Jornal Página 3
Coluna
Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

DO PORTÃO AO RECREIO DA ESCOLA: um caminho para autonomia aprendizagens

A escola se constitui como um verdadeiro campo de confronto de ideias, culturas e perspectivas que exigem a revisão de padrões e conceitos dos profissionais e gestores da educação, especialmente, daqueles que insistem em manter seus olhos na vigilância cerceadora da autonomia e corresponsabilização.

 Da educação infantil ao ensino superior é visível a decadência das relações e o esvaziamento das funções da escola e dos sujeitos envolvidos:  o modelo instituído, pautado de um lado por práticas tradicionais e, de outro, pelo viés da “economia dos municípios”, parecem ingredientes chave para o fracasso da qualidade dos serviços ofertados.

Ao observarmos os movimentos em torno da educação e a recente polêmica em Balneário Camboriú – “quem vai cuidar do recreio e do portão das escolas” – fica evidente o distanciamento da construção de uma escola como lugar de desenvolvimento humano, de cuidado, ensino, educação e socialização. Aliás, estes mesmos que propagam que escola apenas ensina, caem em contradição, pois não é possível conceber o processo educativo apenas como uma atividade intelectual. Portanto, será que o debate deve estar centrado apenas em identificar de quem   é a função do portão, do refeitório e do recreio?  Na redução de custos para os cofres públicos?

 

É básico o entendimento que todos que trabalham na educação – diretores, motoristas, serviços gerais, cozinheiros, professores, especialistas, devem ter formação específica, pois o modo como as famílias e as crianças são acolhidas, como os alunos se movimentam nos espaços tempos demarca a compreensão de toda jornada escolar como parte integrante e estruturante da vida e das aprendizagens. Logo, não são neutros, ao contrário, revelam um conjunto de valores, de ética e estética da escola e de todos os envolvidos.  

Do portão ao recreio revelamos os conceitos de educação, de projeto educativo e se há partilha com as famílias, com os meninos e meninas que frequentam este ambiente.  Assim, Falar em partilha, diferentemente dos gestos de punição e vigilância é  falar de uma escola democrática, que define normas de forma coletiva  e, sobretudo, de uma escola que trabalha com autonomia. Neste sentido, ser autônomo significa ter ferramentas que permitam ao sujeito refletir por si só entre o certo e errado. Quando a educação é balizada por este princípio as crianças aprendem a tomar decisões e os adultos envolvidos avançam dos atos de ameaças e punições como processos de suborno e reforçadores de heteronomia – muitas vezes recorrentes no ambiente escolar, por exemplo, apenas colocar agentes de controle destes espaços, sem um projeto educativo pode ser uma estratégia de controle da violência, mas não educa os alunos para liderem com conflitos e tensões cotidianas.

Há, portanto, a necessidade de compreensão do lugar de cada sujeito e do impacto que tem na vida dos alunos as ações de todos que fazem parte do contexto educativo. Digo isso porque não basta criar um projeto de lei para dar determinado ‘bônus” para este ou aquele funcionário. É necessário enfrentar os reais problemas que nossas escolas vivem e definir um projeto educativo abrangente, sólido de conhecimento, promotor de autorregulação e corresponsabilização.

O esvaziamento de uma reflexão mais profunda sobre o rico tempo de ensino e aprendizagens que ocorrem, ou deveriam ocorrer, nos recreios escolares, servem, apenas para gerar maior distanciamento entre os diversos profissionais que atuam na escola, para o empobrecimento das relações e, é claro, para alguns vereadores terem palco para a hipocrisia.

Enquanto a comunidade se limitar a pensar que suas crianças e jovens devem estar na escola sendo “vigiados” e não discutir investimentos do ponto de vista humano e de equipamentos para que o recreio e o pátio da escola sejam promotores de oportunidades, inviabilizaremos projetos e experiências que possibilitem aos alunos o exercício da convivência solidária e da estruturação de toda jornada escolar como um tempo de aprendizagens significativas.  Afinal, quem não se recorda do recreio como um momento de lazer, liberdade, encontros e mesmo com conflitos como um momento muito desejado da jornada escolar? 

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 30/01/2018 às 11h24 | marisazf@hotmail.com



Marisa Zanoni Fernandes

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Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.


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