Jornal Página 3
Coluna
Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

INSTINTO E A RAZÃO DE SER: covid

 

A existência humana sempre exigiu esforço, resiliência, dedicação. Isso porque parece que há uma linha no horizonte que nos faz percorrer caminhos, enfrentar desafios buscar novas terras, novos mares ...  E como isso fez a humanidade ir longe.

Instinto aventureiro?  Instinto de ter? Ou será a razão que fez com que chegássemos até aqui?

É certo que o instinto de sobrevivência foi rapidamente, sobretudo, por algumas culturas, substituído pelo desejo de conhecer, descobrir, inventar, dominar, reconstruir a realidade e, assim, as necessidades, a limitação entre o bem e o mal e a relação com a Terra, com as pessoas.

Na linha dos desejos, perdemos o bom senso e nos tornamos desejosos de poder e de acúmulo. Inventamos guerras, fronteiras e mais poder. Criamos homens quase deuses que fazem o mundo girar sob suas regras.  E como estamos girando em uma velocidade frenética nesses últimos dias! Se é observável o feito desses homens – quase deuses – também é observável o caos em que nos encontramos.

Isolados, afastados física, emocional e materialmente. Vivemos com medo.  Se o processo de humanização se dá na relação com outros humanos, faz algum tempo que vivemos distantes desta premissa. Basta olhar para os morros, os guetos, os muros, muralhas físicas e sociais –  arquitetadas e que há muito tempo   nos afastam. Nos separam. E o que de fato enxergamos? Muitas vezes nada além do nosso próprio umbigo.

E por falar em umbigo, parece contraditório o estado em que vivemos: viemos ao mundo unidos por um cordão que nutre, desenvolve e possibilita a vida. Por mais que sejamos separados de nossas mães, abruptamente ao nascer, somos totalmente dependentes da sua proteção e do seu cuidado.  As marcas desta convivência carregamos por toda a existência.  Marcados somos e carregamos as marcas como uma chaga, como a porta de entrada à vida e de saída ao mundo. Que tal olhar mais atentamente ao formato do umbigo?  Como elo, sem começo, sem fim.  Como casa e terra que nos traz a vida e gera a vida, fornece alimento e anuncia proteção. Como chaga de pertencimento.

Hoje a ordem é ficar em casa. Ficar distante do outro: não beije, não abrace.  Não visite e não tenha contato físico.

Por que parece tão estranho? Por que o momento nos deixa em pânico?  Medo de morrer?  Sabemos que, a cada dois minutos e meio, uma criança morre por não ter acesso à água potável e por falta de condições básicas de higiene, de alimentação. Essas mortes são escamoteadas cotidianamente. Por que elas não nos contagiam?

Medo de tocar? De abraçar com amorosidade e entrega?  Isso é cena comum para tantas pessoas que apenas passam desapercebidas pela multidão. Outras cotidianamente são distanciadas pela cor, pela condição sexual, pela pobreza.

Medo de crise econômica? Quem ela afetará? No Brasil, segundo relatório da ONU/2019, 1% da população mais rica, concentra 28,3% da renda total do país. Caímos no ranking do IDH e aumentamos a desigualdade social nos últimos dois anos. E para mudar isso, não há um plano de governo, um representante público que saia de seus escritórios e gabinetes mediante ao limbo social que multidões se encontram, dando ordens: reparta o pão, abrace as pessoas, seja solidário, estenda a mão ao vizinho, não acredite que a desigualdade social seja resultado das próprias pessoas excluídas – no jargão de que são “vagabundos”. Imagine um poder público mobilizando recursos e políticas públicas humanitárias, anunciando e exercendo solidariedade e trabalhando incansavelmente em prol dos menos favorecidos – como seria nossa realidade?

Enquanto o governo não faz a sua parte, façamos a nossa. Lutemos, afrontemos a ordem comum estabelecida, nos posicionemos crítica, racional e amorosamente mediante o mundo. Dê esmolas, dê pão a quem tem fome, dê abrigo, casa....

Hoje a linha do horizonte apenas aponta para uma outra guerra – a do Covid19 . Eu não quero menosprezar a gravidade do momento como faz de modo irresponsável o (des) governo, mas quem sabe, neste momento, possamos dar um novo sentido à vida. Compreender a interdependência com outras vidas e com o próprio planeta.

Hoje ajudar a salvar vidas é também se recolher, mas não ficar só. É inquietar-se no próprio recolhimento. É enxergar aqueles que não tem casa para retornar, não tem recursos para armazenar mantimentos – aliás aqueles que sempre tiveram seus “armários” e, sobretudos, seus estômagos vazios. Essa pandemia vai revelar a mais dura face na pobreza material e também naqueles pobres de espírito e de consciência social.

Espero que antes de morrermos, resinifiquemos nossas empobrecidas vidas.  Afrontemos os modelos econômicos que geram pobreza, desigualdade e violência. Controlemos a ambição desenfreada que aniquila o planeta, seus preciosos recursos e sua exuberante beleza. Modelos geradores de poluição e agitação diária que encobrem como uma cortina nebulosa nossa visão, os nossos corpos e outras vidas.   

Paremos. Passemos valorizar o estreitamento do afeto, o papel do estado na seguridade e justiça social.  Retomemos abraço, aquele que vai além, do toque físico:  que cura fome, a miséria, a violência e o ódio que esvazia nosso senso de pertencimento e toma conta de tantos corações.

Voltemos para a casa da humanidade. Conscientemente. Urgentemente. Enxerguemos a nova razão de SER HUMANO – um convite a vida.

 A criação - detalhe-   Michelangelo (1510) 

 

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 22/03/2020 às 11h53 | marisazf@hotmail.com



Marisa Zanoni Fernandes

Assina a coluna Marisa Fernandes

Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.














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INSTINTO E A RAZÃO DE SER: covid

 

A existência humana sempre exigiu esforço, resiliência, dedicação. Isso porque parece que há uma linha no horizonte que nos faz percorrer caminhos, enfrentar desafios buscar novas terras, novos mares ...  E como isso fez a humanidade ir longe.

Instinto aventureiro?  Instinto de ter? Ou será a razão que fez com que chegássemos até aqui?

É certo que o instinto de sobrevivência foi rapidamente, sobretudo, por algumas culturas, substituído pelo desejo de conhecer, descobrir, inventar, dominar, reconstruir a realidade e, assim, as necessidades, a limitação entre o bem e o mal e a relação com a Terra, com as pessoas.

Na linha dos desejos, perdemos o bom senso e nos tornamos desejosos de poder e de acúmulo. Inventamos guerras, fronteiras e mais poder. Criamos homens quase deuses que fazem o mundo girar sob suas regras.  E como estamos girando em uma velocidade frenética nesses últimos dias! Se é observável o feito desses homens – quase deuses – também é observável o caos em que nos encontramos.

Isolados, afastados física, emocional e materialmente. Vivemos com medo.  Se o processo de humanização se dá na relação com outros humanos, faz algum tempo que vivemos distantes desta premissa. Basta olhar para os morros, os guetos, os muros, muralhas físicas e sociais –  arquitetadas e que há muito tempo   nos afastam. Nos separam. E o que de fato enxergamos? Muitas vezes nada além do nosso próprio umbigo.

E por falar em umbigo, parece contraditório o estado em que vivemos: viemos ao mundo unidos por um cordão que nutre, desenvolve e possibilita a vida. Por mais que sejamos separados de nossas mães, abruptamente ao nascer, somos totalmente dependentes da sua proteção e do seu cuidado.  As marcas desta convivência carregamos por toda a existência.  Marcados somos e carregamos as marcas como uma chaga, como a porta de entrada à vida e de saída ao mundo. Que tal olhar mais atentamente ao formato do umbigo?  Como elo, sem começo, sem fim.  Como casa e terra que nos traz a vida e gera a vida, fornece alimento e anuncia proteção. Como chaga de pertencimento.

Hoje a ordem é ficar em casa. Ficar distante do outro: não beije, não abrace.  Não visite e não tenha contato físico.

Por que parece tão estranho? Por que o momento nos deixa em pânico?  Medo de morrer?  Sabemos que, a cada dois minutos e meio, uma criança morre por não ter acesso à água potável e por falta de condições básicas de higiene, de alimentação. Essas mortes são escamoteadas cotidianamente. Por que elas não nos contagiam?

Medo de tocar? De abraçar com amorosidade e entrega?  Isso é cena comum para tantas pessoas que apenas passam desapercebidas pela multidão. Outras cotidianamente são distanciadas pela cor, pela condição sexual, pela pobreza.

Medo de crise econômica? Quem ela afetará? No Brasil, segundo relatório da ONU/2019, 1% da população mais rica, concentra 28,3% da renda total do país. Caímos no ranking do IDH e aumentamos a desigualdade social nos últimos dois anos. E para mudar isso, não há um plano de governo, um representante público que saia de seus escritórios e gabinetes mediante ao limbo social que multidões se encontram, dando ordens: reparta o pão, abrace as pessoas, seja solidário, estenda a mão ao vizinho, não acredite que a desigualdade social seja resultado das próprias pessoas excluídas – no jargão de que são “vagabundos”. Imagine um poder público mobilizando recursos e políticas públicas humanitárias, anunciando e exercendo solidariedade e trabalhando incansavelmente em prol dos menos favorecidos – como seria nossa realidade?

Enquanto o governo não faz a sua parte, façamos a nossa. Lutemos, afrontemos a ordem comum estabelecida, nos posicionemos crítica, racional e amorosamente mediante o mundo. Dê esmolas, dê pão a quem tem fome, dê abrigo, casa....

Hoje a linha do horizonte apenas aponta para uma outra guerra – a do Covid19 . Eu não quero menosprezar a gravidade do momento como faz de modo irresponsável o (des) governo, mas quem sabe, neste momento, possamos dar um novo sentido à vida. Compreender a interdependência com outras vidas e com o próprio planeta.

Hoje ajudar a salvar vidas é também se recolher, mas não ficar só. É inquietar-se no próprio recolhimento. É enxergar aqueles que não tem casa para retornar, não tem recursos para armazenar mantimentos – aliás aqueles que sempre tiveram seus “armários” e, sobretudos, seus estômagos vazios. Essa pandemia vai revelar a mais dura face na pobreza material e também naqueles pobres de espírito e de consciência social.

Espero que antes de morrermos, resinifiquemos nossas empobrecidas vidas.  Afrontemos os modelos econômicos que geram pobreza, desigualdade e violência. Controlemos a ambição desenfreada que aniquila o planeta, seus preciosos recursos e sua exuberante beleza. Modelos geradores de poluição e agitação diária que encobrem como uma cortina nebulosa nossa visão, os nossos corpos e outras vidas.   

Paremos. Passemos valorizar o estreitamento do afeto, o papel do estado na seguridade e justiça social.  Retomemos abraço, aquele que vai além, do toque físico:  que cura fome, a miséria, a violência e o ódio que esvazia nosso senso de pertencimento e toma conta de tantos corações.

Voltemos para a casa da humanidade. Conscientemente. Urgentemente. Enxerguemos a nova razão de SER HUMANO – um convite a vida.

 A criação - detalhe-   Michelangelo (1510) 

 

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 22/03/2020 às 11h53 | marisazf@hotmail.com



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Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.