Jornal Página 3
Coluna
Mãe na Roda
Por Caroline Cezar

Mães imperfeitas

Todas essas homenagens. E fotos, e declarações. Bonito, efêmero, parcial.

A minha filha do meio me trouxe um cartão cheio de elogios, agradeci cada um do fundo do meu coração. Depois de algum silêncio, pedi a ela o bônus:

- Aqui tem muitas qualidades héin? E dos meus defeitos, qual você destaca?
- Hmmm, um só?
- Sim, qual o seu 'preferido', o top da lista?
- Hmmm, acho que essa mania de descontar nos outros quando alguma coisa te irrita?
- Sim, esse aparece bem, merece o destaque. Mais um, vai.
- Quando você acorda virada querendo fazer tudo ao mesmo tempo e quer que eu faça também.
- Pode ser, nem vou argumentar. Mais um?
- Acho que tá bom.

Agradeci. Rimos.


Ilustração Inês d'Espiney
 

Um grande avanço na vida de qualquer pessoa é conseguir rir das falhas e limitações. Isso nos torna tão mais humanos e reais, tão mais liberados pra vida! Sempre tive uma postura exigente comigo e ao meu redor, e não sei de verdade se isso mais ajudou ou atrapalhou, mas vejo que qualquer passado-presente-futuro fica muito mais leve quando deixamos de lado todo esse orgulho e perfeccionismo pra relaxar um pouco nos papéis.

E tem uma pegadinha danada implícita nessa troca: nós pensamos que relaxar é perder o controle, ficar desatento, dormir no ponto; e é bem ao contrário: o relaxamento nos põe mais confortáveis, mais observadores que condutores, mais no fluxo: atenção não é tensão, atenção é presença, unidade, e na unidade estão o que chamamos de qualidades e o que chamamos de defeitos, os momentos que consideramos lindos e os outros que tentamos evitar, o que achamos que acertamos e aquelas atitudes que nos fazem sentir péssimas, "lá vou ter que começar todo meu programa de zen budista do zero, não consegui mais uma vez".

Olhar pras situações e pras nossas tendências e características como elas se apresentam faz enxergar, muda padrões, ilumina, transforma, liberta. Faz ficar engraçado e a gente pode rir, mesmo que de início pareça tudo muito feio, triste e desolador. Eu recomendo a todas as mães aceitarem suas lindas homenagens mas que isso nunca se torne um peso a carregar, uma imagem a manter: sejam imperfeitas. Fiquem de saco cheio. Gritem, se precisarem, corram pra dentro do mar, do mato, do escuro. Saiam de si pra reecontrarem-se. Fiquem à vontade nos seus papéis, isso não vai fazer de vocês uma deusa romântica da maternidade, mas quem quer viver uma mentira? Meio humana, meio deusa, e há beleza no caos, há beleza nas sombras, há beleza verdadeira em se expor aos ventos, e ao que a vida nos apresenta.

Escrito por Caroline Cezar, 09/05/2016 às 08h46 | carol.jp3@gmail.com



Caroline Cezar

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Mãe na Roda
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Mães imperfeitas

Todas essas homenagens. E fotos, e declarações. Bonito, efêmero, parcial.

A minha filha do meio me trouxe um cartão cheio de elogios, agradeci cada um do fundo do meu coração. Depois de algum silêncio, pedi a ela o bônus:

- Aqui tem muitas qualidades héin? E dos meus defeitos, qual você destaca?
- Hmmm, um só?
- Sim, qual o seu 'preferido', o top da lista?
- Hmmm, acho que essa mania de descontar nos outros quando alguma coisa te irrita?
- Sim, esse aparece bem, merece o destaque. Mais um, vai.
- Quando você acorda virada querendo fazer tudo ao mesmo tempo e quer que eu faça também.
- Pode ser, nem vou argumentar. Mais um?
- Acho que tá bom.

Agradeci. Rimos.


Ilustração Inês d'Espiney
 

Um grande avanço na vida de qualquer pessoa é conseguir rir das falhas e limitações. Isso nos torna tão mais humanos e reais, tão mais liberados pra vida! Sempre tive uma postura exigente comigo e ao meu redor, e não sei de verdade se isso mais ajudou ou atrapalhou, mas vejo que qualquer passado-presente-futuro fica muito mais leve quando deixamos de lado todo esse orgulho e perfeccionismo pra relaxar um pouco nos papéis.

E tem uma pegadinha danada implícita nessa troca: nós pensamos que relaxar é perder o controle, ficar desatento, dormir no ponto; e é bem ao contrário: o relaxamento nos põe mais confortáveis, mais observadores que condutores, mais no fluxo: atenção não é tensão, atenção é presença, unidade, e na unidade estão o que chamamos de qualidades e o que chamamos de defeitos, os momentos que consideramos lindos e os outros que tentamos evitar, o que achamos que acertamos e aquelas atitudes que nos fazem sentir péssimas, "lá vou ter que começar todo meu programa de zen budista do zero, não consegui mais uma vez".

Olhar pras situações e pras nossas tendências e características como elas se apresentam faz enxergar, muda padrões, ilumina, transforma, liberta. Faz ficar engraçado e a gente pode rir, mesmo que de início pareça tudo muito feio, triste e desolador. Eu recomendo a todas as mães aceitarem suas lindas homenagens mas que isso nunca se torne um peso a carregar, uma imagem a manter: sejam imperfeitas. Fiquem de saco cheio. Gritem, se precisarem, corram pra dentro do mar, do mato, do escuro. Saiam de si pra reecontrarem-se. Fiquem à vontade nos seus papéis, isso não vai fazer de vocês uma deusa romântica da maternidade, mas quem quer viver uma mentira? Meio humana, meio deusa, e há beleza no caos, há beleza nas sombras, há beleza verdadeira em se expor aos ventos, e ao que a vida nos apresenta.

Escrito por Caroline Cezar, 09/05/2016 às 08h46 | carol.jp3@gmail.com



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