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Coluna
Mãe na Roda

"Quem Manda Aqui?"

Acabou de ficar pronto "Quem Manda Aqui?", um livro sobre política, realizado por quatro autores jovens, a partir de oficinas com crianças. Todo o processo de realização -desde a ideia à captação de recursos via financiamento coletivo- foi feito de forma democrática e aberta, um "processo de embolo coletivo de ideias", definiu Pedro Markun, que é um dos autores e trabalha no Laboratório Hacker. As oficinas para o segundo livro já estão acontecendo e Pedro conversou com a reportagem sobre esse trabalho de empoderamento infantil e social.

 

"Quem manda aqui" fala da capacidade de, desde muito cedo, avaliar, discernir, se posicionar… Fala da liberdade e autonomia da criança, enquanto ser social e concreto, e não um algo-que-virá-a-ser. O que despertou sua vontade de falar nisso? Filhos? Situação da criança? Situação do país? Nossas escolas?
A necessidade de falar de política com crianças e de encontrar maneiras de fazer isso... vem com certeza do momento que minha filha nasceu. Eu que sempre gostei e trabalhei com isso, me peguei pensando em como é que eu ia contar essas coisas pra ela; e que temos pouquissimo repertório e experiências sobre isso. Mas o livro de fato surgiu da colaboração. A Paula Desgualdo, uma amiga querida, estava um dia em casa e me perguntou se eu nunca tinha tido vontade de escrever um livro... eu disse que sempre, mas que não sabia escrever. E aí naquele momento ela resolveu que ia escrever o livro comigo e ele nasceu... com a colaboração do André Rodrigues e da Lari, dois ilustradores incriveis que abraçaram o projeto com força desde o nascedouro - juntos viramos autores. :)

 

O livro aborda questões de opressão e violência de forma simples e tranquila, com um foco objetivo. Como alcançar tamanho grau de simplicidade? A ajuda das crianças tem que peso nesse sentido?
A gente não sabia direito o que ia ser o livro. Partimos de bem poucas premissas... a maior delas a de que a gente ia ouvir francamente as crianças antes de começar a ter nossas próprias ideias do que é que devia ser o livro. Uma das primeiras decisões que tomamos foi a de tomar muito cuidado para que o livro trouxesse mais perguntas que respostas, para que ele tivesse muito espaço em branco (e pouco texto) pra deixar os pais trabalharem com as crianças os conteúdos do livro. A gente pensou cada página, cada personagem... com um propósito, uma provocação... mas a ideia foi deixar isso mesmo de maneira bem suave para que cada um se apropriasse conforme o seu interesse e olhar.

 

Você concorda que 'Nenhum problema social é tão universal quanto a opressão da criança', como colocou Maria Montessori? 
Acho que não. Tem vários outros problemas bem universais... e que tem várias sociedades que tratam a criança com mais respeito do que a nossa sociedade ocidental cristã (pra ficar no raso)... mas obviamente concordo que é um puta problema social, pelo menos pra gente.

 

Sobre nosso modelo de escolas, o que você pensa?
Acho um problema pior e mais generalizado do que a opressão com as crianças.
Ainda não sei como falar sobre escola com a minha filha. Acho que vou ter que escrever um livro sobre isso qualquer hora...

 

Como acontecem as oficinas? Como é o processo de escolher o que vai ser publicado?
A segunda oficina, Democracia Brincante, já está acontecendo.
Essa coisa de escolher o que vai ser publicado foi uma questão pra gente... logo no início a gente não sabia direito 'como' ia ser o aproveitamento do material no livro final. E no fim a gente decidiu que não precisava usar nada 'diretamente'. Tem coisas, ideias, traços que aparecem no livro. Mas é que a gente vê autoria de um outro jeito né? Então o livro tudo foi uma escolha dos meninos que fizeram oficina e nossa também... não dá muito pra apontar o que é que veio deles, o que veio da Paula, da Lari, do André... eu pelo menos sinto isso e esse sentimento me dá uma certa segurança de que a gente fez um processo legal e aberto.

 

O que teremos daqui pra frente como continuação do projeto?
Ainda é cedo pra martelar qualquer coisa na pedra... e como o processo passa por essa conversa/oficina com as crianças, nunca dá pra gente antecipar tudo. Mas estamos trabalhando com a ideia de um livro que fale sobre democracia e eleições - focado mais nas confusões desse nosso processo louquíssimo que rola de 2 em 2 anos e através do qual a sociedade moderna resolveu se relacionar com a política.


Que dicas práticas você daria para quem lida com crianças no dia a dia, para que sejam mais livres e responsáveis por suas escolhas?
Sejam mais livres e responsáveis por suas escolhas! Mas se quiser algo menos subjetivo... escute a criança como você escutaria aquele professor provocativo da universidade. Aquele que você escuta com bastante atenção, porque sempre acha que ele vai falar algo genial, mas que escuta com atenção redobrada porque ele volta e meia joga com as palavras e com as ideias para te provocar e se você estiver desatento... cai :)

 

Leia o livro (abaixo na versão on line) e saiba mais sobre o projeto aqui:

 

 
Escrito por Caroline Cezar, 05/11/2015 às 08h19 | carol.jp3@gmail.com



Mãe na Roda é um espaço colaborativo para compartilhar a maternidade e questões afins.














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"Quem Manda Aqui?"

Acabou de ficar pronto "Quem Manda Aqui?", um livro sobre política, realizado por quatro autores jovens, a partir de oficinas com crianças. Todo o processo de realização -desde a ideia à captação de recursos via financiamento coletivo- foi feito de forma democrática e aberta, um "processo de embolo coletivo de ideias", definiu Pedro Markun, que é um dos autores e trabalha no Laboratório Hacker. As oficinas para o segundo livro já estão acontecendo e Pedro conversou com a reportagem sobre esse trabalho de empoderamento infantil e social.

 

"Quem manda aqui" fala da capacidade de, desde muito cedo, avaliar, discernir, se posicionar… Fala da liberdade e autonomia da criança, enquanto ser social e concreto, e não um algo-que-virá-a-ser. O que despertou sua vontade de falar nisso? Filhos? Situação da criança? Situação do país? Nossas escolas?
A necessidade de falar de política com crianças e de encontrar maneiras de fazer isso... vem com certeza do momento que minha filha nasceu. Eu que sempre gostei e trabalhei com isso, me peguei pensando em como é que eu ia contar essas coisas pra ela; e que temos pouquissimo repertório e experiências sobre isso. Mas o livro de fato surgiu da colaboração. A Paula Desgualdo, uma amiga querida, estava um dia em casa e me perguntou se eu nunca tinha tido vontade de escrever um livro... eu disse que sempre, mas que não sabia escrever. E aí naquele momento ela resolveu que ia escrever o livro comigo e ele nasceu... com a colaboração do André Rodrigues e da Lari, dois ilustradores incriveis que abraçaram o projeto com força desde o nascedouro - juntos viramos autores. :)

 

O livro aborda questões de opressão e violência de forma simples e tranquila, com um foco objetivo. Como alcançar tamanho grau de simplicidade? A ajuda das crianças tem que peso nesse sentido?
A gente não sabia direito o que ia ser o livro. Partimos de bem poucas premissas... a maior delas a de que a gente ia ouvir francamente as crianças antes de começar a ter nossas próprias ideias do que é que devia ser o livro. Uma das primeiras decisões que tomamos foi a de tomar muito cuidado para que o livro trouxesse mais perguntas que respostas, para que ele tivesse muito espaço em branco (e pouco texto) pra deixar os pais trabalharem com as crianças os conteúdos do livro. A gente pensou cada página, cada personagem... com um propósito, uma provocação... mas a ideia foi deixar isso mesmo de maneira bem suave para que cada um se apropriasse conforme o seu interesse e olhar.

 

Você concorda que 'Nenhum problema social é tão universal quanto a opressão da criança', como colocou Maria Montessori? 
Acho que não. Tem vários outros problemas bem universais... e que tem várias sociedades que tratam a criança com mais respeito do que a nossa sociedade ocidental cristã (pra ficar no raso)... mas obviamente concordo que é um puta problema social, pelo menos pra gente.

 

Sobre nosso modelo de escolas, o que você pensa?
Acho um problema pior e mais generalizado do que a opressão com as crianças.
Ainda não sei como falar sobre escola com a minha filha. Acho que vou ter que escrever um livro sobre isso qualquer hora...

 

Como acontecem as oficinas? Como é o processo de escolher o que vai ser publicado?
A segunda oficina, Democracia Brincante, já está acontecendo.
Essa coisa de escolher o que vai ser publicado foi uma questão pra gente... logo no início a gente não sabia direito 'como' ia ser o aproveitamento do material no livro final. E no fim a gente decidiu que não precisava usar nada 'diretamente'. Tem coisas, ideias, traços que aparecem no livro. Mas é que a gente vê autoria de um outro jeito né? Então o livro tudo foi uma escolha dos meninos que fizeram oficina e nossa também... não dá muito pra apontar o que é que veio deles, o que veio da Paula, da Lari, do André... eu pelo menos sinto isso e esse sentimento me dá uma certa segurança de que a gente fez um processo legal e aberto.

 

O que teremos daqui pra frente como continuação do projeto?
Ainda é cedo pra martelar qualquer coisa na pedra... e como o processo passa por essa conversa/oficina com as crianças, nunca dá pra gente antecipar tudo. Mas estamos trabalhando com a ideia de um livro que fale sobre democracia e eleições - focado mais nas confusões desse nosso processo louquíssimo que rola de 2 em 2 anos e através do qual a sociedade moderna resolveu se relacionar com a política.


Que dicas práticas você daria para quem lida com crianças no dia a dia, para que sejam mais livres e responsáveis por suas escolhas?
Sejam mais livres e responsáveis por suas escolhas! Mas se quiser algo menos subjetivo... escute a criança como você escutaria aquele professor provocativo da universidade. Aquele que você escuta com bastante atenção, porque sempre acha que ele vai falar algo genial, mas que escuta com atenção redobrada porque ele volta e meia joga com as palavras e com as ideias para te provocar e se você estiver desatento... cai :)

 

Leia o livro (abaixo na versão on line) e saiba mais sobre o projeto aqui:

 

 
Escrito por Caroline Cezar, 05/11/2015 às 08h19 | carol.jp3@gmail.com



Mãe na Roda é um espaço colaborativo para compartilhar a maternidade e questões afins.