Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Um convidado muito especial

Estávamos combinando a mateada de domingo, quando surgiu a informação de que o escritor Luiz Felipe Pondé, estava no Garden City, em visita a uns amigos. Através de nosso relações públicas, Luiz Paulo, pedimos se ele faria uma visita à nossa mateada de domingo. Para nossa surpresa ele aceitou.

No domingo, diante de nossa confraria do mate, ele se apresentou, sendo recepcionado pelo nosso decano, seu Gumercindo:

- Pessoal, é com grande honra e satisfação que recebemos o filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé, pernambucano do Recife, que em visita à Porto Alegre, nos vai dar uma “palhinha” na nossa mateada.

Depois dos cumprimentos, seu Gumercindo perguntou-lhe:

- No seu livro Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, o que seria o politicamente correto?

- ”O politicamente correto é um “ramo” do pensamento de esquerda americano. Se pensarmos no contexto onde ele nasceu, veremos a ascensão social dos negros americanos no final dos anos 60. Fenômeno semelhante aos gays a partir dos anos 80. O politicamente correto, assim, se caracterizará por um movimento que busca moldar comportamentos, hábitos, gestos e linguagem para gerar a inclusão social desses grupos e, por tabela, combater comportamentos, hábitos, gestos e linguagem que indiquem uma recusa dessa inclusão...”

- A esquerda, em geral, defende o coletivo e a igualdade entre as pessoas. O que você pensa a respeito?

- ”Tocqueville já dizia, no século 19, a igualdade ama a mediocridade, já a filósofa russa exilada nos EUA, Ayn Rand, acerta em cheio quando mostra uma sociedade que só fala no “bem comum” e na “igualdade entre as pessoas” contra as diferenças naturais de virtudes entre elas, estas a serviço do mau-caratismo, da preguiça e da nulidade. Ao buscar destruir as “injustiças sociais”, o mundo descrito por Rand destrói a produtividade, fonte de toda a vida, paralisando o mundo. Rand é conhecida por seu realismo objetivo em ética. Para ela, uma pessoa corajosa, trabalhadora, inteligente, ousada produz a sua volta relações humanas concretas que são úteis, abundantes, produtivas. Por exemplo, coragem produz no mundo ganhos materiais para todo mundo. Preguiça e covardia produzem miséria, mesquinhez, mentira. Isso mesmo: força e coragem fazem as pessoas verdadeiras nas suas relações, enquanto a ausência de virtudes como essas as faz mentirosas e traiçoeiras.

- E, quanto a democracia, ele é um regime político menos ruim ou um ideal a ser aperfeiçoado?

- A democracia é um regime que vive entre dois valores essenciais: liberdade e igualdade, segundo Tocqueville. E, esse convívio não é fácil.

 

Entre os dois, habita o que eu chamo de sensibilidade democrática, um conjunto de características que vão além do mero debate acerca das instituições democráticas, como poderes públicos, partidos, eleições, plebiscitos, etc.

Não se trata de falar mal da democracia, ela é o regime político “menos ruim”. Até onde os especialistas podem falar, precisamos viver em grupos para sobreviver, mas para isso fazemos concessões ao grupo em troca de segurança...Dentro desse quadro de ausência de opção de vida sem “Estado político”, a democracia é o menos pior porque procura institucionalizar as tensões da vida em grupo, distribuindo  “os poderes” de modo menos concentrado. A tentativa de definir a democracia como “regime de direitos” é ridícula porque não existem direitos sem deveres.”

- O politicamente correto, a seu ver é uma forma de ser mau-caráter?

- ”...A praga politicamente correto deve ser combatida não porque seja bonito dizer piadas racistas, mas porque ela é um instrumento de maus profissionais da cultura, normalmente gente mau-caráter, fraca intelectualmente, pobre e oportunista, para aniquilar o livre  “comércio de ideias” ao seu redor, controlando as instâncias de razão pública, como universidades, escolas, jornais, revistas, rádio, TV e tribunais. Nascida da esquerda americana, ela é pior do que a esquerda clássica, porque essa pelo menos não era covarde.

...A praga PC é apenas mais uma forma enraivecida de recusar a idade adulta e de aniquilar a inteligência. O que ela mais teme é a coragem. Por isso diz que o povo é lindo quando não é, diz que as mulheres estão bem sozinhas, quando não estão , diz que a natureza é uma mãe quando ela mais Medeia, nos proíbe de reclamar de gente brega ao nosso redor, mente sobre aqueles que lutaram contra a ditadura (eles não eram muito melhores do que os torturadores se tivessem a chance de torturar alguém), nega a importância da culpa porque é mau-caráter, enfim, não é capaz de reconhecer valor em nada porque nega a própria capacidade humana de fazer discernimento.

A praga PC é apenas mais uma face da velha ignorância humana.”

Seu Gumercindo, sabedor do compromisso do convidado no churrasco dos amigos, cortou a tentativa de mais perguntas, parabenizando-o pela gentileza de participar da mateada. Após a despedida e os agradecimentos de todos, comentaram:

- Luiz Paulo, fizeste um excelente convite. Em nome do grupo eu te agradeço. Disse seu Gumercindo, apertando-lhe a mão.

A instigante entrevista, deixou o grupo muito pensativo, a ponto do seu Gumercindo propor o encerramento daquela mateada... 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 02/02/2018 às 09h27 | sannickelle@gmail.com



Saint Clair Nickelle

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.


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