus olhos, ainda assim talvez você nunca parta, porque estará sempre vivo no coração de alguém que recebeu de você algo que trouxe de volta o seu sorriso. 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 30/11/2017 às 21h22 | cereshmrc@gmail.com

Gente de verdade

             

               Eu queria pedir a você apenas um favor: fecha teus olhos e fica em silêncio um minutinho. Só um minuto, nada mais. Acho que este é o tempo suficiente pra você ouvir. E daí, talvez você entenda do que a gente tem falado,  tudo que o mundo está passando, tudo o que a gente tem calado... A gente vive num barulho ensurdecedor. É uma barulheira lá fora, um caos dentro da mente... os pensamentos se atropelam freneticamente e a gente acaba assim. Surdo.

Quanto tempo faz que você não ouve o seu coração? Olha que ele tem pedido socorro várias vezes... Você bem sabe como ele tem sofrido ultimamente. Apanha de todo jeito: volta e meia uma palavra atirada acerta bem naquele pontinho doloroso. Mas você finge que não ouviu. Você cala. Você está ficando mestre nesta arte de disfarçar, né? Eu até posso concordar com você que é mais fácil assim, fazendo de conta que não percebeu. Mas as feridas vão ficando, viu? E, de repente, quando você percebe, já não tem dor porque não tem mais sentimento... Já não dói mais nem fora, nem dentro... 

Faz tempo, né? Lembra da última vez que você ouviu seu irmão? Não, né... sei, a gente anda bem egoísta ultimamente. A gente só pensa em ser feliz, em ser melhor, em ser mais. Mais tudo. Menos humano. Porque gente de verdade também tem momentos de fraqueza, tem momentos de depressão, e até momentos de raiva. Gente de verdade as vezes bate, as vezes apanha, e noutras, corre junto.

Lembra quando você era bem criança e corria junto com os amiguinhos de mãos dadas? Gente de verdade é assim. Tem hora que se abraça e corre juntinho. Rindo. Dando gargalhada. Porque gente de verdade sabe que a vida é passageira, que num minuto estamos aqui e no outro fomos embora. Viramos apenas lembrança. E gente de verdade quer ser lembrança boa na vida dos outros. Gente de verdade quer levar lembranças boas da vida...

Porque no final, tudo se resume a isso: ao que você pode carregar com você. Ao que ninguém pode te roubar. Então, por isso te peço apenas este favor: fecha teus olhos e escuta teu coração. E escolhe fazer o que ele te mandar. Porque o mundo precisa disso: de gente de verdade.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 18/11/2017 às 11h51 | cereshmrc@gmail.com

No espelho do tempo

Tem dias que a gente não se reconhece no espelho. E, a medida que o tempo passa, parece que isso fica cada vez mais frequente. Deve ser por isso que faz tempo que evito o espelho. Sempre critiquei as pessoas que conversavam sem olhar nos olhos, e agora me vejo fazendo o mesmo: não consigo fitar meus próprios olhos no espelho. Nas últimas vezes em que o fiz, encontrei um olhar cansado, mas, mais que isso, um olhar acusador. Sim, meu próprio olhar me acusa. Lembro que na primeira vez que isso aconteceu eu tentei disfarçar, fingir que não era comigo… procurei focar numa nova ruga no canto da pálpebra, num fio de cabelo branco… Depois disso, passei a me encarar com uma certa desconfiança, um temor, e até mesmo um respeito. Encarar é modo de dizer, na verdade, procurei mudar a perspectiva e cheguei mesmo a culpar meus óculos, que talvez já tivessem que ser trocados. As luzes auxiliares já não são mais acendidas, de forma que a suave penumbra que me sombreia a face me impeça de viver este momento constrangedor.

A louca do espelho me acusa. Sem a menor piedade, ela me despe das armaduras da reserva e da maquiagem, e escancara o resultado do tempo e do que ele fez comigo. Ele? … sorrio amargamente… a louca não me culpa pelo tempo. Ela apenas comanda o desfile implacável dos sonhos atropelados pela rotina a que nos obrigamos. A louca despe-me. E me obriga a ver o que não quero. Os sorrisos forçados, as lágrimas represadas, as verdades engolidas. Tudo isto sufoca-me, asfixia. E a louca ri-se de mim!

Através de uma pequena fresta, vejo o sol. Vejo a criança que fui, a inocência passeia serenamente de braços dados com a alegria. Calo. Não há o que dizer. Não há o que fazer agora. Apenas conviver com a realidade fria do que fiz comigo. Sob a penumbra, fragmentos de sonhos abandonados agonizam silenciosamente, enquanto o tempo, este algoz, ri-se desavergonhadamente.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 03/11/2017 às 15h13 | cereshmrc@gmail.com

Quem matou a nossa infância?

Quando um adolescente atira nos colegas como ocorreu na semana passada, prontamente a explicação dada foi que ele sofria bulling. O agressor passou a ser vítima e uma das vítimas passou a ser agressor. Mas será que são estes mesmo os papéis? É muito fácil julgar, condenar, rotular.

Numa pesquisa rápida no Google sobre o tema, aparecem milhares de resultados. E, a um olhar mais atento, é possível perceber que estes números vem aumentando perigosamente. Claro que hoje a informação é praticamente instantânea, e sempre tem alguém filmando e divulgando imediatamente os fatos, o que poderia, teoricamente, responder pelo aumento de casos. Mas a verdade é que nossas crianças mudaram. Ou será que fomos nós que mudamos?

Lembro que quando eu era criança tive vários apelidos, porque era magra demais, baixinha, etc. Na minha turma de escola tinha o "quatro olhos", o "pintor de rodapé", o "salva vidas de aquário", etc. Havia brigas entre nós, mas nada sério demais. Até porque todas as brigas acabavam quando batia o sino do final da aula e a gente sabia que só enfrentaria o "inimigo" novamente no dia seguinte. Lembro inclusive de uma vez que a minha turma recebeu uma suspensão de um dia, e quando cheguei em casa a minha mãe me botou de castigo por isso. Talvez eu esteja velha demais, mas naquela época a gente respeitava professor, policial, padre, médico... Ensinavam pra gente a respeitar os mais velhos, a ficar quieto na igreja, a usar as "palavrinhas mágicas". 

Hoje o que vemos são crianças que são criadas por terceiros porque os pais não tem tempo para isso. Não tem tempo porque tem que trabalhar pra trocar o carro, pra pagar a escola particular, o plano de saúde, essas coisas. E, diante de tudo isso, a função de educar acaba sendo delegada a escola. Por outro lado, como estes pais ficam pouco tempo com seus filhos, não querem também entrar em conflito e retiram da escola a autoridade assim que algo os desagrade.

Se educar é função da família e a escola cabe ensinar, faz parte do papel da sociedade também fiscalizar para que não haja desvios. Isto porque educar é muito mais complexo, exige vivência, exemplo. Não adianta dizer que roubar é feio e ficar com o troco excedente do mercado... Não adianta fazer os filhos irem a igreja, fazer comunhão, etc e fingir que não vê quando alguém pede um prato de comida, ou jogar o carro em cima do motorista da frente pra ele mudar de pista. 

E daí, a criança que vive este dia a dia vê nas redes sociais as típicas famílias de comercial de margarina: todo mundo lindo e feliz, num lar perfeito. Bem, este lar perfeito não está ao alcance dela, mas ela pode ser famosa. Como? Me diga ai quem é o prêmio nobel da paz. Mas todo mundo sabe o nome dos serial killers. O próprio adolescente atirador do inicio do texto refere que se inspirou em outros massacres provocados por outros adolescentes. Por que não estamos enxergando o que está acontecendo com nossas crianças? Por que ninguém está ouvindo seus gritos de socorro? Quanto mais elas terão que gritar para que ouçamos?

Quando a sociedade se esvazia de valores, a infância se perde. Que esta reflexão nos leve a mudar, porque nossas crianças merecem um mundo melhor e real, onde elas possam ser crianças de novo. 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 24/10/2017 às 11h14 | cereshmrc@gmail.com



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Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há quase 20 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


















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