Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Uma reflexão necessária

              

             Hoje é dia da bandeira na Argentina: feriado nacional, homenagens a bandeira, cerimônias e o tradicional discurso do presidente na Praça da Bandeira, em Rosário. Tudo isto acontece sempre, e, neste ano, concomitantemente a copa do mundo, o sentimento nacional é muito maior.

Porém tudo isto ocorre também no momento em que o país está quebrado, com a moeda cada vez mais desvalorizada, com o dólar chegando a quase 30 pesos. Ontem foi anunciado um aumento de 25% para os caminhoneiros, porém não aplacou o sentimento da população. O que se vê hoje é revolta e manifestações onde deveria haver um belo cerimonial.

Pior, pela primeira vez o presidente não fará seu pronunciamento nesta data. O que se diz na imprensa é que o presidente está com medo de sair as ruas. Sem entrar no mérito da questão, sem querer discutir política partidária, há que se repensar muito sobre como estamos conduzindo as relações humanas. Algo sem dúvida está muito errado quando uma pessoa que foi escolhida pelo povo, não consegue encarar os que o conduziram ao poder.

Aliás, este é apenas mais um exemplo de como estamos definitivamente à deriva. Não temos mais quem represente a nação com orgulho, com garra. Todos apenas pensam em se autopromover, em aumentar seu patrimônio ou seu prestígio. Mas no povo mesmo, no país, ninguém pensa.

Isso me faz recordar das aulas de Educação Moral e Cívica, de cantar o Hino Nacional todos os dias, com o coração cheio de orgulho. Lembro de meu avô, que foi lutar na Italia durante a Segunda Guerra, e junto com muitos outros, ofereceu sua vida para defender o país.

Hoje não temos mais heróis. Que pena.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 20/06/2018 às 14h47 | cereshmrc@gmail.com

Padrões e Preços

                  Quando os jovens  escolhem a profissão que irão seguir, quando prestam vestibular, não tem a menor dimensão do que os aguarda. Embora existam cursinhos pré-vestibulares, serviços de orientação vocacional, testes, faculdades que oferecem aulas sobre os cursos a fim de auxiliar na escolha, nada prepara para a vida real. Nada.

                Por melhores e bem intencionados que sejam os pais e mães, por mais sólida que seja a estrutura familiar, que se tenha condições socioeconômicas ideais, mesmo assim o jovem formando não sabe o mundo que o aguarda.

                Ninguém prepara o estudante de pedagogia para lidar com a sua própria frustração frente a burocracia do sistema que o impedirá de fornecer o melhor para seus alunos. Tampouco passa pela cabeça do futuro médico que um dia acabará inevitavelmente pela situação de ter que escolher a qual paciente dar a chance da vida. Ou que talvez tenha que usar todo o seu conhecimento para salvar a vida de um assassino, e tampouco que poderá ter que lidar com a sua própria impotência frente a doença de um ente querido.

                E isto falando apenas do exercício profissional. E o preço indireto de cada escolha? Porque, na maioria das vezes, não se escolhe apenas uma carreira, mas sim um estilo de vida. Profissões “de sucesso” pressupõem uma conduta pessoal correspondente. Espera-se, na área da saúde, que sejam todos como sacerdotes: trabalhem por amor, não visem o lucro, e ao mesmo tempo, que paguem mais caro por serem “bem sucedidos”. Na área do direito, espera-se que tenham todas as respostas e soluções para todo tipo de problema. E assim por diante.

                E tanto a sociedade cobra certas posturas e posicionamentos, que o profissional acaba por ele mesmo se cobrar as mesmas posturas e posicionamentos. E, quando tudo isto se torna um padrão comportamental obrigatório, o que resta? A frustração. Sim, porque ninguém é perfeito (e nem vamos considerar o conceito de perfeição, que por si só já é relativo), e ao mesmo tempo todos são obrigados a conviver consigo mesmos.

                E, ao aceitar este padrão comportamental como algo natural, o indivíduo se cobra e cobra ao outro, ao mesmo tempo que se exime da responsabilidade de causar ao outro a mesma dor e frustração que sente, já que é “a sociedade” que determina o padrão. Senhoras e senhores, desculpem mas é preciso dar uma péssima notícia: A SOCIEDADE SOMOS NÓS. E consequentemente, somos ao mesmo tempo vítimas e algozes. Causamos ao outro a mesma dor que nos causam. Fechar os olhos e ouvidos não faz calar os clamores.

                Lamentavelmente, evoluímos tanto em vários aspectos, mas cada vez somos menos HUMANOS.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 16/06/2018 às 12h53 | cereshmrc@gmail.com

A elegância do inverno...

Então parece que o inverno chegou. A gente começou a tirar os cobertores do guardaroupa, colocar os casacos no sol, lavar os pijamas compridos… ressuscitamos as pantufas, as meias e botas! Na televisão, anunciam a noite mais fria do ano. Nos jornais, previsões de safras de tainhas. O sol tem nascido mais tarde (acho que até ele tem preguiça de levantar com este friozinho), e se posto mais cedo. O cardápio agora inclui sopas de todo tipo, chocolate quente, pinhão… 

Desde criança, sempre achei o inverno chique. Se o verão é sensual, com decotes, fendas, transparências, o inverno tem uma elegância natural com seus casacões, echarpes, xales… Até caminhar na praia me parece mais gostoso no inverno do que no verão. O clima frio me traz um tipo de magia, uma disposição diferente, um jeito diferente de olhar a vida.

Por outro lado, inicia-se a temporada das doenças respiratórias, das gripes e resfriados, que se propagam rapidamente já que as janelas permanecem fechadas nas casas, escolas, ônibus, etc… E isto até porque as pessoas tem a falsa ideia de que isso protege do “vento frio”, quando na verdade aumenta a concentração de vírus e a transmissão de doenças.

Resumindo, descobri que estive enganada a vida toda: chique mesmo é ter o coração aquecido, com um abraço acolhedor como aquele sofá velho da sala de televisão que já tem um cobertor jogado e algumas marcas de pipocas de quem já deu muitas risadas com os amigos de verdade. Elegância vem de dentro, através de pequenas atitudes. Talvez por isso o inverno hoje me pareça tão frio.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 23/05/2018 às 14h54 | cereshmrc@gmail.com

Vamos falar sobre gritos?

 

 

                      Ultimamente tenho experimentado uma sensação horrivel: uma dificuldade absurda de me concentrar, de escrever, de ler, de produzir qualquer coisa. Dormir também tem sido uma tarefa ingrata. Por mais que eu queira, o barulho ensurdecedor não me permite. Independente de onde eu esteja continuo ouvindo de forma incessante.

                   Gritos. Gritos desesperados. Pedidos de socorro. O mundo agoniza, as pessoas agonizam. Vez que outra, uma brechinha de luz parece que surge e acalma por um milionésimo de segundo a fúria insana dos clamores.

 

                      Ninguém ouve. Ninguém vê. Todos estão tão absortos, engolidos pela máquina do dia a dia, fazendo sempre as mesmas coisas, tentando atingir um ideal… Não sei se as pessoas ensurdeceram pelo barulho (porque a gente acaba se acostumando a tudo, infelizmente), ou pela falta de prática do exercício de ouvir.

 

                   Ouvir. Parece tão simples… mas de quantas maneiras diferentes nós gritamos? Há gritos literais, e gritos silenciosos. Grita aquele que cala, e grita talvez com muito mais ansiedade. Grita aquele que se embriaga… o que se droga com substâncias legais ou não. Mas eles gritam!!!

 

                   Nas ruas, todos os dias, vejo vários deles gritando enquanto caminham de olhos vazios suplicando em silêncio. Ocasionalmente um grita mais alto e daí as pessoas leem nos jornais e comentam em sussurros: “nossa… mais um suicídio...” Mas ninguém ouviu os gritos.

 

                     Eu também grito. Muitas vezes, grito em silêncio, num silêncio que minha família e amigos já conhecem e percebem as vezes até antes de mim. Porque eu aprendi que tenho o direito de gritar e ser ouvida, e acredito que todos também precisam aprender a ouvir até mesmo os seus próprios gritos.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 26/04/2018 às 16h26 | cereshmrc@gmail.com

Falando em faxina...

 

 

Há quanto tempo que você não faz uma boa faxina na sua casa? Com certeza muitos irão responder que fazem toda semana, ou a cada quinze dias, que é meio que o padrão da nossa sociedade. Mas, faxina de verdade mesmo, faz quanto tempo?

Talvez ao limpar o armário da cozinha, você encontre panelas que sem uso há anos. Eletrodomésticos empoeirados e enferrujados esquecidos no fundo dos balcões... Quantos apetrechos inúteis comprados no calor da emoção e nunca utilizados?

 E no guarda roupas? Quantas peças guardadas há anos esperando você emagrecer/engordar para usar de novo? E, se você conseguir atingir seu objetivo, estas peças de roupa ainda estarão na moda? Você realmente vai voltar a usar? Porque convenhamos, não é só o corpo da gente e a moda que mudam: tem coisas que a gente não vai mais usar porque passou o momento. Você pode voltar a ter o corpo de quando tinha 18 anos, mas isso não significa que a roupa que você usava naquela época vai cair bem em você agora. Mesmo que você ainda seja jovem, a sua cabeça não é mais a mesma, e você não se vê mais como antes. Aliás, com o tempo, passamos a nos olhar cada vez com maior rigor.

Da mesma forma que com os objetos, a gente precisa fazer uma boa faxina no coração de tempos em tempos. Tem certos sentimentos que não cabem mais dentro do peito, ou que já estão mais que ultrapassados. Por que guardar velhas mágoas? Para que deixar aquela vontade de dar um abraço em alguém esquecida num cantinho da memória? E aquele “me desculpe” ou “eu te perdôo” que você sufoca? Ou será que é você o sufocado?

Meus queridos, que tal aproveitar o início do ano para fazer uma boa faxina? Abra espaço para o novo: móveis, utensílios, roupas e sentimentos novos. Abra as janelas da casa, deixem que a luz do sol entre e que o vento renove o ar de cada cômodo. Faça o mesmo com o seu coração: deixe que o vento leve os sentimentos ruins que não combinam mais com você e permita que o seu novo eu floresça.

Você merece ser feliz.

E os outros também merecem. 

 

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 21/01/2018 às 17h49 | cereshmrc@gmail.com

Sorria menos, por favor.

Tenho observado que grande parte dos meus amigos saiu das redes sociais. Inclusive notei até que os que nunca estiveram numa me parecem bem mais felizes (embora eu ache engraçado quando eles fazem algum comentário do tipo “não sei, como que é isso?” quando a gente se refere ao stories, por exemplo). Junto a isto, também tenho me analisado, e notado que ando acessando as redes cada vez com menor frequencia, e que não apenas não me faz falta como me parece ser até mais divertido.

Na semana passada enviei uma boneca de pano pra uma priminha linda que mora em São Paulo, e me lembrei que no ano anterior eu tinha recebido um bilhetinho manuscrito do vô dela e do quanto isso tinha me feito feliz. Não tive dúvidas, procurei papel de carta (ainda existe, acreditam?), uma caneta e sentei para escrever. A primeira sensação, preciso confessar, foi de dor no punho. Quanto tempo faz que não escrevo mais a mão? Nem me lembro… no consultório, no hospital, em casa, tudo informatizado. Caneta só pra assinar o nome, e pense que não uso talão de cheques há anos, então até isso é pouco.

Escrevi a primeira cartinha, a segunda, e logo tinha escrito para vários primos. E senti novamente o sabor de colocar no papel os sentimentos, e parece que assim, manuscritos, eles ficam até mais palpáveis. Sim, ao manuscrever cada cartinha, meu coração transbordou de amor e algumas lágrimas até chegaram aos olhos, a garganta apertou de saudade…

O que isso tem a ver com o início da conversa? Simples, estamos cansando de mundos de fachada, de poses de comercial, de vidas perfeitamente fakes. Por isso, estou pensando seriamente em sair das redes sociais, pelo menos por um tempo. Quero recordar que sou e somos reais, que sorrimos mas também choramos, temos momentos de raiva, de dor, de solidão. Não é só de alegria que a vida é feita, aliás, é nos momentos difíceis que a gente cresce.

Há alguns dias, um amigo me fez refletir muito nisso: quantos amigos de verdade você tem? Então, por favor, sorria menos. Seja mais você. O mundo precisa de gente de verdade.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 21/12/2017 às 12h58 | cereshmrc@gmail.com



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Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há quase 20 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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Por Céres Fabiana Felski

Uma reflexão necessária

              

             Hoje é dia da bandeira na Argentina: feriado nacional, homenagens a bandeira, cerimônias e o tradicional discurso do presidente na Praça da Bandeira, em Rosário. Tudo isto acontece sempre, e, neste ano, concomitantemente a copa do mundo, o sentimento nacional é muito maior.

Porém tudo isto ocorre também no momento em que o país está quebrado, com a moeda cada vez mais desvalorizada, com o dólar chegando a quase 30 pesos. Ontem foi anunciado um aumento de 25% para os caminhoneiros, porém não aplacou o sentimento da população. O que se vê hoje é revolta e manifestações onde deveria haver um belo cerimonial.

Pior, pela primeira vez o presidente não fará seu pronunciamento nesta data. O que se diz na imprensa é que o presidente está com medo de sair as ruas. Sem entrar no mérito da questão, sem querer discutir política partidária, há que se repensar muito sobre como estamos conduzindo as relações humanas. Algo sem dúvida está muito errado quando uma pessoa que foi escolhida pelo povo, não consegue encarar os que o conduziram ao poder.

Aliás, este é apenas mais um exemplo de como estamos definitivamente à deriva. Não temos mais quem represente a nação com orgulho, com garra. Todos apenas pensam em se autopromover, em aumentar seu patrimônio ou seu prestígio. Mas no povo mesmo, no país, ninguém pensa.

Isso me faz recordar das aulas de Educação Moral e Cívica, de cantar o Hino Nacional todos os dias, com o coração cheio de orgulho. Lembro de meu avô, que foi lutar na Italia durante a Segunda Guerra, e junto com muitos outros, ofereceu sua vida para defender o país.

Hoje não temos mais heróis. Que pena.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 20/06/2018 às 14h47 | cereshmrc@gmail.com

Padrões e Preços

                  Quando os jovens  escolhem a profissão que irão seguir, quando prestam vestibular, não tem a menor dimensão do que os aguarda. Embora existam cursinhos pré-vestibulares, serviços de orientação vocacional, testes, faculdades que oferecem aulas sobre os cursos a fim de auxiliar na escolha, nada prepara para a vida real. Nada.

                Por melhores e bem intencionados que sejam os pais e mães, por mais sólida que seja a estrutura familiar, que se tenha condições socioeconômicas ideais, mesmo assim o jovem formando não sabe o mundo que o aguarda.

                Ninguém prepara o estudante de pedagogia para lidar com a sua própria frustração frente a burocracia do sistema que o impedirá de fornecer o melhor para seus alunos. Tampouco passa pela cabeça do futuro médico que um dia acabará inevitavelmente pela situação de ter que escolher a qual paciente dar a chance da vida. Ou que talvez tenha que usar todo o seu conhecimento para salvar a vida de um assassino, e tampouco que poderá ter que lidar com a sua própria impotência frente a doença de um ente querido.

                E isto falando apenas do exercício profissional. E o preço indireto de cada escolha? Porque, na maioria das vezes, não se escolhe apenas uma carreira, mas sim um estilo de vida. Profissões “de sucesso” pressupõem uma conduta pessoal correspondente. Espera-se, na área da saúde, que sejam todos como sacerdotes: trabalhem por amor, não visem o lucro, e ao mesmo tempo, que paguem mais caro por serem “bem sucedidos”. Na área do direito, espera-se que tenham todas as respostas e soluções para todo tipo de problema. E assim por diante.

                E tanto a sociedade cobra certas posturas e posicionamentos, que o profissional acaba por ele mesmo se cobrar as mesmas posturas e posicionamentos. E, quando tudo isto se torna um padrão comportamental obrigatório, o que resta? A frustração. Sim, porque ninguém é perfeito (e nem vamos considerar o conceito de perfeição, que por si só já é relativo), e ao mesmo tempo todos são obrigados a conviver consigo mesmos.

                E, ao aceitar este padrão comportamental como algo natural, o indivíduo se cobra e cobra ao outro, ao mesmo tempo que se exime da responsabilidade de causar ao outro a mesma dor e frustração que sente, já que é “a sociedade” que determina o padrão. Senhoras e senhores, desculpem mas é preciso dar uma péssima notícia: A SOCIEDADE SOMOS NÓS. E consequentemente, somos ao mesmo tempo vítimas e algozes. Causamos ao outro a mesma dor que nos causam. Fechar os olhos e ouvidos não faz calar os clamores.

                Lamentavelmente, evoluímos tanto em vários aspectos, mas cada vez somos menos HUMANOS.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 16/06/2018 às 12h53 | cereshmrc@gmail.com

A elegância do inverno...

Então parece que o inverno chegou. A gente começou a tirar os cobertores do guardaroupa, colocar os casacos no sol, lavar os pijamas compridos… ressuscitamos as pantufas, as meias e botas! Na televisão, anunciam a noite mais fria do ano. Nos jornais, previsões de safras de tainhas. O sol tem nascido mais tarde (acho que até ele tem preguiça de levantar com este friozinho), e se posto mais cedo. O cardápio agora inclui sopas de todo tipo, chocolate quente, pinhão… 

Desde criança, sempre achei o inverno chique. Se o verão é sensual, com decotes, fendas, transparências, o inverno tem uma elegância natural com seus casacões, echarpes, xales… Até caminhar na praia me parece mais gostoso no inverno do que no verão. O clima frio me traz um tipo de magia, uma disposição diferente, um jeito diferente de olhar a vida.

Por outro lado, inicia-se a temporada das doenças respiratórias, das gripes e resfriados, que se propagam rapidamente já que as janelas permanecem fechadas nas casas, escolas, ônibus, etc… E isto até porque as pessoas tem a falsa ideia de que isso protege do “vento frio”, quando na verdade aumenta a concentração de vírus e a transmissão de doenças.

Resumindo, descobri que estive enganada a vida toda: chique mesmo é ter o coração aquecido, com um abraço acolhedor como aquele sofá velho da sala de televisão que já tem um cobertor jogado e algumas marcas de pipocas de quem já deu muitas risadas com os amigos de verdade. Elegância vem de dentro, através de pequenas atitudes. Talvez por isso o inverno hoje me pareça tão frio.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 23/05/2018 às 14h54 | cereshmrc@gmail.com

Vamos falar sobre gritos?

 

 

                      Ultimamente tenho experimentado uma sensação horrivel: uma dificuldade absurda de me concentrar, de escrever, de ler, de produzir qualquer coisa. Dormir também tem sido uma tarefa ingrata. Por mais que eu queira, o barulho ensurdecedor não me permite. Independente de onde eu esteja continuo ouvindo de forma incessante.

                   Gritos. Gritos desesperados. Pedidos de socorro. O mundo agoniza, as pessoas agonizam. Vez que outra, uma brechinha de luz parece que surge e acalma por um milionésimo de segundo a fúria insana dos clamores.

 

                      Ninguém ouve. Ninguém vê. Todos estão tão absortos, engolidos pela máquina do dia a dia, fazendo sempre as mesmas coisas, tentando atingir um ideal… Não sei se as pessoas ensurdeceram pelo barulho (porque a gente acaba se acostumando a tudo, infelizmente), ou pela falta de prática do exercício de ouvir.

 

                   Ouvir. Parece tão simples… mas de quantas maneiras diferentes nós gritamos? Há gritos literais, e gritos silenciosos. Grita aquele que cala, e grita talvez com muito mais ansiedade. Grita aquele que se embriaga… o que se droga com substâncias legais ou não. Mas eles gritam!!!

 

                   Nas ruas, todos os dias, vejo vários deles gritando enquanto caminham de olhos vazios suplicando em silêncio. Ocasionalmente um grita mais alto e daí as pessoas leem nos jornais e comentam em sussurros: “nossa… mais um suicídio...” Mas ninguém ouviu os gritos.

 

                     Eu também grito. Muitas vezes, grito em silêncio, num silêncio que minha família e amigos já conhecem e percebem as vezes até antes de mim. Porque eu aprendi que tenho o direito de gritar e ser ouvida, e acredito que todos também precisam aprender a ouvir até mesmo os seus próprios gritos.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 26/04/2018 às 16h26 | cereshmrc@gmail.com

Falando em faxina...

 

 

Há quanto tempo que você não faz uma boa faxina na sua casa? Com certeza muitos irão responder que fazem toda semana, ou a cada quinze dias, que é meio que o padrão da nossa sociedade. Mas, faxina de verdade mesmo, faz quanto tempo?

Talvez ao limpar o armário da cozinha, você encontre panelas que sem uso há anos. Eletrodomésticos empoeirados e enferrujados esquecidos no fundo dos balcões... Quantos apetrechos inúteis comprados no calor da emoção e nunca utilizados?

 E no guarda roupas? Quantas peças guardadas há anos esperando você emagrecer/engordar para usar de novo? E, se você conseguir atingir seu objetivo, estas peças de roupa ainda estarão na moda? Você realmente vai voltar a usar? Porque convenhamos, não é só o corpo da gente e a moda que mudam: tem coisas que a gente não vai mais usar porque passou o momento. Você pode voltar a ter o corpo de quando tinha 18 anos, mas isso não significa que a roupa que você usava naquela época vai cair bem em você agora. Mesmo que você ainda seja jovem, a sua cabeça não é mais a mesma, e você não se vê mais como antes. Aliás, com o tempo, passamos a nos olhar cada vez com maior rigor.

Da mesma forma que com os objetos, a gente precisa fazer uma boa faxina no coração de tempos em tempos. Tem certos sentimentos que não cabem mais dentro do peito, ou que já estão mais que ultrapassados. Por que guardar velhas mágoas? Para que deixar aquela vontade de dar um abraço em alguém esquecida num cantinho da memória? E aquele “me desculpe” ou “eu te perdôo” que você sufoca? Ou será que é você o sufocado?

Meus queridos, que tal aproveitar o início do ano para fazer uma boa faxina? Abra espaço para o novo: móveis, utensílios, roupas e sentimentos novos. Abra as janelas da casa, deixem que a luz do sol entre e que o vento renove o ar de cada cômodo. Faça o mesmo com o seu coração: deixe que o vento leve os sentimentos ruins que não combinam mais com você e permita que o seu novo eu floresça.

Você merece ser feliz.

E os outros também merecem. 

 

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 21/01/2018 às 17h49 | cereshmrc@gmail.com

Sorria menos, por favor.

Tenho observado que grande parte dos meus amigos saiu das redes sociais. Inclusive notei até que os que nunca estiveram numa me parecem bem mais felizes (embora eu ache engraçado quando eles fazem algum comentário do tipo “não sei, como que é isso?” quando a gente se refere ao stories, por exemplo). Junto a isto, também tenho me analisado, e notado que ando acessando as redes cada vez com menor frequencia, e que não apenas não me faz falta como me parece ser até mais divertido.

Na semana passada enviei uma boneca de pano pra uma priminha linda que mora em São Paulo, e me lembrei que no ano anterior eu tinha recebido um bilhetinho manuscrito do vô dela e do quanto isso tinha me feito feliz. Não tive dúvidas, procurei papel de carta (ainda existe, acreditam?), uma caneta e sentei para escrever. A primeira sensação, preciso confessar, foi de dor no punho. Quanto tempo faz que não escrevo mais a mão? Nem me lembro… no consultório, no hospital, em casa, tudo informatizado. Caneta só pra assinar o nome, e pense que não uso talão de cheques há anos, então até isso é pouco.

Escrevi a primeira cartinha, a segunda, e logo tinha escrito para vários primos. E senti novamente o sabor de colocar no papel os sentimentos, e parece que assim, manuscritos, eles ficam até mais palpáveis. Sim, ao manuscrever cada cartinha, meu coração transbordou de amor e algumas lágrimas até chegaram aos olhos, a garganta apertou de saudade…

O que isso tem a ver com o início da conversa? Simples, estamos cansando de mundos de fachada, de poses de comercial, de vidas perfeitamente fakes. Por isso, estou pensando seriamente em sair das redes sociais, pelo menos por um tempo. Quero recordar que sou e somos reais, que sorrimos mas também choramos, temos momentos de raiva, de dor, de solidão. Não é só de alegria que a vida é feita, aliás, é nos momentos difíceis que a gente cresce.

Há alguns dias, um amigo me fez refletir muito nisso: quantos amigos de verdade você tem? Então, por favor, sorria menos. Seja mais você. O mundo precisa de gente de verdade.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 21/12/2017 às 12h58 | cereshmrc@gmail.com



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Céres Fabiana Felski

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Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há quase 20 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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