Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

O Encontro

O Garden City, considerado pelos ufanistas como a “terra prometida”, apresenta problemas históricos desde sua criação, em especial na divisa leste. No lado oeste, o Garden é margeado pela Avenida Juca Batista, onde fica a entrada principal; no lado norte, faz divisa com o Condomínio Green Carpet; no lado sul fica o Aberta dos Morros e, no lado leste faz divisa com um Conjunto Habitacional Popular, mais conhecido como Coreia...

Os habitantes da Coreia veem os do Garden City como gente rica e esnobe, muito embora não haja motivo real para tal animosidade, já que muitos empregados do Condomínio moram na Coreia. Essa animosidade é mais evidente na divisa leste, onde as casas do último acesso fazem fronteira com alguns blocos daquele imenso Conjunto Habitacional. Nessas casas já foram constatadas invasões para furtos e até roubos com ameaças de morte. Muitas vezes a polícia foi acionada pela administração do Garden, mas passados alguns dias as coisas voltam a acontecer.

Na última Assembleia Geral no Garden City, ficou decidido que deveria se tentar mais um encontro entre os síndicos. Seria um encontro histórico, caso o síndico da Coreia aceitasse, porque até então, as tentativas foram infrutíferas.

No sentido de facilitar tal encontro, os empregados do Garden, que moram na Coreia, foram conversados para entrar em contato com o síndico de lá, Sr. Marcos Silva, mais conhecido como Marcão, para que ele aceitasse a proposta de uma conversa direta.

Dizem os empregados que ele é pessoa muito difícil e “barra pesada”, mas que tentariam assim mesmo.

Passados alguns dias, o síndico do Garden City, na ocasião o Seu Floriano, recebeu um telefonema, era do Marcão, dizendo que toparia o encontro, com as seguintes condições, que se realizasse em lugar neutro e que fosse outra pessoa para representar o Garden City, não o atual síndico, pois alardeava não ir com a cara dele.

O primeiro lugar sugerido foi o salão da Igreja da Serraria, que prontamente não foi aceito, pois o Marcão é umbandista. Depois foi sugerido o Clube do Professor Gaúcho, mas de novo não foi aceito, por ser muito elitizado. Por fim, ficou decidido que o encontro se realizaria na Casa de Oxum da Vila Nova. Mesmo contrariado o Seu Floriano aceitou.

O Seu Gumercindo, por solicitação do Seu Floriano, aceitou representar o Condomínio nesse tão esperado Encontro. A justificativa do Síndico se baseou na experiência e capacidade de negociação do ex-Síndico, bem como no reconhecimento de sua capacidade de negociação. O Seu Floriano já havia tentado conversar com o Síndico da Coreia, mas só recebera  provocações hostis, como até ameaças de briga.

No dia e hora aprazados, compareceram no Centro de Umbanda da Vila Nova, o Marcão e dois “leões de chácara” e, pelo lado do Garden City, o Seu Gumercindo e dois assessores. Avisado de que o Marcão falava em gíria, Seu Gumercindo levou o Clóvis, seu genro, que era letrado na linguagem.  O primeiro a falar foi o Marcão:

- Oh! Meu chapa! Vês se voceeê não vem com conversa fiada pra cima de moá, tá?

- Deixei de jogar minha carpetinha pra bater um papo contigo, tá gente fina?

- Na Coreia nóis não temo frescura, é toma lá dá cá... 

- E, aí mano, qual é o papo?

- Mas, bah tchê! Já tinham me dito que você é uma pessoa especial, direta, sem frescuras, que tem tido muito sucesso na administração da Coreia.

- Quem disse isso?

- Olha Marcão, nós temos muitos moradores da Coreia que trabalham no Garden City, consequentemente temos ouvido falar da sua qualidade como administrador e líder, tendo inclusive resolvido vários conflitos entre vizinhos.

Nesta altura, o Marcão já estava todo envaidecido, e aberto a aceitar qualquer solicitação do Seu Gumercindo. Nada como um bom negociador. 

- A questão, meu caro e ilustre Síndico, é que está havendo constantes invasões do pessoal que mora junto à divisa do Garden City, por moradores da Coreia. Precisamos, como gente civilizada, encontrar uma maneira de evitar esses acontecimentos. O que tu podes, como líder, fazer a respeito?

- Pois é mano, ou melhor, Seu Gumercindo, fiquei sabendo que os nossos moradores, principalmente os dos blocos que ficam perto do Condomínio de vocês, estão produzindo pequenos furtos e jogando pedras nas casas, coisa de molecada.

- Olha Marcão, é tanta pedra jogada, que alguns moradores, lá do Garden City, estão pavimentando os pátios de graça...

- Mesmo assim, fico feliz que tu estejas por dentro da situação.

- E tens alguma solução para que possamos levar para casa uma boa notícia?

- Olha! Seu Gumercindo, as diferenças das condições sociais dos nossos moradores é bastante complexa, mas podemos tentar, já que minha autoridade, vem sendo respeitada desde minha eleição para Síndico. Peço, por outro lado, que o Senhor, também, converse com os moradores junto a divisa, para que não impliquem com a piazada, antes venham falar comigo, tá?

- Fique, tranquilo, Seu Marcos, que levaremos para nossos vizinhos o gesto amistoso do nosso Encontro e, em especial, a sua disposição em resolver o problema.

- Antes de encerrarmos podemos marcar um futebolzinho entre nóis e vocês, o que acha?

- Vou levar sua proposta para a Administração do Garden City.

Apertos de mãos e abraços selaram a boa vontade das partes, fazendo com que a melhor estratégia para a resolução de um conflito, seja sempre o diálogo.

Assim terminou o tão sonhado ENCONTRO entre a Coreia e o Garden City. 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 29/06/2018 às 10h21 | sannickelle@gmail.com



Saint Clair Nickelle

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.


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