Jornal Página 3
Coluna
Mundo ao Contrário
Por Larissa Andrade

Nas terras da rainha

Fiquei encantada ao receber o convite do Jornal Página 3 para compartilhar informações deste que chamo de “Mundo ao Contrário”. Eu vivo nele, parte do ano, aqui no interior da Inglaterra, no Reino Unido. Sou jornalista, empresária, e moro há muito tempo em Balneário Camboriú. Desde agosto do ano passado, por questões familiares profissionais, minha vida mudou significativamente. Tive que apreender a me adaptar com duas realidades completamente distintas. Além de manter a rotina pessoal e profissional na cidade que eu amo no Brasil, e que já estou habituada, me aventurei nesta outra vida, há mais de 12 mil quilômetros de distância.

A “segunda casa”, depois de Balneário Camboriú, fica no interior, em uma charmosa cidade costeira e portuária no litoral Sul da Inglaterra chamada Poole, na região de Dorset, mais ou menos duas horas de Londres, a capital, e não muito distante da França, por meio do Canal da Mancha. Aliás, aqui eles não costumam se referir apenas como “Inglaterra (o país)”, como citamos no Brasil, mas sim, como “Reino Unido (United Kingdom – UK)”, formado pelos países: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte.

Costumo pensar que Poole é meu “mundo ao contrário ou de cabeça para baixo” em relação ao dia a dia no Brasil. Aqui é lindo da mesma forma, contudo, antigo (com registros que datam do século XII) e, ao mesmo tempo, com história e tradições bem preservadas, o que me fascina, por sinal. E essa antiguidade consegue se misturar perfeitamente com a modernidade, com o conforto, com a tecnologia e com paisagens belíssimas da também conhecida Poole Harbour (porto de Poole, em inglês).

 

A arquitetura é algo que chama atenção, meio mágico. Além do charmoso estilo Vitoriano, que predomina, há uma mistura de outras arquiteturas europeias. Tudo se encaixa perfeitamente ao cenário que parece moldado à mão, como um conto de fadas, ou de bruxos. Digo isso porque agora eu consigo perfeitamente entender algumas das inspirações da autora J. K. Rowling quando escreveu a série de livros do Harry Potter. Aliás, até os nomes das ruas chamam a atenção como: Rua do Castelo, Rua do Chapéu, Rua do Paraíso e assim por diante.

O sotaque do Sul do Reino Unido

Em um primeiro momento, além de uma grande aventura, acreditei que, com um nível adequado de inglês, já conhecendo estrangeiros e um pouco da realidade na Europa, esse processo de adaptação fosse mais simples, fácil. De fato, concordo que está sendo uma grande e empolgante experiência, mas fácil? Ahh, eu estava enganada.

Ao contrário do que imaginei, que fosse lidar super bem com a língua, já fui alvo para situações um tanto desafiadoras. No caso dos ingleses daqui do interior, o sotaque é diferente do falado na capital, de Londres – que é bem mais fácil de entender - e do que estava habituada a lidar em viagens ou no trabalho. É um misto de economia de letras, extensão e entonação de algumas vogais com uma formalidade que, particularmente, acho linda de ouvir. E olha que pensei que iria “tirar de letra”, mas ainda é preciso um esforço a mais para entender. O sotaque já significou algumas situações um tanto embaraçosas e, por vezes, seguidas de perguntas (quase súplicas) de: “Pode repetir, por favor?” ou “Não entendi, pode falar novamente?”. Felizmente, meus ouvidos estão se adaptando, pacientemente, dia após dia. Mas isso rende assunto para outras publicações.

Sentidos contrários

Quando penso no mundo de “cabeça para baixo”, o que parece detalhe rotineiro se transforma em desafio. Explico: por conta da tal “mão inglesa”, ainda faço certa confusão ao atravessar a rua e olhar para os lados opostos (já passei alguns apertos por conta disso...). Felizmente, a sinalização impecável (que faço questão de respeitar à risca, o que é importantíssimo para evitar acidentes) ajuda a seguir as direções inversas. Pelo fato de a cidade também concentrar Europeus de vários países, nas próprias ruas existem avisos enormes estampados dizendo “ENTRADA PROIBIDA. OLHE PARA A ESQUERDA. OLHE PARA A DIREITA, etc”. Sim, isso ajuda em momentos de distrações.

E por falar em sentido contrário, até a chave da porta principal do apartamento que moro, ao invés de virar para direita, gira para a esquerda, sem falar do estilo diferente e meio imperial da porta que mais parece um objeto de decoração. Quando iniciei as aventuras por aqui, nas Terras da Rainha, não era incomum encarar a porta e pensar: “Será que trouxe a chave errada?”. Aliás, isso também ocorre com os botões do fogão e por aí vai.

É o caso de lidar com o controle remoto da TV, comparando com o que estou habituada no Brasil que, por exemplo, tem o botão “desligar” na cor vermelha. Aqui é verde.

Pela manhã, costumo correr nos parques da região, com seus imensos gramados lindíssimos que margeiam a costa. Ao longo do passeio, já me surpreendi com pessoas vindo na minha direção com semblantes de, como posso dizer, “ponto de interrogação”. Aí, finalmente, entendo: “estou do lado errado, para variar”.

Mas, diferentemente do que imaginava antes de vir para o Reino Unido, de que poderia me deparar com pessoas fechadas e sérias, fico feliz em saber que estava enganada, pelo menos, na experiência que tenho vivido. As pessoas com as quais já mantive contatos foram incrivelmente simpáticas, pacientes com minhas dificuldades e carregadas daquela formalidade britânica que adoro. Apesar dos tropeços linguísticos, o sorriso é uma língua universal. Ao sair nas ruas é muito difícil não me deparar com pessoas entoando com empolgação um BOM DIA.

E, dessa forma, eu realmente me sinto em casa.

Hábitos, costumes, curiosidades e algumas histórias interessantes das Terras da Rainha serão compartilhadas aqui, no Página 3, semanalmente.

Todas as informações deste canal são baseadas em experiências vividas e opiniões do autor.
 

Escrito por Larissa Andrade, 17/09/2019 às 17h10 | larissa.rotas@gmail.com



Larissa Andrade

Assina a coluna Mundo ao Contrário

É jornalista, empresária e tem mais de 20 anos de experiência em comunicação. É apaixonada por compartilhar a "arte da expressão" em suas diversas formas. Sua vida mudou e agora concilia as suas atividades no Brasil (Balneário Camboriú, SC) e no Reino Unido (Poole, Inglaterra). Traz curiosidades, hábitos e estilo de vida das "Terras da Rainha".














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Fiquei encantada ao receber o convite do Jornal Página 3 para compartilhar informações deste que chamo de “Mundo ao Contrário”. Eu vivo nele, parte do ano, aqui no interior da Inglaterra, no Reino Unido. Sou jornalista, empresária, e moro há muito tempo em Balneário Camboriú. Desde agosto do ano passado, por questões familiares profissionais, minha vida mudou significativamente. Tive que apreender a me adaptar com duas realidades completamente distintas. Além de manter a rotina pessoal e profissional na cidade que eu amo no Brasil, e que já estou habituada, me aventurei nesta outra vida, há mais de 12 mil quilômetros de distância.

A “segunda casa”, depois de Balneário Camboriú, fica no interior, em uma charmosa cidade costeira e portuária no litoral Sul da Inglaterra chamada Poole, na região de Dorset, mais ou menos duas horas de Londres, a capital, e não muito distante da França, por meio do Canal da Mancha. Aliás, aqui eles não costumam se referir apenas como “Inglaterra (o país)”, como citamos no Brasil, mas sim, como “Reino Unido (United Kingdom – UK)”, formado pelos países: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte.

Costumo pensar que Poole é meu “mundo ao contrário ou de cabeça para baixo” em relação ao dia a dia no Brasil. Aqui é lindo da mesma forma, contudo, antigo (com registros que datam do século XII) e, ao mesmo tempo, com história e tradições bem preservadas, o que me fascina, por sinal. E essa antiguidade consegue se misturar perfeitamente com a modernidade, com o conforto, com a tecnologia e com paisagens belíssimas da também conhecida Poole Harbour (porto de Poole, em inglês).

 

A arquitetura é algo que chama atenção, meio mágico. Além do charmoso estilo Vitoriano, que predomina, há uma mistura de outras arquiteturas europeias. Tudo se encaixa perfeitamente ao cenário que parece moldado à mão, como um conto de fadas, ou de bruxos. Digo isso porque agora eu consigo perfeitamente entender algumas das inspirações da autora J. K. Rowling quando escreveu a série de livros do Harry Potter. Aliás, até os nomes das ruas chamam a atenção como: Rua do Castelo, Rua do Chapéu, Rua do Paraíso e assim por diante.

O sotaque do Sul do Reino Unido

Em um primeiro momento, além de uma grande aventura, acreditei que, com um nível adequado de inglês, já conhecendo estrangeiros e um pouco da realidade na Europa, esse processo de adaptação fosse mais simples, fácil. De fato, concordo que está sendo uma grande e empolgante experiência, mas fácil? Ahh, eu estava enganada.

Ao contrário do que imaginei, que fosse lidar super bem com a língua, já fui alvo para situações um tanto desafiadoras. No caso dos ingleses daqui do interior, o sotaque é diferente do falado na capital, de Londres – que é bem mais fácil de entender - e do que estava habituada a lidar em viagens ou no trabalho. É um misto de economia de letras, extensão e entonação de algumas vogais com uma formalidade que, particularmente, acho linda de ouvir. E olha que pensei que iria “tirar de letra”, mas ainda é preciso um esforço a mais para entender. O sotaque já significou algumas situações um tanto embaraçosas e, por vezes, seguidas de perguntas (quase súplicas) de: “Pode repetir, por favor?” ou “Não entendi, pode falar novamente?”. Felizmente, meus ouvidos estão se adaptando, pacientemente, dia após dia. Mas isso rende assunto para outras publicações.

Sentidos contrários

Quando penso no mundo de “cabeça para baixo”, o que parece detalhe rotineiro se transforma em desafio. Explico: por conta da tal “mão inglesa”, ainda faço certa confusão ao atravessar a rua e olhar para os lados opostos (já passei alguns apertos por conta disso...). Felizmente, a sinalização impecável (que faço questão de respeitar à risca, o que é importantíssimo para evitar acidentes) ajuda a seguir as direções inversas. Pelo fato de a cidade também concentrar Europeus de vários países, nas próprias ruas existem avisos enormes estampados dizendo “ENTRADA PROIBIDA. OLHE PARA A ESQUERDA. OLHE PARA A DIREITA, etc”. Sim, isso ajuda em momentos de distrações.

E por falar em sentido contrário, até a chave da porta principal do apartamento que moro, ao invés de virar para direita, gira para a esquerda, sem falar do estilo diferente e meio imperial da porta que mais parece um objeto de decoração. Quando iniciei as aventuras por aqui, nas Terras da Rainha, não era incomum encarar a porta e pensar: “Será que trouxe a chave errada?”. Aliás, isso também ocorre com os botões do fogão e por aí vai.

É o caso de lidar com o controle remoto da TV, comparando com o que estou habituada no Brasil que, por exemplo, tem o botão “desligar” na cor vermelha. Aqui é verde.

Pela manhã, costumo correr nos parques da região, com seus imensos gramados lindíssimos que margeiam a costa. Ao longo do passeio, já me surpreendi com pessoas vindo na minha direção com semblantes de, como posso dizer, “ponto de interrogação”. Aí, finalmente, entendo: “estou do lado errado, para variar”.

Mas, diferentemente do que imaginava antes de vir para o Reino Unido, de que poderia me deparar com pessoas fechadas e sérias, fico feliz em saber que estava enganada, pelo menos, na experiência que tenho vivido. As pessoas com as quais já mantive contatos foram incrivelmente simpáticas, pacientes com minhas dificuldades e carregadas daquela formalidade britânica que adoro. Apesar dos tropeços linguísticos, o sorriso é uma língua universal. Ao sair nas ruas é muito difícil não me deparar com pessoas entoando com empolgação um BOM DIA.

E, dessa forma, eu realmente me sinto em casa.

Hábitos, costumes, curiosidades e algumas histórias interessantes das Terras da Rainha serão compartilhadas aqui, no Página 3, semanalmente.

Todas as informações deste canal são baseadas em experiências vividas e opiniões do autor.
 

Escrito por Larissa Andrade, 17/09/2019 às 17h10 | larissa.rotas@gmail.com



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É jornalista, empresária e tem mais de 20 anos de experiência em comunicação. É apaixonada por compartilhar a "arte da expressão" em suas diversas formas. Sua vida mudou e agora concilia as suas atividades no Brasil (Balneário Camboriú, SC) e no Reino Unido (Poole, Inglaterra). Traz curiosidades, hábitos e estilo de vida das "Terras da Rainha".