Jornal Página 3
Coluna
Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

EU NÃO AUTORIZO

Ao regressar de uma breve saída de carro, me peguei a rememorar as pessoas que encontrei, os animais que observei e, uma e outra conversa que troquei nas esquinas e nas sinaleiras que parei.

Cenas comuns da vida e da coletividade que o isolamento físico que vivemos faz reparar com mais cuidado; faz borbulhar o desejo de compreender, interpretar e dar sentido a esse complexo cenário. Então, ao olhar os fragmentos dessa teia urbana que reúne tantos perfis, tantas histórias e tantas subjetividades, é um exercício de desacomodação e de estranhamento.

É feriado. É Dia do Trabalhador. É Dia da Trabalhadora. Um sábado de outono cinzento e de clima brando. Um dia de colocar um leve casaco e, quem sabe, agasalhar as inquietudes dessa estranha real idade ou será realidade?  

Das várias cenas que me vêm à mente cintilam algumas: as mãos dadas – as mais comuns vinham de pessoas de cabelos brancos, andar marcado pelo tempo e de alguma mãe ou pai a conduzir uma criança pequena. As mãos dadas eram para dois polos da existência. Para as duas idades de revelação mais explícita da necessidade de acolhimento, engajamento, enroscamento. Mãos dadas para o amor. Mãos dadas como fio condutor. Um fio de proteção e de pertencimento.  Os corpos em movimento – sobre bicicletas, caminhando ou correndo, lá estão os corpos a ocupar espaço, a deslocar-se. Corpos em busca, talvez de saúde, estética, entretenimento, força, energia ou talvez, até de fuga. Corpos que também se enroscam, mas de modo diferente. De modo indiferente. Corpos que pedem passagem, que disputam espaço. Um movimento de mascarados e de desmascarados. Os animais – as patas, os pelos, os latidos são entremeados por vozes humanas. Os animais parecem simbólicos agentes de comunicação, relação, proteção e defesa.  Me deparei com muitos e, é claro, estava eu também na companhia do meu. São os cachorros que roubam a cena e se constituem maioria junto à urbanidade. Eles atraem meu olhar, sobretudo, aqueles que caminham livres, sem coleiras. Desviando de carros, de pessoas, desfilam na avenida como se estivessem na passarela. E não demora muito para que me deixem apreensiva – serão atropelados? Para onde vão? Ah, cuidado! Reduza a velocidade! Deem passagem a eles. Uma passagem como um portal de convivência íntima. Uma relação ancestral de amizade. E logo aparecem outros cães nas janelas de um e de outro carro. – Nós passeando com os filhos, comenta sorrindo, um amigo na sinaleira. Um bem-querer, um enroscamento com outros seres. Um novo arranjo familiar.  Os “biqueiros” – quem serão eles? Intitulei assim todos que estão fazendo “um bico”, recolhendo materiais reciclados, revirando lixeiras, vendendo panos de prato, doces, fazendo malabarismos, ou simplesmente pedindo algum trocado. Alguma ajuda. Todos os trabalhadores e todas as trabalhadoras “informais”. Todos os apartados da lógica do relógio ponto, do feriado, do dia de descanso, da carteira de trabalho, da remuneração fixa.  Os “biqueiros” me comovem.  São pessoas em sofrimento e em busca. São nômades, como todas as cenas acima: corpos em movimento, mãos em ação; no entanto, por motivos diferentes – aqui, o que se sobressai é a dureza da luta diária pela sobrevivência. Pela migalha. É um ir sem a certeza do regresso. Uma travessia sem cuidado da mão estendida, da mão entrelaçada.  É a desigualdade revelada no nosso nariz, invadindo nosso corpo e estraçalhando a nossa alma. Cenas que circundam uma territorialidade e demarcam a nossa desumanidade.

Hoje, então, rendo homenagem a esses homens e a essas mulheres. Esses trabalhadores e essas trabalhadoras. Rendo homenagem a essa brava gente brasileira que não está vestida de verde e amarelo pedindo a volta da ditadura. Essa gente vive a ditadura da falta, da fome, da segregação, do não pertencimento. Sente na pele o Estado opressor, porque vive em um país que, de modo avassalador, tem engrossado as fileiras de desempregados, de informalizados, de “biqueiros”. Um Estado que tem engrossado as fileiras da morte.

Volto às cenas dessa complexa e estranha urbanidade e não posso ficar inerte. Calada. E anuncio: – Não autorizo a insanidade falar por mim! Prefiro ecoar junto àqueles que solidariamente acolhem, estendem as mãos, sussurram canções de esperança, distribuem o pão, amenizam as dores, curam, educam, protegem e não estão indiferentes ao outro. Àqueles que anunciam e denunciam a falsa normalidade. São esses que esboçam as melhores cenas e apontam caminhos para uma nova civilidade

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 01/05/2021 às 23h52 | marisazf@hotmail.com

Outono e o Tempo

É outono e há ruídos que atravessam a mente. Há visões que poluem o cenário. Há nebulosos feixes de luz que parecem arquitetar uma confusão mental atravessada por dores, por vidas arrancadas abruptamente. Fora de hora. Fora do tempo. Fora de ritmo. Há ausências.

Nesse fantasmagórico tempo, o relógio parou. Freou a vida. Deixou um rastro de sangue que corre quase silencioso pelos corpos, pelo chão. Um rastro senhor do hoje e marcador do amanhã. Um rastro expropriador de futuro.

Como observar esse tempo? Como enfrentar os ruídos que invadem o bom senso? É possível naturalizar esse tempo como o novo normal? E a confusão mental, será minha ou será universal?

É outono de um tempo que exige muito. Distrair-se, talvez, poderia ser uma saída. Fechar os ouvidos, endurecer o coração, ou, quem sabe, recolher-se na escuridão. Banhar-se de sangue e seguir a procissão.

Parece, no entanto, necessário inquietar-se. Estranhar o tempo. Escutar cuidadosamente cada tic tac ao amanhecer, ao entardecer, ao anoitecer. Apropriar-se do tempo para interpretá-lo. Correlacioná-lo. Integrar-se a ele como um corpo somatizado em outros corpos. Um corpo e um tempo ancestralizados, marcados pela busca do viver e pelo benquerer. Silenciar e escutar. Recolher-se individualmente para proteger-se coletivamente. Um estar só para estar junto.

Ah, o tempo nesses tempos, é memória. É marca e experiência. É força e fraqueza. É alegria e tristeza. Não! Não é apenas decurso de acontecimentos, como a cronometria do sistema de (des)organização social tem marcado as jornadas de trabalho, de sono, de lazer, de férias, de aulas; como batidas incessantes na mente, nos corpos que modulam os relógios físicos e biológicos. Não é só. É uma variação infinita, informal, plástica, marcada por saltos, rupturas e diminuições de velocidades, como destaca o filósofo francês Gilles Deleuze em sua obra A Imagem-Tempo (1985).

Reconhecer cada detalhe desse tempo e desse outono, é como revirar a terra, recolher as folhas secas, contemplar as múltiplas nuances. Parar e seguir. Deixar a luz invadir cada poro, percorrer o corpo, banhar de energia o coração. Contemplar a umbicalidade da vida com a terra, com as plantas, com as múltiplas formas de existências e temporalidades. Insistir na fé e ação que movimenta a vida plena de sentidos e de compaixão. Porque esse outono será único como o tempo. Como o hoje.

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 02/04/2021 às 10h13 | marisazf@hotmail.com

Afinal, o que temos pensado e proposto para os bebês e para as crianças pequenas?

O descompassado tempo em que vivemos tem inúmeros desencadeadores de estresse e geradores de angústia, medo, falta de perspectiva, sentimento de culpa e ansiedade. A alteração na rotina do trabalho, da família, da escola, do lazer, é  fato - tem nos afetado de múltiplos modos.

Nesse contexto, como estão as crianças? Como esse ambiente tem afetado os bebês? O que temos proposto às crianças pequenas?

Meu interesse por essa gente miúda, é de longa data. Está sobretudo, vinculado ao processo de estudo, pesquisa e trabalho que me possibilitou ampliar o olhar e a responsabilidade social sobre as crianças e suas infâncias. Responsabilidade também  anunciada pela Declaração universal dos Direitos da Criança (1959), pela Constituição Federal (1988), pela Convenção sobre os Direitos da Criança (1990), pelo Estatuto da Criança e Adolescente (1990), pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (1996)  e,  entre outras, podemos destacar pela Emenda Constitucional Nº 65 (2010), que fez alterações fundamentais, incluindo ao Art. 227, que estrutura a  base da Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente -  pelo Estado, Família e sociedade -  “ É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.”

É crível que tivemos avanços com os dispositivos legais, mas é fato que estão à frente da realidade. Esse hiato é percebido na escassez de vagas nas creches, na infraestrutura das escolas, na arquitetura adultocêntrica dos espaços urbanos e dos equipamentos culturais, no déficit de áreas verdes e de natureza, nos abusos sexuais, nas palmadas, nos gritos com os pequenos, na imagem que ainda persiste de seres incapazes, imaturos, agitados que precisam ser controlados.

O tripé – Estado, Família e Sociedade para exercer a função atribuída legalmente e se constituir como uma rede de proteção, necessita sair do enredo de “bela adormecida” e acordar para a urgência que a criança tem de ser e ter prioridade.

Os jargões que “elas são o futuro”, já não cambem, porque as crianças que não têm assegurado o presente, não terão futuro. Não podemos enganá-las falando em futuro, sem ser e ter um presente. Um hoje!

O desenvolvimento de 0 a 6 anos de idade pode ser considerado o alicerce para todo o desenvolvimento social, cognitivo, psicomotor e emocional. Nessa fase, o fortalecimento de políticas públicas, de estreitamento e corresponsabilização de uma rede de apoio são essenciais. Da mesma forma, a falta de cuidados na primeira infância e a ausência de políticas públicas dirigidas para a área contribuem para o aumento de doenças crônicas, atrasam o desenvolvimento das capacidades e ampli­am a desigualdade como alerta o Relatório UNESCO/ Brasil, OECD, Ministério da Saúde de 2002.  Nesse viés, investir na primeira infância é essencial tanto para a redução de gastos públicos, como para promover equidade social e atender aos direitos já preconizados.

Navegar nesse mar de informações, nos estudos do campo da Antropologia, da Psicologia, da Sociologia da Infância, da Pedagogia da Infância, do arcabouço da legislação, requer, sob meu ponto de vista, reconstruir o conceito e a imagem de bebês e de crianças pequenas de modo íntimo e interligado a elas. Seria impossível projetar algo significativo para elas sem a escuta, sem o silêncio, sem a consciência respeitosa com o tempo delas. Escuta de corpo inteiro. Entrega que permite romper com as prescrições e enquadramentos uniformes, com os currículos escolarizantes, com as normas disciplinadoras de corpos e mentes. Situações que, visíveis em vários contextos sociais, tem burlado direitos e afetado o desenvolvimento integral, as individualidades, bem como empobrecido as relações sociais e a coletividade.   Um coletivo distante da própria acepção da palavra:  colligire – colher junto.

 A infância precisa ser compreendida como um lugar de vida que é constituído socialmente –  eu, outro, nós. Fruto das interações e mediações culturais, o que exige uma organização de contextos e experiências ricas, variadas, planejadas cuidadosamente e continuamente avaliadas “com olhos de criança”, com a voz delas. Bebês e crianças pequenas se comunicam, são sujeitos completos e capazes.

Acredito que os bebês e as crianças pequenas têm, de algum modo, revelado durante a pandemia  (Covide19), suas potencialidades e suas necessidades para grupos e setores que antes mal sabiam de suas existências. As crianças eram invisíveis - presenças ausentes e responsabilidades transferidas.

As casas já não são as mesmas com o tempo ampliado junto aos familiares.  As escolas e os professores estão órfãos sem suas presenças físicas. O silêncio das creches é ensurdecedor. Os grupos de colegas e amigos reduzidos deixaram uma lacuna enorme de contado e de afeto. Afinal, essas revelações podem ter nos permitido aprender com elas e por meio delas encontrar nossa própria criança perdida no tempo, nas amareladas fotografias, nos cabelos brancos.... Um reencontro generoso e sensível gerador de proximidades e potencializador de novos valores. 

Mediante isso, que não é pouco, não podemos permitir que o distanciamento necessário durante a pandemia seja regra de governos e comunidades descomprometidas com os direitos das crianças. Esse tempo foi e é de aprendizagem, portanto, deve alavancar políticas e estruturas sociais que assegurem o bem-estar e a centralidade das crianças nos investimentos, nos tempos sociais e familiares. Nos tempos e espaços escolares.

Em um tempo assim, ainda temos tempo de fazer escolhas com e pelas crianças. Se desejarmos reunir esforços e redes de apoio abriremos novas perspectivas que por certo, serão potencializadoras de processos de solidariedade e de equidade social, de novas e contínuas aprendizagens – as crianças certamente estarão abertas a nos ensinar, a compartilhar.  

Entre algumas questões, podemos pensar e propor:

  • contextos educativos seguros nas escolas infantis amplos, arejados, com visão e contextos para o ambiente externo;
  • agrupamentos etários com idades mistas, favorecendo encontros e experiências com pequenos grupos;
  • espaços alternativos na cidade onde o brincar livre, com materiais variados e não estruturados permitam o protagonismo dos pequenos;
  • tempos que respeitem as crianças, seus ritmos, sem pressa para que saiam de suas infâncias;
  • interlocução entre famílias, escolas e sociedade;
  • espaços interdisciplinares que fortaleçam a construção de políticas públicas de primeiríssima infância;
  • centros de pesquisa e documentação da infância – planejar tendo por base a realidade, a cultura local, regional;
  • áreas para o brincar junto a natureza, espaços verdes e abertos nas áreas urbanas – não podemos mais admitir um processo de urbanização pautado no consumo e privatização dos espaços públicos;

Nesse descompassado tempo, ainda há tempo!

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 10/02/2021 às 15h49 | marisazf@hotmail.com

SENTIR: SEM OU COM TINO

 

Naquela tarde não lembro ao certo se chovia ou fazia sol.

As sensações eram tantas que de fato não tem importância as condições do tempo, o sol, a chuva. Havia algo diferente em mim e no ar. Apenas me permiti sentir.

 Sentir parece algo humano, ou uma dimensão humana que está sendo esquecida. Precisa ser reaquecida.

Quero sentir. Quero dar sentido em um conturbado movimento fora de sentido. Celebrar a estesia. O incrível processo viver como um intenso deleite que necessita incessantemente de sentido.

Gesto, cor, força, fraqueza, angústia, liberdade, tudo tem sua essência simbólica que ora se faz feliz, ora se faz trágica.

Mas afinal, o que é a vida senão uma busca constante de sentidos?

Estamos rodeados pelos “sem”.  Pelos sem ter, sem ser, sem prazer, sem tino. Sem ânimo de nada e antônimo de tudo.

Me permito percorrer nesta aventura humana e mesmo sem ser, dar voz ao sentir que diz: Sinta a força do seu amor, do seu calor, do seu sabor,  para que outros possam mergulhar nas quimeras que afagam a alma, que  tornam os dias mais delicados, mais plenos de sentido.

E assim vamos, como pontes que unem caminhos ou ramos de flores que embelezam o jardim. Como o canto dos pássaros que harmonizam os ouvidos ou uma leve neblina que permite caminhar sem controle total do caminho e te faz suavemente ir ao encontro do que tem de mais precioso do ser e ter sentido: você com o outro. Afinal, sem o outro qual sentido de si?

Sinto que é preciso ir buscar, narrar, ver. Enfrentar o empobrecido e aborrecido sentido atribuído ao contexto social, as dores alheias, aos amores clandestinos, aos horrores.

Que tal dar um novo sentido? Talvez encontremos um jeito desajeitado de viver neste enquadrado mundo sem o mínimo sentido. Nesse mundo avesso ao bom senso de sentir.

Sem ressentimento com sua e com a minha anestesia. Mas que venha logo uma magia, transforme a alegoria e espante o mau sentido. Abra seu coração e deixe que ele diga a direção (mas cuidado com a aceleração – você pode ficar sem tino).

Basta de obedecer ao comando das batalhas. Deixe de ouvir a voz e o grito: “sentido’!. Saia da brutal obediência militar e vem militar no sentido do sentir.

Siga o sentido humano: aquele de voz mais sensível, que te envolve no sentido da compaixão, da paixão, do bem querer. Daquele que não se apequena na mediocridade da discriminação, do preconceito, mas que busca o sentido da existência no coletivo e generosamente se entrega no exercício de SER com sentido, com tino.

Bem, qual o sentido que você vai escolher?

Aquela tarde.... Eu lembro, não era vazia!

*obra Labirintítese Tchello D'Barros

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 19/01/2021 às 12h21 | marisazf@hotmail.com

QUARESMA NATALINA

 

24 de dezembro de 2020 – o dia está quente e depois de uma noite de chuvas fortes o sol apareceu com intensidade. Acordei mais pensativa que outros dias. Tenho a sensação de certa nostalgia no ar. Será que é a chegada de mais um Natal? Será porque esse é um Natal muito diferente?

Não tenho dúvidas que as tradições natalinas, seus rituais, os enfeites, os preparativos da ceia mexem comigo – não somente porque me envolvo diretamente nisso, mas porque um turbilhão de pensamentos me acompanha. Me inquietam. Cada gesto é carregado de lembranças, de pessoas, de histórias que vivi e que perspectivo que outros vivam.  

No entanto, esse não é qualquer Natal. Vivemos um ano, que a meu ver, é semelhante a quaresma cristã – calvário, injustiças, corrupção, sofrimento, isolamento e mortes. Quanta gente perdemos? Quantos amigos, pais, irmãos, mães, tios não estão mais presentes nessa ceia?

Perdemos gente conhecida e tantos desconhecidos, mas nem por isso deixamos de chorar, sentir a dor alheia.  A COVID19, ceifou muitas vidas.  Tragédias naturais como de Presidente Getúlio levou casas, sonhos, bens materiais e vidas. Vidas que importam muito. Vidas que fazem falta, que deixam o mundo menor e abrem, não só um lugar vazio à mesa, mas no coração de tenta gente.

Na contramão dessa “quaresma natalina” – há sempre alento. Há ressurreição naqueles que fisicamente se recuperam e renascem, naqueles que emocionalmente se implicam com as dores alheias, se doam e conseguem levar esperança e solidariedade a múltiplos lugares.  Afinal, em meio a tanto despreparo e insensibilidade como jamais vista em um presidente brasileiro, há brasileiros e brasileiras que se movimentam em outra direção: conclamam por sensatez e dedicam o melhor de si para pesquisar a cura, para salvar vidas, amenizar as dores.

Com essa gente, mais uma vez o Natal pode apontar uma luz, ou melhor, uma estrela no firmamento. Aquela luz que direciona, dribla a ignorância que cega, o ódio que divide e permite enxergar o nascer no horizonte. Um nascer simples e recheado de amor a vida e a justiça social. Aquele nascer em meio ao estábulo, as ruas, junto aos que dormem nas calçadas, nos becos, nos hospitais, junto aqueles que esperam uma mão, para conseguir nascer/renascer.

Que possamos nesse Natal diferente – não sermos indiferentes. Que possamos tirar as vendas e enxergar a necessidade de seguir um caminho solidário e humanitário, porque afinal, a nossa humanidade se dá nas relações com o outro – é somente isso que nos afeta – afeto!

Que esse afeto possa chegar a cada família, que como a nossa, por conta da COVID está com um lugar vazio a mesa.

Então, sejamos o melhor presente e a melhor presença ausente. Nos esforcemos para seguir com esperança, acreditando na ciência e na capacidade humana de nascer, de levantar multidões para a construção de uma sociedade saudável em que todos, todas e todes estejam irmanados – afetados sensivelmente – porque esse Natal precisa muito disso.  

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 24/12/2020 às 20h00 | marisazf@hotmail.com

AS NOVAS COREOGRAFIAS SOCIAIS, O ESPAÇO ESCOLAR E A SAUDADE

O espaço escolar, da Creche ao Ensino Superior, sempre foi povoado por múltiplas vozes e sonoridades e, sobretudo, por múltiplos encontros. Risos, conversas, o choro, os burburinhos dos grupos, o atrito das rodas das mochilas, o arrastar das carteiras, o calor do abraço, as rodas de conversa, os grupos de amigos, os colegas, os professores .... Como viver sem eles? Como lidar sem essa materialidade? Como se situar nessa nova coreografia social?

É certo que o silêncio e o isolamento desses últimos meses têm afetado a todos e de modo profundo – aos professores, aos alunos e às famílias. Acostumamo-nos com as sonoridades, com a arquitetura dos prédios escolares, com a organização das salas, com o calendário escolar, com a constituição dos dias letivos, com a mecânica disciplinar dos horários. Em um engendramento quase que automatizado, naturalizamos o modo de enxergar os corpos e a ocupação do espaço escolar – essa coreografia materializada nas filas, nas áreas para circular, parar, correr, brincar, sentar-se – agora também inabitada, silenciada. Percebemos que não sabemos viver sem elas, sem eles. Sem os sons e as pessoas que habitam o espaço escolar, sem a rotina, a dinâmica pedagógica e social da escola, sofremos! Sentimos saudades.

Desse modo, o isolamento social forçado pela pandemia da COVID-19 revela uma das mais perversas faces - exponencia o sofrimento. Afeta as crenças, os valores, as instituições, o sistema financeiro, o mundo do trabalho, as relações sociais. Como uma tempestade nos desloca do eixo, reconfigura a casa, a escola, os espaços físicos e nosso interior.  

É fato que a escola foi absorvendo inúmeros papéis e, desde a existência da tradição pedagógica, que tem sua origem no século XII, tem uma série de medidas: legislativas, cientificas, metodológicas, filosóficas, econômicas, apenas para citar algumas, por meio das quais impactam na sua função e no modo como a sociedade a define. Em que medida a escola de hoje tem contribuído? Qual o papel dos professores? Qual a função da escola para a sociedade e para as famílias?  Qual o papel da família na partilha da educação dos filhos? O que é preciso saber para ensinar de agora em diante?

Em um contexto altamente complexo e em meio a uma tomada de decisões emergenciais de segurança e de saúde pública, estamos longe da possiblidade de respostas conclusivas. No entanto, parece que assistimos, em escala internacional, a uma necessidade de reconceitualização da escola, do espaço escolar, mas não só. Há uma necessidade de reconceitualização da vida, da vida em comunidade e do próprio processo civilizatório.

Não é de hoje que vivemos isolados e afastados do compromisso coletivo de cuidar, de ensinar e de educar as crianças, os jovens e os adultos. Não é de hoje que muitas famílias transferiram suas funções para a escola; que a sociedade trata os problemas sociais, sobretudo, das profundas desigualdades econômicas e culturais, de modo simplista e deslocado. Não é de hoje que ciência, o conhecimento científico – fonte precípua de atuação da escola – vem sendo atacada com movimentos que deslegitimam a autoridade pedagógica e científica e aprofundam o distanciamento entre a escola e as famílias. Não é de hoje que a violência e a exclusão social chegam desnudadas ao espaço escolar e não encontram estrutura física, pedagógica e emocional para acolhê-las, tampouco a escola encontra no conjunto da sociedade processos de corresponsabilização com a transformação desse cenário. Vivemos isolados em estruturas arquitetônicas que enclausuram corpos e cerceiam a liberdade, a criatividade e a solidariedade. A distância foi reconfigurada ou, talvez agora, tornou-se estatizada – normatizada pelo Estado, por isso, então, mais visível.

Reconceituar esses e outros tantos cenários é também a possiblidade de enxergar, nesse mais amplo e visível isolamento, o quanto padecemos de proximidades, de partilha de corresponsabilização. De coreografias sociais implicadas à vida coletiva. Necessitamos um reencontro, um entrelaçamento com as famílias e com o conjunto da sociedade para assegurar não apenas a nossa sobrevivência, mas existência humana e a função social dos espaços educativos.

 É tempo de reconfigurar o ambiente escolar, ampliar experiências de espaços ao ar livre e nas áreas verdes; organizar as salas com menos alunos, mais arejadas e interconectadas; espaços abertos à participação das famílias, da comunidade. Uma coreografia capaz de sustentar relações e interações seguras, diversificadas e respeitosas com as especificidades do coletivo de sujeitos que compõem esses espaços. Um contexto educativo com materiais alternativos, com uso de tecnologias e estratégias que aproximem os envolvidos e desafiem a pensar, a protagonizar uma nova e qualitativa relação com o conhecimento e sua função transformadora. Um ambiente que reconfigure o lugar da mediação pedagógica, a imagem dos professores capaz de sustentar uma motivação profissional potente, uma perspectiva bioecológica(BROFENBRENNER, 1997) de educação que compreenda a interconexão das múltiplas esferas – ambientais, sociais, emocionais, econômicas, culturais do desenvolvimento humano.

Reconhecer a necessidade de reconfiguração acredito ser um caminho para buscar novos modos de relacionarmo-nos com o meio onde vivemos, com as pessoas que nos cercam e, sobretudo, conosco. Com a casa interna – tão cheia de medos, de angústias, tão carente de afeto. Uma nova forma de experimentação, exercida, como diz Larrosa (2007), por meio do que nos passa, do que nos desacomoda e tem a ver com a criação de uma ética, de uma escolha por um novo modo de vida. Essa postura abre-se para a sociedade como um todo, conectando-se intimamente e preservando a vida em todas as dimensões.

Tomar consciência dessa nova realidade é um movimento que precisa ser exercido individual e coletivamente, sob pena de não termos memórias para projetar e imaginar o futuro. O silêncio das escolas não poderá ter sido em vão. O isolamento, tampouco. É preciso ousadia, coragem para enxergar o impacto do distanciamento no aprofundamento das desigualdades sociais e do papel da escola como um espaço de humanização, proteção, partilha e construção de conhecimento. Um espaço de múltiplas e qualitativas coreografias de vida e de encontros.  

É possível juntos coreografarmos um novo e mais generoso contexto social e escolar, pois há, entre tantos sentimentos, a saudade, que é um tênue, mas poderoso fio que sustenta o desejo de nossa proximidade, de nossa humanidade.

 Imagem: autor desconhecido

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 29/06/2020 às 16h28 | marisazf@hotmail.com



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Marisa Zanoni Fernandes

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Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.














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Marisa Fernandes
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EU NÃO AUTORIZO

Ao regressar de uma breve saída de carro, me peguei a rememorar as pessoas que encontrei, os animais que observei e, uma e outra conversa que troquei nas esquinas e nas sinaleiras que parei.

Cenas comuns da vida e da coletividade que o isolamento físico que vivemos faz reparar com mais cuidado; faz borbulhar o desejo de compreender, interpretar e dar sentido a esse complexo cenário. Então, ao olhar os fragmentos dessa teia urbana que reúne tantos perfis, tantas histórias e tantas subjetividades, é um exercício de desacomodação e de estranhamento.

É feriado. É Dia do Trabalhador. É Dia da Trabalhadora. Um sábado de outono cinzento e de clima brando. Um dia de colocar um leve casaco e, quem sabe, agasalhar as inquietudes dessa estranha real idade ou será realidade?  

Das várias cenas que me vêm à mente cintilam algumas: as mãos dadas – as mais comuns vinham de pessoas de cabelos brancos, andar marcado pelo tempo e de alguma mãe ou pai a conduzir uma criança pequena. As mãos dadas eram para dois polos da existência. Para as duas idades de revelação mais explícita da necessidade de acolhimento, engajamento, enroscamento. Mãos dadas para o amor. Mãos dadas como fio condutor. Um fio de proteção e de pertencimento.  Os corpos em movimento – sobre bicicletas, caminhando ou correndo, lá estão os corpos a ocupar espaço, a deslocar-se. Corpos em busca, talvez de saúde, estética, entretenimento, força, energia ou talvez, até de fuga. Corpos que também se enroscam, mas de modo diferente. De modo indiferente. Corpos que pedem passagem, que disputam espaço. Um movimento de mascarados e de desmascarados. Os animais – as patas, os pelos, os latidos são entremeados por vozes humanas. Os animais parecem simbólicos agentes de comunicação, relação, proteção e defesa.  Me deparei com muitos e, é claro, estava eu também na companhia do meu. São os cachorros que roubam a cena e se constituem maioria junto à urbanidade. Eles atraem meu olhar, sobretudo, aqueles que caminham livres, sem coleiras. Desviando de carros, de pessoas, desfilam na avenida como se estivessem na passarela. E não demora muito para que me deixem apreensiva – serão atropelados? Para onde vão? Ah, cuidado! Reduza a velocidade! Deem passagem a eles. Uma passagem como um portal de convivência íntima. Uma relação ancestral de amizade. E logo aparecem outros cães nas janelas de um e de outro carro. – Nós passeando com os filhos, comenta sorrindo, um amigo na sinaleira. Um bem-querer, um enroscamento com outros seres. Um novo arranjo familiar.  Os “biqueiros” – quem serão eles? Intitulei assim todos que estão fazendo “um bico”, recolhendo materiais reciclados, revirando lixeiras, vendendo panos de prato, doces, fazendo malabarismos, ou simplesmente pedindo algum trocado. Alguma ajuda. Todos os trabalhadores e todas as trabalhadoras “informais”. Todos os apartados da lógica do relógio ponto, do feriado, do dia de descanso, da carteira de trabalho, da remuneração fixa.  Os “biqueiros” me comovem.  São pessoas em sofrimento e em busca. São nômades, como todas as cenas acima: corpos em movimento, mãos em ação; no entanto, por motivos diferentes – aqui, o que se sobressai é a dureza da luta diária pela sobrevivência. Pela migalha. É um ir sem a certeza do regresso. Uma travessia sem cuidado da mão estendida, da mão entrelaçada.  É a desigualdade revelada no nosso nariz, invadindo nosso corpo e estraçalhando a nossa alma. Cenas que circundam uma territorialidade e demarcam a nossa desumanidade.

Hoje, então, rendo homenagem a esses homens e a essas mulheres. Esses trabalhadores e essas trabalhadoras. Rendo homenagem a essa brava gente brasileira que não está vestida de verde e amarelo pedindo a volta da ditadura. Essa gente vive a ditadura da falta, da fome, da segregação, do não pertencimento. Sente na pele o Estado opressor, porque vive em um país que, de modo avassalador, tem engrossado as fileiras de desempregados, de informalizados, de “biqueiros”. Um Estado que tem engrossado as fileiras da morte.

Volto às cenas dessa complexa e estranha urbanidade e não posso ficar inerte. Calada. E anuncio: – Não autorizo a insanidade falar por mim! Prefiro ecoar junto àqueles que solidariamente acolhem, estendem as mãos, sussurram canções de esperança, distribuem o pão, amenizam as dores, curam, educam, protegem e não estão indiferentes ao outro. Àqueles que anunciam e denunciam a falsa normalidade. São esses que esboçam as melhores cenas e apontam caminhos para uma nova civilidade

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 01/05/2021 às 23h52 | marisazf@hotmail.com

Outono e o Tempo

É outono e há ruídos que atravessam a mente. Há visões que poluem o cenário. Há nebulosos feixes de luz que parecem arquitetar uma confusão mental atravessada por dores, por vidas arrancadas abruptamente. Fora de hora. Fora do tempo. Fora de ritmo. Há ausências.

Nesse fantasmagórico tempo, o relógio parou. Freou a vida. Deixou um rastro de sangue que corre quase silencioso pelos corpos, pelo chão. Um rastro senhor do hoje e marcador do amanhã. Um rastro expropriador de futuro.

Como observar esse tempo? Como enfrentar os ruídos que invadem o bom senso? É possível naturalizar esse tempo como o novo normal? E a confusão mental, será minha ou será universal?

É outono de um tempo que exige muito. Distrair-se, talvez, poderia ser uma saída. Fechar os ouvidos, endurecer o coração, ou, quem sabe, recolher-se na escuridão. Banhar-se de sangue e seguir a procissão.

Parece, no entanto, necessário inquietar-se. Estranhar o tempo. Escutar cuidadosamente cada tic tac ao amanhecer, ao entardecer, ao anoitecer. Apropriar-se do tempo para interpretá-lo. Correlacioná-lo. Integrar-se a ele como um corpo somatizado em outros corpos. Um corpo e um tempo ancestralizados, marcados pela busca do viver e pelo benquerer. Silenciar e escutar. Recolher-se individualmente para proteger-se coletivamente. Um estar só para estar junto.

Ah, o tempo nesses tempos, é memória. É marca e experiência. É força e fraqueza. É alegria e tristeza. Não! Não é apenas decurso de acontecimentos, como a cronometria do sistema de (des)organização social tem marcado as jornadas de trabalho, de sono, de lazer, de férias, de aulas; como batidas incessantes na mente, nos corpos que modulam os relógios físicos e biológicos. Não é só. É uma variação infinita, informal, plástica, marcada por saltos, rupturas e diminuições de velocidades, como destaca o filósofo francês Gilles Deleuze em sua obra A Imagem-Tempo (1985).

Reconhecer cada detalhe desse tempo e desse outono, é como revirar a terra, recolher as folhas secas, contemplar as múltiplas nuances. Parar e seguir. Deixar a luz invadir cada poro, percorrer o corpo, banhar de energia o coração. Contemplar a umbicalidade da vida com a terra, com as plantas, com as múltiplas formas de existências e temporalidades. Insistir na fé e ação que movimenta a vida plena de sentidos e de compaixão. Porque esse outono será único como o tempo. Como o hoje.

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 02/04/2021 às 10h13 | marisazf@hotmail.com

Afinal, o que temos pensado e proposto para os bebês e para as crianças pequenas?

O descompassado tempo em que vivemos tem inúmeros desencadeadores de estresse e geradores de angústia, medo, falta de perspectiva, sentimento de culpa e ansiedade. A alteração na rotina do trabalho, da família, da escola, do lazer, é  fato - tem nos afetado de múltiplos modos.

Nesse contexto, como estão as crianças? Como esse ambiente tem afetado os bebês? O que temos proposto às crianças pequenas?

Meu interesse por essa gente miúda, é de longa data. Está sobretudo, vinculado ao processo de estudo, pesquisa e trabalho que me possibilitou ampliar o olhar e a responsabilidade social sobre as crianças e suas infâncias. Responsabilidade também  anunciada pela Declaração universal dos Direitos da Criança (1959), pela Constituição Federal (1988), pela Convenção sobre os Direitos da Criança (1990), pelo Estatuto da Criança e Adolescente (1990), pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (1996)  e,  entre outras, podemos destacar pela Emenda Constitucional Nº 65 (2010), que fez alterações fundamentais, incluindo ao Art. 227, que estrutura a  base da Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente -  pelo Estado, Família e sociedade -  “ É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.”

É crível que tivemos avanços com os dispositivos legais, mas é fato que estão à frente da realidade. Esse hiato é percebido na escassez de vagas nas creches, na infraestrutura das escolas, na arquitetura adultocêntrica dos espaços urbanos e dos equipamentos culturais, no déficit de áreas verdes e de natureza, nos abusos sexuais, nas palmadas, nos gritos com os pequenos, na imagem que ainda persiste de seres incapazes, imaturos, agitados que precisam ser controlados.

O tripé – Estado, Família e Sociedade para exercer a função atribuída legalmente e se constituir como uma rede de proteção, necessita sair do enredo de “bela adormecida” e acordar para a urgência que a criança tem de ser e ter prioridade.

Os jargões que “elas são o futuro”, já não cambem, porque as crianças que não têm assegurado o presente, não terão futuro. Não podemos enganá-las falando em futuro, sem ser e ter um presente. Um hoje!

O desenvolvimento de 0 a 6 anos de idade pode ser considerado o alicerce para todo o desenvolvimento social, cognitivo, psicomotor e emocional. Nessa fase, o fortalecimento de políticas públicas, de estreitamento e corresponsabilização de uma rede de apoio são essenciais. Da mesma forma, a falta de cuidados na primeira infância e a ausência de políticas públicas dirigidas para a área contribuem para o aumento de doenças crônicas, atrasam o desenvolvimento das capacidades e ampli­am a desigualdade como alerta o Relatório UNESCO/ Brasil, OECD, Ministério da Saúde de 2002.  Nesse viés, investir na primeira infância é essencial tanto para a redução de gastos públicos, como para promover equidade social e atender aos direitos já preconizados.

Navegar nesse mar de informações, nos estudos do campo da Antropologia, da Psicologia, da Sociologia da Infância, da Pedagogia da Infância, do arcabouço da legislação, requer, sob meu ponto de vista, reconstruir o conceito e a imagem de bebês e de crianças pequenas de modo íntimo e interligado a elas. Seria impossível projetar algo significativo para elas sem a escuta, sem o silêncio, sem a consciência respeitosa com o tempo delas. Escuta de corpo inteiro. Entrega que permite romper com as prescrições e enquadramentos uniformes, com os currículos escolarizantes, com as normas disciplinadoras de corpos e mentes. Situações que, visíveis em vários contextos sociais, tem burlado direitos e afetado o desenvolvimento integral, as individualidades, bem como empobrecido as relações sociais e a coletividade.   Um coletivo distante da própria acepção da palavra:  colligire – colher junto.

 A infância precisa ser compreendida como um lugar de vida que é constituído socialmente –  eu, outro, nós. Fruto das interações e mediações culturais, o que exige uma organização de contextos e experiências ricas, variadas, planejadas cuidadosamente e continuamente avaliadas “com olhos de criança”, com a voz delas. Bebês e crianças pequenas se comunicam, são sujeitos completos e capazes.

Acredito que os bebês e as crianças pequenas têm, de algum modo, revelado durante a pandemia  (Covide19), suas potencialidades e suas necessidades para grupos e setores que antes mal sabiam de suas existências. As crianças eram invisíveis - presenças ausentes e responsabilidades transferidas.

As casas já não são as mesmas com o tempo ampliado junto aos familiares.  As escolas e os professores estão órfãos sem suas presenças físicas. O silêncio das creches é ensurdecedor. Os grupos de colegas e amigos reduzidos deixaram uma lacuna enorme de contado e de afeto. Afinal, essas revelações podem ter nos permitido aprender com elas e por meio delas encontrar nossa própria criança perdida no tempo, nas amareladas fotografias, nos cabelos brancos.... Um reencontro generoso e sensível gerador de proximidades e potencializador de novos valores. 

Mediante isso, que não é pouco, não podemos permitir que o distanciamento necessário durante a pandemia seja regra de governos e comunidades descomprometidas com os direitos das crianças. Esse tempo foi e é de aprendizagem, portanto, deve alavancar políticas e estruturas sociais que assegurem o bem-estar e a centralidade das crianças nos investimentos, nos tempos sociais e familiares. Nos tempos e espaços escolares.

Em um tempo assim, ainda temos tempo de fazer escolhas com e pelas crianças. Se desejarmos reunir esforços e redes de apoio abriremos novas perspectivas que por certo, serão potencializadoras de processos de solidariedade e de equidade social, de novas e contínuas aprendizagens – as crianças certamente estarão abertas a nos ensinar, a compartilhar.  

Entre algumas questões, podemos pensar e propor:

  • contextos educativos seguros nas escolas infantis amplos, arejados, com visão e contextos para o ambiente externo;
  • agrupamentos etários com idades mistas, favorecendo encontros e experiências com pequenos grupos;
  • espaços alternativos na cidade onde o brincar livre, com materiais variados e não estruturados permitam o protagonismo dos pequenos;
  • tempos que respeitem as crianças, seus ritmos, sem pressa para que saiam de suas infâncias;
  • interlocução entre famílias, escolas e sociedade;
  • espaços interdisciplinares que fortaleçam a construção de políticas públicas de primeiríssima infância;
  • centros de pesquisa e documentação da infância – planejar tendo por base a realidade, a cultura local, regional;
  • áreas para o brincar junto a natureza, espaços verdes e abertos nas áreas urbanas – não podemos mais admitir um processo de urbanização pautado no consumo e privatização dos espaços públicos;

Nesse descompassado tempo, ainda há tempo!

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 10/02/2021 às 15h49 | marisazf@hotmail.com

SENTIR: SEM OU COM TINO

 

Naquela tarde não lembro ao certo se chovia ou fazia sol.

As sensações eram tantas que de fato não tem importância as condições do tempo, o sol, a chuva. Havia algo diferente em mim e no ar. Apenas me permiti sentir.

 Sentir parece algo humano, ou uma dimensão humana que está sendo esquecida. Precisa ser reaquecida.

Quero sentir. Quero dar sentido em um conturbado movimento fora de sentido. Celebrar a estesia. O incrível processo viver como um intenso deleite que necessita incessantemente de sentido.

Gesto, cor, força, fraqueza, angústia, liberdade, tudo tem sua essência simbólica que ora se faz feliz, ora se faz trágica.

Mas afinal, o que é a vida senão uma busca constante de sentidos?

Estamos rodeados pelos “sem”.  Pelos sem ter, sem ser, sem prazer, sem tino. Sem ânimo de nada e antônimo de tudo.

Me permito percorrer nesta aventura humana e mesmo sem ser, dar voz ao sentir que diz: Sinta a força do seu amor, do seu calor, do seu sabor,  para que outros possam mergulhar nas quimeras que afagam a alma, que  tornam os dias mais delicados, mais plenos de sentido.

E assim vamos, como pontes que unem caminhos ou ramos de flores que embelezam o jardim. Como o canto dos pássaros que harmonizam os ouvidos ou uma leve neblina que permite caminhar sem controle total do caminho e te faz suavemente ir ao encontro do que tem de mais precioso do ser e ter sentido: você com o outro. Afinal, sem o outro qual sentido de si?

Sinto que é preciso ir buscar, narrar, ver. Enfrentar o empobrecido e aborrecido sentido atribuído ao contexto social, as dores alheias, aos amores clandestinos, aos horrores.

Que tal dar um novo sentido? Talvez encontremos um jeito desajeitado de viver neste enquadrado mundo sem o mínimo sentido. Nesse mundo avesso ao bom senso de sentir.

Sem ressentimento com sua e com a minha anestesia. Mas que venha logo uma magia, transforme a alegoria e espante o mau sentido. Abra seu coração e deixe que ele diga a direção (mas cuidado com a aceleração – você pode ficar sem tino).

Basta de obedecer ao comando das batalhas. Deixe de ouvir a voz e o grito: “sentido’!. Saia da brutal obediência militar e vem militar no sentido do sentir.

Siga o sentido humano: aquele de voz mais sensível, que te envolve no sentido da compaixão, da paixão, do bem querer. Daquele que não se apequena na mediocridade da discriminação, do preconceito, mas que busca o sentido da existência no coletivo e generosamente se entrega no exercício de SER com sentido, com tino.

Bem, qual o sentido que você vai escolher?

Aquela tarde.... Eu lembro, não era vazia!

*obra Labirintítese Tchello D'Barros

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 19/01/2021 às 12h21 | marisazf@hotmail.com

QUARESMA NATALINA

 

24 de dezembro de 2020 – o dia está quente e depois de uma noite de chuvas fortes o sol apareceu com intensidade. Acordei mais pensativa que outros dias. Tenho a sensação de certa nostalgia no ar. Será que é a chegada de mais um Natal? Será porque esse é um Natal muito diferente?

Não tenho dúvidas que as tradições natalinas, seus rituais, os enfeites, os preparativos da ceia mexem comigo – não somente porque me envolvo diretamente nisso, mas porque um turbilhão de pensamentos me acompanha. Me inquietam. Cada gesto é carregado de lembranças, de pessoas, de histórias que vivi e que perspectivo que outros vivam.  

No entanto, esse não é qualquer Natal. Vivemos um ano, que a meu ver, é semelhante a quaresma cristã – calvário, injustiças, corrupção, sofrimento, isolamento e mortes. Quanta gente perdemos? Quantos amigos, pais, irmãos, mães, tios não estão mais presentes nessa ceia?

Perdemos gente conhecida e tantos desconhecidos, mas nem por isso deixamos de chorar, sentir a dor alheia.  A COVID19, ceifou muitas vidas.  Tragédias naturais como de Presidente Getúlio levou casas, sonhos, bens materiais e vidas. Vidas que importam muito. Vidas que fazem falta, que deixam o mundo menor e abrem, não só um lugar vazio à mesa, mas no coração de tenta gente.

Na contramão dessa “quaresma natalina” – há sempre alento. Há ressurreição naqueles que fisicamente se recuperam e renascem, naqueles que emocionalmente se implicam com as dores alheias, se doam e conseguem levar esperança e solidariedade a múltiplos lugares.  Afinal, em meio a tanto despreparo e insensibilidade como jamais vista em um presidente brasileiro, há brasileiros e brasileiras que se movimentam em outra direção: conclamam por sensatez e dedicam o melhor de si para pesquisar a cura, para salvar vidas, amenizar as dores.

Com essa gente, mais uma vez o Natal pode apontar uma luz, ou melhor, uma estrela no firmamento. Aquela luz que direciona, dribla a ignorância que cega, o ódio que divide e permite enxergar o nascer no horizonte. Um nascer simples e recheado de amor a vida e a justiça social. Aquele nascer em meio ao estábulo, as ruas, junto aos que dormem nas calçadas, nos becos, nos hospitais, junto aqueles que esperam uma mão, para conseguir nascer/renascer.

Que possamos nesse Natal diferente – não sermos indiferentes. Que possamos tirar as vendas e enxergar a necessidade de seguir um caminho solidário e humanitário, porque afinal, a nossa humanidade se dá nas relações com o outro – é somente isso que nos afeta – afeto!

Que esse afeto possa chegar a cada família, que como a nossa, por conta da COVID está com um lugar vazio a mesa.

Então, sejamos o melhor presente e a melhor presença ausente. Nos esforcemos para seguir com esperança, acreditando na ciência e na capacidade humana de nascer, de levantar multidões para a construção de uma sociedade saudável em que todos, todas e todes estejam irmanados – afetados sensivelmente – porque esse Natal precisa muito disso.  

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 24/12/2020 às 20h00 | marisazf@hotmail.com

AS NOVAS COREOGRAFIAS SOCIAIS, O ESPAÇO ESCOLAR E A SAUDADE

O espaço escolar, da Creche ao Ensino Superior, sempre foi povoado por múltiplas vozes e sonoridades e, sobretudo, por múltiplos encontros. Risos, conversas, o choro, os burburinhos dos grupos, o atrito das rodas das mochilas, o arrastar das carteiras, o calor do abraço, as rodas de conversa, os grupos de amigos, os colegas, os professores .... Como viver sem eles? Como lidar sem essa materialidade? Como se situar nessa nova coreografia social?

É certo que o silêncio e o isolamento desses últimos meses têm afetado a todos e de modo profundo – aos professores, aos alunos e às famílias. Acostumamo-nos com as sonoridades, com a arquitetura dos prédios escolares, com a organização das salas, com o calendário escolar, com a constituição dos dias letivos, com a mecânica disciplinar dos horários. Em um engendramento quase que automatizado, naturalizamos o modo de enxergar os corpos e a ocupação do espaço escolar – essa coreografia materializada nas filas, nas áreas para circular, parar, correr, brincar, sentar-se – agora também inabitada, silenciada. Percebemos que não sabemos viver sem elas, sem eles. Sem os sons e as pessoas que habitam o espaço escolar, sem a rotina, a dinâmica pedagógica e social da escola, sofremos! Sentimos saudades.

Desse modo, o isolamento social forçado pela pandemia da COVID-19 revela uma das mais perversas faces - exponencia o sofrimento. Afeta as crenças, os valores, as instituições, o sistema financeiro, o mundo do trabalho, as relações sociais. Como uma tempestade nos desloca do eixo, reconfigura a casa, a escola, os espaços físicos e nosso interior.  

É fato que a escola foi absorvendo inúmeros papéis e, desde a existência da tradição pedagógica, que tem sua origem no século XII, tem uma série de medidas: legislativas, cientificas, metodológicas, filosóficas, econômicas, apenas para citar algumas, por meio das quais impactam na sua função e no modo como a sociedade a define. Em que medida a escola de hoje tem contribuído? Qual o papel dos professores? Qual a função da escola para a sociedade e para as famílias?  Qual o papel da família na partilha da educação dos filhos? O que é preciso saber para ensinar de agora em diante?

Em um contexto altamente complexo e em meio a uma tomada de decisões emergenciais de segurança e de saúde pública, estamos longe da possiblidade de respostas conclusivas. No entanto, parece que assistimos, em escala internacional, a uma necessidade de reconceitualização da escola, do espaço escolar, mas não só. Há uma necessidade de reconceitualização da vida, da vida em comunidade e do próprio processo civilizatório.

Não é de hoje que vivemos isolados e afastados do compromisso coletivo de cuidar, de ensinar e de educar as crianças, os jovens e os adultos. Não é de hoje que muitas famílias transferiram suas funções para a escola; que a sociedade trata os problemas sociais, sobretudo, das profundas desigualdades econômicas e culturais, de modo simplista e deslocado. Não é de hoje que ciência, o conhecimento científico – fonte precípua de atuação da escola – vem sendo atacada com movimentos que deslegitimam a autoridade pedagógica e científica e aprofundam o distanciamento entre a escola e as famílias. Não é de hoje que a violência e a exclusão social chegam desnudadas ao espaço escolar e não encontram estrutura física, pedagógica e emocional para acolhê-las, tampouco a escola encontra no conjunto da sociedade processos de corresponsabilização com a transformação desse cenário. Vivemos isolados em estruturas arquitetônicas que enclausuram corpos e cerceiam a liberdade, a criatividade e a solidariedade. A distância foi reconfigurada ou, talvez agora, tornou-se estatizada – normatizada pelo Estado, por isso, então, mais visível.

Reconceituar esses e outros tantos cenários é também a possiblidade de enxergar, nesse mais amplo e visível isolamento, o quanto padecemos de proximidades, de partilha de corresponsabilização. De coreografias sociais implicadas à vida coletiva. Necessitamos um reencontro, um entrelaçamento com as famílias e com o conjunto da sociedade para assegurar não apenas a nossa sobrevivência, mas existência humana e a função social dos espaços educativos.

 É tempo de reconfigurar o ambiente escolar, ampliar experiências de espaços ao ar livre e nas áreas verdes; organizar as salas com menos alunos, mais arejadas e interconectadas; espaços abertos à participação das famílias, da comunidade. Uma coreografia capaz de sustentar relações e interações seguras, diversificadas e respeitosas com as especificidades do coletivo de sujeitos que compõem esses espaços. Um contexto educativo com materiais alternativos, com uso de tecnologias e estratégias que aproximem os envolvidos e desafiem a pensar, a protagonizar uma nova e qualitativa relação com o conhecimento e sua função transformadora. Um ambiente que reconfigure o lugar da mediação pedagógica, a imagem dos professores capaz de sustentar uma motivação profissional potente, uma perspectiva bioecológica(BROFENBRENNER, 1997) de educação que compreenda a interconexão das múltiplas esferas – ambientais, sociais, emocionais, econômicas, culturais do desenvolvimento humano.

Reconhecer a necessidade de reconfiguração acredito ser um caminho para buscar novos modos de relacionarmo-nos com o meio onde vivemos, com as pessoas que nos cercam e, sobretudo, conosco. Com a casa interna – tão cheia de medos, de angústias, tão carente de afeto. Uma nova forma de experimentação, exercida, como diz Larrosa (2007), por meio do que nos passa, do que nos desacomoda e tem a ver com a criação de uma ética, de uma escolha por um novo modo de vida. Essa postura abre-se para a sociedade como um todo, conectando-se intimamente e preservando a vida em todas as dimensões.

Tomar consciência dessa nova realidade é um movimento que precisa ser exercido individual e coletivamente, sob pena de não termos memórias para projetar e imaginar o futuro. O silêncio das escolas não poderá ter sido em vão. O isolamento, tampouco. É preciso ousadia, coragem para enxergar o impacto do distanciamento no aprofundamento das desigualdades sociais e do papel da escola como um espaço de humanização, proteção, partilha e construção de conhecimento. Um espaço de múltiplas e qualitativas coreografias de vida e de encontros.  

É possível juntos coreografarmos um novo e mais generoso contexto social e escolar, pois há, entre tantos sentimentos, a saudade, que é um tênue, mas poderoso fio que sustenta o desejo de nossa proximidade, de nossa humanidade.

 Imagem: autor desconhecido

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 29/06/2020 às 16h28 | marisazf@hotmail.com



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Marisa Zanoni Fernandes

Assina a coluna Marisa Fernandes

Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.