Jornal Página 3
Coluna
Mundo ao Contrário
Por Larissa Andrade

DAS TELAS PARA A VIDA REAL

Passear pelas ruas do Reino Unido, observar os belíssimos parques e jardins britânicos e as imponentes construções desde a era medieval, que moldam a história da nação, é uma atração turística e tanto.

Não é à toa que as "Terras da Rainha" servem como fonte de inspiração para uma série de filmes e obras literárias conhecidas em todo o mundo.

Cenários que parecem de filmes são facilmente encontrados no Reino Unido. Foto: Arquivo pessoal

É o caso, claro, da série Harry Potter. Os fãs se sentem em casa, ou melhor, dentro do filme, ao simplesmente passearem pela estação de King´s Cross, em Londres, e encontrarem a Plataforma 9 3/4. Porém, nesta plataforma, só quem é do "mundo dos bruxos" pode embarcar.

Mas se você não é (ou ainda não sabe se é) do "clã dos bruxos" também pode fazer, sim, uma viagem pelo Expresso Hogwarts. No mesmo trem usado para a gravação do filme. Ele se chama "The Jacobite" e passa por cenários deslumbrantes entre montanhas e lagos na Escócia. Impossível não se sentir parte da magia. Veja aqui o roteiro no site da West Coast Rail Ways: aqui

The Jacobite, o trem de Hogwarts. Imagem: West Coast Rail Ways

Esses são apenas alguns dos exemplos de muitos cenários reais de gravações dos filmes da famosa série. Mas não é somente o bruxo Potter, obra de J.K. Rowling, que tem fama no Reino Unido.

O criador do "menino que não queria crescer" James M. Barrie também deixou um legado e tanto por aqui. Muitas vezes já passei por casas em estilo vitoriano e, por gostar da história, percebi similaridade com os filmes de Peter Pan. Até a casa que o autor viveu lembra muito a residência da Wendy quando recebia a visita do menino em suas aventuras. Está localizada em Londres e, inclusive, está à venda pelo portal "Zoopla.co.uk" por 8,5 milhões de libras (mais ou menos 42,5 milhões de reais).

Paisagens que lembram contos de fadas mundialmente conhecidos. Fotos: arquivo pessoal

E quem passear pelo lindo Hyde Park no centro de Londres, encontra no Kensignton Garden a estátua de bronze de Peter Pan em meio à natureza, um orgulho para a nação.

E por falar em personagens, Frankestein também faz parte do Reino Unido. A autora Mary Shelley está enterrada em Bournemouth, cidade vizinha aqui de Poole, nos terrenos da icônica igreja de St Peter. Houve até um festival em 2018, nesta mesma época (mês do Halloween) para celebrar a vida, os trabalhos da família Shelley e os 200 anos da mundialmente conhecida obra. Aliás, a belíssima construção da igreja de St Peter, com interiores sofisticados em estilo gótico, vale a visita. Fica no centro da cidade.

Para os amantes da arte, difícil não conectar o Reino Unido com um dos mais renomados poetas e dramaturgos do mundo. William Shakespeare tem uma charmosa cidade inteira dedicada a ele, local em que nasceu, morou com a sua família e morreu. Grande parte das atrações de Stratford-upon-Avon estão relacionadas com a vida, os hábitos, as obras e do autor de Romeu e Julieta. Quem tiver interesse é só dar uma olhada no website: www.visitstratforduponavon.co.uk

E entrando no mundo da "Alice no País das Maravilhas", aqui também é possível mergulhar nos cenários mágicos da obra de Lewis Carrol e viajar na encantadora história passando por lugares como Oxford, Manchester, País de Gales, aqui no litoral sul do país, ou apenas visitando as belas e tradicionais casas de chá inglesas para relembrar o "desaniversário" do Chapeleiro Maluco. Sobre o famoso “gato listrado” ou “gato que ri” do conto literário, ele é chamado de Gato de Cheshire na versão original da história. Li no site "Visit Britain" que os gatos da cidade de Cheshire, um condado da Inglaterra, são sorridentes devido à grande quantidade de leite produzido nas fazendas da região.

Paisagens do cenário britânico. Foto: arquivo pessoal

E enquanto o gato sorri, em Londres, na Baker Street, é possível mergulhar nas investigações do detetive da ficção Sherlock Holmes visitando a casa do superfamoso personagem criado por Arthur Conan Doyle. Inspiração garantida para os fãs. Na bela construção vitoriana, se encontra uma série de objetos utilizados nas investigações, móveis, itens decorativos e cômodos que o detetive dividia com o personagem Dr. Watson. Informações aqui: www.sherlock-holmes.co.uk

Londres concentra inúmeros tesouros que foram transportados para as telonas. Foto: Arquivo pessoal

Poderia relatar outras inúmeras obras e atores mundialmente famosos do Reino Unido, que nos fazem lembrar, viajar por épocas e intrigantes histórias, por meio de passeios pela nação. Mas termino o artigo da semana com a amada série britânica Downton Abbey, criada por Julian Fellowes com filme lançado recentemente, no início de setembro deste ano. Apresenta muito bem os fantásticos cenários, construções imponentes e o tradicional dia a dia da aristocracia britânica do início do século XX. É muito fácil encontrar similaridade com as paisagens da série caminhando por parques e antigas fazendas do interior, observando a imponência das residências e ambientes naturais paradisíacos.

Cenários que inspiram a arte. Foto: arquivo pessoal

É como entrar nas telas, na história. E é possível também visitar a própria residência. A visita ao Highclere Castle (castelo de Downton Abbey), em Highclere, região de Newbury, só é possível em alguns períodos do ano. Na casa moram o Lord e a Lady Carnarvon na vida real. O passeio é supercobiçado, portanto, é indicada a reserva com muita antecedência. Veja aqui: www.highclerecastle.co.uk


Todas as informações deste canal são baseadas em experiências e opiniões do autor.

Escrito por Larissa Andrade, 14/10/2019 às 20h26 | larissa.rotas@gmail.com

Seis opções comuns para experimentar e para aproveitar na Inglaterra

Nesta semana, selecionei seis itens interessantes do dia a dia, entre comidas, serviços públicos e privados frequentemente utilizados aqui na Inglaterra, sob a minha perspectiva. Poderia elencar inúmeros neste texto. Mas para não estender, em outros artigos, trarei mais novidades. Sobre os preços de alguns produtos citados, eles são baseados em experiências pessoais e opções que encontrei no interior do país. Podem sofrer variações, além das promoções que são constantemente realizadas pelo comércio. Confira:

1. Fish and Chips

Fish and Chips da rede de restaurantes Harry Ramsden, o "legendário"

Lógico que não poderia deixar de abrir as opções interessantes das “Terras da Rainha” com o tradicionalíssimo “Fish and Chips” (peixe com batatas, fritos). Símbolo da gastronomia britânica, é possível encontrar o prato típico em diversos lugares. E, assim como a nossa feijoada, a qualidade e a diversidade de acompanhamentos (além das batatas) depende do lugar escolhido, da expertise dos profissionais na preparação, na criatividade e na seleção dos ingredientes.

São comumente usados na preparação os peixes “Cod” e “Haddock”, ambos da família do bacalhau. Experimentei recentemente a iguaria inglesa em uma rede de restaurantes bem tradicional pelos seus “fish and chips” com dezenas de unidades espalhadas pelo Reino Unido, chamada de Harry Ramsden. Fui na cidade vizinha de Poole, em Bournemouth. Lógico, pedi o tradicional, em um tamanho nada modesto, chamado “legendário”, para dividir. Além das batatas, trazia um gostoso purê de ervilhas para acompanhar. Muito saboroso (e calórico)! Para duas pessoas (ou até mesmo duas pessoas e uma criança, dependendo da fome), o prato “legendário” custa em torno de 15 libras, além das bebidas. Neste caso, para comer dentro do charmoso restaurante em frente ao belíssimo mar da costa britânica.

Há vários "fast foods" no Reino Unidos que oferecem o típico "fish and chips"

É possível encontrar opções para levar para casa em inúmeros fast foods da região (a partir de 4 libras por pessoa, aproximadamente) ou fazer em casa: comprar peixes empanados e congelados oferecidos em supermercados (em torno de 3 libras uma caixinha), e simplesmente, “viajar” nos acompanhamentos.

2. Frutas vermelhas

Tudo o que, em inglês e no plural, termina com “berries” é muito consumido por aqui. É o caso das blackberries (amoras), dos blueberries (mirtilos), dos strawberries (morangos) e assim por diante. Presumo que por conta do clima, há muitas opções de diversas marcas produzidas localmente e também importadas. Uma caixa de mirtilos de meio quilo, em mercados aqui da cidade de Poole, pode ser encontrada por preços em torno de 4,5 libras (reforçando: meio quilo). Morangos grandes e docinhos, nesse caso, uma caixa de 250 gramas, custam por volta de 1,5 libra.

Por conta da fartura dessas opções, a Nação da Rainha parece ser grande apreciadora das frutas vermelhas, muito usadas em doces e até em saladas.

3. Serviço de manicure

Achei interessante perceber que muitos estrangeiros, especialmente chineses homens, mergulharam nessa área da beleza. Há vários locais que oferecem serviços de manicure e pedicure em terras britânicas. Tem várias casas especializadas em “unhas” em Poole e região do tipo: “entre sem marcar hora” com direito a uma massagem superbacana (nas mãos ou nos pés) ao longo do procedimento. Gostei muito da praticidade, do atendimento e dos serviços, mas tenho que confessar que, das experiências que já tive, minha preferência continua pelos profissionais do Brasil. O preço? Nada acessível para meu bolso: quinze libras só para fazer a mão (nem ouso pensar na conversão da moeda nessas horas).  Portanto, já comprei meu kit “manicure” para dar uma "tapeada" em casa e usar os serviços apenas em ocasiões muito (muito) especiais.

4. Carnes

Rede de açougues ambulantes que vendem saborosas carnes frescas de fazendas da região.

A carne bovina britânica é mundialmente famosa. E, de fato, é incrivelmente saborosa.

Por já estar habituada a comer carne vermelha apenas ocasionalmente, não me surpreendi com os valores e, alguns preços, até achei similares aos do Brasil. Por exemplo, um corte de carne considerado nobre e selecionado, o “Rib Eye”, é encontrado em torno de 3,5 libras por 250 gramas (14 libras o quilo). É possível encontrar preços melhores, inclusive promoções nos supermercados da região.

E quem quiser comprar carnes frescas direto do fazendeiro, há uma rede de “açougues ambulantes”, food trucks, todos os finais de semana. Os veículos superestilosos ficam na área central de várias cidades comercializando inúmeros tipos de carnes (das tradicionais às exóticas). O vendedor é um show à parte, parece um apresentador de programa de TV que, elegantemente, atende às pessoas, anuncia as promoções e os belos cortes de carne em “alto e bom tom” pelo microfone.

5. Parques públicos

Parques na Inglaterra para aproveitar o dia. Upton Park em Poole

Serviço público impecável! Especialmente em dias ensolarados (ou nublados) é maravilhoso poder reunir a família, os amigos e fazer um belo e elegante piquenique em cenários encantadores ao estilo inglês. Praticar esportes, sentar à sombra das árvores ou, simplesmente, observar os belos e multicoloridos jardins são opções para relaxar ou para se divertir. Vejo serviços de manutenção constantes nas áreas públicas, sem falar da limpeza. Bonito de se ver e muito agradável para aproveitar.

Outro belíssimo parque em Poole com seus belos jardins.

Jardins lindos na cidade vizinha de Bournemouth, Reino Unido

6. Chá inglês

Uma caixa do super tradicional chá inglês, ao qual dediquei o último artigo, pode ser encontrado em supermercados da região a partir de 70 centavos de libras. Claro, se escolher aquelas opções para presentes (com embalagens ultra elaboradas) o valor sobe consideravelmente. E para experimentar um chá inglês com uma bela fatia de bolo em uma tradicional “casa de chás”, os preços partem de 5 libras por pessoa, mais ou menos. Os valores variam muito dependendo do tipo de acompanhamento e do local escolhido.

Acompanhe outros tópicos interessantes e curiosidades das Terras da Rainha nas próximas semanas. 


Todas as informações deste canal são baseadas em experiências vividas e opiniões do autor. 

Escrito por Larissa Andrade, 02/10/2019 às 18h04 | larissa.rotas@gmail.com

É hora do chá! (It´s time for tea!)

Sempre gostei de chá, mas nunca fui superfã como, confesso, é a minha adoração pelo café. Mas como não me adaptei 100% ao clima aqui da Inglaterra, ele tem sido meu grande aliado para manter o corpo quentinho e hidratado durante o dia. Claro, sem cafeína, porque pela quantidade que tenho tomado, certamente, poderia correr uma maratona na madrugada.

E não é boato, a Inglaterra é sim o país dos apreciadores do “bom e velho chá”! E como a originalidade impera, até a “parada para lanche” dos funcionários nas empresas é frequentemente chamada de Tea Break (parada do chá) ao invés da terminologia que estamos acostumados a ouvir no Brasil, o Coffee Break (parada do café). Além do tradicional café com leite, eles também costumam tomar (e muito) chá com leite. Que tal?

Nas prateleiras de lojas, farmácias (como esta) e supermercados é possível encontrar grande variedade de chás. (Arquivo pessoal)

Nas prateleiras de mercados, nas casas especializadas e até em farmácias, têm chás para todos os gostos e variados perfis (frutas diversas, apimentados, calmantes, para a imunidade, para desintoxicar, digestivos, para crianças, multivitaminados e assim por diante). Tem um muito famoso chamado de English Breakfast. A versão tradicional desse chá preto já é potente, para o meu paladar, mas há ainda a opção do “Strong English Breakfest”, mais forte ainda. Também é bem conhecido o Earl Grey, o tradicional é feito com chá preto e aromatizado com bergamota. Ambos são daquela marca bem conhecida Twinings. São especialmente usados para quem gosta de dar um “up” antes do trabalho ou depois do almoço.

Chás tem espaço reservado nos supermercados da região. (Arquivo pessoal)

Li uma reportagem na BBC que diz que os britânicos consomem (pasmem) 60 bilhões de xícaras por ano, de acordo com a Organização de Chás e Infusões, o que representa mais de 900 xícaras por ano para cada homem, mulher e criança na Grã-Bretanha.

O superfamoso chá da tarde inglês

O chá da tarde em meio a natureza, esta, no Upton Park, em Poole. (Arquivo pessoal)

Difícil quem já não tenha escutado sobre o tradicional chá da tarde, seguindo os costumes de muitos e muitos anos da realeza. O chá, nesse caso, é o protagonista para ótimas experiências de socialização em cenários deslumbrantes, sem falar dos inúmeros acompanhamentos. Aliás, impossível não se lembrar da história “Alice no País das Maravilhas” e o momento do chá com o “Chapeleiro Maluco”.

Além dos cremes ou do leite fresco, há casas que oferecem um verdadeiro banquete incluindo cookies, bolos, biscoitos, folheados, seleção de pães, geleias e muitos outros. Desde a preparação da mesa até o visual, tudo envolve o momento do “Chá da Tarde” ou do “Chá das 17h”.

É o caso desta belíssima casa de chás localizada aqui na cidade de Poole, dentro de um imenso parque público chamado Upton Park, com construções datadas de mais de 200 anos. Em meio a árvores gigantescas, gramados e jardins que formam cercas vivas e labirintos com flores multicoloridas, é possível reunir a família e os amigos para fazer muito além do que tomar chá. É palco para piqueniques, para se divertir, relaxar à sombra das árvores, aprender mais sobre a fauna e a flora da região por meio de oficinas temporárias ou, até mesmo, se voluntariar para cuidar dos jardins impecáveis dessa área, que era uma antiga fazenda de um membro da aristocracia britânica.

Tradicional casa de chás no Upton Park, em Poole, Reino Unido. (Arquivo Pessoal)

Entrada para a casa de chás, no Upton Park. (Arquivo pessoal)

Upton Park, Poole, Reino Unido. (Arquivo pessoal)

Mas os parques e jardins aqui do Reino Unido rendem muito assunto para outros capítulos desta coluna, em breve. Enquanto isso, acompanhada por uma (grande) xícara de chá, me preparo para outras histórias das “Terras da Rainha”.


Todas as informações deste canal são baseadas em experiências vividas e opiniões do autor.

Escrito por Larissa Andrade, 25/09/2019 às 13h19 | larissa.rotas@gmail.com

Nas terras da rainha

Fiquei encantada ao receber o convite do Jornal Página 3 para compartilhar informações deste que chamo de “Mundo ao Contrário”. Eu vivo nele, parte do ano, aqui no interior da Inglaterra, no Reino Unido. Sou jornalista, empresária, e moro há muito tempo em Balneário Camboriú. Desde agosto do ano passado, por questões familiares profissionais, minha vida mudou significativamente. Tive que apreender a me adaptar com duas realidades completamente distintas. Além de manter a rotina pessoal e profissional na cidade que eu amo no Brasil, e que já estou habituada, me aventurei nesta outra vida, há mais de 12 mil quilômetros de distância.

A “segunda casa”, depois de Balneário Camboriú, fica no interior, em uma charmosa cidade costeira e portuária no litoral Sul da Inglaterra chamada Poole, na região de Dorset, mais ou menos duas horas de Londres, a capital, e não muito distante da França, por meio do Canal da Mancha. Aliás, aqui eles não costumam se referir apenas como “Inglaterra (o país)”, como citamos no Brasil, mas sim, como “Reino Unido (United Kingdom – UK)”, formado pelos países: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte.

Costumo pensar que Poole é meu “mundo ao contrário ou de cabeça para baixo” em relação ao dia a dia no Brasil. Aqui é lindo da mesma forma, contudo, antigo (com registros que datam do século XII) e, ao mesmo tempo, com história e tradições bem preservadas, o que me fascina, por sinal. E essa antiguidade consegue se misturar perfeitamente com a modernidade, com o conforto, com a tecnologia e com paisagens belíssimas da também conhecida Poole Harbour (porto de Poole, em inglês).

 

A arquitetura é algo que chama atenção, meio mágico. Além do charmoso estilo Vitoriano, que predomina, há uma mistura de outras arquiteturas europeias. Tudo se encaixa perfeitamente ao cenário que parece moldado à mão, como um conto de fadas, ou de bruxos. Digo isso porque agora eu consigo perfeitamente entender algumas das inspirações da autora J. K. Rowling quando escreveu a série de livros do Harry Potter. Aliás, até os nomes das ruas chamam a atenção como: Rua do Castelo, Rua do Chapéu, Rua do Paraíso e assim por diante.

O sotaque do Sul do Reino Unido

Em um primeiro momento, além de uma grande aventura, acreditei que, com um nível adequado de inglês, já conhecendo estrangeiros e um pouco da realidade na Europa, esse processo de adaptação fosse mais simples, fácil. De fato, concordo que está sendo uma grande e empolgante experiência, mas fácil? Ahh, eu estava enganada.

Ao contrário do que imaginei, que fosse lidar super bem com a língua, já fui alvo para situações um tanto desafiadoras. No caso dos ingleses daqui do interior, o sotaque é diferente do falado na capital, de Londres – que é bem mais fácil de entender - e do que estava habituada a lidar em viagens ou no trabalho. É um misto de economia de letras, extensão e entonação de algumas vogais com uma formalidade que, particularmente, acho linda de ouvir. E olha que pensei que iria “tirar de letra”, mas ainda é preciso um esforço a mais para entender. O sotaque já significou algumas situações um tanto embaraçosas e, por vezes, seguidas de perguntas (quase súplicas) de: “Pode repetir, por favor?” ou “Não entendi, pode falar novamente?”. Felizmente, meus ouvidos estão se adaptando, pacientemente, dia após dia. Mas isso rende assunto para outras publicações.

Sentidos contrários

Quando penso no mundo de “cabeça para baixo”, o que parece detalhe rotineiro se transforma em desafio. Explico: por conta da tal “mão inglesa”, ainda faço certa confusão ao atravessar a rua e olhar para os lados opostos (já passei alguns apertos por conta disso...). Felizmente, a sinalização impecável (que faço questão de respeitar à risca, o que é importantíssimo para evitar acidentes) ajuda a seguir as direções inversas. Pelo fato de a cidade também concentrar Europeus de vários países, nas próprias ruas existem avisos enormes estampados dizendo “ENTRADA PROIBIDA. OLHE PARA A ESQUERDA. OLHE PARA A DIREITA, etc”. Sim, isso ajuda em momentos de distrações.

E por falar em sentido contrário, até a chave da porta principal do apartamento que moro, ao invés de virar para direita, gira para a esquerda, sem falar do estilo diferente e meio imperial da porta que mais parece um objeto de decoração. Quando iniciei as aventuras por aqui, nas Terras da Rainha, não era incomum encarar a porta e pensar: “Será que trouxe a chave errada?”. Aliás, isso também ocorre com os botões do fogão e por aí vai.

É o caso de lidar com o controle remoto da TV, comparando com o que estou habituada no Brasil que, por exemplo, tem o botão “desligar” na cor vermelha. Aqui é verde.

Pela manhã, costumo correr nos parques da região, com seus imensos gramados lindíssimos que margeiam a costa. Ao longo do passeio, já me surpreendi com pessoas vindo na minha direção com semblantes de, como posso dizer, “ponto de interrogação”. Aí, finalmente, entendo: “estou do lado errado, para variar”.

Mas, diferentemente do que imaginava antes de vir para o Reino Unido, de que poderia me deparar com pessoas fechadas e sérias, fico feliz em saber que estava enganada, pelo menos, na experiência que tenho vivido. As pessoas com as quais já mantive contatos foram incrivelmente simpáticas, pacientes com minhas dificuldades e carregadas daquela formalidade britânica que adoro. Apesar dos tropeços linguísticos, o sorriso é uma língua universal. Ao sair nas ruas é muito difícil não me deparar com pessoas entoando com empolgação um BOM DIA.

E, dessa forma, eu realmente me sinto em casa.

Hábitos, costumes, curiosidades e algumas histórias interessantes das Terras da Rainha serão compartilhadas aqui, no Página 3, semanalmente.

Todas as informações deste canal são baseadas em experiências vividas e opiniões do autor.
 

Escrito por Larissa Andrade, 17/09/2019 às 17h10 | larissa.rotas@gmail.com



Larissa Andrade

Assina a coluna Mundo ao Contrário

É jornalista, empresária e tem mais de 20 anos de experiência em comunicação. É apaixonada por compartilhar a "arte da expressão" em suas diversas formas. Sua vida mudou e agora concilia as suas atividades no Brasil (Balneário Camboriú, SC) e no Reino Unido (Poole, Inglaterra). Traz curiosidades, hábitos e estilo de vida das "Terras da Rainha".














Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br

Página 3
Mundo ao Contrário
Por Larissa Andrade

DAS TELAS PARA A VIDA REAL

Passear pelas ruas do Reino Unido, observar os belíssimos parques e jardins britânicos e as imponentes construções desde a era medieval, que moldam a história da nação, é uma atração turística e tanto.

Não é à toa que as "Terras da Rainha" servem como fonte de inspiração para uma série de filmes e obras literárias conhecidas em todo o mundo.

Cenários que parecem de filmes são facilmente encontrados no Reino Unido. Foto: Arquivo pessoal

É o caso, claro, da série Harry Potter. Os fãs se sentem em casa, ou melhor, dentro do filme, ao simplesmente passearem pela estação de King´s Cross, em Londres, e encontrarem a Plataforma 9 3/4. Porém, nesta plataforma, só quem é do "mundo dos bruxos" pode embarcar.

Mas se você não é (ou ainda não sabe se é) do "clã dos bruxos" também pode fazer, sim, uma viagem pelo Expresso Hogwarts. No mesmo trem usado para a gravação do filme. Ele se chama "The Jacobite" e passa por cenários deslumbrantes entre montanhas e lagos na Escócia. Impossível não se sentir parte da magia. Veja aqui o roteiro no site da West Coast Rail Ways: aqui

The Jacobite, o trem de Hogwarts. Imagem: West Coast Rail Ways

Esses são apenas alguns dos exemplos de muitos cenários reais de gravações dos filmes da famosa série. Mas não é somente o bruxo Potter, obra de J.K. Rowling, que tem fama no Reino Unido.

O criador do "menino que não queria crescer" James M. Barrie também deixou um legado e tanto por aqui. Muitas vezes já passei por casas em estilo vitoriano e, por gostar da história, percebi similaridade com os filmes de Peter Pan. Até a casa que o autor viveu lembra muito a residência da Wendy quando recebia a visita do menino em suas aventuras. Está localizada em Londres e, inclusive, está à venda pelo portal "Zoopla.co.uk" por 8,5 milhões de libras (mais ou menos 42,5 milhões de reais).

Paisagens que lembram contos de fadas mundialmente conhecidos. Fotos: arquivo pessoal

E quem passear pelo lindo Hyde Park no centro de Londres, encontra no Kensignton Garden a estátua de bronze de Peter Pan em meio à natureza, um orgulho para a nação.

E por falar em personagens, Frankestein também faz parte do Reino Unido. A autora Mary Shelley está enterrada em Bournemouth, cidade vizinha aqui de Poole, nos terrenos da icônica igreja de St Peter. Houve até um festival em 2018, nesta mesma época (mês do Halloween) para celebrar a vida, os trabalhos da família Shelley e os 200 anos da mundialmente conhecida obra. Aliás, a belíssima construção da igreja de St Peter, com interiores sofisticados em estilo gótico, vale a visita. Fica no centro da cidade.

Para os amantes da arte, difícil não conectar o Reino Unido com um dos mais renomados poetas e dramaturgos do mundo. William Shakespeare tem uma charmosa cidade inteira dedicada a ele, local em que nasceu, morou com a sua família e morreu. Grande parte das atrações de Stratford-upon-Avon estão relacionadas com a vida, os hábitos, as obras e do autor de Romeu e Julieta. Quem tiver interesse é só dar uma olhada no website: www.visitstratforduponavon.co.uk

E entrando no mundo da "Alice no País das Maravilhas", aqui também é possível mergulhar nos cenários mágicos da obra de Lewis Carrol e viajar na encantadora história passando por lugares como Oxford, Manchester, País de Gales, aqui no litoral sul do país, ou apenas visitando as belas e tradicionais casas de chá inglesas para relembrar o "desaniversário" do Chapeleiro Maluco. Sobre o famoso “gato listrado” ou “gato que ri” do conto literário, ele é chamado de Gato de Cheshire na versão original da história. Li no site "Visit Britain" que os gatos da cidade de Cheshire, um condado da Inglaterra, são sorridentes devido à grande quantidade de leite produzido nas fazendas da região.

Paisagens do cenário britânico. Foto: arquivo pessoal

E enquanto o gato sorri, em Londres, na Baker Street, é possível mergulhar nas investigações do detetive da ficção Sherlock Holmes visitando a casa do superfamoso personagem criado por Arthur Conan Doyle. Inspiração garantida para os fãs. Na bela construção vitoriana, se encontra uma série de objetos utilizados nas investigações, móveis, itens decorativos e cômodos que o detetive dividia com o personagem Dr. Watson. Informações aqui: www.sherlock-holmes.co.uk

Londres concentra inúmeros tesouros que foram transportados para as telonas. Foto: Arquivo pessoal

Poderia relatar outras inúmeras obras e atores mundialmente famosos do Reino Unido, que nos fazem lembrar, viajar por épocas e intrigantes histórias, por meio de passeios pela nação. Mas termino o artigo da semana com a amada série britânica Downton Abbey, criada por Julian Fellowes com filme lançado recentemente, no início de setembro deste ano. Apresenta muito bem os fantásticos cenários, construções imponentes e o tradicional dia a dia da aristocracia britânica do início do século XX. É muito fácil encontrar similaridade com as paisagens da série caminhando por parques e antigas fazendas do interior, observando a imponência das residências e ambientes naturais paradisíacos.

Cenários que inspiram a arte. Foto: arquivo pessoal

É como entrar nas telas, na história. E é possível também visitar a própria residência. A visita ao Highclere Castle (castelo de Downton Abbey), em Highclere, região de Newbury, só é possível em alguns períodos do ano. Na casa moram o Lord e a Lady Carnarvon na vida real. O passeio é supercobiçado, portanto, é indicada a reserva com muita antecedência. Veja aqui: www.highclerecastle.co.uk


Todas as informações deste canal são baseadas em experiências e opiniões do autor.

Escrito por Larissa Andrade, 14/10/2019 às 20h26 | larissa.rotas@gmail.com

Seis opções comuns para experimentar e para aproveitar na Inglaterra

Nesta semana, selecionei seis itens interessantes do dia a dia, entre comidas, serviços públicos e privados frequentemente utilizados aqui na Inglaterra, sob a minha perspectiva. Poderia elencar inúmeros neste texto. Mas para não estender, em outros artigos, trarei mais novidades. Sobre os preços de alguns produtos citados, eles são baseados em experiências pessoais e opções que encontrei no interior do país. Podem sofrer variações, além das promoções que são constantemente realizadas pelo comércio. Confira:

1. Fish and Chips

Fish and Chips da rede de restaurantes Harry Ramsden, o "legendário"

Lógico que não poderia deixar de abrir as opções interessantes das “Terras da Rainha” com o tradicionalíssimo “Fish and Chips” (peixe com batatas, fritos). Símbolo da gastronomia britânica, é possível encontrar o prato típico em diversos lugares. E, assim como a nossa feijoada, a qualidade e a diversidade de acompanhamentos (além das batatas) depende do lugar escolhido, da expertise dos profissionais na preparação, na criatividade e na seleção dos ingredientes.

São comumente usados na preparação os peixes “Cod” e “Haddock”, ambos da família do bacalhau. Experimentei recentemente a iguaria inglesa em uma rede de restaurantes bem tradicional pelos seus “fish and chips” com dezenas de unidades espalhadas pelo Reino Unido, chamada de Harry Ramsden. Fui na cidade vizinha de Poole, em Bournemouth. Lógico, pedi o tradicional, em um tamanho nada modesto, chamado “legendário”, para dividir. Além das batatas, trazia um gostoso purê de ervilhas para acompanhar. Muito saboroso (e calórico)! Para duas pessoas (ou até mesmo duas pessoas e uma criança, dependendo da fome), o prato “legendário” custa em torno de 15 libras, além das bebidas. Neste caso, para comer dentro do charmoso restaurante em frente ao belíssimo mar da costa britânica.

Há vários "fast foods" no Reino Unidos que oferecem o típico "fish and chips"

É possível encontrar opções para levar para casa em inúmeros fast foods da região (a partir de 4 libras por pessoa, aproximadamente) ou fazer em casa: comprar peixes empanados e congelados oferecidos em supermercados (em torno de 3 libras uma caixinha), e simplesmente, “viajar” nos acompanhamentos.

2. Frutas vermelhas

Tudo o que, em inglês e no plural, termina com “berries” é muito consumido por aqui. É o caso das blackberries (amoras), dos blueberries (mirtilos), dos strawberries (morangos) e assim por diante. Presumo que por conta do clima, há muitas opções de diversas marcas produzidas localmente e também importadas. Uma caixa de mirtilos de meio quilo, em mercados aqui da cidade de Poole, pode ser encontrada por preços em torno de 4,5 libras (reforçando: meio quilo). Morangos grandes e docinhos, nesse caso, uma caixa de 250 gramas, custam por volta de 1,5 libra.

Por conta da fartura dessas opções, a Nação da Rainha parece ser grande apreciadora das frutas vermelhas, muito usadas em doces e até em saladas.

3. Serviço de manicure

Achei interessante perceber que muitos estrangeiros, especialmente chineses homens, mergulharam nessa área da beleza. Há vários locais que oferecem serviços de manicure e pedicure em terras britânicas. Tem várias casas especializadas em “unhas” em Poole e região do tipo: “entre sem marcar hora” com direito a uma massagem superbacana (nas mãos ou nos pés) ao longo do procedimento. Gostei muito da praticidade, do atendimento e dos serviços, mas tenho que confessar que, das experiências que já tive, minha preferência continua pelos profissionais do Brasil. O preço? Nada acessível para meu bolso: quinze libras só para fazer a mão (nem ouso pensar na conversão da moeda nessas horas).  Portanto, já comprei meu kit “manicure” para dar uma "tapeada" em casa e usar os serviços apenas em ocasiões muito (muito) especiais.

4. Carnes

Rede de açougues ambulantes que vendem saborosas carnes frescas de fazendas da região.

A carne bovina britânica é mundialmente famosa. E, de fato, é incrivelmente saborosa.

Por já estar habituada a comer carne vermelha apenas ocasionalmente, não me surpreendi com os valores e, alguns preços, até achei similares aos do Brasil. Por exemplo, um corte de carne considerado nobre e selecionado, o “Rib Eye”, é encontrado em torno de 3,5 libras por 250 gramas (14 libras o quilo). É possível encontrar preços melhores, inclusive promoções nos supermercados da região.

E quem quiser comprar carnes frescas direto do fazendeiro, há uma rede de “açougues ambulantes”, food trucks, todos os finais de semana. Os veículos superestilosos ficam na área central de várias cidades comercializando inúmeros tipos de carnes (das tradicionais às exóticas). O vendedor é um show à parte, parece um apresentador de programa de TV que, elegantemente, atende às pessoas, anuncia as promoções e os belos cortes de carne em “alto e bom tom” pelo microfone.

5. Parques públicos

Parques na Inglaterra para aproveitar o dia. Upton Park em Poole

Serviço público impecável! Especialmente em dias ensolarados (ou nublados) é maravilhoso poder reunir a família, os amigos e fazer um belo e elegante piquenique em cenários encantadores ao estilo inglês. Praticar esportes, sentar à sombra das árvores ou, simplesmente, observar os belos e multicoloridos jardins são opções para relaxar ou para se divertir. Vejo serviços de manutenção constantes nas áreas públicas, sem falar da limpeza. Bonito de se ver e muito agradável para aproveitar.

Outro belíssimo parque em Poole com seus belos jardins.

Jardins lindos na cidade vizinha de Bournemouth, Reino Unido

6. Chá inglês

Uma caixa do super tradicional chá inglês, ao qual dediquei o último artigo, pode ser encontrado em supermercados da região a partir de 70 centavos de libras. Claro, se escolher aquelas opções para presentes (com embalagens ultra elaboradas) o valor sobe consideravelmente. E para experimentar um chá inglês com uma bela fatia de bolo em uma tradicional “casa de chás”, os preços partem de 5 libras por pessoa, mais ou menos. Os valores variam muito dependendo do tipo de acompanhamento e do local escolhido.

Acompanhe outros tópicos interessantes e curiosidades das Terras da Rainha nas próximas semanas. 


Todas as informações deste canal são baseadas em experiências vividas e opiniões do autor. 

Escrito por Larissa Andrade, 02/10/2019 às 18h04 | larissa.rotas@gmail.com

É hora do chá! (It´s time for tea!)

Sempre gostei de chá, mas nunca fui superfã como, confesso, é a minha adoração pelo café. Mas como não me adaptei 100% ao clima aqui da Inglaterra, ele tem sido meu grande aliado para manter o corpo quentinho e hidratado durante o dia. Claro, sem cafeína, porque pela quantidade que tenho tomado, certamente, poderia correr uma maratona na madrugada.

E não é boato, a Inglaterra é sim o país dos apreciadores do “bom e velho chá”! E como a originalidade impera, até a “parada para lanche” dos funcionários nas empresas é frequentemente chamada de Tea Break (parada do chá) ao invés da terminologia que estamos acostumados a ouvir no Brasil, o Coffee Break (parada do café). Além do tradicional café com leite, eles também costumam tomar (e muito) chá com leite. Que tal?

Nas prateleiras de lojas, farmácias (como esta) e supermercados é possível encontrar grande variedade de chás. (Arquivo pessoal)

Nas prateleiras de mercados, nas casas especializadas e até em farmácias, têm chás para todos os gostos e variados perfis (frutas diversas, apimentados, calmantes, para a imunidade, para desintoxicar, digestivos, para crianças, multivitaminados e assim por diante). Tem um muito famoso chamado de English Breakfast. A versão tradicional desse chá preto já é potente, para o meu paladar, mas há ainda a opção do “Strong English Breakfest”, mais forte ainda. Também é bem conhecido o Earl Grey, o tradicional é feito com chá preto e aromatizado com bergamota. Ambos são daquela marca bem conhecida Twinings. São especialmente usados para quem gosta de dar um “up” antes do trabalho ou depois do almoço.

Chás tem espaço reservado nos supermercados da região. (Arquivo pessoal)

Li uma reportagem na BBC que diz que os britânicos consomem (pasmem) 60 bilhões de xícaras por ano, de acordo com a Organização de Chás e Infusões, o que representa mais de 900 xícaras por ano para cada homem, mulher e criança na Grã-Bretanha.

O superfamoso chá da tarde inglês

O chá da tarde em meio a natureza, esta, no Upton Park, em Poole. (Arquivo pessoal)

Difícil quem já não tenha escutado sobre o tradicional chá da tarde, seguindo os costumes de muitos e muitos anos da realeza. O chá, nesse caso, é o protagonista para ótimas experiências de socialização em cenários deslumbrantes, sem falar dos inúmeros acompanhamentos. Aliás, impossível não se lembrar da história “Alice no País das Maravilhas” e o momento do chá com o “Chapeleiro Maluco”.

Além dos cremes ou do leite fresco, há casas que oferecem um verdadeiro banquete incluindo cookies, bolos, biscoitos, folheados, seleção de pães, geleias e muitos outros. Desde a preparação da mesa até o visual, tudo envolve o momento do “Chá da Tarde” ou do “Chá das 17h”.

É o caso desta belíssima casa de chás localizada aqui na cidade de Poole, dentro de um imenso parque público chamado Upton Park, com construções datadas de mais de 200 anos. Em meio a árvores gigantescas, gramados e jardins que formam cercas vivas e labirintos com flores multicoloridas, é possível reunir a família e os amigos para fazer muito além do que tomar chá. É palco para piqueniques, para se divertir, relaxar à sombra das árvores, aprender mais sobre a fauna e a flora da região por meio de oficinas temporárias ou, até mesmo, se voluntariar para cuidar dos jardins impecáveis dessa área, que era uma antiga fazenda de um membro da aristocracia britânica.

Tradicional casa de chás no Upton Park, em Poole, Reino Unido. (Arquivo Pessoal)

Entrada para a casa de chás, no Upton Park. (Arquivo pessoal)

Upton Park, Poole, Reino Unido. (Arquivo pessoal)

Mas os parques e jardins aqui do Reino Unido rendem muito assunto para outros capítulos desta coluna, em breve. Enquanto isso, acompanhada por uma (grande) xícara de chá, me preparo para outras histórias das “Terras da Rainha”.


Todas as informações deste canal são baseadas em experiências vividas e opiniões do autor.

Escrito por Larissa Andrade, 25/09/2019 às 13h19 | larissa.rotas@gmail.com

Nas terras da rainha

Fiquei encantada ao receber o convite do Jornal Página 3 para compartilhar informações deste que chamo de “Mundo ao Contrário”. Eu vivo nele, parte do ano, aqui no interior da Inglaterra, no Reino Unido. Sou jornalista, empresária, e moro há muito tempo em Balneário Camboriú. Desde agosto do ano passado, por questões familiares profissionais, minha vida mudou significativamente. Tive que apreender a me adaptar com duas realidades completamente distintas. Além de manter a rotina pessoal e profissional na cidade que eu amo no Brasil, e que já estou habituada, me aventurei nesta outra vida, há mais de 12 mil quilômetros de distância.

A “segunda casa”, depois de Balneário Camboriú, fica no interior, em uma charmosa cidade costeira e portuária no litoral Sul da Inglaterra chamada Poole, na região de Dorset, mais ou menos duas horas de Londres, a capital, e não muito distante da França, por meio do Canal da Mancha. Aliás, aqui eles não costumam se referir apenas como “Inglaterra (o país)”, como citamos no Brasil, mas sim, como “Reino Unido (United Kingdom – UK)”, formado pelos países: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte.

Costumo pensar que Poole é meu “mundo ao contrário ou de cabeça para baixo” em relação ao dia a dia no Brasil. Aqui é lindo da mesma forma, contudo, antigo (com registros que datam do século XII) e, ao mesmo tempo, com história e tradições bem preservadas, o que me fascina, por sinal. E essa antiguidade consegue se misturar perfeitamente com a modernidade, com o conforto, com a tecnologia e com paisagens belíssimas da também conhecida Poole Harbour (porto de Poole, em inglês).

 

A arquitetura é algo que chama atenção, meio mágico. Além do charmoso estilo Vitoriano, que predomina, há uma mistura de outras arquiteturas europeias. Tudo se encaixa perfeitamente ao cenário que parece moldado à mão, como um conto de fadas, ou de bruxos. Digo isso porque agora eu consigo perfeitamente entender algumas das inspirações da autora J. K. Rowling quando escreveu a série de livros do Harry Potter. Aliás, até os nomes das ruas chamam a atenção como: Rua do Castelo, Rua do Chapéu, Rua do Paraíso e assim por diante.

O sotaque do Sul do Reino Unido

Em um primeiro momento, além de uma grande aventura, acreditei que, com um nível adequado de inglês, já conhecendo estrangeiros e um pouco da realidade na Europa, esse processo de adaptação fosse mais simples, fácil. De fato, concordo que está sendo uma grande e empolgante experiência, mas fácil? Ahh, eu estava enganada.

Ao contrário do que imaginei, que fosse lidar super bem com a língua, já fui alvo para situações um tanto desafiadoras. No caso dos ingleses daqui do interior, o sotaque é diferente do falado na capital, de Londres – que é bem mais fácil de entender - e do que estava habituada a lidar em viagens ou no trabalho. É um misto de economia de letras, extensão e entonação de algumas vogais com uma formalidade que, particularmente, acho linda de ouvir. E olha que pensei que iria “tirar de letra”, mas ainda é preciso um esforço a mais para entender. O sotaque já significou algumas situações um tanto embaraçosas e, por vezes, seguidas de perguntas (quase súplicas) de: “Pode repetir, por favor?” ou “Não entendi, pode falar novamente?”. Felizmente, meus ouvidos estão se adaptando, pacientemente, dia após dia. Mas isso rende assunto para outras publicações.

Sentidos contrários

Quando penso no mundo de “cabeça para baixo”, o que parece detalhe rotineiro se transforma em desafio. Explico: por conta da tal “mão inglesa”, ainda faço certa confusão ao atravessar a rua e olhar para os lados opostos (já passei alguns apertos por conta disso...). Felizmente, a sinalização impecável (que faço questão de respeitar à risca, o que é importantíssimo para evitar acidentes) ajuda a seguir as direções inversas. Pelo fato de a cidade também concentrar Europeus de vários países, nas próprias ruas existem avisos enormes estampados dizendo “ENTRADA PROIBIDA. OLHE PARA A ESQUERDA. OLHE PARA A DIREITA, etc”. Sim, isso ajuda em momentos de distrações.

E por falar em sentido contrário, até a chave da porta principal do apartamento que moro, ao invés de virar para direita, gira para a esquerda, sem falar do estilo diferente e meio imperial da porta que mais parece um objeto de decoração. Quando iniciei as aventuras por aqui, nas Terras da Rainha, não era incomum encarar a porta e pensar: “Será que trouxe a chave errada?”. Aliás, isso também ocorre com os botões do fogão e por aí vai.

É o caso de lidar com o controle remoto da TV, comparando com o que estou habituada no Brasil que, por exemplo, tem o botão “desligar” na cor vermelha. Aqui é verde.

Pela manhã, costumo correr nos parques da região, com seus imensos gramados lindíssimos que margeiam a costa. Ao longo do passeio, já me surpreendi com pessoas vindo na minha direção com semblantes de, como posso dizer, “ponto de interrogação”. Aí, finalmente, entendo: “estou do lado errado, para variar”.

Mas, diferentemente do que imaginava antes de vir para o Reino Unido, de que poderia me deparar com pessoas fechadas e sérias, fico feliz em saber que estava enganada, pelo menos, na experiência que tenho vivido. As pessoas com as quais já mantive contatos foram incrivelmente simpáticas, pacientes com minhas dificuldades e carregadas daquela formalidade britânica que adoro. Apesar dos tropeços linguísticos, o sorriso é uma língua universal. Ao sair nas ruas é muito difícil não me deparar com pessoas entoando com empolgação um BOM DIA.

E, dessa forma, eu realmente me sinto em casa.

Hábitos, costumes, curiosidades e algumas histórias interessantes das Terras da Rainha serão compartilhadas aqui, no Página 3, semanalmente.

Todas as informações deste canal são baseadas em experiências vividas e opiniões do autor.
 

Escrito por Larissa Andrade, 17/09/2019 às 17h10 | larissa.rotas@gmail.com



Larissa Andrade

Assina a coluna Mundo ao Contrário

É jornalista, empresária e tem mais de 20 anos de experiência em comunicação. É apaixonada por compartilhar a "arte da expressão" em suas diversas formas. Sua vida mudou e agora concilia as suas atividades no Brasil (Balneário Camboriú, SC) e no Reino Unido (Poole, Inglaterra). Traz curiosidades, hábitos e estilo de vida das "Terras da Rainha".