Jornal Página 3
Coluna
Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

Outono e o Tempo

É outono e há ruídos que atravessam a mente. Há visões que poluem o cenário. Há nebulosos feixes de luz que parecem arquitetar uma confusão mental atravessada por dores, por vidas arrancadas abruptamente. Fora de hora. Fora do tempo. Fora de ritmo. Há ausências.

Nesse fantasmagórico tempo, o relógio parou. Freou a vida. Deixou um rastro de sangue que corre quase silencioso pelos corpos, pelo chão. Um rastro senhor do hoje e marcador do amanhã. Um rastro expropriador de futuro.

Como observar esse tempo? Como enfrentar os ruídos que invadem o bom senso? É possível naturalizar esse tempo como o novo normal? E a confusão mental, será minha ou será universal?

É outono de um tempo que exige muito. Distrair-se, talvez, poderia ser uma saída. Fechar os ouvidos, endurecer o coração, ou, quem sabe, recolher-se na escuridão. Banhar-se de sangue e seguir a procissão.

Parece, no entanto, necessário inquietar-se. Estranhar o tempo. Escutar cuidadosamente cada tic tac ao amanhecer, ao entardecer, ao anoitecer. Apropriar-se do tempo para interpretá-lo. Correlacioná-lo. Integrar-se a ele como um corpo somatizado em outros corpos. Um corpo e um tempo ancestralizados, marcados pela busca do viver e pelo benquerer. Silenciar e escutar. Recolher-se individualmente para proteger-se coletivamente. Um estar só para estar junto.

Ah, o tempo nesses tempos, é memória. É marca e experiência. É força e fraqueza. É alegria e tristeza. Não! Não é apenas decurso de acontecimentos, como a cronometria do sistema de (des)organização social tem marcado as jornadas de trabalho, de sono, de lazer, de férias, de aulas; como batidas incessantes na mente, nos corpos que modulam os relógios físicos e biológicos. Não é só. É uma variação infinita, informal, plástica, marcada por saltos, rupturas e diminuições de velocidades, como destaca o filósofo francês Gilles Deleuze em sua obra A Imagem-Tempo (1985).

Reconhecer cada detalhe desse tempo e desse outono, é como revirar a terra, recolher as folhas secas, contemplar as múltiplas nuances. Parar e seguir. Deixar a luz invadir cada poro, percorrer o corpo, banhar de energia o coração. Contemplar a umbicalidade da vida com a terra, com as plantas, com as múltiplas formas de existências e temporalidades. Insistir na fé e ação que movimenta a vida plena de sentidos e de compaixão. Porque esse outono será único como o tempo. Como o hoje.

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 02/04/2021 às 10h13 | marisazf@hotmail.com



Marisa Zanoni Fernandes

Assina a coluna Marisa Fernandes

Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.














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Outono e o Tempo

É outono e há ruídos que atravessam a mente. Há visões que poluem o cenário. Há nebulosos feixes de luz que parecem arquitetar uma confusão mental atravessada por dores, por vidas arrancadas abruptamente. Fora de hora. Fora do tempo. Fora de ritmo. Há ausências.

Nesse fantasmagórico tempo, o relógio parou. Freou a vida. Deixou um rastro de sangue que corre quase silencioso pelos corpos, pelo chão. Um rastro senhor do hoje e marcador do amanhã. Um rastro expropriador de futuro.

Como observar esse tempo? Como enfrentar os ruídos que invadem o bom senso? É possível naturalizar esse tempo como o novo normal? E a confusão mental, será minha ou será universal?

É outono de um tempo que exige muito. Distrair-se, talvez, poderia ser uma saída. Fechar os ouvidos, endurecer o coração, ou, quem sabe, recolher-se na escuridão. Banhar-se de sangue e seguir a procissão.

Parece, no entanto, necessário inquietar-se. Estranhar o tempo. Escutar cuidadosamente cada tic tac ao amanhecer, ao entardecer, ao anoitecer. Apropriar-se do tempo para interpretá-lo. Correlacioná-lo. Integrar-se a ele como um corpo somatizado em outros corpos. Um corpo e um tempo ancestralizados, marcados pela busca do viver e pelo benquerer. Silenciar e escutar. Recolher-se individualmente para proteger-se coletivamente. Um estar só para estar junto.

Ah, o tempo nesses tempos, é memória. É marca e experiência. É força e fraqueza. É alegria e tristeza. Não! Não é apenas decurso de acontecimentos, como a cronometria do sistema de (des)organização social tem marcado as jornadas de trabalho, de sono, de lazer, de férias, de aulas; como batidas incessantes na mente, nos corpos que modulam os relógios físicos e biológicos. Não é só. É uma variação infinita, informal, plástica, marcada por saltos, rupturas e diminuições de velocidades, como destaca o filósofo francês Gilles Deleuze em sua obra A Imagem-Tempo (1985).

Reconhecer cada detalhe desse tempo e desse outono, é como revirar a terra, recolher as folhas secas, contemplar as múltiplas nuances. Parar e seguir. Deixar a luz invadir cada poro, percorrer o corpo, banhar de energia o coração. Contemplar a umbicalidade da vida com a terra, com as plantas, com as múltiplas formas de existências e temporalidades. Insistir na fé e ação que movimenta a vida plena de sentidos e de compaixão. Porque esse outono será único como o tempo. Como o hoje.

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 02/04/2021 às 10h13 | marisazf@hotmail.com



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