Jornal Página 3
Coluna
Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

ELEIÇÕES E A ARTE DE SABER QUEM SOMOS

Os selvagens

Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam pôr a mão
E depois a tomaram como espantados

Tomo como ponto de partida para esta reflexão a poesia de Oswaldo de Andrade por dois motivos: o primeiro porque acredito que a ARTE de modo geral, nos permite sair das linhas tradicionais de pensamento – o que por si só já se torna imprescindível; o segundo porque esta poesia é parte do manifesto antropofágico – que tinha entre os objetivos, estruturar a cultura nacional. A antropofagia -  metaforicamente parece servir.   

O atual momento eleitoral, tem evidenciado quase antropofagia: as pessoas parecem praticar o canibalismo!  O nível de acirramento parece ter ultrapassado todos os limites: brigas, ódio, ofensas, agressões verbais e físicas em locais públicos e privados, revelam uma selvageria – não aquela de Oswaldo de Andrade, mas uma totalmente desprovida do reconhecimento de pertencimento do povo brasileiro enquanto nação.

Parece, portanto, que o propósito da década de 20/30 de estruturar a cultura nacional, ainda é um desafio, pois necessitaríamos reconhecer os índios, negros, pobres, mulheres, LGBTs. Necessitaríamos descortinar   quem são os “selvagens”, os “escravizados, ” os “ditadores”. Para isso, precisaríamos, portanto, de possibilidades de constituição de cidadania e de processos humanizadores.

 As eleições de fato revelam quem somos, as causas que abraçamos justificam as bandeiras que empunhamos. Talvez seja por isso, que assistimos espantados à revelação sem o mínimo pudor de homofóbicos, defensores da pena de morte, do armamento, da misoginia, racismo e, a maioria o faz, em nome da “Família, Pátria e de Deus”.  A tríade já conhecida e intimamente ligada a moral que geraram os mais vergonhosos episódios da humanidade - como o nazismo.

Antes das eleições a pauta era a falta de emprego, o preço dos combustíveis, a instabilidade da economia e seus reflexos. Hoje, para determinados grupos, não importa as propostas do candidato sobre economia, trabalho, educação, saúde, previdência, segurança, cultura. Importa o discurso e a solução fáceis – matar, prender, banir, esterilizar em nome da moral e o antipetismo. Ideias que rapidamente germinam regadas por anônimos internautas, especialistas em imagens virais que antagoniza extremismos e clamores de mudanças – sem importar quais serão. Nascera, como lembra Mário Assis Ferreira (2017) o quarto poder a “videocracia”.

Esta pratica política não pode caber no nosso horizonte. Urge, portanto, a necessidade da resistência, da sabedoria e da serenidade. Que possamos, neste domingo, lembrar de todos que lutaram e até morreram para que pudemos ir às urnas. Em nome dos que nos antecederem, em nome dos que virão – que a paz possa ser nosso valor e a divergência a possiblidade de avançarmos para um BRASIL de solidariedade e de justiça social.

 

Quadro: Abaporu de tarsília do Amaral (1928)

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 06/10/2018 às 19h55 | marisazf@hotmail.com

UMA CIDADE PARA AMAR, VIVER E TRANSFORMAR

Balneário Camboriú, esta jovem cidade é símbolo de alegria e inspiração por suas belezas naturais, pelo clima ameno, pela atmosfera e energia que pairam sobre o ar.
 
O mar e suas águas tranquilas embalam sonhos, enchem o coração de modo que é impossível não dizer que esta é uma cidade para AMAR.
 
Do seu povo nativo (quase esquecido), a todos que escolheram aqui VIVER, a sensação é dupla: privilégio e desafio. É visível que, para alguns, a Balneário é próspera, é um lugar de negócios rentáveis, o que cria, de certo modo, uma percepção (vinculada a perversa ideia de meritocracia) que há espaço para todos crescerem economicamente e serem felizes na Maravilha do Atlântico.
 
No entanto, o que parece haver de equívoco nessa percepção? Ela mascara a realidade, cria uma Ilusão social que causa dor, sofrimento e promove o individualismo. Neste sentido, a cidade cosmopolita, com um dos mais custosos metros quadrados do Brasil, impõe á dureza do silêncio e solidão (os índices alarmantes de suicídios, falam por si só).
 
Essas contradições difíceis de serem ditas em meio as comemorações, nos impelem a uma responsável reflexão e à TRANSFORMAÇÃO.
 
Transformar requer reconhecer a sobrevivência da cidade. Isso exige uma profunda mudança de percepção e pensamento sobre a interconexão entre a vida humana, a economia e o meio ambiente. Exige pensar e agir de modo inclusivo, cooperativo e sustentável para satisfazer as necessidades e aspirações do presente, sem com isso, diminuir as chances e perspectivas das gerações futuras (CAPRA, 2006).
 
Uma cidade para VIVER plenamente, AMAR incondicionalmente, requer TRANSFORMAR-SE.
 
Somos ondas do mesmo MAR,
 
Folhas da mesma árvore e
 
Flores do mesmo jardim,
 
Cuidemos do ambiente em que moramos, pois nossos filhos, netos e bisnetos poderão um dia desfrutar dos sonhos que aqui já tivemos e da vida que aqui já vivemos. Parabéns a todos e todas que fazem desta cidade um lugar responsavelmente melhor para viver.
Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 20/07/2018 às 12h55 | marisazf@hotmail.com

APRENDI COM O TEMPO E A VIDA COMEMORAR

 

Aprendi desde cedo a comemorar. Das lembranças da infância, os dias de sol eram os preferidos e, por isso, particularmente comemorados, pois possibilitavam estar nas quadras, nos campinhos improvisados, na rua jogando (futebol, vôlei, handebol), pulando, rindo, correndo, levando bronca por ficar tempo demais a brincar. No entanto, os dias de chuva, lembro que serviam para um nostálgico recolhimento e para os enredos simbólicos: cuidar de um bebê, cozinhar – coisas que para alguns parecem banais, mas hoje as vejo como fundantes da minha relação com a casa e com os pequenos.

Foi nos espaços de uma família numerosa que eu comemorava quando vinha um elogio (porque as críticas eram frequentes), um embalo no colo da mãe (porque colo também era disputado), um passo de dança do pai (porque isso não era comum) ou um brinquedo ganhado (porque isso era raro).

Da infância a vida adulta – que logicamente precisou ser instituída de forma rápida - comemorei o casamento e a maternidade quando a maioria achava cedo demais. Comemorei ser professora de pequenos – quando era para alguns algo muito simples (vivemos ainda uma realidade que quanto menor a idade menor é o valor do professor). Comemorei a minha filiação e entrada no movimento político partidário de esquerda... enfim, aprendi que cada momento precisa ser vivido, aproveitado e valorizado.

Neste meio século de vida aprendi, sobretudo, com aqueles que me cercam a viver, fazer escolhas e as assumir plenamente. Amar, sorrir, dançar, chorar, ser feliz. Por que? Porque como lembra Clarice Lispector, as pessoas mais felizes não têm as melhores coisas, elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.

Portanto, o tempo, a vida e as experiências nos dão a possibilidade de olhar a trajetória de um modo mais leve e nem por isso menos crítico, mais grato do que nostálgico, mais amoroso e mais humano. Gratidão pela vida e por todos que me fazem a cada dia e a cada nova idade, ser mais GENTE!

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 04/07/2018 às 21h48 | marisazf@hotmail.com

MÃE - ENTRE O ATO BIOLÓGICO E A EXPERIÊNCIA DE SER

Me parece oportuno refletir sobre a ideia, ora tão comemorada, ora tão esquecida –  a de ser mãe.  A tarefa biológica marcada como um ato divino, torna a mulher um ser especial e santificado. Gerar um filho, produzir seu próprio alimento, manter uma vida no seu corpo é sem dúvida, algo fora do comum – um corpo hierarquicamente superior em relação ao homem.

Entretanto, a realidade não é nada generosa com as mães: no patriarcalismo tão presente ainda na sociedade, na maioria das vezes ser mãe é um ato solitário, carregado de preconceitos que indicam a santidade do ato, a devoção inata e sempre amorosa como algo inerente a maternidade. Quando se trata de conceituar mãe, portanto, a sociedade tem um conjunto de mitos e representações que vão desde a supermãe, aquela que se sacrifica por tudo, o esteio do lar até aquela que NUNCA ERRA. Estas representações têm gerado dor, angústia e sofrimento para boa parte das mães, pois são seres como qualquer outro: aprendem a SER, na experiência, na partilha, na coletividade. Se constituem, tornam-se e precisam de ajuda para criar e educar os filhos – que aliás, se foram concebidos na partilha, obviamente deveriam ser criados na partilha.  

Portanto, acredito que avançar do comércio que envolve a data comemorativa seria um pressuposto fundamental para quem deseja um mundo equilibrado e de qualidade. Nesta direção, precisaríamos perguntar: qual rede de apoio as mães têm? Quais estruturas familiares e sociais sustentem a maternagem? Quem é suporte emocional e físico das mães? Como a tarefa de cuidar e educar os meninos e meninas pode ser partilhada? Quem trabalha com a insegurança gerada no nascimento de um filho (seja biológico ou adotivo)?

Pensar sobre o padrão de maternidade construído, sobre quem são de bebês - que choram, tem dor, fraldas, doenças (isso poucas vezes mostrado pelas imagens que circulam – sorridentes e saudáveis), parece um caminho que conduziria ao reconhecimento da vida real e aproximaria a sociedade em torno da geração da vida e da maternagem.

Mães não são seres especiais, não são perfeitas – são seres capazes como qualquer outro de amar, doar-se e fazer melhor possível – se tiverem a oportunidade de viver e se constituir na tarefa de ser mãe.

Os filhos certamente trazem grande mudanças na vida de uma mulher e, com eles grandes oportunidades de ver a vida por muitos vieses e espectros que jamais seriam percebidos sem eles. Mas é preciso resignificar o percurso de modo mais humano e solidário com nossas mães e com todas as formas desta constituição, porque o nascer de um filho não é o nascer de uma mãe e enquanto a vida dela existir ela continuará necessitando de novos arranjos, novos jeitos de SER E SE CONSTITUIR MÃE!  

Fonte imagem: Visualhunt

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 12/05/2018 às 19h34 | marisazf@hotmail.com

A CARAVANA DE LULA PELO SUL: um conflito com a sombra

A passagem da caravana de Lula pelo Sul da Brasil foi intensamente marcada por paradoxos: de um lado milhares de pessoas que queriam abraçar, beijar, tocar, tirar foto, ouvir o ex-presidente e, de outro, manifestantes contrários tentando impedir a passagem de Lula com frases de ódio e atitudes violentas.

O que surpreende neste movimento é o crescimento e a explicitação da intolerância, da divisão de classes, do uso de métodos antidemocráticos e fascistas para silenciar aqueles de quem divergem, ou seja, há um distanciamento do povo brasileiro da característica que lhe é atribuída: de povo da paz.

De fato, vivemos um conflito com nossa própria sombra: não temos consciência da nossa história e da nossa identidade. Negamos nossa cor - matamos negros, subjugamos suas capacidades; não temos consciência de classe – vivemos o ethos da casa grande, desejamos ser capitão do mato confundindo quem são os oprimidos e opressores; hierarquizamos os Estados brasileiros –  desejamos separar o Sul dos demais Estados, cultivando a ideia da luta dos bons contra os maus. Confundimos direitos com benesses, justiça com vingança – açoitamos e desejamos o armamento do povo; não temos clareza de importância da Democracia e, assim, pedimos a volta da ditadura e intervenção militar.

Portanto, o que vemos é ódio alimentado, manipulado, aquecido - contra quem?  Contra Lula. Por que este ódio contra o ex-presidente que deixou o cargo com mais de 80% de aprovação (bom e ótimo); que teve a maior taxa de empregabilidade, que criou o maior número de universidade federais e de escolas técnicas? Talvez porque ele é o conflito da nossa sombra – representa tudo que cotidianamente negamos – nosso povo pobre, nossas desigualdades sociais, nossa violência. Qual como nossa sombra que assombra a ordem estabelecida é preciso apagar, impedir que se propague.

Há quem tenha orgulho de se sentir o que não é. Eu prefiro as ruas, as praças, o povo da luta por um país de todas as cores e credos. Sou mais gente no meio deste povo que quer a partilha do pão, da terra, das riquezas. Escolho este povo que luta pelos direitos humanos e pela equidade, por um país da Democracia e da liberdade – sem jamais precisar do “cavalo e chicote” contra quem quer que seja. E, assim, parafraseando o poeta Jose Saramago, onde à sombra de ti, o meu perfil é linha de certeza e de convergências, realizando justiça e ensejando a paz.

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 04/04/2018 às 16h36 | marisazf@hotmail.com

MARCAS DE QUEM TRAZ NA PELE O PAPEL DE SER MULHER

O nascimento de uma menina é marcado não apenas pelo padrão biológico (sexo), mas profundamente pela cultura em que ela está inserida e pela construção social dos papeis de homem e de mulher (gênero).

Este papel social começa a ser delineado ainda na barriga da mãe: para menina escolhemos o enxoval nas cores suaves e, preferencialmente, rosa como “cor de menina”. Os brinquedos ligados as tarefas da casa, as bonecas, as brincadeiras, os modos de sentar, entre outros, vão sendo caracterizados como o que é de meninos e o que é de meninas. Estas práticas, embora pareçam sutis, em boa parte das vezes, são reprodutoras de relações sociais desiguais de poder. Às mulheres vinculamos a ideia de “fragilidade” física, de seres dóceis e indefesos e que ocupam o lugar do cuidar e servir. Aos homens associamos a “força” física, a inteligência, a capacidade de liderar, comandar (patriarcado) e de ocupar espaços de poder.   A consequência desta construção social – espraiada nos lares, nos meios de comunicação, nas escolas, nas esferas do trabalho - tem gerado estereótipos, preconceito e violência.

A estereotipia nas relações sociais, segundo estudos da área (Santos, 1990), promove angústia e dor, afetando seriamente a saúde das mulheres.  Logo, ao falarmos do 8 de março, é preciso refletir sobre a trajetória das relações entre meninos e meninas, entre homens e mulheres para avançar na a construção de novos papeis que produzam rupturas e modifiquem essa realidade social, pois ela é empobrecedora das relações e das potencialidades humanas.

É preciso reconhecer que as marcas que todas nós mulheres trazemos na pele e na alma, particularmente as mulheres negras, as pobres, as transexuais, as indígenas, as mulheres dos rios e dos campos, inferiorizam e sufocam a nossa capacidade de contribuir na construção de um mundo sustentável e de relações de irmandade.

No entanto, na dura lida, aprendemos com exemplos de grandes mulheres, a resistir e persistir. A chorar, mas imediatamente secar as lágrimas e seguir. Aprendemos a reivindicar, protestar, levantar a bandeira do feminismo em todos os lugares do mundo. Aprendemos a lutar pela liberdade do nosso corpo e pela Democracia. Irreverentes, batendo latas, tambores, de lenços na cabeça, descalças ou de salto – buscamos equilíbrio e não estamos mais dispostas a deixarem que digam que “isso não é coisa de menina”, que aquietem nosso espírito de ação e de fé.

Conscientes, portanto, que a equidade de gênero só virá com a união das vozes espalhadas pelo mundo de mulheres que compartilham a esperança e o movimento de justiça - caminhamos.

Parabéns a todas mulheres/irmãs que caminham e inspiram a marcha, em cantos e em gritos de alerta até que todas sejamos marcadas pela liberdade de SER. 

(creditos de imagens: Vik Muniz - Espelhos de Papel)

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 08/03/2018 às 00h25 | marisazf@hotmail.com



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Marisa Zanoni Fernandes

Assina a coluna Marisa Fernandes

Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.


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Marisa Fernandes
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ELEIÇÕES E A ARTE DE SABER QUEM SOMOS

Os selvagens

Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam pôr a mão
E depois a tomaram como espantados

Tomo como ponto de partida para esta reflexão a poesia de Oswaldo de Andrade por dois motivos: o primeiro porque acredito que a ARTE de modo geral, nos permite sair das linhas tradicionais de pensamento – o que por si só já se torna imprescindível; o segundo porque esta poesia é parte do manifesto antropofágico – que tinha entre os objetivos, estruturar a cultura nacional. A antropofagia -  metaforicamente parece servir.   

O atual momento eleitoral, tem evidenciado quase antropofagia: as pessoas parecem praticar o canibalismo!  O nível de acirramento parece ter ultrapassado todos os limites: brigas, ódio, ofensas, agressões verbais e físicas em locais públicos e privados, revelam uma selvageria – não aquela de Oswaldo de Andrade, mas uma totalmente desprovida do reconhecimento de pertencimento do povo brasileiro enquanto nação.

Parece, portanto, que o propósito da década de 20/30 de estruturar a cultura nacional, ainda é um desafio, pois necessitaríamos reconhecer os índios, negros, pobres, mulheres, LGBTs. Necessitaríamos descortinar   quem são os “selvagens”, os “escravizados, ” os “ditadores”. Para isso, precisaríamos, portanto, de possibilidades de constituição de cidadania e de processos humanizadores.

 As eleições de fato revelam quem somos, as causas que abraçamos justificam as bandeiras que empunhamos. Talvez seja por isso, que assistimos espantados à revelação sem o mínimo pudor de homofóbicos, defensores da pena de morte, do armamento, da misoginia, racismo e, a maioria o faz, em nome da “Família, Pátria e de Deus”.  A tríade já conhecida e intimamente ligada a moral que geraram os mais vergonhosos episódios da humanidade - como o nazismo.

Antes das eleições a pauta era a falta de emprego, o preço dos combustíveis, a instabilidade da economia e seus reflexos. Hoje, para determinados grupos, não importa as propostas do candidato sobre economia, trabalho, educação, saúde, previdência, segurança, cultura. Importa o discurso e a solução fáceis – matar, prender, banir, esterilizar em nome da moral e o antipetismo. Ideias que rapidamente germinam regadas por anônimos internautas, especialistas em imagens virais que antagoniza extremismos e clamores de mudanças – sem importar quais serão. Nascera, como lembra Mário Assis Ferreira (2017) o quarto poder a “videocracia”.

Esta pratica política não pode caber no nosso horizonte. Urge, portanto, a necessidade da resistência, da sabedoria e da serenidade. Que possamos, neste domingo, lembrar de todos que lutaram e até morreram para que pudemos ir às urnas. Em nome dos que nos antecederem, em nome dos que virão – que a paz possa ser nosso valor e a divergência a possiblidade de avançarmos para um BRASIL de solidariedade e de justiça social.

 

Quadro: Abaporu de tarsília do Amaral (1928)

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 06/10/2018 às 19h55 | marisazf@hotmail.com

UMA CIDADE PARA AMAR, VIVER E TRANSFORMAR

Balneário Camboriú, esta jovem cidade é símbolo de alegria e inspiração por suas belezas naturais, pelo clima ameno, pela atmosfera e energia que pairam sobre o ar.
 
O mar e suas águas tranquilas embalam sonhos, enchem o coração de modo que é impossível não dizer que esta é uma cidade para AMAR.
 
Do seu povo nativo (quase esquecido), a todos que escolheram aqui VIVER, a sensação é dupla: privilégio e desafio. É visível que, para alguns, a Balneário é próspera, é um lugar de negócios rentáveis, o que cria, de certo modo, uma percepção (vinculada a perversa ideia de meritocracia) que há espaço para todos crescerem economicamente e serem felizes na Maravilha do Atlântico.
 
No entanto, o que parece haver de equívoco nessa percepção? Ela mascara a realidade, cria uma Ilusão social que causa dor, sofrimento e promove o individualismo. Neste sentido, a cidade cosmopolita, com um dos mais custosos metros quadrados do Brasil, impõe á dureza do silêncio e solidão (os índices alarmantes de suicídios, falam por si só).
 
Essas contradições difíceis de serem ditas em meio as comemorações, nos impelem a uma responsável reflexão e à TRANSFORMAÇÃO.
 
Transformar requer reconhecer a sobrevivência da cidade. Isso exige uma profunda mudança de percepção e pensamento sobre a interconexão entre a vida humana, a economia e o meio ambiente. Exige pensar e agir de modo inclusivo, cooperativo e sustentável para satisfazer as necessidades e aspirações do presente, sem com isso, diminuir as chances e perspectivas das gerações futuras (CAPRA, 2006).
 
Uma cidade para VIVER plenamente, AMAR incondicionalmente, requer TRANSFORMAR-SE.
 
Somos ondas do mesmo MAR,
 
Folhas da mesma árvore e
 
Flores do mesmo jardim,
 
Cuidemos do ambiente em que moramos, pois nossos filhos, netos e bisnetos poderão um dia desfrutar dos sonhos que aqui já tivemos e da vida que aqui já vivemos. Parabéns a todos e todas que fazem desta cidade um lugar responsavelmente melhor para viver.
Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 20/07/2018 às 12h55 | marisazf@hotmail.com

APRENDI COM O TEMPO E A VIDA COMEMORAR

 

Aprendi desde cedo a comemorar. Das lembranças da infância, os dias de sol eram os preferidos e, por isso, particularmente comemorados, pois possibilitavam estar nas quadras, nos campinhos improvisados, na rua jogando (futebol, vôlei, handebol), pulando, rindo, correndo, levando bronca por ficar tempo demais a brincar. No entanto, os dias de chuva, lembro que serviam para um nostálgico recolhimento e para os enredos simbólicos: cuidar de um bebê, cozinhar – coisas que para alguns parecem banais, mas hoje as vejo como fundantes da minha relação com a casa e com os pequenos.

Foi nos espaços de uma família numerosa que eu comemorava quando vinha um elogio (porque as críticas eram frequentes), um embalo no colo da mãe (porque colo também era disputado), um passo de dança do pai (porque isso não era comum) ou um brinquedo ganhado (porque isso era raro).

Da infância a vida adulta – que logicamente precisou ser instituída de forma rápida - comemorei o casamento e a maternidade quando a maioria achava cedo demais. Comemorei ser professora de pequenos – quando era para alguns algo muito simples (vivemos ainda uma realidade que quanto menor a idade menor é o valor do professor). Comemorei a minha filiação e entrada no movimento político partidário de esquerda... enfim, aprendi que cada momento precisa ser vivido, aproveitado e valorizado.

Neste meio século de vida aprendi, sobretudo, com aqueles que me cercam a viver, fazer escolhas e as assumir plenamente. Amar, sorrir, dançar, chorar, ser feliz. Por que? Porque como lembra Clarice Lispector, as pessoas mais felizes não têm as melhores coisas, elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.

Portanto, o tempo, a vida e as experiências nos dão a possibilidade de olhar a trajetória de um modo mais leve e nem por isso menos crítico, mais grato do que nostálgico, mais amoroso e mais humano. Gratidão pela vida e por todos que me fazem a cada dia e a cada nova idade, ser mais GENTE!

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 04/07/2018 às 21h48 | marisazf@hotmail.com

MÃE - ENTRE O ATO BIOLÓGICO E A EXPERIÊNCIA DE SER

Me parece oportuno refletir sobre a ideia, ora tão comemorada, ora tão esquecida –  a de ser mãe.  A tarefa biológica marcada como um ato divino, torna a mulher um ser especial e santificado. Gerar um filho, produzir seu próprio alimento, manter uma vida no seu corpo é sem dúvida, algo fora do comum – um corpo hierarquicamente superior em relação ao homem.

Entretanto, a realidade não é nada generosa com as mães: no patriarcalismo tão presente ainda na sociedade, na maioria das vezes ser mãe é um ato solitário, carregado de preconceitos que indicam a santidade do ato, a devoção inata e sempre amorosa como algo inerente a maternidade. Quando se trata de conceituar mãe, portanto, a sociedade tem um conjunto de mitos e representações que vão desde a supermãe, aquela que se sacrifica por tudo, o esteio do lar até aquela que NUNCA ERRA. Estas representações têm gerado dor, angústia e sofrimento para boa parte das mães, pois são seres como qualquer outro: aprendem a SER, na experiência, na partilha, na coletividade. Se constituem, tornam-se e precisam de ajuda para criar e educar os filhos – que aliás, se foram concebidos na partilha, obviamente deveriam ser criados na partilha.  

Portanto, acredito que avançar do comércio que envolve a data comemorativa seria um pressuposto fundamental para quem deseja um mundo equilibrado e de qualidade. Nesta direção, precisaríamos perguntar: qual rede de apoio as mães têm? Quais estruturas familiares e sociais sustentem a maternagem? Quem é suporte emocional e físico das mães? Como a tarefa de cuidar e educar os meninos e meninas pode ser partilhada? Quem trabalha com a insegurança gerada no nascimento de um filho (seja biológico ou adotivo)?

Pensar sobre o padrão de maternidade construído, sobre quem são de bebês - que choram, tem dor, fraldas, doenças (isso poucas vezes mostrado pelas imagens que circulam – sorridentes e saudáveis), parece um caminho que conduziria ao reconhecimento da vida real e aproximaria a sociedade em torno da geração da vida e da maternagem.

Mães não são seres especiais, não são perfeitas – são seres capazes como qualquer outro de amar, doar-se e fazer melhor possível – se tiverem a oportunidade de viver e se constituir na tarefa de ser mãe.

Os filhos certamente trazem grande mudanças na vida de uma mulher e, com eles grandes oportunidades de ver a vida por muitos vieses e espectros que jamais seriam percebidos sem eles. Mas é preciso resignificar o percurso de modo mais humano e solidário com nossas mães e com todas as formas desta constituição, porque o nascer de um filho não é o nascer de uma mãe e enquanto a vida dela existir ela continuará necessitando de novos arranjos, novos jeitos de SER E SE CONSTITUIR MÃE!  

Fonte imagem: Visualhunt

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 12/05/2018 às 19h34 | marisazf@hotmail.com

A CARAVANA DE LULA PELO SUL: um conflito com a sombra

A passagem da caravana de Lula pelo Sul da Brasil foi intensamente marcada por paradoxos: de um lado milhares de pessoas que queriam abraçar, beijar, tocar, tirar foto, ouvir o ex-presidente e, de outro, manifestantes contrários tentando impedir a passagem de Lula com frases de ódio e atitudes violentas.

O que surpreende neste movimento é o crescimento e a explicitação da intolerância, da divisão de classes, do uso de métodos antidemocráticos e fascistas para silenciar aqueles de quem divergem, ou seja, há um distanciamento do povo brasileiro da característica que lhe é atribuída: de povo da paz.

De fato, vivemos um conflito com nossa própria sombra: não temos consciência da nossa história e da nossa identidade. Negamos nossa cor - matamos negros, subjugamos suas capacidades; não temos consciência de classe – vivemos o ethos da casa grande, desejamos ser capitão do mato confundindo quem são os oprimidos e opressores; hierarquizamos os Estados brasileiros –  desejamos separar o Sul dos demais Estados, cultivando a ideia da luta dos bons contra os maus. Confundimos direitos com benesses, justiça com vingança – açoitamos e desejamos o armamento do povo; não temos clareza de importância da Democracia e, assim, pedimos a volta da ditadura e intervenção militar.

Portanto, o que vemos é ódio alimentado, manipulado, aquecido - contra quem?  Contra Lula. Por que este ódio contra o ex-presidente que deixou o cargo com mais de 80% de aprovação (bom e ótimo); que teve a maior taxa de empregabilidade, que criou o maior número de universidade federais e de escolas técnicas? Talvez porque ele é o conflito da nossa sombra – representa tudo que cotidianamente negamos – nosso povo pobre, nossas desigualdades sociais, nossa violência. Qual como nossa sombra que assombra a ordem estabelecida é preciso apagar, impedir que se propague.

Há quem tenha orgulho de se sentir o que não é. Eu prefiro as ruas, as praças, o povo da luta por um país de todas as cores e credos. Sou mais gente no meio deste povo que quer a partilha do pão, da terra, das riquezas. Escolho este povo que luta pelos direitos humanos e pela equidade, por um país da Democracia e da liberdade – sem jamais precisar do “cavalo e chicote” contra quem quer que seja. E, assim, parafraseando o poeta Jose Saramago, onde à sombra de ti, o meu perfil é linha de certeza e de convergências, realizando justiça e ensejando a paz.

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 04/04/2018 às 16h36 | marisazf@hotmail.com

MARCAS DE QUEM TRAZ NA PELE O PAPEL DE SER MULHER

O nascimento de uma menina é marcado não apenas pelo padrão biológico (sexo), mas profundamente pela cultura em que ela está inserida e pela construção social dos papeis de homem e de mulher (gênero).

Este papel social começa a ser delineado ainda na barriga da mãe: para menina escolhemos o enxoval nas cores suaves e, preferencialmente, rosa como “cor de menina”. Os brinquedos ligados as tarefas da casa, as bonecas, as brincadeiras, os modos de sentar, entre outros, vão sendo caracterizados como o que é de meninos e o que é de meninas. Estas práticas, embora pareçam sutis, em boa parte das vezes, são reprodutoras de relações sociais desiguais de poder. Às mulheres vinculamos a ideia de “fragilidade” física, de seres dóceis e indefesos e que ocupam o lugar do cuidar e servir. Aos homens associamos a “força” física, a inteligência, a capacidade de liderar, comandar (patriarcado) e de ocupar espaços de poder.   A consequência desta construção social – espraiada nos lares, nos meios de comunicação, nas escolas, nas esferas do trabalho - tem gerado estereótipos, preconceito e violência.

A estereotipia nas relações sociais, segundo estudos da área (Santos, 1990), promove angústia e dor, afetando seriamente a saúde das mulheres.  Logo, ao falarmos do 8 de março, é preciso refletir sobre a trajetória das relações entre meninos e meninas, entre homens e mulheres para avançar na a construção de novos papeis que produzam rupturas e modifiquem essa realidade social, pois ela é empobrecedora das relações e das potencialidades humanas.

É preciso reconhecer que as marcas que todas nós mulheres trazemos na pele e na alma, particularmente as mulheres negras, as pobres, as transexuais, as indígenas, as mulheres dos rios e dos campos, inferiorizam e sufocam a nossa capacidade de contribuir na construção de um mundo sustentável e de relações de irmandade.

No entanto, na dura lida, aprendemos com exemplos de grandes mulheres, a resistir e persistir. A chorar, mas imediatamente secar as lágrimas e seguir. Aprendemos a reivindicar, protestar, levantar a bandeira do feminismo em todos os lugares do mundo. Aprendemos a lutar pela liberdade do nosso corpo e pela Democracia. Irreverentes, batendo latas, tambores, de lenços na cabeça, descalças ou de salto – buscamos equilíbrio e não estamos mais dispostas a deixarem que digam que “isso não é coisa de menina”, que aquietem nosso espírito de ação e de fé.

Conscientes, portanto, que a equidade de gênero só virá com a união das vozes espalhadas pelo mundo de mulheres que compartilham a esperança e o movimento de justiça - caminhamos.

Parabéns a todas mulheres/irmãs que caminham e inspiram a marcha, em cantos e em gritos de alerta até que todas sejamos marcadas pela liberdade de SER. 

(creditos de imagens: Vik Muniz - Espelhos de Papel)

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 08/03/2018 às 00h25 | marisazf@hotmail.com



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Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.


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