Jornal Página 3
Coluna
Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

SIMBIOSE

À todas as pessoas que vivem sem enquadramentos, especialmente à Nathi!

A vida pulsa, exige, te provoca. Em meio ao pulsar intenso, lá está ela: frágil, firme, tentando mostrar quem é.

Veste o que deseja, questiona o que não entende, foge do trivial, se afasta do lugar comum. Vive a alegria e a dor de SER e viver plenamente.

Onde encontra paz e sentido? Talvez melhor na liberdade da criança, nas vivências da infância, pois pode “passar despercebida” -  que a permite ser ela.  

A vida em sociedade se amplia e as regras preestabelecidas, enquadradas, crescem também com o seu próprio crescimento. Assim, se defronta com a necessidade de pertencer e ao mesmo tempo não se perder de quem realmente é, do que realmente gosta, do que a faz feliz.

A passagem é difícil, é dolorida e a cada passo tomado, o insistente padrão da normalidade tentam afastá-la do jeito simples e único. Descobre, assim, um mundo próprio – nos livros, no desenho, na arte, na música, na Aurora – que metaforicamente, despertam um novo tempo, uma nova e leve luz.  Aquela garota se encontra na magia da cor, no corte de cabelo, no jeito de vestir, no jeito de amar e, sobretudo, no jeito de pertencer: não pertencendo! Não pertencendo ao comum, ao óbvio, ao estereótipo, ao padrão excludente.

 Reinventa o amor, o expande para uma nova conexão com a natureza – afinal, não vê hierarquia ou supremacia – com as plantas, os animais e se encontra em uma profunda simbiose. Além das pessoas, descobre que há mais em pequenos e micros elementos do que muitos seres que se dizem “humanos”. E, assim, descobre que há mais pertencimento do que os olhos comuns podem ver.

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 30/05/2019 às 12h42 | marisazf@hotmail.com

AMOR E DOR: UM SOPRO DE VIDA

No meio da noite, em uma sala do hospital, fazia frio e o local estava levemente escuro. Haviam pessoas vestidas de azul, sentia dores fortes ... em meio a este contexto, veio ela – minha/nossa filha. Olhos pequenos, pele rosada, poucos cabelos ... ela olhou para mim, eu para ela... a toquei, sorri e, assim, em meio as manifestações físicas: tremores, o pulsar do coração, a emoção, o amor.

Nascera então, aquela menina tão esperada.

DOR, AMOR pareciam completar-se antagonicamente, magicamente como tudo é assim:  múltiplo, único, fugaz, continuo, forte/fraco. A vida vem, a vida pulsa, a vida roda e a roda te possibilita encontros encantos.

O Amor e a dor te provocam, te desestabilizam, te tiram do fluxo comum e te permitem voar: assim, plenamente e consciente que és gente.

A capacidade de dar a vida te permite a experiência de dar valor a outras vidas.  Nesse movimento, não há hierarquia, há simetria, mas a insistência assimétrica te rouba a proximidade, a leveza e a beleza de ser igual.

Volto ao quarto da “luz”, retorno mais forte, mais corajosa, menos dor e permito resgatar a vida plena. Como um sopro de vento, como um primeiro respiro, encontro o ar que movimenta, que acalenta, que afugenta o medo. Abro assim, muitas portas, muitas janelas e com elas deixo a luz entrar, aquecer, alimentar a alma e a vida com amor e com dor.

O momento exige que voltemos para o quarto da “LUZ”,  para que possamos relembrar quem somos e como nossa existência e presença no mundo impactam na coletividade, na existência.
 
Fonte imagem: Gustavo Klimt 
 
Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 27/05/2019 às 14h01 | marisazf@hotmail.com

MULHERES VAMOS À LUTA

 

Em meio a uma forte onda conservadora que assola o país, assistimos perplexos declarações que evocam preconceito, ódio, discriminação sem o mínimo de reservas. Fatos que geram e, de certa forma, legitimam a violência.

Naturalizamos e até institucionalizamos a violência, sobretudo, aquela que golpeia mulheres – pelo histórico patriarcado e machismo social; aquela que marca crianças – pelo falso ideário de educação; aquela que atinge as minorias – pela hierarquização e subjugação da diversidade humana e das classes sociais.   Tradicionalmente a sociedade brasileira vive o “mito da não violência” negando e mascarando a dura e cruel realidade. 

Em 2017, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), o Brasil concentrou 40% dos feminicídios da América Latina. O Instituto Data Folha relata que nos últimos 12 meses, 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativas de estrangulamento no Brasil. Enquanto 22 milhões, 37,1% das brasileiras, passaram por algum tipo de assédio. Entre os casos de mais violência, 42% ocorreram no ambiente doméstico. Em Santa Catarina  os números são impressionantes: 23 assassinatos nos últimos sete meses e 92 tentativas de homicídio - mais de 3 feminicídios por mês -a desembargadora Salete Sommariva (TJSC) afirmou que SC é “um dos Estados que mais matam mulheres no Brasil”. Centenas de ocorrências de ameaça, lesão corporal, injúria, calúnia, difamação e dano são registradas todos os dias nas delegacias. Conforme dados da Secretaria de Segurança Pública, divulgados no site do Tribunal de Justiça, nove mulheres são estupradas diariamente no Estado, um número acima da média nacional. O espaço doméstico e familiar é, na grande maioria dos casos (60%), o lugar onde ocorrem as agressões e o agressor alguém que mantém ou manteve com a vítima uma relação de proximidade e intimidade - marido, companheiro e/ou namorado (46% de relações atuais e 23% de relações passadas).

Para enfrentar este quadro é imprescindível desnaturalizar e desinstitucionalizar a violência e, para tanto, é necessário voltar ao próprio conceito de violência, o que faço recorrendo ao proposto Barus-Michel (2011): “experiência de um caos interno ou a ações ultrajantes cometidas sobre um ambiente, sobre coisas ou pessoas, segundo o ponto de vista de quem a comete ou de quem a sofre”.  Portanto, como a violência é percebida se relaciona diretamente com a maneira como é sentida. O Autor ainda, reforça que a violência se manifesta como excesso na afirmação do “um, todo poderoso que nega a alteridade”. Não podemos mais aceitar justificativas para a violência, ou ouvirmos - ela se descuidou – não devia ter colocado ele para dentro de casa; o crime foi passional; ela o traiu; onde ela estava e com que roupa estava... expressões comuns que culpabilizam a vítima e amenizam o fato em si, como se fosse possível justificar qualquer ato de violência.

A construção de uma cultura que expresse e promova valores de solidariedade, igualdade, equidade, alteridade e respeito às mulheres deve ser vista como uma tarefa cotidiana pública, privada e multidisciplinar. No entanto, o papel do Estado na criação de políticas públicas que atuem fortemente na propagação e articulação de ações para enfrentar a violência contra as meninas e as mulheres brasileiras, é imprescindível para a mudança de rota da cultura da subordinação de gênero.

São necessárias ações educativas, especialmente vinculadas às escolas desde a educação infantil ao ensino superior, fazendo a urgente inclusão da dimensão gênero nos currículos escolares, de tal modo a mostrar como a hierarquia existente na cultura brasileira de subordinação da mulher ao homem, traz sofrimento e desequilíbrios de todas as ordens – econômico, familiar, emocional e aumenta a violência. Ou seja, as escolas e seus professores, não podem – sob pena de colaborarem no aprofundamento da violência -  se submeterem a insanidade que paira nas declarações/ações de membros do atual governo ficando isolada de um processo amplo de transformação para alcançar a equidade de gênero.  

Neste sentido, parece extremamente contraditório que a sociedade brasileira tenha a segurança como uma das suas maiores preocupações e aceita passivamente e de modo acrítico o sofrimento e morte de tantas filhas, mães, esposas, irmãs, meninas, jovens, mulheres, pois não percebe  que a equidade entre homens e mulheres – constitui um caminho para alterar a violência em geral e, de gênero, em particular. Não se combate violência, dizendo que o nascimento da filha mulher “foi uma fraquejada” (Bolsonaro); não se combate o machismo afirmando que “agora meninas usam rosa e meninos azul” (ministra Damares Alves); não se combate preconceito dizendo que “a universidade não é para todos, que ela representa uma elite intelectual” (Ministro da educação Ricardo Vélez).

O fim da violência e da supremacia masculina, reproduzida em falas e ações, é tarefa indispensável mediante a nossa realidade, pois ao mudar a cultura patriarcal, sexista e misógina enraizada nas representações sociais e na mente das pessoas, estaremos pavimentando um caminho para que as mulheres sejam protagonistas dos seus destinos, sejam empoderadas e, assim de fato, possam VIVER sem medo e exercendo a plena cidadania. No entanto, empoderamento, não pode ser apenas um novo jargão, pois, como alerta Friedmann (1996) deve ser entendido como todo acréscimo de poder que, permite aos indivíduos aumentarem a eficácia do seu exercício de cidadania.

Vamos à luta! Até que sejamos todas livres e sem medo se ser MULHER.

 

Imagem: A Mulata - Di Cavalcanti

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 08/03/2019 às 00h52 | marisazf@hotmail.com

ALVORADA VORAZ

Ao término de cada ano é comum projetarmos sonhos, renovarmos esperanças e planejar o futuro. Aguardamos a alvorada.

As projeções, no entanto, estão intimamente vinculadas as percepções que cada um tem da realidade, das experiências que vive e das próprias condições emocionais e existenciais.

Deste modo, parece difícil finalizar o ano de 2018 sem a incômoda percepção que já não é possível previsões seguras. A dinâmica social, política, econômica e cultural tem marcado rupturas e transformações incomensuráveis. Situar-se neste novo ambiente, exige esforço cognitivo e afetivo, isso porque, o que imaginávamos saber sobre o dinamismo social, já não tem validade, e o que acreditávamos ver em algumas pessoas foi desconstruído.

A revolução tecnológica, a crise do capitalismo, as questões ambientais afetaram e afetam os modos de vermos o mundo, as formas de trabalho, o papel do Estado, da escola, da política, das famílias e, marcadamente, os processos de interação social.

Se partirmos do pressuposto que nos humanizamos nas relações sociais e nos tornamos gente no contato com o outro, o que assistimos é um crescente isolamento social que aprofunda a crise existencial. O mundo tecnológico ou a revolução 4.0   literalmente tem nos locado na ‘nuvem’ – o que parece gerar serias dificuldades de pertencimento. Estamos menos propensos ao diálogo, a profundidade, a persistência. Tudo e todos passam por nós de modo efêmero:  em manchetes, WhatsApp, Facebook, trocamos informações e construímos nossas “verdades” sobre a realidade e sobre as pessoas. Nos sentimos empoderados e nos tornamos cientistas políticos, críticos econômicos, doutores em educação, experts em segurança e, é claro soldados na guerra contra a corrupção.

 Como num passe de mágica, encontram-se soluções para todos os problemas sociais e despertam a ‘‘alvorada voraz”: excluir e prender os vermelhos, criminalizar os movimentos sociais, fazer apologia à violência contra a mulher, à morte da população LGBTI, dos negros, quilombolas, indígenas; envenenaram a população com agrotóxicos, com as fake news e, assim constrói-se uma distorção sistemática e criminosa da realidade. E ainda, “Nos aguardam exércitos que nos guardam da paz. Que paz?” (RPM)

Perplexidade talvez seja a palavra que marca este momento.  No entanto, recorro ao filosofo alemão Hölderlin quando diz que “onde existe o perigo, nasce também a salvação”. Sejamos capazes de uma séria e critica defesa da Democracia e da construção de um país sem pobreza intelectual, ética e material.

Que nossa Alvorada se inspire em Cartola: ‘’a alvorada lá no morro que beleza, ninguém chora, não há tristeza, ninguém sente dissabor. O sol colorindo é tão lindo, é tão lindo [...]’’
Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 31/12/2018 às 14h40 | marisazf@hotmail.com

ELEIÇÕES E A ARTE DE SABER QUEM SOMOS

Os selvagens

Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam pôr a mão
E depois a tomaram como espantados

Tomo como ponto de partida para esta reflexão a poesia de Oswaldo de Andrade por dois motivos: o primeiro porque acredito que a ARTE de modo geral, nos permite sair das linhas tradicionais de pensamento – o que por si só já se torna imprescindível; o segundo porque esta poesia é parte do manifesto antropofágico – que tinha entre os objetivos, estruturar a cultura nacional. A antropofagia -  metaforicamente parece servir.   

O atual momento eleitoral, tem evidenciado quase antropofagia: as pessoas parecem praticar o canibalismo!  O nível de acirramento parece ter ultrapassado todos os limites: brigas, ódio, ofensas, agressões verbais e físicas em locais públicos e privados, revelam uma selvageria – não aquela de Oswaldo de Andrade, mas uma totalmente desprovida do reconhecimento de pertencimento do povo brasileiro enquanto nação.

Parece, portanto, que o propósito da década de 20/30 de estruturar a cultura nacional, ainda é um desafio, pois necessitaríamos reconhecer os índios, negros, pobres, mulheres, LGBTs. Necessitaríamos descortinar   quem são os “selvagens”, os “escravizados, ” os “ditadores”. Para isso, precisaríamos, portanto, de possibilidades de constituição de cidadania e de processos humanizadores.

 As eleições de fato revelam quem somos, as causas que abraçamos justificam as bandeiras que empunhamos. Talvez seja por isso, que assistimos espantados à revelação sem o mínimo pudor de homofóbicos, defensores da pena de morte, do armamento, da misoginia, racismo e, a maioria o faz, em nome da “Família, Pátria e de Deus”.  A tríade já conhecida e intimamente ligada a moral que geraram os mais vergonhosos episódios da humanidade - como o nazismo.

Antes das eleições a pauta era a falta de emprego, o preço dos combustíveis, a instabilidade da economia e seus reflexos. Hoje, para determinados grupos, não importa as propostas do candidato sobre economia, trabalho, educação, saúde, previdência, segurança, cultura. Importa o discurso e a solução fáceis – matar, prender, banir, esterilizar em nome da moral e o antipetismo. Ideias que rapidamente germinam regadas por anônimos internautas, especialistas em imagens virais que antagoniza extremismos e clamores de mudanças – sem importar quais serão. Nascera, como lembra Mário Assis Ferreira (2017) o quarto poder a “videocracia”.

Esta pratica política não pode caber no nosso horizonte. Urge, portanto, a necessidade da resistência, da sabedoria e da serenidade. Que possamos, neste domingo, lembrar de todos que lutaram e até morreram para que pudemos ir às urnas. Em nome dos que nos antecederem, em nome dos que virão – que a paz possa ser nosso valor e a divergência a possiblidade de avançarmos para um BRASIL de solidariedade e de justiça social.

 

Quadro: Abaporu de tarsília do Amaral (1928)

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 06/10/2018 às 19h55 | marisazf@hotmail.com

UMA CIDADE PARA AMAR, VIVER E TRANSFORMAR

Balneário Camboriú, esta jovem cidade é símbolo de alegria e inspiração por suas belezas naturais, pelo clima ameno, pela atmosfera e energia que pairam sobre o ar.
 
O mar e suas águas tranquilas embalam sonhos, enchem o coração de modo que é impossível não dizer que esta é uma cidade para AMAR.
 
Do seu povo nativo (quase esquecido), a todos que escolheram aqui VIVER, a sensação é dupla: privilégio e desafio. É visível que, para alguns, a Balneário é próspera, é um lugar de negócios rentáveis, o que cria, de certo modo, uma percepção (vinculada a perversa ideia de meritocracia) que há espaço para todos crescerem economicamente e serem felizes na Maravilha do Atlântico.
 
No entanto, o que parece haver de equívoco nessa percepção? Ela mascara a realidade, cria uma Ilusão social que causa dor, sofrimento e promove o individualismo. Neste sentido, a cidade cosmopolita, com um dos mais custosos metros quadrados do Brasil, impõe á dureza do silêncio e solidão (os índices alarmantes de suicídios, falam por si só).
 
Essas contradições difíceis de serem ditas em meio as comemorações, nos impelem a uma responsável reflexão e à TRANSFORMAÇÃO.
 
Transformar requer reconhecer a sobrevivência da cidade. Isso exige uma profunda mudança de percepção e pensamento sobre a interconexão entre a vida humana, a economia e o meio ambiente. Exige pensar e agir de modo inclusivo, cooperativo e sustentável para satisfazer as necessidades e aspirações do presente, sem com isso, diminuir as chances e perspectivas das gerações futuras (CAPRA, 2006).
 
Uma cidade para VIVER plenamente, AMAR incondicionalmente, requer TRANSFORMAR-SE.
 
Somos ondas do mesmo MAR,
 
Folhas da mesma árvore e
 
Flores do mesmo jardim,
 
Cuidemos do ambiente em que moramos, pois nossos filhos, netos e bisnetos poderão um dia desfrutar dos sonhos que aqui já tivemos e da vida que aqui já vivemos. Parabéns a todos e todas que fazem desta cidade um lugar responsavelmente melhor para viver.
Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 20/07/2018 às 12h55 | marisazf@hotmail.com



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Marisa Zanoni Fernandes

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Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.


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Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

SIMBIOSE

À todas as pessoas que vivem sem enquadramentos, especialmente à Nathi!

A vida pulsa, exige, te provoca. Em meio ao pulsar intenso, lá está ela: frágil, firme, tentando mostrar quem é.

Veste o que deseja, questiona o que não entende, foge do trivial, se afasta do lugar comum. Vive a alegria e a dor de SER e viver plenamente.

Onde encontra paz e sentido? Talvez melhor na liberdade da criança, nas vivências da infância, pois pode “passar despercebida” -  que a permite ser ela.  

A vida em sociedade se amplia e as regras preestabelecidas, enquadradas, crescem também com o seu próprio crescimento. Assim, se defronta com a necessidade de pertencer e ao mesmo tempo não se perder de quem realmente é, do que realmente gosta, do que a faz feliz.

A passagem é difícil, é dolorida e a cada passo tomado, o insistente padrão da normalidade tentam afastá-la do jeito simples e único. Descobre, assim, um mundo próprio – nos livros, no desenho, na arte, na música, na Aurora – que metaforicamente, despertam um novo tempo, uma nova e leve luz.  Aquela garota se encontra na magia da cor, no corte de cabelo, no jeito de vestir, no jeito de amar e, sobretudo, no jeito de pertencer: não pertencendo! Não pertencendo ao comum, ao óbvio, ao estereótipo, ao padrão excludente.

 Reinventa o amor, o expande para uma nova conexão com a natureza – afinal, não vê hierarquia ou supremacia – com as plantas, os animais e se encontra em uma profunda simbiose. Além das pessoas, descobre que há mais em pequenos e micros elementos do que muitos seres que se dizem “humanos”. E, assim, descobre que há mais pertencimento do que os olhos comuns podem ver.

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 30/05/2019 às 12h42 | marisazf@hotmail.com

AMOR E DOR: UM SOPRO DE VIDA

No meio da noite, em uma sala do hospital, fazia frio e o local estava levemente escuro. Haviam pessoas vestidas de azul, sentia dores fortes ... em meio a este contexto, veio ela – minha/nossa filha. Olhos pequenos, pele rosada, poucos cabelos ... ela olhou para mim, eu para ela... a toquei, sorri e, assim, em meio as manifestações físicas: tremores, o pulsar do coração, a emoção, o amor.

Nascera então, aquela menina tão esperada.

DOR, AMOR pareciam completar-se antagonicamente, magicamente como tudo é assim:  múltiplo, único, fugaz, continuo, forte/fraco. A vida vem, a vida pulsa, a vida roda e a roda te possibilita encontros encantos.

O Amor e a dor te provocam, te desestabilizam, te tiram do fluxo comum e te permitem voar: assim, plenamente e consciente que és gente.

A capacidade de dar a vida te permite a experiência de dar valor a outras vidas.  Nesse movimento, não há hierarquia, há simetria, mas a insistência assimétrica te rouba a proximidade, a leveza e a beleza de ser igual.

Volto ao quarto da “luz”, retorno mais forte, mais corajosa, menos dor e permito resgatar a vida plena. Como um sopro de vento, como um primeiro respiro, encontro o ar que movimenta, que acalenta, que afugenta o medo. Abro assim, muitas portas, muitas janelas e com elas deixo a luz entrar, aquecer, alimentar a alma e a vida com amor e com dor.

O momento exige que voltemos para o quarto da “LUZ”,  para que possamos relembrar quem somos e como nossa existência e presença no mundo impactam na coletividade, na existência.
 
Fonte imagem: Gustavo Klimt 
 
Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 27/05/2019 às 14h01 | marisazf@hotmail.com

MULHERES VAMOS À LUTA

 

Em meio a uma forte onda conservadora que assola o país, assistimos perplexos declarações que evocam preconceito, ódio, discriminação sem o mínimo de reservas. Fatos que geram e, de certa forma, legitimam a violência.

Naturalizamos e até institucionalizamos a violência, sobretudo, aquela que golpeia mulheres – pelo histórico patriarcado e machismo social; aquela que marca crianças – pelo falso ideário de educação; aquela que atinge as minorias – pela hierarquização e subjugação da diversidade humana e das classes sociais.   Tradicionalmente a sociedade brasileira vive o “mito da não violência” negando e mascarando a dura e cruel realidade. 

Em 2017, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), o Brasil concentrou 40% dos feminicídios da América Latina. O Instituto Data Folha relata que nos últimos 12 meses, 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativas de estrangulamento no Brasil. Enquanto 22 milhões, 37,1% das brasileiras, passaram por algum tipo de assédio. Entre os casos de mais violência, 42% ocorreram no ambiente doméstico. Em Santa Catarina  os números são impressionantes: 23 assassinatos nos últimos sete meses e 92 tentativas de homicídio - mais de 3 feminicídios por mês -a desembargadora Salete Sommariva (TJSC) afirmou que SC é “um dos Estados que mais matam mulheres no Brasil”. Centenas de ocorrências de ameaça, lesão corporal, injúria, calúnia, difamação e dano são registradas todos os dias nas delegacias. Conforme dados da Secretaria de Segurança Pública, divulgados no site do Tribunal de Justiça, nove mulheres são estupradas diariamente no Estado, um número acima da média nacional. O espaço doméstico e familiar é, na grande maioria dos casos (60%), o lugar onde ocorrem as agressões e o agressor alguém que mantém ou manteve com a vítima uma relação de proximidade e intimidade - marido, companheiro e/ou namorado (46% de relações atuais e 23% de relações passadas).

Para enfrentar este quadro é imprescindível desnaturalizar e desinstitucionalizar a violência e, para tanto, é necessário voltar ao próprio conceito de violência, o que faço recorrendo ao proposto Barus-Michel (2011): “experiência de um caos interno ou a ações ultrajantes cometidas sobre um ambiente, sobre coisas ou pessoas, segundo o ponto de vista de quem a comete ou de quem a sofre”.  Portanto, como a violência é percebida se relaciona diretamente com a maneira como é sentida. O Autor ainda, reforça que a violência se manifesta como excesso na afirmação do “um, todo poderoso que nega a alteridade”. Não podemos mais aceitar justificativas para a violência, ou ouvirmos - ela se descuidou – não devia ter colocado ele para dentro de casa; o crime foi passional; ela o traiu; onde ela estava e com que roupa estava... expressões comuns que culpabilizam a vítima e amenizam o fato em si, como se fosse possível justificar qualquer ato de violência.

A construção de uma cultura que expresse e promova valores de solidariedade, igualdade, equidade, alteridade e respeito às mulheres deve ser vista como uma tarefa cotidiana pública, privada e multidisciplinar. No entanto, o papel do Estado na criação de políticas públicas que atuem fortemente na propagação e articulação de ações para enfrentar a violência contra as meninas e as mulheres brasileiras, é imprescindível para a mudança de rota da cultura da subordinação de gênero.

São necessárias ações educativas, especialmente vinculadas às escolas desde a educação infantil ao ensino superior, fazendo a urgente inclusão da dimensão gênero nos currículos escolares, de tal modo a mostrar como a hierarquia existente na cultura brasileira de subordinação da mulher ao homem, traz sofrimento e desequilíbrios de todas as ordens – econômico, familiar, emocional e aumenta a violência. Ou seja, as escolas e seus professores, não podem – sob pena de colaborarem no aprofundamento da violência -  se submeterem a insanidade que paira nas declarações/ações de membros do atual governo ficando isolada de um processo amplo de transformação para alcançar a equidade de gênero.  

Neste sentido, parece extremamente contraditório que a sociedade brasileira tenha a segurança como uma das suas maiores preocupações e aceita passivamente e de modo acrítico o sofrimento e morte de tantas filhas, mães, esposas, irmãs, meninas, jovens, mulheres, pois não percebe  que a equidade entre homens e mulheres – constitui um caminho para alterar a violência em geral e, de gênero, em particular. Não se combate violência, dizendo que o nascimento da filha mulher “foi uma fraquejada” (Bolsonaro); não se combate o machismo afirmando que “agora meninas usam rosa e meninos azul” (ministra Damares Alves); não se combate preconceito dizendo que “a universidade não é para todos, que ela representa uma elite intelectual” (Ministro da educação Ricardo Vélez).

O fim da violência e da supremacia masculina, reproduzida em falas e ações, é tarefa indispensável mediante a nossa realidade, pois ao mudar a cultura patriarcal, sexista e misógina enraizada nas representações sociais e na mente das pessoas, estaremos pavimentando um caminho para que as mulheres sejam protagonistas dos seus destinos, sejam empoderadas e, assim de fato, possam VIVER sem medo e exercendo a plena cidadania. No entanto, empoderamento, não pode ser apenas um novo jargão, pois, como alerta Friedmann (1996) deve ser entendido como todo acréscimo de poder que, permite aos indivíduos aumentarem a eficácia do seu exercício de cidadania.

Vamos à luta! Até que sejamos todas livres e sem medo se ser MULHER.

 

Imagem: A Mulata - Di Cavalcanti

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 08/03/2019 às 00h52 | marisazf@hotmail.com

ALVORADA VORAZ

Ao término de cada ano é comum projetarmos sonhos, renovarmos esperanças e planejar o futuro. Aguardamos a alvorada.

As projeções, no entanto, estão intimamente vinculadas as percepções que cada um tem da realidade, das experiências que vive e das próprias condições emocionais e existenciais.

Deste modo, parece difícil finalizar o ano de 2018 sem a incômoda percepção que já não é possível previsões seguras. A dinâmica social, política, econômica e cultural tem marcado rupturas e transformações incomensuráveis. Situar-se neste novo ambiente, exige esforço cognitivo e afetivo, isso porque, o que imaginávamos saber sobre o dinamismo social, já não tem validade, e o que acreditávamos ver em algumas pessoas foi desconstruído.

A revolução tecnológica, a crise do capitalismo, as questões ambientais afetaram e afetam os modos de vermos o mundo, as formas de trabalho, o papel do Estado, da escola, da política, das famílias e, marcadamente, os processos de interação social.

Se partirmos do pressuposto que nos humanizamos nas relações sociais e nos tornamos gente no contato com o outro, o que assistimos é um crescente isolamento social que aprofunda a crise existencial. O mundo tecnológico ou a revolução 4.0   literalmente tem nos locado na ‘nuvem’ – o que parece gerar serias dificuldades de pertencimento. Estamos menos propensos ao diálogo, a profundidade, a persistência. Tudo e todos passam por nós de modo efêmero:  em manchetes, WhatsApp, Facebook, trocamos informações e construímos nossas “verdades” sobre a realidade e sobre as pessoas. Nos sentimos empoderados e nos tornamos cientistas políticos, críticos econômicos, doutores em educação, experts em segurança e, é claro soldados na guerra contra a corrupção.

 Como num passe de mágica, encontram-se soluções para todos os problemas sociais e despertam a ‘‘alvorada voraz”: excluir e prender os vermelhos, criminalizar os movimentos sociais, fazer apologia à violência contra a mulher, à morte da população LGBTI, dos negros, quilombolas, indígenas; envenenaram a população com agrotóxicos, com as fake news e, assim constrói-se uma distorção sistemática e criminosa da realidade. E ainda, “Nos aguardam exércitos que nos guardam da paz. Que paz?” (RPM)

Perplexidade talvez seja a palavra que marca este momento.  No entanto, recorro ao filosofo alemão Hölderlin quando diz que “onde existe o perigo, nasce também a salvação”. Sejamos capazes de uma séria e critica defesa da Democracia e da construção de um país sem pobreza intelectual, ética e material.

Que nossa Alvorada se inspire em Cartola: ‘’a alvorada lá no morro que beleza, ninguém chora, não há tristeza, ninguém sente dissabor. O sol colorindo é tão lindo, é tão lindo [...]’’
Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 31/12/2018 às 14h40 | marisazf@hotmail.com

ELEIÇÕES E A ARTE DE SABER QUEM SOMOS

Os selvagens

Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam pôr a mão
E depois a tomaram como espantados

Tomo como ponto de partida para esta reflexão a poesia de Oswaldo de Andrade por dois motivos: o primeiro porque acredito que a ARTE de modo geral, nos permite sair das linhas tradicionais de pensamento – o que por si só já se torna imprescindível; o segundo porque esta poesia é parte do manifesto antropofágico – que tinha entre os objetivos, estruturar a cultura nacional. A antropofagia -  metaforicamente parece servir.   

O atual momento eleitoral, tem evidenciado quase antropofagia: as pessoas parecem praticar o canibalismo!  O nível de acirramento parece ter ultrapassado todos os limites: brigas, ódio, ofensas, agressões verbais e físicas em locais públicos e privados, revelam uma selvageria – não aquela de Oswaldo de Andrade, mas uma totalmente desprovida do reconhecimento de pertencimento do povo brasileiro enquanto nação.

Parece, portanto, que o propósito da década de 20/30 de estruturar a cultura nacional, ainda é um desafio, pois necessitaríamos reconhecer os índios, negros, pobres, mulheres, LGBTs. Necessitaríamos descortinar   quem são os “selvagens”, os “escravizados, ” os “ditadores”. Para isso, precisaríamos, portanto, de possibilidades de constituição de cidadania e de processos humanizadores.

 As eleições de fato revelam quem somos, as causas que abraçamos justificam as bandeiras que empunhamos. Talvez seja por isso, que assistimos espantados à revelação sem o mínimo pudor de homofóbicos, defensores da pena de morte, do armamento, da misoginia, racismo e, a maioria o faz, em nome da “Família, Pátria e de Deus”.  A tríade já conhecida e intimamente ligada a moral que geraram os mais vergonhosos episódios da humanidade - como o nazismo.

Antes das eleições a pauta era a falta de emprego, o preço dos combustíveis, a instabilidade da economia e seus reflexos. Hoje, para determinados grupos, não importa as propostas do candidato sobre economia, trabalho, educação, saúde, previdência, segurança, cultura. Importa o discurso e a solução fáceis – matar, prender, banir, esterilizar em nome da moral e o antipetismo. Ideias que rapidamente germinam regadas por anônimos internautas, especialistas em imagens virais que antagoniza extremismos e clamores de mudanças – sem importar quais serão. Nascera, como lembra Mário Assis Ferreira (2017) o quarto poder a “videocracia”.

Esta pratica política não pode caber no nosso horizonte. Urge, portanto, a necessidade da resistência, da sabedoria e da serenidade. Que possamos, neste domingo, lembrar de todos que lutaram e até morreram para que pudemos ir às urnas. Em nome dos que nos antecederem, em nome dos que virão – que a paz possa ser nosso valor e a divergência a possiblidade de avançarmos para um BRASIL de solidariedade e de justiça social.

 

Quadro: Abaporu de tarsília do Amaral (1928)

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 06/10/2018 às 19h55 | marisazf@hotmail.com

UMA CIDADE PARA AMAR, VIVER E TRANSFORMAR

Balneário Camboriú, esta jovem cidade é símbolo de alegria e inspiração por suas belezas naturais, pelo clima ameno, pela atmosfera e energia que pairam sobre o ar.
 
O mar e suas águas tranquilas embalam sonhos, enchem o coração de modo que é impossível não dizer que esta é uma cidade para AMAR.
 
Do seu povo nativo (quase esquecido), a todos que escolheram aqui VIVER, a sensação é dupla: privilégio e desafio. É visível que, para alguns, a Balneário é próspera, é um lugar de negócios rentáveis, o que cria, de certo modo, uma percepção (vinculada a perversa ideia de meritocracia) que há espaço para todos crescerem economicamente e serem felizes na Maravilha do Atlântico.
 
No entanto, o que parece haver de equívoco nessa percepção? Ela mascara a realidade, cria uma Ilusão social que causa dor, sofrimento e promove o individualismo. Neste sentido, a cidade cosmopolita, com um dos mais custosos metros quadrados do Brasil, impõe á dureza do silêncio e solidão (os índices alarmantes de suicídios, falam por si só).
 
Essas contradições difíceis de serem ditas em meio as comemorações, nos impelem a uma responsável reflexão e à TRANSFORMAÇÃO.
 
Transformar requer reconhecer a sobrevivência da cidade. Isso exige uma profunda mudança de percepção e pensamento sobre a interconexão entre a vida humana, a economia e o meio ambiente. Exige pensar e agir de modo inclusivo, cooperativo e sustentável para satisfazer as necessidades e aspirações do presente, sem com isso, diminuir as chances e perspectivas das gerações futuras (CAPRA, 2006).
 
Uma cidade para VIVER plenamente, AMAR incondicionalmente, requer TRANSFORMAR-SE.
 
Somos ondas do mesmo MAR,
 
Folhas da mesma árvore e
 
Flores do mesmo jardim,
 
Cuidemos do ambiente em que moramos, pois nossos filhos, netos e bisnetos poderão um dia desfrutar dos sonhos que aqui já tivemos e da vida que aqui já vivemos. Parabéns a todos e todas que fazem desta cidade um lugar responsavelmente melhor para viver.
Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 20/07/2018 às 12h55 | marisazf@hotmail.com



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Marisa Zanoni Fernandes

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Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.


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