Jornal Página 3
Coluna
Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

MULHERES VAMOS À LUTA

 

Em meio a uma forte onda conservadora que assola o país, assistimos perplexos declarações que evocam preconceito, ódio, discriminação sem o mínimo de reservas. Fatos que geram e, de certa forma, legitimam a violência.

Naturalizamos e até institucionalizamos a violência, sobretudo, aquela que golpeia mulheres – pelo histórico patriarcado e machismo social; aquela que marca crianças – pelo falso ideário de educação; aquela que atinge as minorias – pela hierarquização e subjugação da diversidade humana e das classes sociais.   Tradicionalmente a sociedade brasileira vive o “mito da não violência” negando e mascarando a dura e cruel realidade. 

Em 2017, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), o Brasil concentrou 40% dos feminicídios da América Latina. O Instituto Data Folha relata que nos últimos 12 meses, 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativas de estrangulamento no Brasil. Enquanto 22 milhões, 37,1% das brasileiras, passaram por algum tipo de assédio. Entre os casos de mais violência, 42% ocorreram no ambiente doméstico. Em Santa Catarina  os números são impressionantes: 23 assassinatos nos últimos sete meses e 92 tentativas de homicídio - mais de 3 feminicídios por mês -a desembargadora Salete Sommariva (TJSC) afirmou que SC é “um dos Estados que mais matam mulheres no Brasil”. Centenas de ocorrências de ameaça, lesão corporal, injúria, calúnia, difamação e dano são registradas todos os dias nas delegacias. Conforme dados da Secretaria de Segurança Pública, divulgados no site do Tribunal de Justiça, nove mulheres são estupradas diariamente no Estado, um número acima da média nacional. O espaço doméstico e familiar é, na grande maioria dos casos (60%), o lugar onde ocorrem as agressões e o agressor alguém que mantém ou manteve com a vítima uma relação de proximidade e intimidade - marido, companheiro e/ou namorado (46% de relações atuais e 23% de relações passadas).

Para enfrentar este quadro é imprescindível desnaturalizar e desinstitucionalizar a violência e, para tanto, é necessário voltar ao próprio conceito de violência, o que faço recorrendo ao proposto Barus-Michel (2011): “experiência de um caos interno ou a ações ultrajantes cometidas sobre um ambiente, sobre coisas ou pessoas, segundo o ponto de vista de quem a comete ou de quem a sofre”.  Portanto, como a violência é percebida se relaciona diretamente com a maneira como é sentida. O Autor ainda, reforça que a violência se manifesta como excesso na afirmação do “um, todo poderoso que nega a alteridade”. Não podemos mais aceitar justificativas para a violência, ou ouvirmos - ela se descuidou – não devia ter colocado ele para dentro de casa; o crime foi passional; ela o traiu; onde ela estava e com que roupa estava... expressões comuns que culpabilizam a vítima e amenizam o fato em si, como se fosse possível justificar qualquer ato de violência.

A construção de uma cultura que expresse e promova valores de solidariedade, igualdade, equidade, alteridade e respeito às mulheres deve ser vista como uma tarefa cotidiana pública, privada e multidisciplinar. No entanto, o papel do Estado na criação de políticas públicas que atuem fortemente na propagação e articulação de ações para enfrentar a violência contra as meninas e as mulheres brasileiras, é imprescindível para a mudança de rota da cultura da subordinação de gênero.

São necessárias ações educativas, especialmente vinculadas às escolas desde a educação infantil ao ensino superior, fazendo a urgente inclusão da dimensão gênero nos currículos escolares, de tal modo a mostrar como a hierarquia existente na cultura brasileira de subordinação da mulher ao homem, traz sofrimento e desequilíbrios de todas as ordens – econômico, familiar, emocional e aumenta a violência. Ou seja, as escolas e seus professores, não podem – sob pena de colaborarem no aprofundamento da violência -  se submeterem a insanidade que paira nas declarações/ações de membros do atual governo ficando isolada de um processo amplo de transformação para alcançar a equidade de gênero.  

Neste sentido, parece extremamente contraditório que a sociedade brasileira tenha a segurança como uma das suas maiores preocupações e aceita passivamente e de modo acrítico o sofrimento e morte de tantas filhas, mães, esposas, irmãs, meninas, jovens, mulheres, pois não percebe  que a equidade entre homens e mulheres – constitui um caminho para alterar a violência em geral e, de gênero, em particular. Não se combate violência, dizendo que o nascimento da filha mulher “foi uma fraquejada” (Bolsonaro); não se combate o machismo afirmando que “agora meninas usam rosa e meninos azul” (ministra Damares Alves); não se combate preconceito dizendo que “a universidade não é para todos, que ela representa uma elite intelectual” (Ministro da educação Ricardo Vélez).

O fim da violência e da supremacia masculina, reproduzida em falas e ações, é tarefa indispensável mediante a nossa realidade, pois ao mudar a cultura patriarcal, sexista e misógina enraizada nas representações sociais e na mente das pessoas, estaremos pavimentando um caminho para que as mulheres sejam protagonistas dos seus destinos, sejam empoderadas e, assim de fato, possam VIVER sem medo e exercendo a plena cidadania. No entanto, empoderamento, não pode ser apenas um novo jargão, pois, como alerta Friedmann (1996) deve ser entendido como todo acréscimo de poder que, permite aos indivíduos aumentarem a eficácia do seu exercício de cidadania.

Vamos à luta! Até que sejamos todas livres e sem medo se ser MULHER.

 

Imagem: A Mulata - Di Cavalcanti

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 08/03/2019 às 00h52 | marisazf@hotmail.com



Marisa Zanoni Fernandes

Assina a coluna Marisa Fernandes

Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.


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Marisa Fernandes
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Em meio a uma forte onda conservadora que assola o país, assistimos perplexos declarações que evocam preconceito, ódio, discriminação sem o mínimo de reservas. Fatos que geram e, de certa forma, legitimam a violência.

Naturalizamos e até institucionalizamos a violência, sobretudo, aquela que golpeia mulheres – pelo histórico patriarcado e machismo social; aquela que marca crianças – pelo falso ideário de educação; aquela que atinge as minorias – pela hierarquização e subjugação da diversidade humana e das classes sociais.   Tradicionalmente a sociedade brasileira vive o “mito da não violência” negando e mascarando a dura e cruel realidade. 

Em 2017, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), o Brasil concentrou 40% dos feminicídios da América Latina. O Instituto Data Folha relata que nos últimos 12 meses, 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativas de estrangulamento no Brasil. Enquanto 22 milhões, 37,1% das brasileiras, passaram por algum tipo de assédio. Entre os casos de mais violência, 42% ocorreram no ambiente doméstico. Em Santa Catarina  os números são impressionantes: 23 assassinatos nos últimos sete meses e 92 tentativas de homicídio - mais de 3 feminicídios por mês -a desembargadora Salete Sommariva (TJSC) afirmou que SC é “um dos Estados que mais matam mulheres no Brasil”. Centenas de ocorrências de ameaça, lesão corporal, injúria, calúnia, difamação e dano são registradas todos os dias nas delegacias. Conforme dados da Secretaria de Segurança Pública, divulgados no site do Tribunal de Justiça, nove mulheres são estupradas diariamente no Estado, um número acima da média nacional. O espaço doméstico e familiar é, na grande maioria dos casos (60%), o lugar onde ocorrem as agressões e o agressor alguém que mantém ou manteve com a vítima uma relação de proximidade e intimidade - marido, companheiro e/ou namorado (46% de relações atuais e 23% de relações passadas).

Para enfrentar este quadro é imprescindível desnaturalizar e desinstitucionalizar a violência e, para tanto, é necessário voltar ao próprio conceito de violência, o que faço recorrendo ao proposto Barus-Michel (2011): “experiência de um caos interno ou a ações ultrajantes cometidas sobre um ambiente, sobre coisas ou pessoas, segundo o ponto de vista de quem a comete ou de quem a sofre”.  Portanto, como a violência é percebida se relaciona diretamente com a maneira como é sentida. O Autor ainda, reforça que a violência se manifesta como excesso na afirmação do “um, todo poderoso que nega a alteridade”. Não podemos mais aceitar justificativas para a violência, ou ouvirmos - ela se descuidou – não devia ter colocado ele para dentro de casa; o crime foi passional; ela o traiu; onde ela estava e com que roupa estava... expressões comuns que culpabilizam a vítima e amenizam o fato em si, como se fosse possível justificar qualquer ato de violência.

A construção de uma cultura que expresse e promova valores de solidariedade, igualdade, equidade, alteridade e respeito às mulheres deve ser vista como uma tarefa cotidiana pública, privada e multidisciplinar. No entanto, o papel do Estado na criação de políticas públicas que atuem fortemente na propagação e articulação de ações para enfrentar a violência contra as meninas e as mulheres brasileiras, é imprescindível para a mudança de rota da cultura da subordinação de gênero.

São necessárias ações educativas, especialmente vinculadas às escolas desde a educação infantil ao ensino superior, fazendo a urgente inclusão da dimensão gênero nos currículos escolares, de tal modo a mostrar como a hierarquia existente na cultura brasileira de subordinação da mulher ao homem, traz sofrimento e desequilíbrios de todas as ordens – econômico, familiar, emocional e aumenta a violência. Ou seja, as escolas e seus professores, não podem – sob pena de colaborarem no aprofundamento da violência -  se submeterem a insanidade que paira nas declarações/ações de membros do atual governo ficando isolada de um processo amplo de transformação para alcançar a equidade de gênero.  

Neste sentido, parece extremamente contraditório que a sociedade brasileira tenha a segurança como uma das suas maiores preocupações e aceita passivamente e de modo acrítico o sofrimento e morte de tantas filhas, mães, esposas, irmãs, meninas, jovens, mulheres, pois não percebe  que a equidade entre homens e mulheres – constitui um caminho para alterar a violência em geral e, de gênero, em particular. Não se combate violência, dizendo que o nascimento da filha mulher “foi uma fraquejada” (Bolsonaro); não se combate o machismo afirmando que “agora meninas usam rosa e meninos azul” (ministra Damares Alves); não se combate preconceito dizendo que “a universidade não é para todos, que ela representa uma elite intelectual” (Ministro da educação Ricardo Vélez).

O fim da violência e da supremacia masculina, reproduzida em falas e ações, é tarefa indispensável mediante a nossa realidade, pois ao mudar a cultura patriarcal, sexista e misógina enraizada nas representações sociais e na mente das pessoas, estaremos pavimentando um caminho para que as mulheres sejam protagonistas dos seus destinos, sejam empoderadas e, assim de fato, possam VIVER sem medo e exercendo a plena cidadania. No entanto, empoderamento, não pode ser apenas um novo jargão, pois, como alerta Friedmann (1996) deve ser entendido como todo acréscimo de poder que, permite aos indivíduos aumentarem a eficácia do seu exercício de cidadania.

Vamos à luta! Até que sejamos todas livres e sem medo se ser MULHER.

 

Imagem: A Mulata - Di Cavalcanti

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 08/03/2019 às 00h52 | marisazf@hotmail.com



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Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.


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