Jornal Página 3
Coluna
Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

AS NOVAS COREOGRAFIAS SOCIAIS, O ESPAÇO ESCOLAR E A SAUDADE

O espaço escolar, da Creche ao Ensino Superior, sempre foi povoado por múltiplas vozes e sonoridades e, sobretudo, por múltiplos encontros. Risos, conversas, o choro, os burburinhos dos grupos, o atrito das rodas das mochilas, o arrastar das carteiras, o calor do abraço, as rodas de conversa, os grupos de amigos, os colegas, os professores .... Como viver sem eles? Como lidar sem essa materialidade? Como se situar nessa nova coreografia social?

É certo que o silêncio e o isolamento desses últimos meses têm afetado a todos e de modo profundo – aos professores, aos alunos e às famílias. Acostumamo-nos com as sonoridades, com a arquitetura dos prédios escolares, com a organização das salas, com o calendário escolar, com a constituição dos dias letivos, com a mecânica disciplinar dos horários. Em um engendramento quase que automatizado, naturalizamos o modo de enxergar os corpos e a ocupação do espaço escolar – essa coreografia materializada nas filas, nas áreas para circular, parar, correr, brincar, sentar-se – agora também inabitada, silenciada. Percebemos que não sabemos viver sem elas, sem eles. Sem os sons e as pessoas que habitam o espaço escolar, sem a rotina, a dinâmica pedagógica e social da escola, sofremos! Sentimos saudades.

Desse modo, o isolamento social forçado pela pandemia da COVID-19 revela uma das mais perversas faces - exponencia o sofrimento. Afeta as crenças, os valores, as instituições, o sistema financeiro, o mundo do trabalho, as relações sociais. Como uma tempestade nos desloca do eixo, reconfigura a casa, a escola, os espaços físicos e nosso interior.  

É fato que a escola foi absorvendo inúmeros papéis e, desde a existência da tradição pedagógica, que tem sua origem no século XII, tem uma série de medidas: legislativas, cientificas, metodológicas, filosóficas, econômicas, apenas para citar algumas, por meio das quais impactam na sua função e no modo como a sociedade a define. Em que medida a escola de hoje tem contribuído? Qual o papel dos professores? Qual a função da escola para a sociedade e para as famílias?  Qual o papel da família na partilha da educação dos filhos? O que é preciso saber para ensinar de agora em diante?

Em um contexto altamente complexo e em meio a uma tomada de decisões emergenciais de segurança e de saúde pública, estamos longe da possiblidade de respostas conclusivas. No entanto, parece que assistimos, em escala internacional, a uma necessidade de reconceitualização da escola, do espaço escolar, mas não só. Há uma necessidade de reconceitualização da vida, da vida em comunidade e do próprio processo civilizatório.

Não é de hoje que vivemos isolados e afastados do compromisso coletivo de cuidar, de ensinar e de educar as crianças, os jovens e os adultos. Não é de hoje que muitas famílias transferiram suas funções para a escola; que a sociedade trata os problemas sociais, sobretudo, das profundas desigualdades econômicas e culturais, de modo simplista e deslocado. Não é de hoje que ciência, o conhecimento científico – fonte precípua de atuação da escola – vem sendo atacada com movimentos que deslegitimam a autoridade pedagógica e científica e aprofundam o distanciamento entre a escola e as famílias. Não é de hoje que a violência e a exclusão social chegam desnudadas ao espaço escolar e não encontram estrutura física, pedagógica e emocional para acolhê-las, tampouco a escola encontra no conjunto da sociedade processos de corresponsabilização com a transformação desse cenário. Vivemos isolados em estruturas arquitetônicas que enclausuram corpos e cerceiam a liberdade, a criatividade e a solidariedade. A distância foi reconfigurada ou, talvez agora, tornou-se estatizada – normatizada pelo Estado, por isso, então, mais visível.

Reconceituar esses e outros tantos cenários é também a possiblidade de enxergar, nesse mais amplo e visível isolamento, o quanto padecemos de proximidades, de partilha de corresponsabilização. De coreografias sociais implicadas à vida coletiva. Necessitamos um reencontro, um entrelaçamento com as famílias e com o conjunto da sociedade para assegurar não apenas a nossa sobrevivência, mas existência humana e a função social dos espaços educativos.

 É tempo de reconfigurar o ambiente escolar, ampliar experiências de espaços ao ar livre e nas áreas verdes; organizar as salas com menos alunos, mais arejadas e interconectadas; espaços abertos à participação das famílias, da comunidade. Uma coreografia capaz de sustentar relações e interações seguras, diversificadas e respeitosas com as especificidades do coletivo de sujeitos que compõem esses espaços. Um contexto educativo com materiais alternativos, com uso de tecnologias e estratégias que aproximem os envolvidos e desafiem a pensar, a protagonizar uma nova e qualitativa relação com o conhecimento e sua função transformadora. Um ambiente que reconfigure o lugar da mediação pedagógica, a imagem dos professores capaz de sustentar uma motivação profissional potente, uma perspectiva bioecológica(BROFENBRENNER, 1997) de educação que compreenda a interconexão das múltiplas esferas – ambientais, sociais, emocionais, econômicas, culturais do desenvolvimento humano.

Reconhecer a necessidade de reconfiguração acredito ser um caminho para buscar novos modos de relacionarmo-nos com o meio onde vivemos, com as pessoas que nos cercam e, sobretudo, conosco. Com a casa interna – tão cheia de medos, de angústias, tão carente de afeto. Uma nova forma de experimentação, exercida, como diz Larrosa (2007), por meio do que nos passa, do que nos desacomoda e tem a ver com a criação de uma ética, de uma escolha por um novo modo de vida. Essa postura abre-se para a sociedade como um todo, conectando-se intimamente e preservando a vida em todas as dimensões.

Tomar consciência dessa nova realidade é um movimento que precisa ser exercido individual e coletivamente, sob pena de não termos memórias para projetar e imaginar o futuro. O silêncio das escolas não poderá ter sido em vão. O isolamento, tampouco. É preciso ousadia, coragem para enxergar o impacto do distanciamento no aprofundamento das desigualdades sociais e do papel da escola como um espaço de humanização, proteção, partilha e construção de conhecimento. Um espaço de múltiplas e qualitativas coreografias de vida e de encontros.  

É possível juntos coreografarmos um novo e mais generoso contexto social e escolar, pois há, entre tantos sentimentos, a saudade, que é um tênue, mas poderoso fio que sustenta o desejo de nossa proximidade, de nossa humanidade.

 Imagem: autor desconhecido

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 29/06/2020 às 16h28 | marisazf@hotmail.com



Marisa Zanoni Fernandes

Assina a coluna Marisa Fernandes

Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.














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Marisa Fernandes
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AS NOVAS COREOGRAFIAS SOCIAIS, O ESPAÇO ESCOLAR E A SAUDADE

O espaço escolar, da Creche ao Ensino Superior, sempre foi povoado por múltiplas vozes e sonoridades e, sobretudo, por múltiplos encontros. Risos, conversas, o choro, os burburinhos dos grupos, o atrito das rodas das mochilas, o arrastar das carteiras, o calor do abraço, as rodas de conversa, os grupos de amigos, os colegas, os professores .... Como viver sem eles? Como lidar sem essa materialidade? Como se situar nessa nova coreografia social?

É certo que o silêncio e o isolamento desses últimos meses têm afetado a todos e de modo profundo – aos professores, aos alunos e às famílias. Acostumamo-nos com as sonoridades, com a arquitetura dos prédios escolares, com a organização das salas, com o calendário escolar, com a constituição dos dias letivos, com a mecânica disciplinar dos horários. Em um engendramento quase que automatizado, naturalizamos o modo de enxergar os corpos e a ocupação do espaço escolar – essa coreografia materializada nas filas, nas áreas para circular, parar, correr, brincar, sentar-se – agora também inabitada, silenciada. Percebemos que não sabemos viver sem elas, sem eles. Sem os sons e as pessoas que habitam o espaço escolar, sem a rotina, a dinâmica pedagógica e social da escola, sofremos! Sentimos saudades.

Desse modo, o isolamento social forçado pela pandemia da COVID-19 revela uma das mais perversas faces - exponencia o sofrimento. Afeta as crenças, os valores, as instituições, o sistema financeiro, o mundo do trabalho, as relações sociais. Como uma tempestade nos desloca do eixo, reconfigura a casa, a escola, os espaços físicos e nosso interior.  

É fato que a escola foi absorvendo inúmeros papéis e, desde a existência da tradição pedagógica, que tem sua origem no século XII, tem uma série de medidas: legislativas, cientificas, metodológicas, filosóficas, econômicas, apenas para citar algumas, por meio das quais impactam na sua função e no modo como a sociedade a define. Em que medida a escola de hoje tem contribuído? Qual o papel dos professores? Qual a função da escola para a sociedade e para as famílias?  Qual o papel da família na partilha da educação dos filhos? O que é preciso saber para ensinar de agora em diante?

Em um contexto altamente complexo e em meio a uma tomada de decisões emergenciais de segurança e de saúde pública, estamos longe da possiblidade de respostas conclusivas. No entanto, parece que assistimos, em escala internacional, a uma necessidade de reconceitualização da escola, do espaço escolar, mas não só. Há uma necessidade de reconceitualização da vida, da vida em comunidade e do próprio processo civilizatório.

Não é de hoje que vivemos isolados e afastados do compromisso coletivo de cuidar, de ensinar e de educar as crianças, os jovens e os adultos. Não é de hoje que muitas famílias transferiram suas funções para a escola; que a sociedade trata os problemas sociais, sobretudo, das profundas desigualdades econômicas e culturais, de modo simplista e deslocado. Não é de hoje que ciência, o conhecimento científico – fonte precípua de atuação da escola – vem sendo atacada com movimentos que deslegitimam a autoridade pedagógica e científica e aprofundam o distanciamento entre a escola e as famílias. Não é de hoje que a violência e a exclusão social chegam desnudadas ao espaço escolar e não encontram estrutura física, pedagógica e emocional para acolhê-las, tampouco a escola encontra no conjunto da sociedade processos de corresponsabilização com a transformação desse cenário. Vivemos isolados em estruturas arquitetônicas que enclausuram corpos e cerceiam a liberdade, a criatividade e a solidariedade. A distância foi reconfigurada ou, talvez agora, tornou-se estatizada – normatizada pelo Estado, por isso, então, mais visível.

Reconceituar esses e outros tantos cenários é também a possiblidade de enxergar, nesse mais amplo e visível isolamento, o quanto padecemos de proximidades, de partilha de corresponsabilização. De coreografias sociais implicadas à vida coletiva. Necessitamos um reencontro, um entrelaçamento com as famílias e com o conjunto da sociedade para assegurar não apenas a nossa sobrevivência, mas existência humana e a função social dos espaços educativos.

 É tempo de reconfigurar o ambiente escolar, ampliar experiências de espaços ao ar livre e nas áreas verdes; organizar as salas com menos alunos, mais arejadas e interconectadas; espaços abertos à participação das famílias, da comunidade. Uma coreografia capaz de sustentar relações e interações seguras, diversificadas e respeitosas com as especificidades do coletivo de sujeitos que compõem esses espaços. Um contexto educativo com materiais alternativos, com uso de tecnologias e estratégias que aproximem os envolvidos e desafiem a pensar, a protagonizar uma nova e qualitativa relação com o conhecimento e sua função transformadora. Um ambiente que reconfigure o lugar da mediação pedagógica, a imagem dos professores capaz de sustentar uma motivação profissional potente, uma perspectiva bioecológica(BROFENBRENNER, 1997) de educação que compreenda a interconexão das múltiplas esferas – ambientais, sociais, emocionais, econômicas, culturais do desenvolvimento humano.

Reconhecer a necessidade de reconfiguração acredito ser um caminho para buscar novos modos de relacionarmo-nos com o meio onde vivemos, com as pessoas que nos cercam e, sobretudo, conosco. Com a casa interna – tão cheia de medos, de angústias, tão carente de afeto. Uma nova forma de experimentação, exercida, como diz Larrosa (2007), por meio do que nos passa, do que nos desacomoda e tem a ver com a criação de uma ética, de uma escolha por um novo modo de vida. Essa postura abre-se para a sociedade como um todo, conectando-se intimamente e preservando a vida em todas as dimensões.

Tomar consciência dessa nova realidade é um movimento que precisa ser exercido individual e coletivamente, sob pena de não termos memórias para projetar e imaginar o futuro. O silêncio das escolas não poderá ter sido em vão. O isolamento, tampouco. É preciso ousadia, coragem para enxergar o impacto do distanciamento no aprofundamento das desigualdades sociais e do papel da escola como um espaço de humanização, proteção, partilha e construção de conhecimento. Um espaço de múltiplas e qualitativas coreografias de vida e de encontros.  

É possível juntos coreografarmos um novo e mais generoso contexto social e escolar, pois há, entre tantos sentimentos, a saudade, que é um tênue, mas poderoso fio que sustenta o desejo de nossa proximidade, de nossa humanidade.

 Imagem: autor desconhecido

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 29/06/2020 às 16h28 | marisazf@hotmail.com



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Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.