Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

O pomar e o clima do planeta

Quando o Garden City ainda era um recém nascido, lembro-me bem de uma assembleia que discutia a utilização da área livre, em cujo projeto de urbanização havia sido previsto uma extensa reserva verde. Extensa porque ela se estende da entrada do Condomínio até o último acesso.

Alguns defendiam que ali se deixasse uma área para estacionamento futuro, pois já se previa o aumento do número de carros por morador. Esses que defendiam essa ideia eram contra o plantio de árvores de qualquer espécie, permanecendo apenas um grande gramado. Outros, no entanto, por conhecerem o significado de Cidade Jardim, defendiam ali uma área verde, com muita arborização. Segundo esse grupo, a vegetação que cresce por meio da fotossíntese, captura gás carbônico e libera oxigênio. Só assim teríamos um ambiente saudável para morar e educar nossas crianças. Aliás, diziam ter sido isso que os fez buscar um condomínio horizontal, com muita área verde e recreação ao ar-livre para morar.

Dessa Assembleia surgiu, de uma bióloga, a proposta de plantarmos ali frutíferas, de tal sorte que desfrutássemos do antigo hábito de colhê-las no próprio pé. Além disso, esse extenso pomar cumpriria o papel de pulmão verde, bem como atrairia diversos tipos de pássaros para deleite dos moradores.

Os contrários, no entanto, diziam que as frutíferas trariam disputas entre os moradores que, pela proximidade de algumas casas, os fariam sentir-se donos.

Quanto ao aspecto de atração aos pássaros, diziam que eles trariam doenças transmitidas por suas fezes, como a escherichia coli, a psitacose que é uma doença da via aerógena, ou seja inalação de pó contaminado por fezes.

Os defensores da natureza ficaram indignados com tamanha neura, sugerindo que os defensores de tal higidez, se mudassem imediatamente para não contrair doenças também pelo convívio com os vizinhos.

Para acalmar os ânimos, o presidente da Assembleia resolveu colocar em votação a ideia do pomar.

O resultado foi quase unanimidade pela constituição do pomar, 37 a favor e 5 contra.

Foi, então, composta uma Comissão Especial, tendo como presidente a Bióloga Sandra Maria e, outros três membros, o Engenheiro Agrônomo Sílvio Rodrigues, o Próprio síndico, Sr. Luiz Paulo e o jardineiro Marcílio.

No plano dessa Comissão Especial, se plantariam as mais diversas frutíferas, levando-se em conta as épocas de frutificação, de tal sorte que os moradores pudessem desfrutar delas o ano todo. Outro aspecto foi o de repetir grupos de frutíferas para que favorecessem uma certa proximidade para os diversos acessos. Assim, ninguém se sentiria mais privilegiado que outros moradores.

Nesses grupos de frutíferas deveriam constar sempre laranjeiras, pereiras, limoeiros, abacateiros, amoreiras, goiabeiras e bergamoteiras. Outras espécies, menos comuns, como araçazeiro, pitangueira, mirtilo, laranjeira azeda, limão galego, parreira, bananeira, etc. seriam distribuídas aleatoriamente.

Adquiridas as mudas na CEASA, em pouco tempo aquele gramado rústico de campo deu lugar a um grandioso pomar.

Os moradores, daquela época, ajudavam a adubar com a expectativa de vê-las crescer e dar seus primeiros frutos. Era sempre uma festa para os adultos e para as crianças.

O tempo passou, e alguns anos depois até festa da colheita existiu. Essas festas, instituídas pela Administração do Garden City, eram feitas sempre num domingo, onde a maioria dos condôminos podia participar. Munidos de cestas de vime, crianças e adultos colhiam as frutas que estavam maduras, depositando-as no caramanchão da Praça Central, onde depois seriam divididas irmãmente. Depois da colheita um churrasco era servido, onde ao som de músicas gauchescas, brindávamos o que a natureza e a nossa determinação propiciara.

Foi um momento muito feliz no Condomínio

Infelizmente, novos moradores vieram e por não terem participado de todo o processo de decisão, plantio e cuidados adicionais com o pomar, passaram a não respeitar as regras da colheita, permitindo que os seus visitantes colhessem indiscriminadamente as frutas, as vezes ainda nem maduras. Depois de cada fim-de-semana era uma verdadeira desolação, quando sob as frutíferas jaziam centenas de frutas arrancadas ainda verdes ou que serviram de meio para a guerra entre crianças mal educadas.

Nas Assembleias, muito se criticou os moradores inconsequentes, ao ponto da Administração do Condomínio ser obrigada, por decisão de maioria, a editar regras por escrito, para que os que não cumprissem fossem multados. O clima, antes quase idílico, passou a ser de vigilância de todos por todos. Muitas foram as interpelações de vizinhos com moradores e visitantes. Até briga se viu.

Alguns pais interpelados, porque seus filhos faziam guerra com as frutas, diziam que só mesmo as compradas possuíam as qualidades que suas famílias requeriam.

Se, num universo tão pequeno como um condomínio, não se consegue unanimidade de respeito à natureza, mesmo que ela esteja só beneficiando os moradores, imagine o mesmo respeito pelo planeta.

“O Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas, adotado pelos líderes mundiais em dezembro de 2015 na capital francesa, entra oficialmente em vigor nesta sexta-feira (4). O acordo estabelece mecanismos para que todos os países limitem o aumento da temperatura global e fortaleçam a defesa contra os impactos inevitáveis da mudança climática.”

“O planeta deve reduzir "de forma urgente e radical" as emissões de gases de efeito estufa se quiser evitar uma "tragédia humana."

Recentemente, o novo síndico, Sr. Fabiano, resolveu prestar uma homenagem póstuma aos membros daquela Comissão Especial que, mesmo diante das contrariedades enfrentadas, contribuíram para a saúde do planeta, neste micro espaço de um simples condomínio. Se cada pessoa fizer a sua parte, mesmo de forma tão pequena, certamente reverteremos a tragédia humana que ameaça a vida na terra.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 08/11/2016 às 12h35 | sannickelle@gmail.com



Saint Clair Nickelle

Assina a coluna Condomínio Garden City

Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.














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Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

O pomar e o clima do planeta

Quando o Garden City ainda era um recém nascido, lembro-me bem de uma assembleia que discutia a utilização da área livre, em cujo projeto de urbanização havia sido previsto uma extensa reserva verde. Extensa porque ela se estende da entrada do Condomínio até o último acesso.

Alguns defendiam que ali se deixasse uma área para estacionamento futuro, pois já se previa o aumento do número de carros por morador. Esses que defendiam essa ideia eram contra o plantio de árvores de qualquer espécie, permanecendo apenas um grande gramado. Outros, no entanto, por conhecerem o significado de Cidade Jardim, defendiam ali uma área verde, com muita arborização. Segundo esse grupo, a vegetação que cresce por meio da fotossíntese, captura gás carbônico e libera oxigênio. Só assim teríamos um ambiente saudável para morar e educar nossas crianças. Aliás, diziam ter sido isso que os fez buscar um condomínio horizontal, com muita área verde e recreação ao ar-livre para morar.

Dessa Assembleia surgiu, de uma bióloga, a proposta de plantarmos ali frutíferas, de tal sorte que desfrutássemos do antigo hábito de colhê-las no próprio pé. Além disso, esse extenso pomar cumpriria o papel de pulmão verde, bem como atrairia diversos tipos de pássaros para deleite dos moradores.

Os contrários, no entanto, diziam que as frutíferas trariam disputas entre os moradores que, pela proximidade de algumas casas, os fariam sentir-se donos.

Quanto ao aspecto de atração aos pássaros, diziam que eles trariam doenças transmitidas por suas fezes, como a escherichia coli, a psitacose que é uma doença da via aerógena, ou seja inalação de pó contaminado por fezes.

Os defensores da natureza ficaram indignados com tamanha neura, sugerindo que os defensores de tal higidez, se mudassem imediatamente para não contrair doenças também pelo convívio com os vizinhos.

Para acalmar os ânimos, o presidente da Assembleia resolveu colocar em votação a ideia do pomar.

O resultado foi quase unanimidade pela constituição do pomar, 37 a favor e 5 contra.

Foi, então, composta uma Comissão Especial, tendo como presidente a Bióloga Sandra Maria e, outros três membros, o Engenheiro Agrônomo Sílvio Rodrigues, o Próprio síndico, Sr. Luiz Paulo e o jardineiro Marcílio.

No plano dessa Comissão Especial, se plantariam as mais diversas frutíferas, levando-se em conta as épocas de frutificação, de tal sorte que os moradores pudessem desfrutar delas o ano todo. Outro aspecto foi o de repetir grupos de frutíferas para que favorecessem uma certa proximidade para os diversos acessos. Assim, ninguém se sentiria mais privilegiado que outros moradores.

Nesses grupos de frutíferas deveriam constar sempre laranjeiras, pereiras, limoeiros, abacateiros, amoreiras, goiabeiras e bergamoteiras. Outras espécies, menos comuns, como araçazeiro, pitangueira, mirtilo, laranjeira azeda, limão galego, parreira, bananeira, etc. seriam distribuídas aleatoriamente.

Adquiridas as mudas na CEASA, em pouco tempo aquele gramado rústico de campo deu lugar a um grandioso pomar.

Os moradores, daquela época, ajudavam a adubar com a expectativa de vê-las crescer e dar seus primeiros frutos. Era sempre uma festa para os adultos e para as crianças.

O tempo passou, e alguns anos depois até festa da colheita existiu. Essas festas, instituídas pela Administração do Garden City, eram feitas sempre num domingo, onde a maioria dos condôminos podia participar. Munidos de cestas de vime, crianças e adultos colhiam as frutas que estavam maduras, depositando-as no caramanchão da Praça Central, onde depois seriam divididas irmãmente. Depois da colheita um churrasco era servido, onde ao som de músicas gauchescas, brindávamos o que a natureza e a nossa determinação propiciara.

Foi um momento muito feliz no Condomínio

Infelizmente, novos moradores vieram e por não terem participado de todo o processo de decisão, plantio e cuidados adicionais com o pomar, passaram a não respeitar as regras da colheita, permitindo que os seus visitantes colhessem indiscriminadamente as frutas, as vezes ainda nem maduras. Depois de cada fim-de-semana era uma verdadeira desolação, quando sob as frutíferas jaziam centenas de frutas arrancadas ainda verdes ou que serviram de meio para a guerra entre crianças mal educadas.

Nas Assembleias, muito se criticou os moradores inconsequentes, ao ponto da Administração do Condomínio ser obrigada, por decisão de maioria, a editar regras por escrito, para que os que não cumprissem fossem multados. O clima, antes quase idílico, passou a ser de vigilância de todos por todos. Muitas foram as interpelações de vizinhos com moradores e visitantes. Até briga se viu.

Alguns pais interpelados, porque seus filhos faziam guerra com as frutas, diziam que só mesmo as compradas possuíam as qualidades que suas famílias requeriam.

Se, num universo tão pequeno como um condomínio, não se consegue unanimidade de respeito à natureza, mesmo que ela esteja só beneficiando os moradores, imagine o mesmo respeito pelo planeta.

“O Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas, adotado pelos líderes mundiais em dezembro de 2015 na capital francesa, entra oficialmente em vigor nesta sexta-feira (4). O acordo estabelece mecanismos para que todos os países limitem o aumento da temperatura global e fortaleçam a defesa contra os impactos inevitáveis da mudança climática.”

“O planeta deve reduzir "de forma urgente e radical" as emissões de gases de efeito estufa se quiser evitar uma "tragédia humana."

Recentemente, o novo síndico, Sr. Fabiano, resolveu prestar uma homenagem póstuma aos membros daquela Comissão Especial que, mesmo diante das contrariedades enfrentadas, contribuíram para a saúde do planeta, neste micro espaço de um simples condomínio. Se cada pessoa fizer a sua parte, mesmo de forma tão pequena, certamente reverteremos a tragédia humana que ameaça a vida na terra.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 08/11/2016 às 12h35 | sannickelle@gmail.com



Saint Clair Nickelle

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.