Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Um trem chamado eleição

I - O EMBARQUE

A cada quatro anos, no Brasil, um trem interestadual inicia sua viagem de sul a norte do país.

O trem chegou à primeira estação, ligeiramente atrasado, mas na gare milhares de pessoas, à esquerda, esperavam em grande alvoroço com suas bandeiras e camisetas coloridas, gritando palavras de ordem. À direita, pessoas bem mais comportadas, com suas melhores roupas, trocavam, entre abraços e cochichos, promessas de parceria e repúdio. No centro da estação não havia ninguém, todos já estavam, previamente, embarcados, desde 1889. Seus vagões, reservados de pai para filho, eram os mais luxuosos.

Antes de receberem autorização para embarque, os da esquerda já disputavam espaço, à base do empurrão e xingamentos; no lado oposto havia muitas trocas de falsas gentilezas, mas mesmo assim, encontrões foram vistos, na hora de passarem pelas portas e alguns casacos e gravatas até foram rasgados.

O maquinista impaciente para tentar dar início à viagem, deu diversos apitos de partida, mas nos vagões da esquerda poucos tinham conseguido embarcar, tamanha confusão! Foi necessário chamar a Polícia Federal para repreender os tumultuadores. Só assim, depois de duas horas de atraso, foi possível dar a partida. Embora iniciada a viagem, a composição, com centenas de vagões, levava candidatos, querendo alcançar o GRANDE PRÊMIO: ficar rico na carreira política ou, pelo menos, ter uma velhice confortável.

II - A VIAGEM

Em cada estado da federação, entram mais e mais candidatos, embarcando ora pela direita, ora pela esquerda, num frenesi de empurra-empurra. Só os do centro parecem confortáveis, pois alegam ter comprado cadeiras cativas. Nas extremidades, no entanto, a maioria viaja em pé, muitos até acabam caindo antes de chegar ao dia do sorteio, alegando que foram empurrados para fora do trem, mesmo tendo pagado para viajar.

Essa viagem leva vários meses. Durante o percurso, aos do centro são servidos lautos jantares e boas bebidas, tornando a viagem muito aprazível. Aos demais, no entanto, um pequeno lanche, que é disputado como se fossem cães famintos. Precisamente nessa hora, que acontecem as maiores quedas. Mas, apesar disso tudo, o trem percorre Estado por Estado, sendo ovacionados em alguns menos desenvolvidos e achincalhados nos mais politizados.

O maquinista, bem orientado, leva, de um lado de sua cabine uma grande bandeira do Brasil e, de outro, a bandeira do Estado que estiver percorrendo.

Chegando à capital do Estado do Paraná, levas de sem teto, sem terra, sem roupa, e até sem vergonhas, esperavam com bandeiras vermelhas para prestigiar os passageiros da esquerda. Os do centro nem desceram, alguns da direita ousaram descer e quase foram linchados.

 

Depois dessa parada indigesta para os viajantes dos vagões do centro e direita, a viagem prosseguiu. A chegada em São Paulo foi muito discreta, nenhuma aglomeração, muitos policiais na estação, o que permitiu que os viajantes do centro abrissem suas janelas e até descessem. Em solo, os mais abastados procuraram joalherias para fazer alianças. Os da direita para bajular fardados. Os da esquerda, no entanto, aproveitaram para invadir os vagões do centro. Lá encontraram restos de comida, totalmente desperdiçados pelos seus ocupantes. Durante um bom tempo fartaram-se sem pressa e remorso. Beberam o que nunca imaginaram beber, brindando pelo fim do capitalismo selvagem.

Dia seguinte, partiram para o Rio de Janeiro. Quando estavam chegando, alguém gritou:

- Pessoal, estão soltando fogos para nos recepcionar...

- Cala a boca e deita no chão, seu idiota!

- São balas de traficantes e até da polícia pacificadora...só o exército não está atirando.

- Por quê?

- Acho que é por falta de munição ou por não saber quem é bandido...

A passagem pelo Rio foi rapidíssima, mesmo assim alguns vagões sumiram.

A viagem prosseguiu, passando por Minas Gerais. Os do centro e os da direita sentiram-se em casa. Muitos desceram para tomar chá com torrada nos velhos casarões. Os da esquerda se limitaram a visitar o túmulo de Tiradentes.

No Nordeste e no Norte, a viagem foi até rápida, com apenas acenos das janelas.

III - A CHEGADA

A chegada a Brasília foi um sucesso. Visitas programadas ao Congresso Nacional, ao Palácio da Alvorada, ao Supremo Tribunal Federal e ao Itamarati. Todos os candidatos, em especial os que pela primeira vez visitavam a capital federal,  estavam encantados, nunca tinham visto tanto luxo e riqueza... Nem os países mais ricos do planeta tem tanto luxo em seus palácios. Só o Vaticano pode ser comparado ao que se vê em Brasília.   

Os políticos licenciados, foram visitar seus gabinetes no Senado e na Câmara. Lá encontraram aquela multidão de assessores que, deitavam e rolavam sem fazer nada. Alguns políticos até se surpreenderam, pois nunca tinham visto tantos “aspones” juntos. Os mais chegados, por parentesco, logo perguntavam:

- Querido tio e grande chefe, como foi a viagem?

- Muito cansativa. É muita pobreza, muitos pedintes por emprego, por saúde e educação...E o pior, ter que apertar aquelas mãos sujas e suadas. Em cidades mixurucas nós nem fazíamos questão de descer.

- Mas e os votos?

- Para isso nem precisaríamos ir, pois estão, ou comprados ou comprometidos com a possibilidade de substituir alguns de vocês...

- Credo tio, isso só pode ser brincadeirinha, né?        

- Claro! É só uma promessa vazia pelo voto.

- Por que, tio, a comitiva nem parou no Norte e Nordeste?

- Oh! Santa ingenuidade! Lá só vence eleição quem é rico e de família tradicional, como eu e você. Os do Centro e do Sul, no entanto, que inventaram  a democracia, é que precisam fazer campanha.

Bem, caros afilhados, cadê aquele uisquinho?

Preciso relaxar até a reeleição.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 29/05/2018 às 14h17 | sannickelle@gmail.com



Saint Clair Nickelle

Assina a coluna Condomínio Garden City

Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.


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Um trem chamado eleição

I - O EMBARQUE

A cada quatro anos, no Brasil, um trem interestadual inicia sua viagem de sul a norte do país.

O trem chegou à primeira estação, ligeiramente atrasado, mas na gare milhares de pessoas, à esquerda, esperavam em grande alvoroço com suas bandeiras e camisetas coloridas, gritando palavras de ordem. À direita, pessoas bem mais comportadas, com suas melhores roupas, trocavam, entre abraços e cochichos, promessas de parceria e repúdio. No centro da estação não havia ninguém, todos já estavam, previamente, embarcados, desde 1889. Seus vagões, reservados de pai para filho, eram os mais luxuosos.

Antes de receberem autorização para embarque, os da esquerda já disputavam espaço, à base do empurrão e xingamentos; no lado oposto havia muitas trocas de falsas gentilezas, mas mesmo assim, encontrões foram vistos, na hora de passarem pelas portas e alguns casacos e gravatas até foram rasgados.

O maquinista impaciente para tentar dar início à viagem, deu diversos apitos de partida, mas nos vagões da esquerda poucos tinham conseguido embarcar, tamanha confusão! Foi necessário chamar a Polícia Federal para repreender os tumultuadores. Só assim, depois de duas horas de atraso, foi possível dar a partida. Embora iniciada a viagem, a composição, com centenas de vagões, levava candidatos, querendo alcançar o GRANDE PRÊMIO: ficar rico na carreira política ou, pelo menos, ter uma velhice confortável.

II - A VIAGEM

Em cada estado da federação, entram mais e mais candidatos, embarcando ora pela direita, ora pela esquerda, num frenesi de empurra-empurra. Só os do centro parecem confortáveis, pois alegam ter comprado cadeiras cativas. Nas extremidades, no entanto, a maioria viaja em pé, muitos até acabam caindo antes de chegar ao dia do sorteio, alegando que foram empurrados para fora do trem, mesmo tendo pagado para viajar.

Essa viagem leva vários meses. Durante o percurso, aos do centro são servidos lautos jantares e boas bebidas, tornando a viagem muito aprazível. Aos demais, no entanto, um pequeno lanche, que é disputado como se fossem cães famintos. Precisamente nessa hora, que acontecem as maiores quedas. Mas, apesar disso tudo, o trem percorre Estado por Estado, sendo ovacionados em alguns menos desenvolvidos e achincalhados nos mais politizados.

O maquinista, bem orientado, leva, de um lado de sua cabine uma grande bandeira do Brasil e, de outro, a bandeira do Estado que estiver percorrendo.

Chegando à capital do Estado do Paraná, levas de sem teto, sem terra, sem roupa, e até sem vergonhas, esperavam com bandeiras vermelhas para prestigiar os passageiros da esquerda. Os do centro nem desceram, alguns da direita ousaram descer e quase foram linchados.

 

Depois dessa parada indigesta para os viajantes dos vagões do centro e direita, a viagem prosseguiu. A chegada em São Paulo foi muito discreta, nenhuma aglomeração, muitos policiais na estação, o que permitiu que os viajantes do centro abrissem suas janelas e até descessem. Em solo, os mais abastados procuraram joalherias para fazer alianças. Os da direita para bajular fardados. Os da esquerda, no entanto, aproveitaram para invadir os vagões do centro. Lá encontraram restos de comida, totalmente desperdiçados pelos seus ocupantes. Durante um bom tempo fartaram-se sem pressa e remorso. Beberam o que nunca imaginaram beber, brindando pelo fim do capitalismo selvagem.

Dia seguinte, partiram para o Rio de Janeiro. Quando estavam chegando, alguém gritou:

- Pessoal, estão soltando fogos para nos recepcionar...

- Cala a boca e deita no chão, seu idiota!

- São balas de traficantes e até da polícia pacificadora...só o exército não está atirando.

- Por quê?

- Acho que é por falta de munição ou por não saber quem é bandido...

A passagem pelo Rio foi rapidíssima, mesmo assim alguns vagões sumiram.

A viagem prosseguiu, passando por Minas Gerais. Os do centro e os da direita sentiram-se em casa. Muitos desceram para tomar chá com torrada nos velhos casarões. Os da esquerda se limitaram a visitar o túmulo de Tiradentes.

No Nordeste e no Norte, a viagem foi até rápida, com apenas acenos das janelas.

III - A CHEGADA

A chegada a Brasília foi um sucesso. Visitas programadas ao Congresso Nacional, ao Palácio da Alvorada, ao Supremo Tribunal Federal e ao Itamarati. Todos os candidatos, em especial os que pela primeira vez visitavam a capital federal,  estavam encantados, nunca tinham visto tanto luxo e riqueza... Nem os países mais ricos do planeta tem tanto luxo em seus palácios. Só o Vaticano pode ser comparado ao que se vê em Brasília.   

Os políticos licenciados, foram visitar seus gabinetes no Senado e na Câmara. Lá encontraram aquela multidão de assessores que, deitavam e rolavam sem fazer nada. Alguns políticos até se surpreenderam, pois nunca tinham visto tantos “aspones” juntos. Os mais chegados, por parentesco, logo perguntavam:

- Querido tio e grande chefe, como foi a viagem?

- Muito cansativa. É muita pobreza, muitos pedintes por emprego, por saúde e educação...E o pior, ter que apertar aquelas mãos sujas e suadas. Em cidades mixurucas nós nem fazíamos questão de descer.

- Mas e os votos?

- Para isso nem precisaríamos ir, pois estão, ou comprados ou comprometidos com a possibilidade de substituir alguns de vocês...

- Credo tio, isso só pode ser brincadeirinha, né?        

- Claro! É só uma promessa vazia pelo voto.

- Por que, tio, a comitiva nem parou no Norte e Nordeste?

- Oh! Santa ingenuidade! Lá só vence eleição quem é rico e de família tradicional, como eu e você. Os do Centro e do Sul, no entanto, que inventaram  a democracia, é que precisam fazer campanha.

Bem, caros afilhados, cadê aquele uisquinho?

Preciso relaxar até a reeleição.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 29/05/2018 às 14h17 | sannickelle@gmail.com



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