Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

A cidade que seduzia

Naquela mateada de meados de março, todos compareceram, inclusive um convidado especial, seu Ivo, vizinho do Luiz Paulo, que viveu no Rio de Janeiro uma situação quase trágica.

Ele nos contou em detalhes o que passou, acompanhado da esposa, dona Bibiana e do seu filho Lucas. De ouvidos atentos e curtindo o chimarrão preparado pelo Clóvis, fomos imaginando o sofrimento dos nossos queridos vizinhos.

O Seu Ivo ainda arrematou:

- Ao sair daquele sufoco, eu vaticinei para minha família: “Rio de Janeiro nunca mais!”. Não é possível que uma cidade como aquela, de belezas naturais incomparáveis, tenha se transformado num covil de ladrões e bandidos.

 Após, vieram os comentários, o primeiro a falar foi o próprio Luiz Paulo:

- Seu Ivo, essa situação não é nova, talvez pouco noticiada alguns anos atrás. Começou com a deterioração da classe política e das autoridades constituídas. Vou lhe relatar um caso que acompanhei de perto e o Senhor vai poder tirar suas conclusões.

Como Delegado de Polícia, o Luiz Paulo referiu-se referiu a um acontecimento que vivenciou ao acompanhar um amigo, cujo filho, Gerson, que voltava de uma viagem à Europa, havia sido preso no Aeroporto Internacional do Galeão.

- O rapaz, de 25 anos, havia sido preso porque, em sua bagagem encontraram cocaína. Mas ele sequer recebeu a mala, como todos os demais passageiros; mesmo assim foi levado pela P.F. para esclarecer o transporte daquela droga. O tal rapaz ficou extremamente confuso, pois desde o embarque em Madri, no Aeroporto de Barajas, ele não teve mais acesso à mala. Deram-lhe voz de prisão e o prenderam como traficante.

Nesta altura, o Clóvis que estava servindo o chimarrão, perguntou:

- Luiz Paulo, me desculpe, mas o que tem haver o c.u. com as calças?

- Tenha paciência, Clóvis, logo logo o que estou contando vai fazer sentido com o que passou o Ivo.

- Tá bem, Luiz Paulo, toma aqui mais um mate e me desculpe pela pressa.

- Mas, voltando ao assunto, Seu Ivo e demais amigos, o pai do rapaz, um empresário de sucesso do ramo calçadista, de Novo Hamburgo, Adroaldo Pederneira, justamente, me procurou porque sabia da fama das autoridades do Rio, que só agiam mediante pagamento de propina. E, assim fomos para lá.

Em primeiro lugar fomos falar com o Gerson, já na Papuda. Ele, então, diante do pai, jurou de pé junto que jamais tocou em droga pesada, como cocaína. Um baseadinho, tudo bem, mas transportar droga de alto custo para quê, se sua vida era confortável e sempre teve o apoio da mãe e do pai, para estudar fora, fazer turismo internacional...

- Eu que estava assistindo, de longe, me convenci da inocência do rapaz, tal qual o pai, que depois me externou seu sentimento.

- O que me deixou intrigado é que ele, em Madri, depois de despachar sua mala, e mesmo depois de chegar ao Brasil, não teve acesso à bagagem;

como, então, os policiais da alfândega o abordaram sem a prova da droga,

 

diante da sua presença? Ou a droga foi colocada nos bastidores do aeroporto de Madri, ou foi colocada aqui, no Brasil, para chantagear-lhe. Ignorei a hipótese de um transporte involuntário entre agentes de lá e daqui, pois não seria lógico prender o transportador inocente.

Saímos da Papuda, quase em silêncio, mas tivemos o mesmo insight:

- A chantagem deve ser destinada para o senhor mesmo, seu Adroaldo, pois devem saber da sua situação financeira.

- Também pensei nisso, Luiz Paulo. Mas, eu estou disposto a bancar o que esses F.D.P estão querendo, pois o meu filho não merece ser considerado traficante.

- Por onde começamos, Luiz Paulo?

- Vamos falar com o Delegado que determinou sua prisão.

Lá fomos nós. Depois de muito esperar, fomos recebidos pelo Delegado Braga, o qual nos recebeu em seu Gabinete, mandou-nos sentar e depois fechou a porta.

Ficamos sem qualquer testemunha. Depois das explicações de praxe, ele insinuou que a pena para esse tipo de crime é muito severa, portanto, teríamos que estar dispostos a pagar pela soltura do rapaz, antes de ir a julgamento. Tentei argumentar pelas circunstâncias em que a droga foi apreendida, sem a presença do acusado, mas o delegado, simplesmente, argumentou:

- Vocês tem alguma prova de que o acusado não estava presente na abertura da mala?

- Não, apenas a palavra do Gerson.

- Então, arquem com as consequências jurídicas ou...

Saímos dali perplexos, quase não acreditando que tivemos uma conversa com um funcionário público, o qual na maior cara-de-pau, exigiu propina para que o processo não andasse.

Lembrei-me de um colega de Faculdade, que também estudara Direito na PUC  e, que hoje está no Ministério Público do Rio.

Ele nos recebeu, em seu Gabinete, e depois das velhas recordações, expus o caso do filho do Empresário Adroaldo. Ele, após nos ouvir atentamente, pediu-me para falar em particular comigo:

- Olha, Luiz Paulo, como delegado no Rio Grande do Sul, você deve ter uma idéia bem mais otimista das relações das diversas instâncias do Poder Judiciário, mas aqui há muitas coisas duvidosas, portanto, ou vocês se submetem à chantagem desse delegado ou vão penar para soltar o filho desse empresário gaúcho. Eu, espero que esse conselho não seja mal interpretado, pois se o processo correr e passar por mãos honestas, poderá até resultar em vitória para vocês.

Saímos dali, divididos e eu sugeri:

- Vamos voltar para o Hotel, descansar e, após o jantar, decidimos qual a estratégia a adotar.

Em dois dias estávamos de volta a Porto Alegre. Fiquei conhecendo a mãe do Gerson que nos esperava no Aeroporto Salgado Filho. Foram momentos de muita emoção, onde pai e mãe abraçados ao filho, entre lágrimas e agradecimentos deram-me adeus.

- Essa história, seu Ivo, ocorrida há muitos anos atrás, mostra porquê o Rio de Janeiro virou o que é hoje...

Escrito por Saint Clair Nickelle, 26/03/2018 às 08h37 | sannickelle@gmail.com



Saint Clair Nickelle

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.


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