Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

E, se fosse eu ou você...

O domingo amanheceu de cara feia, nenhum sorriso do sol, nem da base aliada.
Preparei meu chimarrão, peguei a chaleira quente e sentei para pensar na vida e no meu pobre país...
As coisas parecem que estavam melhorando para o atual governo, menos para os desempregados, trabalhadores e aposentados, é claro. O Congresso Nacional tinha avançado nas reformas trabalhista e da previdência. De repente, o tilintar da campainha do Palácio Jaburu acorda o cochilo do Ajudante de Ordens do Presidente:
_Quem será a uma hora dessas?
A porta, fechada a sete chaves, se abre...um sujeito bem vestido está no hall de entrada...
_Quem é o senhor e o que quer tão tarde?
_ Sou o dono da maior rede de frigoríficos do Brasil e dos Estados Unidos e preciso falar com o Presidente. É urgente!
_ O senhor, por favor, entre e aguarde que vou anunciar sua chegada.
O visitante, que é multimilionário, não demonstra admiração pela suntuosidade do Palácio, já que vive em ambientes também sofisticados, em especial em Nova Iorque. Mas, considerando tratar-se de uma obra de Oscar Niemayer, passa a observar o requinte do Palácio Jaburu, que leva esse nome por ficar ao lado da Lagoa Jaburu, às margens do Lago Paranoá. Está localizado ao longo da Via Presidencial, entre os Palácios do Planalto e da Alvorada.
Enquanto espera, prepara o celular para gravar a conversa que pretende ter com o Presidente.
O Ajudante de Ordens bate à porta da sala-de-estar do Palácio e ouve um
_Entre!
_Senhor Presidente, está aqui no vestíbulo do Palácio o dono dos Frigoríficos...
_Que horas são?
_ São 22h e 40min, Senhor!
E, se eu ou você fosse o Presidente da República, o que faria? Poderia simplesmente mandar dizer-lhe:
_Isso são horas para visitar o Presidente? Ou...
_O Presidente e esposa já estão recolhidos aos seus aposentos íntimos. Ou...
_Diga que estou indisposto, com diarreia, e que estou indo ao banheiro de quinze em quinze minutos. Ou...
_Um momento, caro Ajudante de Ordens!
_”Será que ele seria capaz de contar à imprensa, que na última reunião que tivemos, aqui mesmo, nós jogamos botão de mesa, em vez de esclarecer os empréstimos do BNDES para suas empresas. Meu Deus! Isso seria o meu fim.”
_Diga-lhe que não posso recebê-lo de pijama e roupão, seria uma indelicadeza. Ou,...”que estou vendo o último capítulo da novela das 9h, de mãos dadas com a primeira dama...Não!, Essa hipótese não seria aconselhável, afinal deixar de receber um empresário do ramo de carnes, seria como agravar os cancelamentos das importações internacionais”...
Depois, de muito pensar, decidi mandar dizer-lhe:

_Procure-me, amanhã, para termos uma conversa compartilhada com meu Chefe de Gabinete e assessores.
Isso, se eu fosse o Presidente da República, mas não sou. No entanto, fiquei imaginando o que aconteceria com outros chefes de Estado, se recebessem àquela hora da noite, um empresário:
O tal empresário procura o Premier do Conselho de Estado da República Popular da China, Xi Jinping. Ele é recebido pelo Chefe de Protocolos. A guarda presidencial o prende por não se curvar protocolarmente diante de qualquer autoridade chinesa, já que ignorou as formalidades de Estado, a que estão sujeitos os membros do governo e as demais pessoas.
O tal empresário, se dirige à residência oficial do Presidente da Argentina, localizada em Olivos, subúrbio de Buenos Aires. Lá, na Quinta de Olivo. é informado de que o Presidente, Mauricio Macri, está assistindo uma peça teatral no Teatro Colón. O empresário do ramo de carnes desliga o gravador e sai frustrado, dando socos no ar.
Essa determinação de nosso empresário, remonta ao seu ascendente, J. Batisté, do ramo de pães e tortas, que em 14 de julho de 1789, procurou a rainha Maria Antonieta, no Palácio de Versalhes, para oferecer-lhe uma carga de brioches. E, na atualidade procura o Presidente da França, Emmanuel Macron:
-Oui, monsieur?
_Vous avez besoin de parler au Président, il est urgent!
_Désolé, le Président est de recevoir les Varsalhes le président russe Vladimir Putin;
_Bonne nuit!
E, assim, nosso insistente empresário, vai de porta em porta, tentando comprometer algum chefe de Estado imprudente.
Agora, está na Casa Branca em Washington, pretende falar com o Presidente Trump. É recebido pelo Chefe de Ordens;
_Good night!
_I need to speak to the President. It’s urgente.
_President Trump is traveling through the Middle East...
_It’s OK ...
_Forget about the hassle, so late at night.
Ele sai da Casa Branca, muitíssimo frustrado. Desliga o gravador, e vai se embebedar no primeiro bar, que encontrar aberto, aquela hora da noite, dizendo para si mesmo:
_Que droga! Não consegui corromper nenhum chefe de Estado...
No bar, encontra o deputado federal, Loureval, que continua com a maleta, contendo os quinhentos mil reais, destinado a um preso da Lava Jato, que se não recebesse a semanada, delataria todo o esquema.
O empresário, então, pergunta-lhe:
_Ué, você por aqui?
_Sim! Mas, estou voltando para casa, sem opção de recusar...
_Por quê?
_Sujou, né! A Polícia Federal filmou tudo...Posso chorar no seu ombro?
_Sai pra lá cara, a carne é fraca!
E assim termino meu chimarrão, pensando em comer peixe. O churrasco hoje não me faria nada bem. E, pra você?

Escrito por Saint Clair Nickelle, 31/05/2017 às 09h57 | sannickelle@gmail.com



Saint Clair Nickelle

Assina a coluna Condomínio Garden City

Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.


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E, se fosse eu ou você...

O domingo amanheceu de cara feia, nenhum sorriso do sol, nem da base aliada.
Preparei meu chimarrão, peguei a chaleira quente e sentei para pensar na vida e no meu pobre país...
As coisas parecem que estavam melhorando para o atual governo, menos para os desempregados, trabalhadores e aposentados, é claro. O Congresso Nacional tinha avançado nas reformas trabalhista e da previdência. De repente, o tilintar da campainha do Palácio Jaburu acorda o cochilo do Ajudante de Ordens do Presidente:
_Quem será a uma hora dessas?
A porta, fechada a sete chaves, se abre...um sujeito bem vestido está no hall de entrada...
_Quem é o senhor e o que quer tão tarde?
_ Sou o dono da maior rede de frigoríficos do Brasil e dos Estados Unidos e preciso falar com o Presidente. É urgente!
_ O senhor, por favor, entre e aguarde que vou anunciar sua chegada.
O visitante, que é multimilionário, não demonstra admiração pela suntuosidade do Palácio, já que vive em ambientes também sofisticados, em especial em Nova Iorque. Mas, considerando tratar-se de uma obra de Oscar Niemayer, passa a observar o requinte do Palácio Jaburu, que leva esse nome por ficar ao lado da Lagoa Jaburu, às margens do Lago Paranoá. Está localizado ao longo da Via Presidencial, entre os Palácios do Planalto e da Alvorada.
Enquanto espera, prepara o celular para gravar a conversa que pretende ter com o Presidente.
O Ajudante de Ordens bate à porta da sala-de-estar do Palácio e ouve um
_Entre!
_Senhor Presidente, está aqui no vestíbulo do Palácio o dono dos Frigoríficos...
_Que horas são?
_ São 22h e 40min, Senhor!
E, se eu ou você fosse o Presidente da República, o que faria? Poderia simplesmente mandar dizer-lhe:
_Isso são horas para visitar o Presidente? Ou...
_O Presidente e esposa já estão recolhidos aos seus aposentos íntimos. Ou...
_Diga que estou indisposto, com diarreia, e que estou indo ao banheiro de quinze em quinze minutos. Ou...
_Um momento, caro Ajudante de Ordens!
_”Será que ele seria capaz de contar à imprensa, que na última reunião que tivemos, aqui mesmo, nós jogamos botão de mesa, em vez de esclarecer os empréstimos do BNDES para suas empresas. Meu Deus! Isso seria o meu fim.”
_Diga-lhe que não posso recebê-lo de pijama e roupão, seria uma indelicadeza. Ou,...”que estou vendo o último capítulo da novela das 9h, de mãos dadas com a primeira dama...Não!, Essa hipótese não seria aconselhável, afinal deixar de receber um empresário do ramo de carnes, seria como agravar os cancelamentos das importações internacionais”...
Depois, de muito pensar, decidi mandar dizer-lhe:

_Procure-me, amanhã, para termos uma conversa compartilhada com meu Chefe de Gabinete e assessores.
Isso, se eu fosse o Presidente da República, mas não sou. No entanto, fiquei imaginando o que aconteceria com outros chefes de Estado, se recebessem àquela hora da noite, um empresário:
O tal empresário procura o Premier do Conselho de Estado da República Popular da China, Xi Jinping. Ele é recebido pelo Chefe de Protocolos. A guarda presidencial o prende por não se curvar protocolarmente diante de qualquer autoridade chinesa, já que ignorou as formalidades de Estado, a que estão sujeitos os membros do governo e as demais pessoas.
O tal empresário, se dirige à residência oficial do Presidente da Argentina, localizada em Olivos, subúrbio de Buenos Aires. Lá, na Quinta de Olivo. é informado de que o Presidente, Mauricio Macri, está assistindo uma peça teatral no Teatro Colón. O empresário do ramo de carnes desliga o gravador e sai frustrado, dando socos no ar.
Essa determinação de nosso empresário, remonta ao seu ascendente, J. Batisté, do ramo de pães e tortas, que em 14 de julho de 1789, procurou a rainha Maria Antonieta, no Palácio de Versalhes, para oferecer-lhe uma carga de brioches. E, na atualidade procura o Presidente da França, Emmanuel Macron:
-Oui, monsieur?
_Vous avez besoin de parler au Président, il est urgent!
_Désolé, le Président est de recevoir les Varsalhes le président russe Vladimir Putin;
_Bonne nuit!
E, assim, nosso insistente empresário, vai de porta em porta, tentando comprometer algum chefe de Estado imprudente.
Agora, está na Casa Branca em Washington, pretende falar com o Presidente Trump. É recebido pelo Chefe de Ordens;
_Good night!
_I need to speak to the President. It’s urgente.
_President Trump is traveling through the Middle East...
_It’s OK ...
_Forget about the hassle, so late at night.
Ele sai da Casa Branca, muitíssimo frustrado. Desliga o gravador, e vai se embebedar no primeiro bar, que encontrar aberto, aquela hora da noite, dizendo para si mesmo:
_Que droga! Não consegui corromper nenhum chefe de Estado...
No bar, encontra o deputado federal, Loureval, que continua com a maleta, contendo os quinhentos mil reais, destinado a um preso da Lava Jato, que se não recebesse a semanada, delataria todo o esquema.
O empresário, então, pergunta-lhe:
_Ué, você por aqui?
_Sim! Mas, estou voltando para casa, sem opção de recusar...
_Por quê?
_Sujou, né! A Polícia Federal filmou tudo...Posso chorar no seu ombro?
_Sai pra lá cara, a carne é fraca!
E assim termino meu chimarrão, pensando em comer peixe. O churrasco hoje não me faria nada bem. E, pra você?

Escrito por Saint Clair Nickelle, 31/05/2017 às 09h57 | sannickelle@gmail.com



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