Jornal Página 3
Coluna
Mãe na Roda

Paternar

Uma vez assisti um filme, curto, sobre pais recém nascidos. Pai, figura masculina. O que eles estavam achando de ficar grávidos. Como lidavam com a coisa. Como lidavam com a coisa, antes, durante, depois da coisinha nascer. Como agradar a Grande Coisa, a Coisíssima Mor, Todas as Outras Coisas. Que atitude tomar diante da quase indecifrável alma feminina?

- O que devo dizer? - O que não devo dizer? - Como faço isso? - O que ela está pensando? - Estou atrapalhando? - Como posso ajudar? - Não vou acertar uma será?' 

Foi muito legal ouvir a voz masculina aquele dia. Uma voz que também precisa ser ouvida.

Antes de mostrar o doc, a doula contou que atendia um parto na Espanha, tudo dentro dos conformes, mas a coisa não avançava. Algo estava bloqueando o trabalho. Ela achou que era o marido, e chamou pra fora, discretamente. O homem sentou na beira do rio, com uma garrafa na mão. Ela teve um pouco de medo. Ele deu um gole e ofereceu a cachaça. Ela aceitou e devolveu, e ele caiu num choro de criança, profundo, ancorando-se na mulher. Aquele homão enorme, grande, quase bruto, se derramando em lágrima.

Ela esperou parar os soluços e se pôs a ouvir o homem grande confessando que não sabia o que fazer, nem como fazer, e que não queria ser só o cara que pega coisas, e faz tudo errado. Todo mundo estava mandando nele, mas ninguém estava olhando pra ele, nem queria saber algo dele, e ele queria ser útil, ajudar sua mulher a atravessar. Tornando-se estava, um pai.

A doula foi lá dentro, mandou que todos saíssem. Ficou a mulher. O homem entrou. A criança nasceu. O homem nasceu. A mulher sorriu.

***

Lembrei isso depois de rir um pouco com o humor da nova página Paternar, que faz par com a já existente Maternar, iniciativas locais (BC/ Itajaí/ região) que somam para uma gestação, criação, vínculos, mais atentos.

O homem tem muito isso do humor, -e como esse é um caminho tranquilo para quebrar as barreiras, e ir entrando assim fazendo graça num campo delicado e minado, cheio de condicionamentos e falsas construções que alguém chamou de masculinidade.

É cada vez mais permitido ao homem que exerça sua hombridade de forma mais nobre e menos lugar-comum, que seja um homem inteiro, um pai inteiro, uma pessoa inteira, alguém que sente, chora, observa, participa, integra, apóia, entende, busca, ama. É mais permitido que ele ocupe seu espaço de maneira menos imposta, mais como ele quiser.

Que sigam nesse empoderamento masculino sob novo ângulo, porque isso é significante para uma sociedade mais fraterna. Isso é essencial para criar filhos livres e amorosos, pessoas livres e amorosas, é essencial para criar um lugar onde é permitido SER.

 

 


"A palavra puerpério é Paciência, que um dia me disseram ser PAZciência, ou seja, a ciência de ter e viver em paz. Essencial para este período." by Dé Aragão
 

Escrito por Caroline Cezar, 07/10/2015 às 12h31 | carol.jp3@gmail.com



Mãe na Roda é um espaço colaborativo para compartilhar a maternidade e questões afins.














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Paternar

Uma vez assisti um filme, curto, sobre pais recém nascidos. Pai, figura masculina. O que eles estavam achando de ficar grávidos. Como lidavam com a coisa. Como lidavam com a coisa, antes, durante, depois da coisinha nascer. Como agradar a Grande Coisa, a Coisíssima Mor, Todas as Outras Coisas. Que atitude tomar diante da quase indecifrável alma feminina?

- O que devo dizer? - O que não devo dizer? - Como faço isso? - O que ela está pensando? - Estou atrapalhando? - Como posso ajudar? - Não vou acertar uma será?' 

Foi muito legal ouvir a voz masculina aquele dia. Uma voz que também precisa ser ouvida.

Antes de mostrar o doc, a doula contou que atendia um parto na Espanha, tudo dentro dos conformes, mas a coisa não avançava. Algo estava bloqueando o trabalho. Ela achou que era o marido, e chamou pra fora, discretamente. O homem sentou na beira do rio, com uma garrafa na mão. Ela teve um pouco de medo. Ele deu um gole e ofereceu a cachaça. Ela aceitou e devolveu, e ele caiu num choro de criança, profundo, ancorando-se na mulher. Aquele homão enorme, grande, quase bruto, se derramando em lágrima.

Ela esperou parar os soluços e se pôs a ouvir o homem grande confessando que não sabia o que fazer, nem como fazer, e que não queria ser só o cara que pega coisas, e faz tudo errado. Todo mundo estava mandando nele, mas ninguém estava olhando pra ele, nem queria saber algo dele, e ele queria ser útil, ajudar sua mulher a atravessar. Tornando-se estava, um pai.

A doula foi lá dentro, mandou que todos saíssem. Ficou a mulher. O homem entrou. A criança nasceu. O homem nasceu. A mulher sorriu.

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Lembrei isso depois de rir um pouco com o humor da nova página Paternar, que faz par com a já existente Maternar, iniciativas locais (BC/ Itajaí/ região) que somam para uma gestação, criação, vínculos, mais atentos.

O homem tem muito isso do humor, -e como esse é um caminho tranquilo para quebrar as barreiras, e ir entrando assim fazendo graça num campo delicado e minado, cheio de condicionamentos e falsas construções que alguém chamou de masculinidade.

É cada vez mais permitido ao homem que exerça sua hombridade de forma mais nobre e menos lugar-comum, que seja um homem inteiro, um pai inteiro, uma pessoa inteira, alguém que sente, chora, observa, participa, integra, apóia, entende, busca, ama. É mais permitido que ele ocupe seu espaço de maneira menos imposta, mais como ele quiser.

Que sigam nesse empoderamento masculino sob novo ângulo, porque isso é significante para uma sociedade mais fraterna. Isso é essencial para criar filhos livres e amorosos, pessoas livres e amorosas, é essencial para criar um lugar onde é permitido SER.

 

 


"A palavra puerpério é Paciência, que um dia me disseram ser PAZciência, ou seja, a ciência de ter e viver em paz. Essencial para este período." by Dé Aragão
 

Escrito por Caroline Cezar, 07/10/2015 às 12h31 | carol.jp3@gmail.com



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