Jornal Página 3
Coluna
Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

APRENDI COM O TEMPO E A VIDA COMEMORAR

 

Aprendi desde cedo a comemorar. Das lembranças da infância, os dias de sol eram os preferidos e, por isso, particularmente comemorados, pois possibilitavam estar nas quadras, nos campinhos improvisados, na rua jogando (futebol, vôlei, handebol), pulando, rindo, correndo, levando bronca por ficar tempo demais a brincar. No entanto, os dias de chuva, lembro que serviam para um nostálgico recolhimento e para os enredos simbólicos: cuidar de um bebê, cozinhar – coisas que para alguns parecem banais, mas hoje as vejo como fundantes da minha relação com a casa e com os pequenos.

Foi nos espaços de uma família numerosa que eu comemorava quando vinha um elogio (porque as críticas eram frequentes), um embalo no colo da mãe (porque colo também era disputado), um passo de dança do pai (porque isso não era comum) ou um brinquedo ganhado (porque isso era raro).

Da infância a vida adulta – que logicamente precisou ser instituída de forma rápida - comemorei o casamento e a maternidade quando a maioria achava cedo demais. Comemorei ser professora de pequenos – quando era para alguns algo muito simples (vivemos ainda uma realidade que quanto menor a idade menor é o valor do professor). Comemorei a minha filiação e entrada no movimento político partidário de esquerda... enfim, aprendi que cada momento precisa ser vivido, aproveitado e valorizado.

Neste meio século de vida aprendi, sobretudo, com aqueles que me cercam a viver, fazer escolhas e as assumir plenamente. Amar, sorrir, dançar, chorar, ser feliz. Por que? Porque como lembra Clarice Lispector, as pessoas mais felizes não têm as melhores coisas, elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.

Portanto, o tempo, a vida e as experiências nos dão a possibilidade de olhar a trajetória de um modo mais leve e nem por isso menos crítico, mais grato do que nostálgico, mais amoroso e mais humano. Gratidão pela vida e por todos que me fazem a cada dia e a cada nova idade, ser mais GENTE!

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 04/07/2018 às 21h48 | marisazf@hotmail.com

MÃE - ENTRE O ATO BIOLÓGICO E A EXPERIÊNCIA DE SER

Me parece oportuno refletir sobre a ideia, ora tão comemorada, ora tão esquecida –  a de ser mãe.  A tarefa biológica marcada como um ato divino, torna a mulher um ser especial e santificado. Gerar um filho, produzir seu próprio alimento, manter uma vida no seu corpo é sem dúvida, algo fora do comum – um corpo hierarquicamente superior em relação ao homem.

Entretanto, a realidade não é nada generosa com as mães: no patriarcalismo tão presente ainda na sociedade, na maioria das vezes ser mãe é um ato solitário, carregado de preconceitos que indicam a santidade do ato, a devoção inata e sempre amorosa como algo inerente a maternidade. Quando se trata de conceituar mãe, portanto, a sociedade tem um conjunto de mitos e representações que vão desde a supermãe, aquela que se sacrifica por tudo, o esteio do lar até aquela que NUNCA ERRA. Estas representações têm gerado dor, angústia e sofrimento para boa parte das mães, pois são seres como qualquer outro: aprendem a SER, na experiência, na partilha, na coletividade. Se constituem, tornam-se e precisam de ajuda para criar e educar os filhos – que aliás, se foram concebidos na partilha, obviamente deveriam ser criados na partilha.  

Portanto, acredito que avançar do comércio que envolve a data comemorativa seria um pressuposto fundamental para quem deseja um mundo equilibrado e de qualidade. Nesta direção, precisaríamos perguntar: qual rede de apoio as mães têm? Quais estruturas familiares e sociais sustentem a maternagem? Quem é suporte emocional e físico das mães? Como a tarefa de cuidar e educar os meninos e meninas pode ser partilhada? Quem trabalha com a insegurança gerada no nascimento de um filho (seja biológico ou adotivo)?

Pensar sobre o padrão de maternidade construído, sobre quem são de bebês - que choram, tem dor, fraldas, doenças (isso poucas vezes mostrado pelas imagens que circulam – sorridentes e saudáveis), parece um caminho que conduziria ao reconhecimento da vida real e aproximaria a sociedade em torno da geração da vida e da maternagem.

Mães não são seres especiais, não são perfeitas – são seres capazes como qualquer outro de amar, doar-se e fazer melhor possível – se tiverem a oportunidade de viver e se constituir na tarefa de ser mãe.

Os filhos certamente trazem grande mudanças na vida de uma mulher e, com eles grandes oportunidades de ver a vida por muitos vieses e espectros que jamais seriam percebidos sem eles. Mas é preciso resignificar o percurso de modo mais humano e solidário com nossas mães e com todas as formas desta constituição, porque o nascer de um filho não é o nascer de uma mãe e enquanto a vida dela existir ela continuará necessitando de novos arranjos, novos jeitos de SER E SE CONSTITUIR MÃE!  

Fonte imagem: Visualhunt

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 12/05/2018 às 19h34 | marisazf@hotmail.com

A CARAVANA DE LULA PELO SUL: um conflito com a sombra

A passagem da caravana de Lula pelo Sul da Brasil foi intensamente marcada por paradoxos: de um lado milhares de pessoas que queriam abraçar, beijar, tocar, tirar foto, ouvir o ex-presidente e, de outro, manifestantes contrários tentando impedir a passagem de Lula com frases de ódio e atitudes violentas.

O que surpreende neste movimento é o crescimento e a explicitação da intolerância, da divisão de classes, do uso de métodos antidemocráticos e fascistas para silenciar aqueles de quem divergem, ou seja, há um distanciamento do povo brasileiro da característica que lhe é atribuída: de povo da paz.

De fato, vivemos um conflito com nossa própria sombra: não temos consciência da nossa história e da nossa identidade. Negamos nossa cor - matamos negros, subjugamos suas capacidades; não temos consciência de classe – vivemos o ethos da casa grande, desejamos ser capitão do mato confundindo quem são os oprimidos e opressores; hierarquizamos os Estados brasileiros –  desejamos separar o Sul dos demais Estados, cultivando a ideia da luta dos bons contra os maus. Confundimos direitos com benesses, justiça com vingança – açoitamos e desejamos o armamento do povo; não temos clareza de importância da Democracia e, assim, pedimos a volta da ditadura e intervenção militar.

Portanto, o que vemos é ódio alimentado, manipulado, aquecido - contra quem?  Contra Lula. Por que este ódio contra o ex-presidente que deixou o cargo com mais de 80% de aprovação (bom e ótimo); que teve a maior taxa de empregabilidade, que criou o maior número de universidade federais e de escolas técnicas? Talvez porque ele é o conflito da nossa sombra – representa tudo que cotidianamente negamos – nosso povo pobre, nossas desigualdades sociais, nossa violência. Qual como nossa sombra que assombra a ordem estabelecida é preciso apagar, impedir que se propague.

Há quem tenha orgulho de se sentir o que não é. Eu prefiro as ruas, as praças, o povo da luta por um país de todas as cores e credos. Sou mais gente no meio deste povo que quer a partilha do pão, da terra, das riquezas. Escolho este povo que luta pelos direitos humanos e pela equidade, por um país da Democracia e da liberdade – sem jamais precisar do “cavalo e chicote” contra quem quer que seja. E, assim, parafraseando o poeta Jose Saramago, onde à sombra de ti, o meu perfil é linha de certeza e de convergências, realizando justiça e ensejando a paz.

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 04/04/2018 às 16h36 | marisazf@hotmail.com

MARCAS DE QUEM TRAZ NA PELE O PAPEL DE SER MULHER

O nascimento de uma menina é marcado não apenas pelo padrão biológico (sexo), mas profundamente pela cultura em que ela está inserida e pela construção social dos papeis de homem e de mulher (gênero).

Este papel social começa a ser delineado ainda na barriga da mãe: para menina escolhemos o enxoval nas cores suaves e, preferencialmente, rosa como “cor de menina”. Os brinquedos ligados as tarefas da casa, as bonecas, as brincadeiras, os modos de sentar, entre outros, vão sendo caracterizados como o que é de meninos e o que é de meninas. Estas práticas, embora pareçam sutis, em boa parte das vezes, são reprodutoras de relações sociais desiguais de poder. Às mulheres vinculamos a ideia de “fragilidade” física, de seres dóceis e indefesos e que ocupam o lugar do cuidar e servir. Aos homens associamos a “força” física, a inteligência, a capacidade de liderar, comandar (patriarcado) e de ocupar espaços de poder.   A consequência desta construção social – espraiada nos lares, nos meios de comunicação, nas escolas, nas esferas do trabalho - tem gerado estereótipos, preconceito e violência.

A estereotipia nas relações sociais, segundo estudos da área (Santos, 1990), promove angústia e dor, afetando seriamente a saúde das mulheres.  Logo, ao falarmos do 8 de março, é preciso refletir sobre a trajetória das relações entre meninos e meninas, entre homens e mulheres para avançar na a construção de novos papeis que produzam rupturas e modifiquem essa realidade social, pois ela é empobrecedora das relações e das potencialidades humanas.

É preciso reconhecer que as marcas que todas nós mulheres trazemos na pele e na alma, particularmente as mulheres negras, as pobres, as transexuais, as indígenas, as mulheres dos rios e dos campos, inferiorizam e sufocam a nossa capacidade de contribuir na construção de um mundo sustentável e de relações de irmandade.

No entanto, na dura lida, aprendemos com exemplos de grandes mulheres, a resistir e persistir. A chorar, mas imediatamente secar as lágrimas e seguir. Aprendemos a reivindicar, protestar, levantar a bandeira do feminismo em todos os lugares do mundo. Aprendemos a lutar pela liberdade do nosso corpo e pela Democracia. Irreverentes, batendo latas, tambores, de lenços na cabeça, descalças ou de salto – buscamos equilíbrio e não estamos mais dispostas a deixarem que digam que “isso não é coisa de menina”, que aquietem nosso espírito de ação e de fé.

Conscientes, portanto, que a equidade de gênero só virá com a união das vozes espalhadas pelo mundo de mulheres que compartilham a esperança e o movimento de justiça - caminhamos.

Parabéns a todas mulheres/irmãs que caminham e inspiram a marcha, em cantos e em gritos de alerta até que todas sejamos marcadas pela liberdade de SER. 

(creditos de imagens: Vik Muniz - Espelhos de Papel)

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 08/03/2018 às 00h25 | marisazf@hotmail.com

DO PORTÃO AO RECREIO DA ESCOLA: um caminho para autonomia aprendizagens

A escola se constitui como um verdadeiro campo de confronto de ideias, culturas e perspectivas que exigem a revisão de padrões e conceitos dos profissionais e gestores da educação, especialmente, daqueles que insistem em manter seus olhos na vigilância cerceadora da autonomia e corresponsabilização.

 Da educação infantil ao ensino superior é visível a decadência das relações e o esvaziamento das funções da escola e dos sujeitos envolvidos:  o modelo instituído, pautado de um lado por práticas tradicionais e, de outro, pelo viés da “economia dos municípios”, parecem ingredientes chave para o fracasso da qualidade dos serviços ofertados.

Ao observarmos os movimentos em torno da educação e a recente polêmica em Balneário Camboriú – “quem vai cuidar do recreio e do portão das escolas” – fica evidente o distanciamento da construção de uma escola como lugar de desenvolvimento humano, de cuidado, ensino, educação e socialização. Aliás, estes mesmos que propagam que escola apenas ensina, caem em contradição, pois não é possível conceber o processo educativo apenas como uma atividade intelectual. Portanto, será que o debate deve estar centrado apenas em identificar de quem   é a função do portão, do refeitório e do recreio?  Na redução de custos para os cofres públicos?

 

É básico o entendimento que todos que trabalham na educação – diretores, motoristas, serviços gerais, cozinheiros, professores, especialistas, devem ter formação específica, pois o modo como as famílias e as crianças são acolhidas, como os alunos se movimentam nos espaços tempos demarca a compreensão de toda jornada escolar como parte integrante e estruturante da vida e das aprendizagens. Logo, não são neutros, ao contrário, revelam um conjunto de valores, de ética e estética da escola e de todos os envolvidos.  

Do portão ao recreio revelamos os conceitos de educação, de projeto educativo e se há partilha com as famílias, com os meninos e meninas que frequentam este ambiente.  Assim, Falar em partilha, diferentemente dos gestos de punição e vigilância é  falar de uma escola democrática, que define normas de forma coletiva  e, sobretudo, de uma escola que trabalha com autonomia. Neste sentido, ser autônomo significa ter ferramentas que permitam ao sujeito refletir por si só entre o certo e errado. Quando a educação é balizada por este princípio as crianças aprendem a tomar decisões e os adultos envolvidos avançam dos atos de ameaças e punições como processos de suborno e reforçadores de heteronomia – muitas vezes recorrentes no ambiente escolar, por exemplo, apenas colocar agentes de controle destes espaços, sem um projeto educativo pode ser uma estratégia de controle da violência, mas não educa os alunos para liderem com conflitos e tensões cotidianas.

Há, portanto, a necessidade de compreensão do lugar de cada sujeito e do impacto que tem na vida dos alunos as ações de todos que fazem parte do contexto educativo. Digo isso porque não basta criar um projeto de lei para dar determinado ‘bônus” para este ou aquele funcionário. É necessário enfrentar os reais problemas que nossas escolas vivem e definir um projeto educativo abrangente, sólido de conhecimento, promotor de autorregulação e corresponsabilização.

O esvaziamento de uma reflexão mais profunda sobre o rico tempo de ensino e aprendizagens que ocorrem, ou deveriam ocorrer, nos recreios escolares, servem, apenas para gerar maior distanciamento entre os diversos profissionais que atuam na escola, para o empobrecimento das relações e, é claro, para alguns vereadores terem palco para a hipocrisia.

Enquanto a comunidade se limitar a pensar que suas crianças e jovens devem estar na escola sendo “vigiados” e não discutir investimentos do ponto de vista humano e de equipamentos para que o recreio e o pátio da escola sejam promotores de oportunidades, inviabilizaremos projetos e experiências que possibilitem aos alunos o exercício da convivência solidária e da estruturação de toda jornada escolar como um tempo de aprendizagens significativas.  Afinal, quem não se recorda do recreio como um momento de lazer, liberdade, encontros e mesmo com conflitos como um momento muito desejado da jornada escolar? 

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 30/01/2018 às 11h24 | marisazf@hotmail.com

A esperança não tem fim

Ao chegarmos ao término de mais ano, é preciso resignificar as passagens, os tempos os rituais, as marcas que deixamos e também é imprescindível fazer um balanço de como fomos marcados.

No percurso da vida e do ano 2017, perdemos amigos, familiares, conhecidos, pessoas próximas e até distantes, mas que por algum, ou por muitos, sentimos profundamente e choramos.  Nos rituais de despedidas sempre há um turbilhão de emoções e eu particularmente, reflito sobre o curto tempo que temos, sobre o quanto nos apegamos a coisas insignificantes e o quanto “tiramos tempo” para se despedir, fazer homenagens, enviar flores – imagino quanta alegria em vida poderíamos dar às pessoas se enviássemos flores? Se dissemos que elas são importantes para nós? Que são amadas?

A vida em sociedade exige, amorosidade, compreensão de cidadania e de civilidade. Este ano, sem dúvida, atingimos estratosféricos números de violência, intolerância, ganância, brutalidade e mentiras. Os meios de comunicação, de modo geral, potencializados pelas redes sociais, protagonizaram um assombroso movimento separatista (e não falo do absurdo “o Sul é o meu país”), os brasileiros, ao meu ver, ao se digladiarem entre si, ocultaram o foco, as suas identidades e continuam sendo manipulados por aqueles que historicamente aviltaram o patrimônio econômico, natural e cultural do Brasil. Exercer cidadania requer um movimento profundo de disciplina, criticidade e generosidade. No entanto, esta postura e estes papéis, como de homens e mulheres, não são inatos ou biológicos – exigem movimento, uma escola, uma igreja, uma família, uma cultura dinâmica, ativa, livre e libertadora.

De fato, nestes últimos tempos, vivemos retrocessos inimagináveis – avanço do conservadorismo, da ocupação política de grupos religiosos fundamentalistas, de ataque a democracia e aos princípios constitucionais, de venda e saque do patrimônio público, de congelamento dos gastos, sobretudo, da educação, atingindo de modo perverso grupos étnicos, religiosos, homossexuais, estrangeiros, mulheres e crianças. A Reação é necessária. A Esperança não pode ter fim. O grito das ruas, o diálogo das vilas, o clamor dos excluídos precisam ser instituídos, acalentados e acolhidos por uma grande irmandade capaz de tecer “a mesma antiga trama que não se desfaz. E a coisa mais divina que há no mundo é viver cada segundo como nunca mais” (Vinicius de Morais)

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 31/12/2017 às 15h56 | marisazf@hotmail.com



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Marisa Zanoni Fernandes

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Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.


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APRENDI COM O TEMPO E A VIDA COMEMORAR

 

Aprendi desde cedo a comemorar. Das lembranças da infância, os dias de sol eram os preferidos e, por isso, particularmente comemorados, pois possibilitavam estar nas quadras, nos campinhos improvisados, na rua jogando (futebol, vôlei, handebol), pulando, rindo, correndo, levando bronca por ficar tempo demais a brincar. No entanto, os dias de chuva, lembro que serviam para um nostálgico recolhimento e para os enredos simbólicos: cuidar de um bebê, cozinhar – coisas que para alguns parecem banais, mas hoje as vejo como fundantes da minha relação com a casa e com os pequenos.

Foi nos espaços de uma família numerosa que eu comemorava quando vinha um elogio (porque as críticas eram frequentes), um embalo no colo da mãe (porque colo também era disputado), um passo de dança do pai (porque isso não era comum) ou um brinquedo ganhado (porque isso era raro).

Da infância a vida adulta – que logicamente precisou ser instituída de forma rápida - comemorei o casamento e a maternidade quando a maioria achava cedo demais. Comemorei ser professora de pequenos – quando era para alguns algo muito simples (vivemos ainda uma realidade que quanto menor a idade menor é o valor do professor). Comemorei a minha filiação e entrada no movimento político partidário de esquerda... enfim, aprendi que cada momento precisa ser vivido, aproveitado e valorizado.

Neste meio século de vida aprendi, sobretudo, com aqueles que me cercam a viver, fazer escolhas e as assumir plenamente. Amar, sorrir, dançar, chorar, ser feliz. Por que? Porque como lembra Clarice Lispector, as pessoas mais felizes não têm as melhores coisas, elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.

Portanto, o tempo, a vida e as experiências nos dão a possibilidade de olhar a trajetória de um modo mais leve e nem por isso menos crítico, mais grato do que nostálgico, mais amoroso e mais humano. Gratidão pela vida e por todos que me fazem a cada dia e a cada nova idade, ser mais GENTE!

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 04/07/2018 às 21h48 | marisazf@hotmail.com

MÃE - ENTRE O ATO BIOLÓGICO E A EXPERIÊNCIA DE SER

Me parece oportuno refletir sobre a ideia, ora tão comemorada, ora tão esquecida –  a de ser mãe.  A tarefa biológica marcada como um ato divino, torna a mulher um ser especial e santificado. Gerar um filho, produzir seu próprio alimento, manter uma vida no seu corpo é sem dúvida, algo fora do comum – um corpo hierarquicamente superior em relação ao homem.

Entretanto, a realidade não é nada generosa com as mães: no patriarcalismo tão presente ainda na sociedade, na maioria das vezes ser mãe é um ato solitário, carregado de preconceitos que indicam a santidade do ato, a devoção inata e sempre amorosa como algo inerente a maternidade. Quando se trata de conceituar mãe, portanto, a sociedade tem um conjunto de mitos e representações que vão desde a supermãe, aquela que se sacrifica por tudo, o esteio do lar até aquela que NUNCA ERRA. Estas representações têm gerado dor, angústia e sofrimento para boa parte das mães, pois são seres como qualquer outro: aprendem a SER, na experiência, na partilha, na coletividade. Se constituem, tornam-se e precisam de ajuda para criar e educar os filhos – que aliás, se foram concebidos na partilha, obviamente deveriam ser criados na partilha.  

Portanto, acredito que avançar do comércio que envolve a data comemorativa seria um pressuposto fundamental para quem deseja um mundo equilibrado e de qualidade. Nesta direção, precisaríamos perguntar: qual rede de apoio as mães têm? Quais estruturas familiares e sociais sustentem a maternagem? Quem é suporte emocional e físico das mães? Como a tarefa de cuidar e educar os meninos e meninas pode ser partilhada? Quem trabalha com a insegurança gerada no nascimento de um filho (seja biológico ou adotivo)?

Pensar sobre o padrão de maternidade construído, sobre quem são de bebês - que choram, tem dor, fraldas, doenças (isso poucas vezes mostrado pelas imagens que circulam – sorridentes e saudáveis), parece um caminho que conduziria ao reconhecimento da vida real e aproximaria a sociedade em torno da geração da vida e da maternagem.

Mães não são seres especiais, não são perfeitas – são seres capazes como qualquer outro de amar, doar-se e fazer melhor possível – se tiverem a oportunidade de viver e se constituir na tarefa de ser mãe.

Os filhos certamente trazem grande mudanças na vida de uma mulher e, com eles grandes oportunidades de ver a vida por muitos vieses e espectros que jamais seriam percebidos sem eles. Mas é preciso resignificar o percurso de modo mais humano e solidário com nossas mães e com todas as formas desta constituição, porque o nascer de um filho não é o nascer de uma mãe e enquanto a vida dela existir ela continuará necessitando de novos arranjos, novos jeitos de SER E SE CONSTITUIR MÃE!  

Fonte imagem: Visualhunt

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 12/05/2018 às 19h34 | marisazf@hotmail.com

A CARAVANA DE LULA PELO SUL: um conflito com a sombra

A passagem da caravana de Lula pelo Sul da Brasil foi intensamente marcada por paradoxos: de um lado milhares de pessoas que queriam abraçar, beijar, tocar, tirar foto, ouvir o ex-presidente e, de outro, manifestantes contrários tentando impedir a passagem de Lula com frases de ódio e atitudes violentas.

O que surpreende neste movimento é o crescimento e a explicitação da intolerância, da divisão de classes, do uso de métodos antidemocráticos e fascistas para silenciar aqueles de quem divergem, ou seja, há um distanciamento do povo brasileiro da característica que lhe é atribuída: de povo da paz.

De fato, vivemos um conflito com nossa própria sombra: não temos consciência da nossa história e da nossa identidade. Negamos nossa cor - matamos negros, subjugamos suas capacidades; não temos consciência de classe – vivemos o ethos da casa grande, desejamos ser capitão do mato confundindo quem são os oprimidos e opressores; hierarquizamos os Estados brasileiros –  desejamos separar o Sul dos demais Estados, cultivando a ideia da luta dos bons contra os maus. Confundimos direitos com benesses, justiça com vingança – açoitamos e desejamos o armamento do povo; não temos clareza de importância da Democracia e, assim, pedimos a volta da ditadura e intervenção militar.

Portanto, o que vemos é ódio alimentado, manipulado, aquecido - contra quem?  Contra Lula. Por que este ódio contra o ex-presidente que deixou o cargo com mais de 80% de aprovação (bom e ótimo); que teve a maior taxa de empregabilidade, que criou o maior número de universidade federais e de escolas técnicas? Talvez porque ele é o conflito da nossa sombra – representa tudo que cotidianamente negamos – nosso povo pobre, nossas desigualdades sociais, nossa violência. Qual como nossa sombra que assombra a ordem estabelecida é preciso apagar, impedir que se propague.

Há quem tenha orgulho de se sentir o que não é. Eu prefiro as ruas, as praças, o povo da luta por um país de todas as cores e credos. Sou mais gente no meio deste povo que quer a partilha do pão, da terra, das riquezas. Escolho este povo que luta pelos direitos humanos e pela equidade, por um país da Democracia e da liberdade – sem jamais precisar do “cavalo e chicote” contra quem quer que seja. E, assim, parafraseando o poeta Jose Saramago, onde à sombra de ti, o meu perfil é linha de certeza e de convergências, realizando justiça e ensejando a paz.

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 04/04/2018 às 16h36 | marisazf@hotmail.com

MARCAS DE QUEM TRAZ NA PELE O PAPEL DE SER MULHER

O nascimento de uma menina é marcado não apenas pelo padrão biológico (sexo), mas profundamente pela cultura em que ela está inserida e pela construção social dos papeis de homem e de mulher (gênero).

Este papel social começa a ser delineado ainda na barriga da mãe: para menina escolhemos o enxoval nas cores suaves e, preferencialmente, rosa como “cor de menina”. Os brinquedos ligados as tarefas da casa, as bonecas, as brincadeiras, os modos de sentar, entre outros, vão sendo caracterizados como o que é de meninos e o que é de meninas. Estas práticas, embora pareçam sutis, em boa parte das vezes, são reprodutoras de relações sociais desiguais de poder. Às mulheres vinculamos a ideia de “fragilidade” física, de seres dóceis e indefesos e que ocupam o lugar do cuidar e servir. Aos homens associamos a “força” física, a inteligência, a capacidade de liderar, comandar (patriarcado) e de ocupar espaços de poder.   A consequência desta construção social – espraiada nos lares, nos meios de comunicação, nas escolas, nas esferas do trabalho - tem gerado estereótipos, preconceito e violência.

A estereotipia nas relações sociais, segundo estudos da área (Santos, 1990), promove angústia e dor, afetando seriamente a saúde das mulheres.  Logo, ao falarmos do 8 de março, é preciso refletir sobre a trajetória das relações entre meninos e meninas, entre homens e mulheres para avançar na a construção de novos papeis que produzam rupturas e modifiquem essa realidade social, pois ela é empobrecedora das relações e das potencialidades humanas.

É preciso reconhecer que as marcas que todas nós mulheres trazemos na pele e na alma, particularmente as mulheres negras, as pobres, as transexuais, as indígenas, as mulheres dos rios e dos campos, inferiorizam e sufocam a nossa capacidade de contribuir na construção de um mundo sustentável e de relações de irmandade.

No entanto, na dura lida, aprendemos com exemplos de grandes mulheres, a resistir e persistir. A chorar, mas imediatamente secar as lágrimas e seguir. Aprendemos a reivindicar, protestar, levantar a bandeira do feminismo em todos os lugares do mundo. Aprendemos a lutar pela liberdade do nosso corpo e pela Democracia. Irreverentes, batendo latas, tambores, de lenços na cabeça, descalças ou de salto – buscamos equilíbrio e não estamos mais dispostas a deixarem que digam que “isso não é coisa de menina”, que aquietem nosso espírito de ação e de fé.

Conscientes, portanto, que a equidade de gênero só virá com a união das vozes espalhadas pelo mundo de mulheres que compartilham a esperança e o movimento de justiça - caminhamos.

Parabéns a todas mulheres/irmãs que caminham e inspiram a marcha, em cantos e em gritos de alerta até que todas sejamos marcadas pela liberdade de SER. 

(creditos de imagens: Vik Muniz - Espelhos de Papel)

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 08/03/2018 às 00h25 | marisazf@hotmail.com

DO PORTÃO AO RECREIO DA ESCOLA: um caminho para autonomia aprendizagens

A escola se constitui como um verdadeiro campo de confronto de ideias, culturas e perspectivas que exigem a revisão de padrões e conceitos dos profissionais e gestores da educação, especialmente, daqueles que insistem em manter seus olhos na vigilância cerceadora da autonomia e corresponsabilização.

 Da educação infantil ao ensino superior é visível a decadência das relações e o esvaziamento das funções da escola e dos sujeitos envolvidos:  o modelo instituído, pautado de um lado por práticas tradicionais e, de outro, pelo viés da “economia dos municípios”, parecem ingredientes chave para o fracasso da qualidade dos serviços ofertados.

Ao observarmos os movimentos em torno da educação e a recente polêmica em Balneário Camboriú – “quem vai cuidar do recreio e do portão das escolas” – fica evidente o distanciamento da construção de uma escola como lugar de desenvolvimento humano, de cuidado, ensino, educação e socialização. Aliás, estes mesmos que propagam que escola apenas ensina, caem em contradição, pois não é possível conceber o processo educativo apenas como uma atividade intelectual. Portanto, será que o debate deve estar centrado apenas em identificar de quem   é a função do portão, do refeitório e do recreio?  Na redução de custos para os cofres públicos?

 

É básico o entendimento que todos que trabalham na educação – diretores, motoristas, serviços gerais, cozinheiros, professores, especialistas, devem ter formação específica, pois o modo como as famílias e as crianças são acolhidas, como os alunos se movimentam nos espaços tempos demarca a compreensão de toda jornada escolar como parte integrante e estruturante da vida e das aprendizagens. Logo, não são neutros, ao contrário, revelam um conjunto de valores, de ética e estética da escola e de todos os envolvidos.  

Do portão ao recreio revelamos os conceitos de educação, de projeto educativo e se há partilha com as famílias, com os meninos e meninas que frequentam este ambiente.  Assim, Falar em partilha, diferentemente dos gestos de punição e vigilância é  falar de uma escola democrática, que define normas de forma coletiva  e, sobretudo, de uma escola que trabalha com autonomia. Neste sentido, ser autônomo significa ter ferramentas que permitam ao sujeito refletir por si só entre o certo e errado. Quando a educação é balizada por este princípio as crianças aprendem a tomar decisões e os adultos envolvidos avançam dos atos de ameaças e punições como processos de suborno e reforçadores de heteronomia – muitas vezes recorrentes no ambiente escolar, por exemplo, apenas colocar agentes de controle destes espaços, sem um projeto educativo pode ser uma estratégia de controle da violência, mas não educa os alunos para liderem com conflitos e tensões cotidianas.

Há, portanto, a necessidade de compreensão do lugar de cada sujeito e do impacto que tem na vida dos alunos as ações de todos que fazem parte do contexto educativo. Digo isso porque não basta criar um projeto de lei para dar determinado ‘bônus” para este ou aquele funcionário. É necessário enfrentar os reais problemas que nossas escolas vivem e definir um projeto educativo abrangente, sólido de conhecimento, promotor de autorregulação e corresponsabilização.

O esvaziamento de uma reflexão mais profunda sobre o rico tempo de ensino e aprendizagens que ocorrem, ou deveriam ocorrer, nos recreios escolares, servem, apenas para gerar maior distanciamento entre os diversos profissionais que atuam na escola, para o empobrecimento das relações e, é claro, para alguns vereadores terem palco para a hipocrisia.

Enquanto a comunidade se limitar a pensar que suas crianças e jovens devem estar na escola sendo “vigiados” e não discutir investimentos do ponto de vista humano e de equipamentos para que o recreio e o pátio da escola sejam promotores de oportunidades, inviabilizaremos projetos e experiências que possibilitem aos alunos o exercício da convivência solidária e da estruturação de toda jornada escolar como um tempo de aprendizagens significativas.  Afinal, quem não se recorda do recreio como um momento de lazer, liberdade, encontros e mesmo com conflitos como um momento muito desejado da jornada escolar? 

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 30/01/2018 às 11h24 | marisazf@hotmail.com

A esperança não tem fim

Ao chegarmos ao término de mais ano, é preciso resignificar as passagens, os tempos os rituais, as marcas que deixamos e também é imprescindível fazer um balanço de como fomos marcados.

No percurso da vida e do ano 2017, perdemos amigos, familiares, conhecidos, pessoas próximas e até distantes, mas que por algum, ou por muitos, sentimos profundamente e choramos.  Nos rituais de despedidas sempre há um turbilhão de emoções e eu particularmente, reflito sobre o curto tempo que temos, sobre o quanto nos apegamos a coisas insignificantes e o quanto “tiramos tempo” para se despedir, fazer homenagens, enviar flores – imagino quanta alegria em vida poderíamos dar às pessoas se enviássemos flores? Se dissemos que elas são importantes para nós? Que são amadas?

A vida em sociedade exige, amorosidade, compreensão de cidadania e de civilidade. Este ano, sem dúvida, atingimos estratosféricos números de violência, intolerância, ganância, brutalidade e mentiras. Os meios de comunicação, de modo geral, potencializados pelas redes sociais, protagonizaram um assombroso movimento separatista (e não falo do absurdo “o Sul é o meu país”), os brasileiros, ao meu ver, ao se digladiarem entre si, ocultaram o foco, as suas identidades e continuam sendo manipulados por aqueles que historicamente aviltaram o patrimônio econômico, natural e cultural do Brasil. Exercer cidadania requer um movimento profundo de disciplina, criticidade e generosidade. No entanto, esta postura e estes papéis, como de homens e mulheres, não são inatos ou biológicos – exigem movimento, uma escola, uma igreja, uma família, uma cultura dinâmica, ativa, livre e libertadora.

De fato, nestes últimos tempos, vivemos retrocessos inimagináveis – avanço do conservadorismo, da ocupação política de grupos religiosos fundamentalistas, de ataque a democracia e aos princípios constitucionais, de venda e saque do patrimônio público, de congelamento dos gastos, sobretudo, da educação, atingindo de modo perverso grupos étnicos, religiosos, homossexuais, estrangeiros, mulheres e crianças. A Reação é necessária. A Esperança não pode ter fim. O grito das ruas, o diálogo das vilas, o clamor dos excluídos precisam ser instituídos, acalentados e acolhidos por uma grande irmandade capaz de tecer “a mesma antiga trama que não se desfaz. E a coisa mais divina que há no mundo é viver cada segundo como nunca mais” (Vinicius de Morais)

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 31/12/2017 às 15h56 | marisazf@hotmail.com



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Marisa Zanoni Fernandes

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Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.


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