Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Delação não premiada

Morar em condomínio tem lá as suas vantagens, mas é uma contradição dentro de uma cidade. Por quê uma contradição? Porque isola os moradores do contexto urbano, tornando-os alheios à comunidade, quer seja a rua, o bairro e, por extensão, a própria cidade. 

Um condomínio, do tipo horizontal, tem suas próprias leis além é claro das que regem todos os munícipes. O isolamento trás segurança, prestação de serviços e uma vizinhança compulsória que, as vezes pode ser positiva ou negativa, dependendo da forma excessivamente individualista de alguns, fato que é gerador de atritos pontuais e/ou de regulação administrativa.

Quando fui morar no Garden City, constatei que as alterações das casas, de pequena monta é claro, eram feitas sem qualquer licença da Prefeitura Municipal, pois havia uma certa cumplicidade de todos os moradores. 

Eu mesmo fiz algumas alterações ao meu projeto original, adaptando certos aspectos que a avaliação pós-ocupação nos fez refletir melhor. Não houve, no entanto, alteração de área construída, nem invasão às áreas de acumulação que todos os terrenos possuíam, originalmente destinadas somente ao ajardinamento, entradas social e de garagem.

Tudo corria muito bem, até que o atrito entre o Ferdinando e o Sebastião, dois vizinhos do último acesso, gerou uma denúncia à Secretaria de Obras de Porto Alegre. Muito embora, fossem apenas vizinhos de frente o Sebastião, incomodado com o Ferdinando que havia se queixado das diabruras de seu filho Eliseu, resolveu, para se vingar, denunciá-lo à Prefeitura . O Ferdinando, na ocasião estava construindo uma cobertura para abrigar seu carro nos fundos do terreno.

A Fiscalização Municipal interditou a obra, multou e exigiu do Ferdinando, num prazo de 30 dias, a regularização da construção. 

O coitado do Ferdinando, que possuía apenas os recursos financeiros para terminar a cobertura, foi obrigado a contratar um profissional habilitado para proceder a devida regularização da obra. Ele nos confessou que teve vontade de matar o Sebastião, e ainda completou:

_ Ele, não perde por esperar.

Quando o Fiscal da Prefeitura veio comunicar que a interdição estava suspensa, o Ferdinando perguntou-lhe se alguma obra já acabada, mas feita sem autorização, poderia sofrer multa e necessidade de regularização. Como o Fiscal afirmou que sim, ele então denunciou o Sebastião por ter feito, também, uma garagem completa com churrasqueira nos fundos do terreno. Não deu outra, o Sebastião foi multado e precisou contratar um profissional habilitado para proceder a devida regularização. 

Depois desse incidente, o Sebastião saiu dando tiro pra tudo que é lado. Foi uma profusão de multa e regularização que só parou quando todos os seus vizinhos ameaçaram de morte o Sebastião, que de valente só tinha o papo. 

Depois que o pessoal da frente ficou sabendo que fora o Sebastião que fizera as denúncias, um grupo indignado bateu na casa dele disposto a lhe tirar satisfação.

Na ocasião foi mãe dele que os atendeu:

_ Dona Sebastiana, o Sebastião está em casa?

_ Está sim, vou chamá-lo.

Logo que entrou para o interior da casa, o Sebastião com cara de cachorro que lambeu graxa, disse-lhe:

Quem tá aí, mãe?

_ Eu acho que são uns amigos teus. Eles querem falar contigo.

_ Diz pra eles que eu não estou em casa.

_Mas filho, eu já disse que tu estavas.

_ Ora mãe, a senhora não devia ter dito isso.

_ Ué, filho, por quê?

_ Mãe, esse é um assunto do Condomínio, tu não entendes, até porque não moras aqui.

_ Não me diz que tu estás com medo deste pessoal?

_ Claro que não.

Dona Sebastiana deixou o filho, que encorujado não queria sair do quarto, e foi falar com o grupo.

_ Desculpe pessoal, mas o que vocês querem com o Sebastião?

_ Dona Sebastiana, nós queremos só bater...é bater... um papo com ele.

_ Olha gente, eu bati no quarto dele e acho que ainda tá dormindo, pois não atendeu ao meu chamado.

_ Mas bah, tchê! São onze e meia e o vivente ainda tá dormindo. Tudo bem dona Sebastiana, outra hora a gente vem BATER...é BATER um papo com ele...Passe bem.

Dessa feita o Sebastião passou batido.

Mas o pessoal prejudicado pelas denúncias não estava disposto a esquecer e, logo logo, o encontraria para tirar-lhe satisfação.    

Em todo lugar do Condomínio que ele ia recebia vaia, gusparada e elogios à sua digníssima mãe. Os mais irritados o provocavam para ver se ele reagia e, aí sim, bater-lhe o brim. Mas, felizmente isso não chegou a ocorrer. Por um bom tempo ele quase não saiu de casa. Mas, o tempo que cura tudo pelo esquecimento, fez o Garden City voltar a normalidade. 

O fato é que ninguém mais fez reforma sem antes contratar um profissional habilitado. De um certo modo escroncho, o Sebastião acabou fazendo um bom serviço para o Condomínio. Já pensaram, todo mundo modificando suas casas sem planejamento, sem obedecer os ditames oficiais do Código de Obras?

Certamente, o Garden City viraria um “Frankenstein” , tão assustador como o famoso monstro do romance de terror gótico de autoria de Mary Shelley, escritora britânica nascida em Londres.

O famoso monstro da Mary Shelley, era feito de pedaços humanos que não possuía qualquer plano de beleza, por isso sua aparência horrorosa. Assim ficaria o Garden City se as pessoas continuassem a fazer, por conta própria, puxadinhos daqui e dali, como costuma se ver em alguns conjuntos habitacionais e/ou mesmo em edifícios de apartamentos.

“A beleza é fundamental...É preciso que haja qualquer coisa de flor em tudo isso.” Como escreveu o carioca Vinicius de Moraes.

Os relacionamentos afetivos podem ter consequências, mas isso é outra história.

 

 

 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 01/11/2016 às 17h31 | sannickelle@gmail.com



Saint Clair Nickelle

Assina a coluna Condomínio Garden City

Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.














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Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Delação não premiada

Morar em condomínio tem lá as suas vantagens, mas é uma contradição dentro de uma cidade. Por quê uma contradição? Porque isola os moradores do contexto urbano, tornando-os alheios à comunidade, quer seja a rua, o bairro e, por extensão, a própria cidade. 

Um condomínio, do tipo horizontal, tem suas próprias leis além é claro das que regem todos os munícipes. O isolamento trás segurança, prestação de serviços e uma vizinhança compulsória que, as vezes pode ser positiva ou negativa, dependendo da forma excessivamente individualista de alguns, fato que é gerador de atritos pontuais e/ou de regulação administrativa.

Quando fui morar no Garden City, constatei que as alterações das casas, de pequena monta é claro, eram feitas sem qualquer licença da Prefeitura Municipal, pois havia uma certa cumplicidade de todos os moradores. 

Eu mesmo fiz algumas alterações ao meu projeto original, adaptando certos aspectos que a avaliação pós-ocupação nos fez refletir melhor. Não houve, no entanto, alteração de área construída, nem invasão às áreas de acumulação que todos os terrenos possuíam, originalmente destinadas somente ao ajardinamento, entradas social e de garagem.

Tudo corria muito bem, até que o atrito entre o Ferdinando e o Sebastião, dois vizinhos do último acesso, gerou uma denúncia à Secretaria de Obras de Porto Alegre. Muito embora, fossem apenas vizinhos de frente o Sebastião, incomodado com o Ferdinando que havia se queixado das diabruras de seu filho Eliseu, resolveu, para se vingar, denunciá-lo à Prefeitura . O Ferdinando, na ocasião estava construindo uma cobertura para abrigar seu carro nos fundos do terreno.

A Fiscalização Municipal interditou a obra, multou e exigiu do Ferdinando, num prazo de 30 dias, a regularização da construção. 

O coitado do Ferdinando, que possuía apenas os recursos financeiros para terminar a cobertura, foi obrigado a contratar um profissional habilitado para proceder a devida regularização da obra. Ele nos confessou que teve vontade de matar o Sebastião, e ainda completou:

_ Ele, não perde por esperar.

Quando o Fiscal da Prefeitura veio comunicar que a interdição estava suspensa, o Ferdinando perguntou-lhe se alguma obra já acabada, mas feita sem autorização, poderia sofrer multa e necessidade de regularização. Como o Fiscal afirmou que sim, ele então denunciou o Sebastião por ter feito, também, uma garagem completa com churrasqueira nos fundos do terreno. Não deu outra, o Sebastião foi multado e precisou contratar um profissional habilitado para proceder a devida regularização. 

Depois desse incidente, o Sebastião saiu dando tiro pra tudo que é lado. Foi uma profusão de multa e regularização que só parou quando todos os seus vizinhos ameaçaram de morte o Sebastião, que de valente só tinha o papo. 

Depois que o pessoal da frente ficou sabendo que fora o Sebastião que fizera as denúncias, um grupo indignado bateu na casa dele disposto a lhe tirar satisfação.

Na ocasião foi mãe dele que os atendeu:

_ Dona Sebastiana, o Sebastião está em casa?

_ Está sim, vou chamá-lo.

Logo que entrou para o interior da casa, o Sebastião com cara de cachorro que lambeu graxa, disse-lhe:

Quem tá aí, mãe?

_ Eu acho que são uns amigos teus. Eles querem falar contigo.

_ Diz pra eles que eu não estou em casa.

_Mas filho, eu já disse que tu estavas.

_ Ora mãe, a senhora não devia ter dito isso.

_ Ué, filho, por quê?

_ Mãe, esse é um assunto do Condomínio, tu não entendes, até porque não moras aqui.

_ Não me diz que tu estás com medo deste pessoal?

_ Claro que não.

Dona Sebastiana deixou o filho, que encorujado não queria sair do quarto, e foi falar com o grupo.

_ Desculpe pessoal, mas o que vocês querem com o Sebastião?

_ Dona Sebastiana, nós queremos só bater...é bater... um papo com ele.

_ Olha gente, eu bati no quarto dele e acho que ainda tá dormindo, pois não atendeu ao meu chamado.

_ Mas bah, tchê! São onze e meia e o vivente ainda tá dormindo. Tudo bem dona Sebastiana, outra hora a gente vem BATER...é BATER um papo com ele...Passe bem.

Dessa feita o Sebastião passou batido.

Mas o pessoal prejudicado pelas denúncias não estava disposto a esquecer e, logo logo, o encontraria para tirar-lhe satisfação.    

Em todo lugar do Condomínio que ele ia recebia vaia, gusparada e elogios à sua digníssima mãe. Os mais irritados o provocavam para ver se ele reagia e, aí sim, bater-lhe o brim. Mas, felizmente isso não chegou a ocorrer. Por um bom tempo ele quase não saiu de casa. Mas, o tempo que cura tudo pelo esquecimento, fez o Garden City voltar a normalidade. 

O fato é que ninguém mais fez reforma sem antes contratar um profissional habilitado. De um certo modo escroncho, o Sebastião acabou fazendo um bom serviço para o Condomínio. Já pensaram, todo mundo modificando suas casas sem planejamento, sem obedecer os ditames oficiais do Código de Obras?

Certamente, o Garden City viraria um “Frankenstein” , tão assustador como o famoso monstro do romance de terror gótico de autoria de Mary Shelley, escritora britânica nascida em Londres.

O famoso monstro da Mary Shelley, era feito de pedaços humanos que não possuía qualquer plano de beleza, por isso sua aparência horrorosa. Assim ficaria o Garden City se as pessoas continuassem a fazer, por conta própria, puxadinhos daqui e dali, como costuma se ver em alguns conjuntos habitacionais e/ou mesmo em edifícios de apartamentos.

“A beleza é fundamental...É preciso que haja qualquer coisa de flor em tudo isso.” Como escreveu o carioca Vinicius de Moraes.

Os relacionamentos afetivos podem ter consequências, mas isso é outra história.

 

 

 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 01/11/2016 às 17h31 | sannickelle@gmail.com



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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.