Jornal Página 3
Coluna
Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

COMPRA DE VAGAS PARA CRECHE

    

A educação da criança pequena historicamente tem sido marcada por avanços e rupturas que estão alinhados às representações sociais de quem são as crianças, quais são suas necessidades e qual o papel da família e da sociedade no processo de educação e cuidados.

Notoriamente, o processo educativo dos pequenos tem sido negligenciado e, não por acaso, as soluções mediante a evidência de negação de direitos, tem sido arbitrárias como é o caso da compra de vagas em escolas particulares para crianças pequenas que não tem acesso na escola pública. Daí julgo importante refletir:  a compra de vagas é uma solução?  É um Eufemismo para privatização? É uma transferência de responsabilidade?   

 

Nos países que avançaram na qualidade da educação, fica evidente a atenção dada à primeira infância em espaços públicos: tempo integral, espaços educativos de qualidade, priorização dos recursos, ou seja, quanto menor a idade, maiores foram os investimentos. A educação na primeira infância constitui o melhor investimento social existente e quanto mais baixa for a idade do investimento educacional, mais alto é o retorno recebido pelo indivíduo e pela sociedade. (HECKMAN, 2000 - Nobel de economia)     

No Brasil vimos avançar a legislação – a Constituição Federal de 1.988, a LDB, de 1.996, são explicitas na distribuição das competências referentes à Educação Infantil indicando a corresponsabilidade da União, Estados, Municípios e família;    os estudos sobre a infância  das mais diversas áreas, entre elas, a psicologia (SYLVA, 2.000) indica os primeiros anos de vida como fundamentais para aquisição de habilidades básicas e estas por sua vez, determinarão os conhecimentos específicos ao longo da vida;  a antropologia (GUSMÃO, 1997) aponta a necessidade de entendermos e reconhecermos a cultura da infância; a pedagogia (CERISARA, 2004) estabelece regularidades para a orientação da prática dos educadores para que reconheçam o sujeito/criança como um cidadão de direitos, capaz e protagonista. No entanto, há um abismo entre a legislação, os estudos e a nossa realidade.    

 

O Brasil sofre, como diz Sergio Buarque de Holanda (1987), pela ausência de uma clara distinção entre o público e o privado. Desde os primórdios, o país vem se organizando administrativa e politicamente muito mais em relação aos interesses privados do que a partir das regras claras visando a construção do Estado. Deste modo, a compra de vagas, não é apenas um “ato emergencial”, ela está alicerçada, no meu ponto de vista, na negligência do poder público e na falta de compreensão da educação dos pequenos como uma tarefa estruturante da vida em sociedade, por isso universal, pública, gratuita e de qualidade.   

A educação é um bem público. Não podemos abrir mão desse princípio fundamental, o sob pena de banalizar o próprio papel do Estado, do governo e responsabilidade social com os pequenos.  

"A Educação é o ponto que decidimos se amamos o mundo o bastante  para assumirmos a responsabilidade por ele." Hannah Arent 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 03/10/2017 às 15h31 | marisazf@hotmail.com

"O EXÍLIO DO LEPROSO E A PRISÃO DA PESTE": o projeto

 

A educação nos últimos tempos tem sido alvo de ataques de toda ordem: como se não bastasse ser cotidianamente culpabilidade pelas mazelas sociais, pela violência dos jovens, pelo baixo desempenho escolar, muitos (sem ter estudado o campo educacional), se acham no direito de dizer o que ela deve ensinar e como deve ensinar.

Como professora há 30 anos, não me recordo de ver outra profissão ter com tanta frequência a interferência dos “especialistas” em meter o bedelho na vida da escola e de seus profissionais.

A autoridade pedagógica, tão necessária para a realização do trabalho docente de qualidade,  é atacada com assombroso desrespeito por muitos cidadãos e, sobretudo, reforçada pela mediocridade de vereadores que usam o espaço e o dinheiro público, não só para se promoverem eleitoralmente, mas para enganar os menos atentos com legislações que promovem o exílio do  professor como se ele fosse leproso, alguém do  mal que além das câmeras que vigiam seus atos, agora pretendem vigiar suas posições, imponde-lhes a amordaça.  

O projeto de lei que institui o programa “escola sem partido” –  se transveste da tarefa de salvaguardar a família e os bons costumes, livrar as crianças da doutrinação -  é um sinal, entre tantos, do movimento conservador e neofacista que tem no seu âmago a posição política clara: atacar a democracia e   a escola como espaço estruturante da cidadania.

O referido projeto além de ferir a Constituição Brasileira - Artigo 5º, inciso IV que diz “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”;   o capítulo que trata da educação, Artigo 206, que determina que “o ensino será ministrado com base nos seguintes princípios, entre outros os da liberdade de aprender, de ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e saber; o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas e coexistência de instituições públicas e privadas - coloca os professores e os gestores escolares no banco de réus.  Promove um ambiente de desconfiança e confronto entre professores, alunos e famílias estimulando-os a se instituírem como delatores.  Incita um movimento coercitivo, de controle disciplinar marcando o exilio do leproso e a prisão da peste” (Vigiar e Punir - FOUCAUT) e fazendo funcionar os mecanismos homogeneizantes, dogmáticos em que todos já conhecem as consequências: a tirania!

Atrás dos dispositivos disciplinares desta lei, se lê o terror que assola a sociedade da intolerância, do ódio, da hierarquização de ideias. É preciso retirar as máscaras e este é o oficio de PROFESSOR.

(crédito imagem:Vik Muniz - Marat - Sebastião/1961) 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 22/08/2017 às 13h44 | marisazf@hotmail.com

UM MINUTO DE SILÊNCIO!

 

           (créditos imagem: Mapio.net Chelo Godoy)

 

O ato de comemorar e homenagear atravessa fronteiras, credos, setores públicos e privados, demarca tempos, histórias e, sobretudo, lugares da memória. No entanto, como lembra o historiador Pierre Nora: memória e história não são sinônimos.

Deste modo, ao nos reportamos às comemorações dos 53 anos de emancipação política de Balneário Camboriú, precisamos resgatar as memórias, na acepção que ela é a vida protagonizada por todos os sujeitos, aberta à dialética das recordações, mas também, do esquecimento, portanto, a memória é vulnerável a múltiplas manipulações e deformações e, ao mesmo tempo, aberta a revitalizações.

As memórias contadas, descobertas, registradas em versos, em histórias de pescadores, exaladas na culinária, explicitada no sotaque, revelam que a história de Balneário Camboriú é, como toda história, uma reconstrução incompleta do que já passou. Incompleta porque não temos a tradição de valorizar nossas próprias origens do "povo das conchas" - os sambaquis da praia de laranjeiras é um cenário praticamente extinto; da comunidade remanescente de Quilombo -  raramente sabemos das "histórias subterrâneas dos africanos na condição de escravos e seus descendentes que existem no Morro do Boi" (professor Jose Bento).

Dos primeiros povos (há 4.000 anos) até nossos dias, falar em comemorar 53 anos não seria justo com a cronologia e com a riqueza destas memórias e histórias. Por isso, um minuto de silencio!! Em memória daqueles que aqui viveram, antes de nós!  A todos que sabiam viver em harmonia com esta terra, com este paraíso. Aqueles que entendiam o verdadeiro sentido de viver em comunidade, que na simplicidade encontravam o "Arraial do bom sucesso" -  e nessas memórias, como uma ligação vivida em um eterno presente, talvez precisaríamos relembrar que “nunca é tarde para voltar e recolher o que ficou para trás” (provérbio Acã). Voltar, neste sentido, não significa invalidar o momento atual desta pujante cidade, mas um gesto de amorosidade que entende a diferença entre crescimento e desenvolvimento sustentável, que respeita a convivência equilibrada entre as pessoas e territórios. Assim, a cidade coirmã - Camboriú deveria ser o cordão umbilical que nutre e é nutrida como um organismo vivo e interdependente. Deveríamos valorizar cada espaço, cada bairro sem a supremacia da ideia de "centro" e estarmos com as portas sempre abertas de modo a convidar chegar mais perto, sem falsos egos e bairrismos.

Parabéns a todas mulheres e homens que aqui passaram, nasceram, escolheram morar, trabalhar e viver.  Parabéns aqueles que não medem esforços e não se intimidam em pensar e protagonizar a construção do porvir em uma direção mais humana, inclusiva e sustentável.

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 19/07/2017 às 14h35 | marisazf@hotmail.com

DE ONDE VIEMOS? QUEM SOMOS? ONDE ESTAMOS? PARA ONDE VAMOS? COMO QUEREMOS IR?

 
 

As questões iniciais fazem parte da experiência provocativa a quem visita ao Museu do Amanhã no Rio de Janeiro. Ir ao museu é como fazer terapia – ao sair, a sessão continua a te inquietar e você se permite refletir com e além do que viu e sentiu.

Nas narrativas simbólicas e objetivas do museu há um pressuposto básico: estamos intimamente conectados. É o hoje que define e afeta o amanhã.  Como parte indivisível do universo, com nossas ações afetamos e somos afetados de inúmeras formas.

Deste modo, para buscar responder o presente: onde estamos – recorro a dúvida, pois me parece que faz parte desta realidade, não haver respostas claras! É fato, estamos envoltos por incertezas, desesperanças, desequilíbrios ambientais, sociais e existenciais. Não raro, vivemos paradoxalmente: liberdade x escravidão; justiça x vingança; desejo x apatia; vida x morte; abundancia x miséria; conexão x solidão.

É tempo, resgatando Orwel (2009), de “duplipensamento” e de “verdade móvel” – o homem ao se tornar cada vez mais um instrumento, transforma a realidade de acordo com seus próprios interesses e funções. Dito de outro modo, a verdade não é mais um julgamento objetivo acerca da realidade, ela é provada pelo consenso de milhões e guiada por interesses.

Somos capazes de abrigar simultaneamente duas crenças contraditórias e acreditar em ambas. Construímos armas para assegurar a paz; investimos em policiamento armado para ter segurança; preconceito, machismo, misoginia, xenofobia, lgbtfobia, para nos proteger do outro – diferente. É sem dúvida, tempo de crise econômica, ética e ambiental. Sobretudo, porque vivemos uma nova era geológica: o Antropoceno – conceito criado por Paul J. Crutzen (1995), mediante a escala de destruição do meio ambiente, o extermínio dos ecossistemas, em que o homem começa a destruir suas próprias condições de existência no Planeta. Era de individualidade extrema, de nacionalismos, moralismos, de ascensão do conservadorismo que toma o poder no mundo e, no Brasil, não por acaso Bolsonaro e Doria, crescem com popularidade inimagináveis. É tempo de eugenia – limpar a cracolandia; retirar a força “invasores”; clamar pela ditadura – sob a égide do bem contra o mal, dos bons contra os maus.   

Para onde vamos? Talvez ao tomarmos consciência desta realidade (onde estamos), poderíamos pensar que o homem está se desumanizando, rompendo os laços mínimos de civilidade, ou seja, está basicamente se tornando autodestrutível: ambientalmente e nas relações sociais. Basta imaginar que a utilização das armas termonucleares, que existem, poderia acabar com toda a civilização.

Entretanto, quando olhamos para o sorriso das crianças, para a fé inabalável de muitos pais, educadores e o exemplo de tantos que resistiram e continuam a resistir na esperança de um mundo sustentável, de paz e solidariedade, que avança fronteiras e se irmana com todos os povos, tornamos a acreditar na decência humana.

Neste sentido, volto ao Museu do Amanhã e desvendo caminhos que conduzem interativa e amorosamente a um reencontro com quem somos: “[...]vivemos em uma sociedade e pertencemos a família, grupos e comunidades que nos identificamos. Cada cultura possui um repertório de comportamentos comuns, renovados pela história e por experiências coletivas. Fazemos as mesmas coisas de maneiras sempre distintas. Sensações, emoções, gostos, crenças, linguagens e costumes formam um imenso caleidoscópio da riqueza cultural e dos povos. Somos humanos porque formulamos e compartilhamos ideias capazes de transformar a realidade em que vivemos. ” (Fragmentos da experiência de alguns espaços do museu – livre tradução) 

Assim, podemos encontrar indicadores que ajudam pensar:  como queremos ir?  É ainda no museu que reflito sobre o planeta, que inverto a lógica das perguntas e da linearidade do tempo, pois ao final, volto ao começo – de onde viemos? E como uma explosão cósmica, me vejo mais claramente – carbono, hidrogênio, oxigênio, fósforo, cálcio, me vejo planta, animal, rios, florestas, me vejo parte indivisível do universo.

Ainda, nesta conexão e buscando respostas ao questionamento: como queremos ir?  Em uma parede leio: “Nossas ações, por menores que pareçam, são capazes de mudar o mundo. A cada momento fazemos escolhas sobre o nosso modo de vida. Se nos conectarmos com o planeta e uns com os outros, seremos uma ponte para um futuro sustentável.  Cada um de nós faz o seu amanhã. E juntos fizemos os nossos – os amanhãs que queremos. ”

A visita ao Museu do Amanhã me fez enxergar mais longe (apoena, termo de origem tupi-guarani: aquele que vê além do horizonte). Há luz mesmo em meio ao ofuscamento do momento, para vê-la é necessário que nos movimentemos de forma corajosa e humanitária, assim como o Sol e a Terra são finitos, nossa reação pode assegurar a nossa infinidade. 

Comecemos hoje os nossos amanhãs! Para isso, é necessário voltar a “oca e ao churinga” (último e espetacular espaço do museu) e transmitir às futuras gerações o conhecimento e os gestos mais preciosos da humanidade. É como cantar a Canção da Vida e recuperar a capacidade de amar, de criar e viver em harmonia com o Planeta e todas as formas de existência do mundo.

créditos imagem: Totens do Antropoceno (disponibilizada no site do Museu do Amanhã do Rio de Janeiro)

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 19/06/2017 às 17h39 | marisazf@hotmail.com

O BRASIL AO AVESSO

 

 

“TEM QUE SER UM QUE A GENTE MATA ELE ANTES [ ...]”

Um turbilhão de sentimentos invade meu âmago e acredito de todo povo brasileiro em meio as notícias que afetam o coração da democracia e desafiam a nossa lógica. Entre gravações, áudios, flagrantes e prisões, máscaras caem e novos protagonistas entram em cena sob o comando (estranhamente) da Rede Globo.

 Para aqueles que proclamavam que a corrupção era invenção e prática de um partido - o PT- hoje talvez, o sentimento seja de abandono e de orfandade -  afinal, perderam os personagens santos proclamadores da ética e da anticorrupção. Parte significativa da população foi levada a olhar o cenário político por apenas uma perspectiva:  incitadora de ódio e da divisão de classes.  Esta perspectiva também levou a crença que as cores verde e amarela e a bandeira do Brasil pertencia a um grupo social e, sobretudo, que a solução de todos os males seria banir o partido e o governo da presidente Dilma.

 Para aqueles que apontavam que a raiz dos problemas da corrupção está alicerçada na cultura e no sistema político brasileiro, afetando cotidianamente governos e a governabilidade, portanto, histórica e sistêmica – talvez o sentimento seja de certo conforto, pois neste cenário, encontram  visibilidade das suas crenças, particularmente, quando olham  para o número de partidos políticos envolvidos, para os  homens públicos defensores dos interesses privados, num mecanismo em que os financiadores ditam a agenda do parlamento e do governo com grave ofensa à República.

 No entanto, hoje o sentimento de todo brasileiro não pode ser revanche. É preciso construir um sentimento de pertencimento, de união de esforços e jamais aceitar a conduta antirrepublicana e criminosa, como a revelação do áudio da gravação autorizada pela Justiça em que o povo brasileiro ouviu o Senador Aécio Neves do PSDB, dizer " tem que ser um que a gente mata ele antes de delatar. ”

 Não há mais tempo para divisões do povo brasileiro, não há mais espaço para ideias massificadoras da mídia, dos que defendem a concentração de riquezas, de figuras públicas que estão a serviço do capital privado e do seu próprio bolso. O sistema democrático foi e está cotidianamente sendo golpeado – não podemos ficar calados, mediante aos defensores da ditadura, da exclusão social das diferenças, dos usurpadores dos direitos básicos que tem ampliado a pobreza e a violência social.   Não há mais espaço para repetir expressões e inundar as redes sociais com piadas e (des) informações que revelam o que não sabemos ou preferimos não saber.  

É necessária a reação:  delatemos, enfrentemos – antes que nos matem!

Imagem: José Guadalupe Posada - El Jicote (1871)

 

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 01/06/2017 às 15h04 | marisazf@hotmail.com

“MAS VÓ, VÃO MATAR JESUS DE NOVO?” A Páscoa com olhos de criança

Se há algo que gosto muito é valorizar e ouvir atentamente as expressões, interpretações e os questionamentos das crianças. Minha memória guarda inúmeras histórias, pois considero que gente pequena tem um modo muito especial de ver o mundo dos adultos.
 
Nestes dias de comemorações de Páscoa lembrei-me de um garoto de quatro anos que voltara da escola e muito preocupado queria saber da avó se seria Páscoa novamente. Ao respondê-lo - afirmando que sim - ela observou que ele saiu da sua presença cabisbaixo, com ar de preocupação e certa tristeza. Então, ela o indagou: - por que estás preocupado com isso? Ele respondeu: - mas vó vão matar Jesus de novo?
 
A expressão do pequeno pode até nos fazer rir, no entanto, quero levar a sério e me solidarizar com a sua preocupação. Quero me aproximar da sensibilidade deste menino: a passagem bíblica da morte de Jesus é para mim a mais intrigante e mobilizadora história cristã. Justifico minha escolha por dois aspectos: o primeiro porque nela vejo cenas tão presentes no nosso cotidiano, o segundo, porque me identifico com as causas assumidas por Jesus e sobretudo, porque não gosto de ver injustiças.
 
Assim, se observarmos o comportamento humano daquele tempo, parece impossível que o mesmo povo que acolhe Jesus, em poucos dias o abandona e o troca por Barrabás e, como em um ato de confusão e instabilidade mental, o ama e o odeia na mesma intensidade. A possível falta de capacidade de discernimento daquele momento, me parece que chega até nossos dias e como grande tempestade nos provoca dificuldades de enxergar a verdade dos fatos.
 
A morte e a prisão servem de livramento. Não importa o que o sujeito fez, não importa o fato, o que importa é que alguém seja “crucificado” e, assim, continuamos matando Jesus quantas vezes forem necessárias para nos sentirmos mais puros, menos pecadores.
 
Nos tempos de Jesus não havia a capacidade de informações dos dias atuais, no entanto, há semelhanças nos modus operandi da justiça dos homens na premissa – alguém tem que ser crucificado – assim, a humanidade se livrará dos pecados e do mal e a ordem estará reestabelecida.  
 
Neste cenário de morte recorro novamente às crianças, pois são elas que povoam a minha mente e o meu coração como se fossem luzes de esperança, são elas que nos abordam com incomodas perguntas e nos deixam órfãos da lógica das respostas. É fato que não estamos habituados a pensar sobre muitas coisas, apenas repetimos o que nos disseram, temos rituais que se tornam nossas verdades absolutas – sem a chance de qualquer questionamento.
 
Na perspectiva desta gente miúda acredito na capacidade de mudança, de crença e ressureição de um novo tempo, não como um milagre, (se bem que ele seria bem-vindo), mas como um esforço coletivo de autocrítica e de consciência que se distancia do sentimento de vingança que apenas enche os corações de ódio.
 
Acredito na capacidade de reinventarmos uma nova e equilibrada ordem que talvez precisa se voltar à cena da morte de Jesus e se espelhar em alguns exemplos contra majoritários daquele povo – entre eles - Maria e Verônica que se compadeceram, choraram e nunca abandonaram a Jesus, sobretudo, porque abriram-se para outros olhares, outras perspectivas de justiça antes de meros julgamentos.
 
Que a Páscoa nos traga esta convicção: vale a pena ouvir as crianças, vale a pena ver com olhos de criança e romper com padrões e estereótipos de comportamentos que tem gerado morte. É preciso sair do lugar comum, pois o momento exige mais solidariedade, mais amorosidade e mais gente que ama a verdadeira justiça.
Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 13/04/2017 às 18h32 | marisazf@hotmail.com



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Marisa Zanoni Fernandes

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Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.


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Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

COMPRA DE VAGAS PARA CRECHE

    

A educação da criança pequena historicamente tem sido marcada por avanços e rupturas que estão alinhados às representações sociais de quem são as crianças, quais são suas necessidades e qual o papel da família e da sociedade no processo de educação e cuidados.

Notoriamente, o processo educativo dos pequenos tem sido negligenciado e, não por acaso, as soluções mediante a evidência de negação de direitos, tem sido arbitrárias como é o caso da compra de vagas em escolas particulares para crianças pequenas que não tem acesso na escola pública. Daí julgo importante refletir:  a compra de vagas é uma solução?  É um Eufemismo para privatização? É uma transferência de responsabilidade?   

 

Nos países que avançaram na qualidade da educação, fica evidente a atenção dada à primeira infância em espaços públicos: tempo integral, espaços educativos de qualidade, priorização dos recursos, ou seja, quanto menor a idade, maiores foram os investimentos. A educação na primeira infância constitui o melhor investimento social existente e quanto mais baixa for a idade do investimento educacional, mais alto é o retorno recebido pelo indivíduo e pela sociedade. (HECKMAN, 2000 - Nobel de economia)     

No Brasil vimos avançar a legislação – a Constituição Federal de 1.988, a LDB, de 1.996, são explicitas na distribuição das competências referentes à Educação Infantil indicando a corresponsabilidade da União, Estados, Municípios e família;    os estudos sobre a infância  das mais diversas áreas, entre elas, a psicologia (SYLVA, 2.000) indica os primeiros anos de vida como fundamentais para aquisição de habilidades básicas e estas por sua vez, determinarão os conhecimentos específicos ao longo da vida;  a antropologia (GUSMÃO, 1997) aponta a necessidade de entendermos e reconhecermos a cultura da infância; a pedagogia (CERISARA, 2004) estabelece regularidades para a orientação da prática dos educadores para que reconheçam o sujeito/criança como um cidadão de direitos, capaz e protagonista. No entanto, há um abismo entre a legislação, os estudos e a nossa realidade.    

 

O Brasil sofre, como diz Sergio Buarque de Holanda (1987), pela ausência de uma clara distinção entre o público e o privado. Desde os primórdios, o país vem se organizando administrativa e politicamente muito mais em relação aos interesses privados do que a partir das regras claras visando a construção do Estado. Deste modo, a compra de vagas, não é apenas um “ato emergencial”, ela está alicerçada, no meu ponto de vista, na negligência do poder público e na falta de compreensão da educação dos pequenos como uma tarefa estruturante da vida em sociedade, por isso universal, pública, gratuita e de qualidade.   

A educação é um bem público. Não podemos abrir mão desse princípio fundamental, o sob pena de banalizar o próprio papel do Estado, do governo e responsabilidade social com os pequenos.  

"A Educação é o ponto que decidimos se amamos o mundo o bastante  para assumirmos a responsabilidade por ele." Hannah Arent 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 03/10/2017 às 15h31 | marisazf@hotmail.com

"O EXÍLIO DO LEPROSO E A PRISÃO DA PESTE": o projeto

 

A educação nos últimos tempos tem sido alvo de ataques de toda ordem: como se não bastasse ser cotidianamente culpabilidade pelas mazelas sociais, pela violência dos jovens, pelo baixo desempenho escolar, muitos (sem ter estudado o campo educacional), se acham no direito de dizer o que ela deve ensinar e como deve ensinar.

Como professora há 30 anos, não me recordo de ver outra profissão ter com tanta frequência a interferência dos “especialistas” em meter o bedelho na vida da escola e de seus profissionais.

A autoridade pedagógica, tão necessária para a realização do trabalho docente de qualidade,  é atacada com assombroso desrespeito por muitos cidadãos e, sobretudo, reforçada pela mediocridade de vereadores que usam o espaço e o dinheiro público, não só para se promoverem eleitoralmente, mas para enganar os menos atentos com legislações que promovem o exílio do  professor como se ele fosse leproso, alguém do  mal que além das câmeras que vigiam seus atos, agora pretendem vigiar suas posições, imponde-lhes a amordaça.  

O projeto de lei que institui o programa “escola sem partido” –  se transveste da tarefa de salvaguardar a família e os bons costumes, livrar as crianças da doutrinação -  é um sinal, entre tantos, do movimento conservador e neofacista que tem no seu âmago a posição política clara: atacar a democracia e   a escola como espaço estruturante da cidadania.

O referido projeto além de ferir a Constituição Brasileira - Artigo 5º, inciso IV que diz “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”;   o capítulo que trata da educação, Artigo 206, que determina que “o ensino será ministrado com base nos seguintes princípios, entre outros os da liberdade de aprender, de ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e saber; o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas e coexistência de instituições públicas e privadas - coloca os professores e os gestores escolares no banco de réus.  Promove um ambiente de desconfiança e confronto entre professores, alunos e famílias estimulando-os a se instituírem como delatores.  Incita um movimento coercitivo, de controle disciplinar marcando o exilio do leproso e a prisão da peste” (Vigiar e Punir - FOUCAUT) e fazendo funcionar os mecanismos homogeneizantes, dogmáticos em que todos já conhecem as consequências: a tirania!

Atrás dos dispositivos disciplinares desta lei, se lê o terror que assola a sociedade da intolerância, do ódio, da hierarquização de ideias. É preciso retirar as máscaras e este é o oficio de PROFESSOR.

(crédito imagem:Vik Muniz - Marat - Sebastião/1961) 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 22/08/2017 às 13h44 | marisazf@hotmail.com

UM MINUTO DE SILÊNCIO!

 

           (créditos imagem: Mapio.net Chelo Godoy)

 

O ato de comemorar e homenagear atravessa fronteiras, credos, setores públicos e privados, demarca tempos, histórias e, sobretudo, lugares da memória. No entanto, como lembra o historiador Pierre Nora: memória e história não são sinônimos.

Deste modo, ao nos reportamos às comemorações dos 53 anos de emancipação política de Balneário Camboriú, precisamos resgatar as memórias, na acepção que ela é a vida protagonizada por todos os sujeitos, aberta à dialética das recordações, mas também, do esquecimento, portanto, a memória é vulnerável a múltiplas manipulações e deformações e, ao mesmo tempo, aberta a revitalizações.

As memórias contadas, descobertas, registradas em versos, em histórias de pescadores, exaladas na culinária, explicitada no sotaque, revelam que a história de Balneário Camboriú é, como toda história, uma reconstrução incompleta do que já passou. Incompleta porque não temos a tradição de valorizar nossas próprias origens do "povo das conchas" - os sambaquis da praia de laranjeiras é um cenário praticamente extinto; da comunidade remanescente de Quilombo -  raramente sabemos das "histórias subterrâneas dos africanos na condição de escravos e seus descendentes que existem no Morro do Boi" (professor Jose Bento).

Dos primeiros povos (há 4.000 anos) até nossos dias, falar em comemorar 53 anos não seria justo com a cronologia e com a riqueza destas memórias e histórias. Por isso, um minuto de silencio!! Em memória daqueles que aqui viveram, antes de nós!  A todos que sabiam viver em harmonia com esta terra, com este paraíso. Aqueles que entendiam o verdadeiro sentido de viver em comunidade, que na simplicidade encontravam o "Arraial do bom sucesso" -  e nessas memórias, como uma ligação vivida em um eterno presente, talvez precisaríamos relembrar que “nunca é tarde para voltar e recolher o que ficou para trás” (provérbio Acã). Voltar, neste sentido, não significa invalidar o momento atual desta pujante cidade, mas um gesto de amorosidade que entende a diferença entre crescimento e desenvolvimento sustentável, que respeita a convivência equilibrada entre as pessoas e territórios. Assim, a cidade coirmã - Camboriú deveria ser o cordão umbilical que nutre e é nutrida como um organismo vivo e interdependente. Deveríamos valorizar cada espaço, cada bairro sem a supremacia da ideia de "centro" e estarmos com as portas sempre abertas de modo a convidar chegar mais perto, sem falsos egos e bairrismos.

Parabéns a todas mulheres e homens que aqui passaram, nasceram, escolheram morar, trabalhar e viver.  Parabéns aqueles que não medem esforços e não se intimidam em pensar e protagonizar a construção do porvir em uma direção mais humana, inclusiva e sustentável.

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 19/07/2017 às 14h35 | marisazf@hotmail.com

DE ONDE VIEMOS? QUEM SOMOS? ONDE ESTAMOS? PARA ONDE VAMOS? COMO QUEREMOS IR?

 
 

As questões iniciais fazem parte da experiência provocativa a quem visita ao Museu do Amanhã no Rio de Janeiro. Ir ao museu é como fazer terapia – ao sair, a sessão continua a te inquietar e você se permite refletir com e além do que viu e sentiu.

Nas narrativas simbólicas e objetivas do museu há um pressuposto básico: estamos intimamente conectados. É o hoje que define e afeta o amanhã.  Como parte indivisível do universo, com nossas ações afetamos e somos afetados de inúmeras formas.

Deste modo, para buscar responder o presente: onde estamos – recorro a dúvida, pois me parece que faz parte desta realidade, não haver respostas claras! É fato, estamos envoltos por incertezas, desesperanças, desequilíbrios ambientais, sociais e existenciais. Não raro, vivemos paradoxalmente: liberdade x escravidão; justiça x vingança; desejo x apatia; vida x morte; abundancia x miséria; conexão x solidão.

É tempo, resgatando Orwel (2009), de “duplipensamento” e de “verdade móvel” – o homem ao se tornar cada vez mais um instrumento, transforma a realidade de acordo com seus próprios interesses e funções. Dito de outro modo, a verdade não é mais um julgamento objetivo acerca da realidade, ela é provada pelo consenso de milhões e guiada por interesses.

Somos capazes de abrigar simultaneamente duas crenças contraditórias e acreditar em ambas. Construímos armas para assegurar a paz; investimos em policiamento armado para ter segurança; preconceito, machismo, misoginia, xenofobia, lgbtfobia, para nos proteger do outro – diferente. É sem dúvida, tempo de crise econômica, ética e ambiental. Sobretudo, porque vivemos uma nova era geológica: o Antropoceno – conceito criado por Paul J. Crutzen (1995), mediante a escala de destruição do meio ambiente, o extermínio dos ecossistemas, em que o homem começa a destruir suas próprias condições de existência no Planeta. Era de individualidade extrema, de nacionalismos, moralismos, de ascensão do conservadorismo que toma o poder no mundo e, no Brasil, não por acaso Bolsonaro e Doria, crescem com popularidade inimagináveis. É tempo de eugenia – limpar a cracolandia; retirar a força “invasores”; clamar pela ditadura – sob a égide do bem contra o mal, dos bons contra os maus.   

Para onde vamos? Talvez ao tomarmos consciência desta realidade (onde estamos), poderíamos pensar que o homem está se desumanizando, rompendo os laços mínimos de civilidade, ou seja, está basicamente se tornando autodestrutível: ambientalmente e nas relações sociais. Basta imaginar que a utilização das armas termonucleares, que existem, poderia acabar com toda a civilização.

Entretanto, quando olhamos para o sorriso das crianças, para a fé inabalável de muitos pais, educadores e o exemplo de tantos que resistiram e continuam a resistir na esperança de um mundo sustentável, de paz e solidariedade, que avança fronteiras e se irmana com todos os povos, tornamos a acreditar na decência humana.

Neste sentido, volto ao Museu do Amanhã e desvendo caminhos que conduzem interativa e amorosamente a um reencontro com quem somos: “[...]vivemos em uma sociedade e pertencemos a família, grupos e comunidades que nos identificamos. Cada cultura possui um repertório de comportamentos comuns, renovados pela história e por experiências coletivas. Fazemos as mesmas coisas de maneiras sempre distintas. Sensações, emoções, gostos, crenças, linguagens e costumes formam um imenso caleidoscópio da riqueza cultural e dos povos. Somos humanos porque formulamos e compartilhamos ideias capazes de transformar a realidade em que vivemos. ” (Fragmentos da experiência de alguns espaços do museu – livre tradução) 

Assim, podemos encontrar indicadores que ajudam pensar:  como queremos ir?  É ainda no museu que reflito sobre o planeta, que inverto a lógica das perguntas e da linearidade do tempo, pois ao final, volto ao começo – de onde viemos? E como uma explosão cósmica, me vejo mais claramente – carbono, hidrogênio, oxigênio, fósforo, cálcio, me vejo planta, animal, rios, florestas, me vejo parte indivisível do universo.

Ainda, nesta conexão e buscando respostas ao questionamento: como queremos ir?  Em uma parede leio: “Nossas ações, por menores que pareçam, são capazes de mudar o mundo. A cada momento fazemos escolhas sobre o nosso modo de vida. Se nos conectarmos com o planeta e uns com os outros, seremos uma ponte para um futuro sustentável.  Cada um de nós faz o seu amanhã. E juntos fizemos os nossos – os amanhãs que queremos. ”

A visita ao Museu do Amanhã me fez enxergar mais longe (apoena, termo de origem tupi-guarani: aquele que vê além do horizonte). Há luz mesmo em meio ao ofuscamento do momento, para vê-la é necessário que nos movimentemos de forma corajosa e humanitária, assim como o Sol e a Terra são finitos, nossa reação pode assegurar a nossa infinidade. 

Comecemos hoje os nossos amanhãs! Para isso, é necessário voltar a “oca e ao churinga” (último e espetacular espaço do museu) e transmitir às futuras gerações o conhecimento e os gestos mais preciosos da humanidade. É como cantar a Canção da Vida e recuperar a capacidade de amar, de criar e viver em harmonia com o Planeta e todas as formas de existência do mundo.

créditos imagem: Totens do Antropoceno (disponibilizada no site do Museu do Amanhã do Rio de Janeiro)

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 19/06/2017 às 17h39 | marisazf@hotmail.com

O BRASIL AO AVESSO

 

 

“TEM QUE SER UM QUE A GENTE MATA ELE ANTES [ ...]”

Um turbilhão de sentimentos invade meu âmago e acredito de todo povo brasileiro em meio as notícias que afetam o coração da democracia e desafiam a nossa lógica. Entre gravações, áudios, flagrantes e prisões, máscaras caem e novos protagonistas entram em cena sob o comando (estranhamente) da Rede Globo.

 Para aqueles que proclamavam que a corrupção era invenção e prática de um partido - o PT- hoje talvez, o sentimento seja de abandono e de orfandade -  afinal, perderam os personagens santos proclamadores da ética e da anticorrupção. Parte significativa da população foi levada a olhar o cenário político por apenas uma perspectiva:  incitadora de ódio e da divisão de classes.  Esta perspectiva também levou a crença que as cores verde e amarela e a bandeira do Brasil pertencia a um grupo social e, sobretudo, que a solução de todos os males seria banir o partido e o governo da presidente Dilma.

 Para aqueles que apontavam que a raiz dos problemas da corrupção está alicerçada na cultura e no sistema político brasileiro, afetando cotidianamente governos e a governabilidade, portanto, histórica e sistêmica – talvez o sentimento seja de certo conforto, pois neste cenário, encontram  visibilidade das suas crenças, particularmente, quando olham  para o número de partidos políticos envolvidos, para os  homens públicos defensores dos interesses privados, num mecanismo em que os financiadores ditam a agenda do parlamento e do governo com grave ofensa à República.

 No entanto, hoje o sentimento de todo brasileiro não pode ser revanche. É preciso construir um sentimento de pertencimento, de união de esforços e jamais aceitar a conduta antirrepublicana e criminosa, como a revelação do áudio da gravação autorizada pela Justiça em que o povo brasileiro ouviu o Senador Aécio Neves do PSDB, dizer " tem que ser um que a gente mata ele antes de delatar. ”

 Não há mais tempo para divisões do povo brasileiro, não há mais espaço para ideias massificadoras da mídia, dos que defendem a concentração de riquezas, de figuras públicas que estão a serviço do capital privado e do seu próprio bolso. O sistema democrático foi e está cotidianamente sendo golpeado – não podemos ficar calados, mediante aos defensores da ditadura, da exclusão social das diferenças, dos usurpadores dos direitos básicos que tem ampliado a pobreza e a violência social.   Não há mais espaço para repetir expressões e inundar as redes sociais com piadas e (des) informações que revelam o que não sabemos ou preferimos não saber.  

É necessária a reação:  delatemos, enfrentemos – antes que nos matem!

Imagem: José Guadalupe Posada - El Jicote (1871)

 

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 01/06/2017 às 15h04 | marisazf@hotmail.com

“MAS VÓ, VÃO MATAR JESUS DE NOVO?” A Páscoa com olhos de criança

Se há algo que gosto muito é valorizar e ouvir atentamente as expressões, interpretações e os questionamentos das crianças. Minha memória guarda inúmeras histórias, pois considero que gente pequena tem um modo muito especial de ver o mundo dos adultos.
 
Nestes dias de comemorações de Páscoa lembrei-me de um garoto de quatro anos que voltara da escola e muito preocupado queria saber da avó se seria Páscoa novamente. Ao respondê-lo - afirmando que sim - ela observou que ele saiu da sua presença cabisbaixo, com ar de preocupação e certa tristeza. Então, ela o indagou: - por que estás preocupado com isso? Ele respondeu: - mas vó vão matar Jesus de novo?
 
A expressão do pequeno pode até nos fazer rir, no entanto, quero levar a sério e me solidarizar com a sua preocupação. Quero me aproximar da sensibilidade deste menino: a passagem bíblica da morte de Jesus é para mim a mais intrigante e mobilizadora história cristã. Justifico minha escolha por dois aspectos: o primeiro porque nela vejo cenas tão presentes no nosso cotidiano, o segundo, porque me identifico com as causas assumidas por Jesus e sobretudo, porque não gosto de ver injustiças.
 
Assim, se observarmos o comportamento humano daquele tempo, parece impossível que o mesmo povo que acolhe Jesus, em poucos dias o abandona e o troca por Barrabás e, como em um ato de confusão e instabilidade mental, o ama e o odeia na mesma intensidade. A possível falta de capacidade de discernimento daquele momento, me parece que chega até nossos dias e como grande tempestade nos provoca dificuldades de enxergar a verdade dos fatos.
 
A morte e a prisão servem de livramento. Não importa o que o sujeito fez, não importa o fato, o que importa é que alguém seja “crucificado” e, assim, continuamos matando Jesus quantas vezes forem necessárias para nos sentirmos mais puros, menos pecadores.
 
Nos tempos de Jesus não havia a capacidade de informações dos dias atuais, no entanto, há semelhanças nos modus operandi da justiça dos homens na premissa – alguém tem que ser crucificado – assim, a humanidade se livrará dos pecados e do mal e a ordem estará reestabelecida.  
 
Neste cenário de morte recorro novamente às crianças, pois são elas que povoam a minha mente e o meu coração como se fossem luzes de esperança, são elas que nos abordam com incomodas perguntas e nos deixam órfãos da lógica das respostas. É fato que não estamos habituados a pensar sobre muitas coisas, apenas repetimos o que nos disseram, temos rituais que se tornam nossas verdades absolutas – sem a chance de qualquer questionamento.
 
Na perspectiva desta gente miúda acredito na capacidade de mudança, de crença e ressureição de um novo tempo, não como um milagre, (se bem que ele seria bem-vindo), mas como um esforço coletivo de autocrítica e de consciência que se distancia do sentimento de vingança que apenas enche os corações de ódio.
 
Acredito na capacidade de reinventarmos uma nova e equilibrada ordem que talvez precisa se voltar à cena da morte de Jesus e se espelhar em alguns exemplos contra majoritários daquele povo – entre eles - Maria e Verônica que se compadeceram, choraram e nunca abandonaram a Jesus, sobretudo, porque abriram-se para outros olhares, outras perspectivas de justiça antes de meros julgamentos.
 
Que a Páscoa nos traga esta convicção: vale a pena ouvir as crianças, vale a pena ver com olhos de criança e romper com padrões e estereótipos de comportamentos que tem gerado morte. É preciso sair do lugar comum, pois o momento exige mais solidariedade, mais amorosidade e mais gente que ama a verdadeira justiça.
Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 13/04/2017 às 18h32 | marisazf@hotmail.com



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Marisa Zanoni Fernandes

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Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.


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