Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Um carnaval inesquecível

 Em conversa amistosa com meu sogro, seu Gumercindo, um dos moradores mais antigos do Garden City, fiquei sabendo que já tinha havido um carnaval que mobilizou todos os moradores. Isso veio a tona, depois que o Síndico, seu Fabiano, resolveu ressuscitar um carnaval que envolvesse toda a comunidade; dizia, com jeito orgulhoso, querer marcar sua gestão pela alegria, mas como todo mundo sabe a última grande festa, a de Natal, foi um grande desastre.

Perguntei ao seu Gumercindo:

- Como foi organizado aquele carnaval, que os mais antigos não cansam de lembrar?

- Olha Clóvis, foi muito espontâneo e criativo, graças a sugestão do carnavalesco Paulão, morador da Restinga; esposa trabalhava no Condomínio. Ele sugeriu que cada acesso, são sete ao todo, organizasse um bloco que teria por tema a música de carnaval escolhida. As fantasias, também, estariam de acordo com a marchinha escolhida.

- E, os moradores corresponderam, meu sogro?

- Sim! Eles até nos surpreenderam!

- Havia algum júri para julgar os blocos carnavalescos?

- Sim! Na Praça Central foi montado um pequeno palanque, onde o síndico, na ocasião, se não me falha a memória era o falecido seu Agenor, e alguns convidados especiais, como a dona Clarice e o pintor Voldinei Lucas, que juntos com os membros da diretoria do Garden City compunham o júri.

- E aí? Correu tudo bem?

- De um modo geral, sim.

- O que o Senhor quer dizer com esse “...de um modo geral...”?

- Até então, não tínhamos um conhecimento muito apurado dos moradores, especialmente em ocasiões em que a bebida pode ser um diferencial...

- Como assim?

- O acesso 6, lá dos fundos do Condomínio, sob o comando do Sebastião, marido da dona Valquíria, escolheu como música enredo “CACHAÇA NÃO É ÁGUA”, cuja letra começa:

Você pensa que cachaça é água

Cachaça não é água não

Cachaça vem do alambique

E água vem do ribeirão”

- Todo o bloco portava garrafas na mão, e as fantasias típicas de bêbados de rua, esfarrapados e sujos se apresentavam bebendo e jogando o líquido no público. O que não se sabia é que o liquido não era água e, sim, cachaça. Para alguns moradores e visitantes isso pareceu normal, mas nem todos queriam sair fedendo de cachaça vagabunda. Nós, integrantes do Júri, imaginávamos que eles estariam jogando água perfumada, mas não aguardente, e do mais ordinário! É claro que eles foram desclassificados!!!!

O carnaval só não acabou ali, porque eles foram os últimos a desfilar.

- Esse foi o único incidente?

- Não, mas deixa pra depois, que eu conto!

 

  

 

- Prosseguindo com a prosa, o primeiro bloco a desfilar foi o acesso 1, com o enredo: “AS PASTORINHAS”

A estrela d'alva no céu desponta

E a lua anda tonta com tamanho esplendor

E as pastorinhas pra consolo da lua

Vão cantando na rua lindos versos de amor

- Todo o bloco, muito bem concebido, onde predominavam jovens e crianças encantaram o público, bem como os jurados…

 

- O acesso 2, veio com a música enredo: Allah - lá - ô

“Allah – lá- ô ô ô ô ô ô

Mas que calor, ô ô ô ô ô ô

Atravessamos o deserto do Saara

O sol estava quente

Queimou a nossa cara”

- Seus componentes, todos vestidos de árabes, deram um show de bom gosto, com seus turbantes, roupas coloridas e esvoaçantes, além do rítmo e da interpretação musical. Acabaram tirando o primeiro lugar.

- E, os demais acessos?

- O acesso 3, também mereceu esfusiantes aplausos com a música enredo “CABELEIRA DO ZEZÉ” :

Olha a cabeleira do zezé

Será que ele é

Será que ele é

Será que ele é bossa nova

Será que ele é maomé

Parece que é transviado

Mas isso eu não sei se ele é

- Todo bloco composto só de rapazes, mas vestidos de mulheres, arrasaram tirando homens, que assistiam, para dançar e pedir em namoro. Esse humorismo saudável, hoje seria criticado, mas naquela época ainda não havia tantas restrições.

- E, os demais acessos, como se saíram?

- Olha Clóvis, muito entusiasmo, mas pouca criatividade.

- Antes de encerrar nossa conversa, o que o Senhor teria para completar a respeito do bloco do acesso 6?

- Pois é, caro genro, aquele grupo, com raras exceções, não aceitaram a desclassificação, principalmente pela violência do Sebastião, que queria bater nos membros do Júri, que só não virou em pancadaria porque o pessoal percebeu a embriaguez do morador. De qualquer forma isso marcou aquela festa, ao ponto de nunca mais ter se repetido um carnaval  no Garden City.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 14/02/2018 às 10h45 | sannickelle@gmail.com



Saint Clair Nickelle

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.


















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