Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Intervenção

 A família do seu Ivo, morador do Garden City, saiu em férias, depois de muitos anos, já que queriam conhecer Paraty, passando pelo Rio de Janeiro. É claro que, obviamente, temiam pela insegurança na ex-capital do Brasil.

Um belo dia, alugaram um carro no Rio e da locadora mesmo, rumaram para Paraty. Todos acomodados, música tocando a milhão, bocas mastigando salgadinhos e risos soltos;

...Até que, no trajeto, os carros começaram a parar, Lucas, que estava no banco de trás, se agarrou no seu Ivo:

- Pai! Pai! O que está acontecendo...?!!!!!!

A mãe engasgada e já apavorada:

- Ivo, pelo amor de Deus, fecha as janelas!

- Luquinhas, fica calmo, filho...não há de ser nada...Vamos rezar...

- Não posso, mãe! Não paro de tremer...

Seu Ivo, com o rosto suando e muito branco, pediu calma e segurou firme nas mãos de Dona Bibiana e do Lucas. Mas, logo a realidade veio à tona, quando alguém lhes gritou::

- Corre pra cá, cara! Não fica no carro que é pior! Traz toda a tua família pra junto do muro...Era o motorista de outro carro...

Ofegante e tremendo que nem vara verde, Seu Ivo arrastou a mulher e o filho para junto do muro de concreto, que dividia as pistas da Linha Vermelha. Agachados, ficaram ali, com as balas sibilando sobre as cabeças.

- Obrigado, cara, pela força! Já não sabia o que fazer...

- Eu e minha família também fomos surpreendidos...Sou de São Paulo e me dirigia para Cabo Frio, e vocês?

- Somos gaúchos, de Porto Alegre, íamos conhecer Paraty.

- Não desistam de conhecer Paraty, daqui a pouco este tiroteio vai acabar!

- Se não acabar com a gente...

- Só se os policiais nos atingirem!

- Como assim? Não é guerra de facções?

- Do lado de cá, estão os bandidos, mas como eles têm armamento mais moderno e são bons de tiro, se quisessem nos acertar, já teriam feito. O problema para nós são os que estão do lado oposto, mal armados e só estão acertando no nosso muro de concreto, os policiais.

- Deus do céu!

- Eu vim passear, achando que a intervenção federal teria acabado com a bandidagem, estou perplexo e minha família traumatizada.

- Para acabar com a bandidagem no Brasil, teriam que ter começado por Brasília...

- É verdade!

- Já estilhaçaram os vidros dos nossos carros, será que ainda temos chance de continuar viagem?

- Eu espero que sim!

- Como é seu nome?

- Ivo Cezimbra.

- E o seu?

- Adeodato Medeiros.

- Vocês, são de onde, Ivo?

- Moramos em Porto Alegre, no Condomínio Garden City, um verdadeiro paraíso de tranquilidade.

- E vocês, Adeodato?

- Moramos na Aclimação.

- E lá, é seguro?

- Muito. É um bairro de classe média, não atrai os bandidos.

Depois de terem trocado os números de seus celulares, perceberam que os tiros tinham parado. Estavam, por pelo menos duas horas, acocorados e deitados no chão. Ainda apavorados, começaram a levantar, lentamente. Seu Ivo chamou a mulher e o filho, despediram-se rapidamente da família do Adeodato, e correram para o carro; mesmo com os vidros estilhaçados...seguiram estrada a fora:

- Rio de Janeiro nunca mais!

Saíram da divisa do Rio de Janeiro e deram graças a Deus! No entanto, quando já estavam chegando em Angra dos Reis, foram parados pela P. R. F.

- Graças a Deus, que estamos sendo parados por vocês policiais! Vou lhes contar o que aconteceu. O policial, para surpresa geral, mandou que saíssemos com as mãos na cabeça.

- Policial, o que está acontecendo?

- Vocês estão detidos! Houve um assalto em Duque de Caxias, e a polícia de lá informou que os carros dos assaltantes foram metralhados, tal qual o seu! Dona Bibiana e o Luquinhas choravam copiosamente. Seu Ivo, ficou desesperado, ao vê-los assim, depois de tudo que passaram na Linha Vermelha.

O policial, então, levou-os para a guarita da PRF, e os obrigaram, em silêncio, a aguardar o chefe da guarnição.

Depois de quase uma hora, chegou uma viatura da PRF, com o tal chefe. Seu Ivo aproveitou para falar:

- Senhor! Senhor! Deve estar havendo um terrível engano...E, ouviu:

- Cale a boca! Eu não lhe autorizei a falar! Enquanto isso, a mulher e o filho  não paravam de chorar, agarrados no Seu Ivo. Até que finalmente, o chefe da PRF o autorizou a falar:

- Senhor, nós somos turistas de Porto Alegre e, pela manhã, passando pela Linha Vermelha, fomos surpreendidos por um grande tiroteio. Nossa única alternativa foi buscar abrigo no muro de concreto que separa as duas pistas. Quando, finalmente, cessou o tiroteio, partimos para nosso destino, que é visitar Paraty.

- O Senhor tem alguma testemunha, que possa confirmar o que está me dizendo?

- As pessoas que passaram o que nós passamos, tão logo cessou o tiroteio saíram, como nós, apavoradas e fugindo o mais rápido possível.

- Então, o Senhor, não tem alguém que possa confirmar sua versão?

- Sim! Sim!, Alguém nos ajudou, quando a situação estava incontrolável.

- O Senhor tem o nome dessa pessoa?

- Sim! Não só o nome, como o telefone cellular.

O Chefe da PRF fez a ligação e foi atendido pelo próprio Adeodato...

Em seguida. os liberou.

Saíram de lá, abraçados, e prometendo voltar o mais rápido possível, para a tranquilidade do Garden City.

No caminho, o celular do Seu Ivo tocou:

- Eu atendo, Ivo!

- Alô! É a Bibiana, Adeodato!

- Sim! Sim! Estamos bem!

- O Ivo tá dirigindo, sim! Muito obrigada, viu? Olha, já te consideramos um grande amigo! ?- O Ivo manda um abraço também! Luquinhas, idem!?? Depois disso, durante o trajeto de retorno:

- Sabem o que aprendi com toda essa nossa "aventura"...??- Fala, pai!!!?- Olha, filho, entendi o quanto vocês são importantes pra mim. E que não existe um lugar seguro ou sem problemas.? Sabe, tudo na vida é impermanente e transitório. Esse senhor, o Adeodato, nem nos conhece direito e ligou pra saber se estamos bem...?- Isso é maravilhoso!?- A amizade, o amor, a união nos momentos cruciais.

- Paiê! Mãeeê! Tive muito medo! Mas, acho que amo vocês até o infinito! ??Seu Ivo sorriu e seus olhos "marejaram águas salgadas das praias do Rio".?    ??

 
 
Escrito por Saint Clair Nickelle, 07/03/2018 às 09h39 | sannickelle@gmail.com

Olimpíada Campeira

Naquela mateada de domingo, estávamos conversando sobre a Olimpíada de inverno, que se disputava na Coréia do Sul, quando seu Gumercindo passou a falar da primeira Olimpíada Campeira, realizada em Bagé:

- Eu era piazito, mas acompanhei meu pai e meu avô naquele acontecimento, que reuniu gente do Brasil, da Argentina e do Uruguai. Na corrida de cancha reta, um tio meu, seu Godofredo, ganhou a medalha de ouro.

- O que consistia a corrida de cancha reta?

- Os ginetes, em plena lida campeira, se desafiavam. Muitas vezes, no retorno das campeiradas, tiravam cismas de quem possuía o cavalo mais rápido. Daí surgiram as corridas nos campos com os cavalos da própria lida, chamados crioulos. Com o passar dos tempos, foram criando disputas em canchas retas de 260 e até de 400m, não com os cavalos de trabalho, mas sim com os melhores da estância.

- Mas, voltando à disputa onde o perdedor Juan Ortiz, uruguaio de Rivera, não se conformara com a derrota e passou a ofender os juízes. Dizia ele que os juízes roubaram, já que eles terminaram focinho com focinho, ou seja, no mínimo o empate teria sido o mais justo. Ali começou o primeiro arranca rabo, pois um dos juízes, Dr. Marco Antônio Borges de Medeiros, sentindo-se ofendido, puxou do trabuco e queria matar o uruguaio safado, como dizia ele, aos berros; só não atirou porque a turma dos deixa-disso conseguiu contê-lo. Mas, dali pra frente o clima ficou pesado, tanto é que algumas mulheres levaram seus rebentos para a segurança do lar.

- Seu Gumercindo, e que outras modalidades foram disputadas?

- Olha pessoal, uma que foi muito disputada e concorrida, até pelas apostas em dinheiro, foi a do jogo do osso.

- Jogo do osso? O que é isso seu Gumercindo?

- O Jogo do Osso, é de origem asiática, muito praticado na região da fronteira do Rio Grande do Sul. O jogo chegou à Bacia do Prata através dos espanhóis. Uma prova de sua procedência platina, seja pelo nordeste argentino, seja pelo Uruguai, é o fato de conservar o jogo até hoje. Até os termos ainda conservam a terminologia da língua castelhana, tais como SUERTE, CULO e CLAVADA.

- Que tipo de osso é esse?

- É o osso do garrão do boi...

- E, como se joga, seu Gumercindo?

- Sobre uma cancha plana de 7m, no mínimo, e de 9m no máximo, equipes de até quatro picadores ou jogar sozinho e concorrer apenas na pontuação individual, contabilizam a posição que o osso ou TAVA cai. Uma vez jogado o osso, conforme a maneira que cai, dá SUETRE ou CULO, isto é ganha ou perde a pessoa que o atira. Quando o osso cai sobre uma das extremidades, e fica assim em pé ou inclinado, dá-se o que se chama de CLAVADA.

- E, como se contabiliza os pontos, tchê?

- SUERTE CLAVADA 2 pontos positivos;

- SUERTE CORRIDA 1 ponto positivo;

- CULO CLAVADO 2 pontos negativos;

- CULO CORRIDO 1 ponto negativo.

- Naquela Olimpíada, quando os contentores estavam na última bateria, disputavam o Josias, o João e o Calinhos pelo lado brasileiro e, pelo lado argentino, o Carbajal, o Ortega e o Ignácio.

A disputa deles ficou mais acirrada, pois além das medalhas em jogo, corria por fora, uma grande soma em dinheiro das apostas. Para ambos havia promessa de uma guaiaca cheia de grana, fato que esganiçou a disputa dos contendores e dos que os apoiavam.

- Como se sabe, meu sogro, o lado certo do osso para aferir a pontuação?

- Caro Clóvis, de um lado do osso é fixada uma chapa de bronze que corresponde a SUERTE, do lado oposto uma de ferro  que corresponde ao CULO, assim, após ter sido arremessado é a posição da TAVA no solo, cravada ou não, que define se será sorte ou culo.

- E a Olimpíada Campeira se resumia apenas nessas duas modalidades?

- Claro que não, havia disputa de laço, de tiro, de arremesso de boleadeira, de montagem e desmontagem de arreios, de doma, etc...

- Então, foram necessários vários dias para completar a maratona de disputas olímpicas campeiras?

- Sim e não!

- Como assim, seu Gumercindo?

- Aconteceu o que ninguém esperava, após a disputa do jogo de osso.

- E esse acontecimento foi muito grave?

- Se foi! Acabou com a primeira olimpíada campeira.

- Mas, o que de tão grave aconteceu?

- O Brasil estava a frente da Argentina por um ponto, mas a última jogada era dos hermanos. A TAVA estava na mão do Carbajal, que suava frio, pois se desse SUERTE ganhavam a medalha de ouro e a guaiaca recheada de pilas. Logo que arremessou, ouviu-se do juiz responsável pela guarda do dinheiro das apostas:

- PESSOAL O DINHEIRO SUMIU!...O osso girou no ar como se tivesse em câmara lenta, e todos os olhares esqueceram aquela trajetória,  que, finalmente tocou o picadeiro da cancha plana. Mas, perplexos os apostadores passaram a se empurrar, exigindo uma explicação. A confusão foi tal que acabaram esquecendo da TAVA, só queriam saber da grana.

- No entanto, os juízes e os contendores se agruparam em volta da peça, que definiria o campeão daquela modalidade olímpica. Ao se aproximar da TAVA o juiz brasileiro, Sérgio Sandin Medeiros, tocou-a com a ponta da bota, gerando uma pequena inclinação  na mesma, que seria  CULO CLAVADO. Com isso a equipe brasileira seria campeã, mas os Hermanos partiram pra cima da nossa equipe e do juiz. Facões e adagas brilhavam no ar, desferindo-se golpes mortais pelos dois lados. Não houve quem os apartasse e a peleja se estendeu pelos apoiadores. Naquela confusão generalizada, o juiz responsável pela guarda do dinheiro das apostas, subiu no alambrado e gritou para a turba enfurecida:

- PESSOAL, A BOLSA DO DINHEIRO FOI ENCONTRADA...

- O seu Curra achou!

- Como num passe de mágica, a peleja acabou e os contendores foram beber para esquecer a tragédia da Primeira Olimpíada Campeira.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 21/02/2018 às 11h45 | sannickelle@gmail.com

Um carnaval inesquecível

 Em conversa amistosa com meu sogro, seu Gumercindo, um dos moradores mais antigos do Garden City, fiquei sabendo que já tinha havido um carnaval que mobilizou todos os moradores. Isso veio a tona, depois que o Síndico, seu Fabiano, resolveu ressuscitar um carnaval que envolvesse toda a comunidade; dizia, com jeito orgulhoso, querer marcar sua gestão pela alegria, mas como todo mundo sabe a última grande festa, a de Natal, foi um grande desastre.

Perguntei ao seu Gumercindo:

- Como foi organizado aquele carnaval, que os mais antigos não cansam de lembrar?

- Olha Clóvis, foi muito espontâneo e criativo, graças a sugestão do carnavalesco Paulão, morador da Restinga; esposa trabalhava no Condomínio. Ele sugeriu que cada acesso, são sete ao todo, organizasse um bloco que teria por tema a música de carnaval escolhida. As fantasias, também, estariam de acordo com a marchinha escolhida.

- E, os moradores corresponderam, meu sogro?

- Sim! Eles até nos surpreenderam!

- Havia algum júri para julgar os blocos carnavalescos?

- Sim! Na Praça Central foi montado um pequeno palanque, onde o síndico, na ocasião, se não me falha a memória era o falecido seu Agenor, e alguns convidados especiais, como a dona Clarice e o pintor Voldinei Lucas, que juntos com os membros da diretoria do Garden City compunham o júri.

- E aí? Correu tudo bem?

- De um modo geral, sim.

- O que o Senhor quer dizer com esse “...de um modo geral...”?

- Até então, não tínhamos um conhecimento muito apurado dos moradores, especialmente em ocasiões em que a bebida pode ser um diferencial...

- Como assim?

- O acesso 6, lá dos fundos do Condomínio, sob o comando do Sebastião, marido da dona Valquíria, escolheu como música enredo “CACHAÇA NÃO É ÁGUA”, cuja letra começa:

Você pensa que cachaça é água

Cachaça não é água não

Cachaça vem do alambique

E água vem do ribeirão”

- Todo o bloco portava garrafas na mão, e as fantasias típicas de bêbados de rua, esfarrapados e sujos se apresentavam bebendo e jogando o líquido no público. O que não se sabia é que o liquido não era água e, sim, cachaça. Para alguns moradores e visitantes isso pareceu normal, mas nem todos queriam sair fedendo de cachaça vagabunda. Nós, integrantes do Júri, imaginávamos que eles estariam jogando água perfumada, mas não aguardente, e do mais ordinário! É claro que eles foram desclassificados!!!!

O carnaval só não acabou ali, porque eles foram os últimos a desfilar.

- Esse foi o único incidente?

- Não, mas deixa pra depois, que eu conto!

 

  

 

- Prosseguindo com a prosa, o primeiro bloco a desfilar foi o acesso 1, com o enredo: “AS PASTORINHAS”

A estrela d'alva no céu desponta

E a lua anda tonta com tamanho esplendor

E as pastorinhas pra consolo da lua

Vão cantando na rua lindos versos de amor

- Todo o bloco, muito bem concebido, onde predominavam jovens e crianças encantaram o público, bem como os jurados…

 

- O acesso 2, veio com a música enredo: Allah - lá - ô

“Allah – lá- ô ô ô ô ô ô

Mas que calor, ô ô ô ô ô ô

Atravessamos o deserto do Saara

O sol estava quente

Queimou a nossa cara”

- Seus componentes, todos vestidos de árabes, deram um show de bom gosto, com seus turbantes, roupas coloridas e esvoaçantes, além do rítmo e da interpretação musical. Acabaram tirando o primeiro lugar.

- E, os demais acessos?

- O acesso 3, também mereceu esfusiantes aplausos com a música enredo “CABELEIRA DO ZEZÉ” :

Olha a cabeleira do zezé

Será que ele é

Será que ele é

Será que ele é bossa nova

Será que ele é maomé

Parece que é transviado

Mas isso eu não sei se ele é

- Todo bloco composto só de rapazes, mas vestidos de mulheres, arrasaram tirando homens, que assistiam, para dançar e pedir em namoro. Esse humorismo saudável, hoje seria criticado, mas naquela época ainda não havia tantas restrições.

- E, os demais acessos, como se saíram?

- Olha Clóvis, muito entusiasmo, mas pouca criatividade.

- Antes de encerrar nossa conversa, o que o Senhor teria para completar a respeito do bloco do acesso 6?

- Pois é, caro genro, aquele grupo, com raras exceções, não aceitaram a desclassificação, principalmente pela violência do Sebastião, que queria bater nos membros do Júri, que só não virou em pancadaria porque o pessoal percebeu a embriaguez do morador. De qualquer forma isso marcou aquela festa, ao ponto de nunca mais ter se repetido um carnaval  no Garden City.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 14/02/2018 às 10h45 | sannickelle@gmail.com

Um convidado muito especial

Estávamos combinando a mateada de domingo, quando surgiu a informação de que o escritor Luiz Felipe Pondé, estava no Garden City, em visita a uns amigos. Através de nosso relações públicas, Luiz Paulo, pedimos se ele faria uma visita à nossa mateada de domingo. Para nossa surpresa ele aceitou.

No domingo, diante de nossa confraria do mate, ele se apresentou, sendo recepcionado pelo nosso decano, seu Gumercindo:

- Pessoal, é com grande honra e satisfação que recebemos o filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé, pernambucano do Recife, que em visita à Porto Alegre, nos vai dar uma “palhinha” na nossa mateada.

Depois dos cumprimentos, seu Gumercindo perguntou-lhe:

- No seu livro Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, o que seria o politicamente correto?

- ”O politicamente correto é um “ramo” do pensamento de esquerda americano. Se pensarmos no contexto onde ele nasceu, veremos a ascensão social dos negros americanos no final dos anos 60. Fenômeno semelhante aos gays a partir dos anos 80. O politicamente correto, assim, se caracterizará por um movimento que busca moldar comportamentos, hábitos, gestos e linguagem para gerar a inclusão social desses grupos e, por tabela, combater comportamentos, hábitos, gestos e linguagem que indiquem uma recusa dessa inclusão...”

- A esquerda, em geral, defende o coletivo e a igualdade entre as pessoas. O que você pensa a respeito?

- ”Tocqueville já dizia, no século 19, a igualdade ama a mediocridade, já a filósofa russa exilada nos EUA, Ayn Rand, acerta em cheio quando mostra uma sociedade que só fala no “bem comum” e na “igualdade entre as pessoas” contra as diferenças naturais de virtudes entre elas, estas a serviço do mau-caratismo, da preguiça e da nulidade. Ao buscar destruir as “injustiças sociais”, o mundo descrito por Rand destrói a produtividade, fonte de toda a vida, paralisando o mundo. Rand é conhecida por seu realismo objetivo em ética. Para ela, uma pessoa corajosa, trabalhadora, inteligente, ousada produz a sua volta relações humanas concretas que são úteis, abundantes, produtivas. Por exemplo, coragem produz no mundo ganhos materiais para todo mundo. Preguiça e covardia produzem miséria, mesquinhez, mentira. Isso mesmo: força e coragem fazem as pessoas verdadeiras nas suas relações, enquanto a ausência de virtudes como essas as faz mentirosas e traiçoeiras.

- E, quanto a democracia, ele é um regime político menos ruim ou um ideal a ser aperfeiçoado?

- A democracia é um regime que vive entre dois valores essenciais: liberdade e igualdade, segundo Tocqueville. E, esse convívio não é fácil.

 

Entre os dois, habita o que eu chamo de sensibilidade democrática, um conjunto de características que vão além do mero debate acerca das instituições democráticas, como poderes públicos, partidos, eleições, plebiscitos, etc.

Não se trata de falar mal da democracia, ela é o regime político “menos ruim”. Até onde os especialistas podem falar, precisamos viver em grupos para sobreviver, mas para isso fazemos concessões ao grupo em troca de segurança...Dentro desse quadro de ausência de opção de vida sem “Estado político”, a democracia é o menos pior porque procura institucionalizar as tensões da vida em grupo, distribuindo  “os poderes” de modo menos concentrado. A tentativa de definir a democracia como “regime de direitos” é ridícula porque não existem direitos sem deveres.”

- O politicamente correto, a seu ver é uma forma de ser mau-caráter?

- ”...A praga politicamente correto deve ser combatida não porque seja bonito dizer piadas racistas, mas porque ela é um instrumento de maus profissionais da cultura, normalmente gente mau-caráter, fraca intelectualmente, pobre e oportunista, para aniquilar o livre  “comércio de ideias” ao seu redor, controlando as instâncias de razão pública, como universidades, escolas, jornais, revistas, rádio, TV e tribunais. Nascida da esquerda americana, ela é pior do que a esquerda clássica, porque essa pelo menos não era covarde.

...A praga PC é apenas mais uma forma enraivecida de recusar a idade adulta e de aniquilar a inteligência. O que ela mais teme é a coragem. Por isso diz que o povo é lindo quando não é, diz que as mulheres estão bem sozinhas, quando não estão , diz que a natureza é uma mãe quando ela mais Medeia, nos proíbe de reclamar de gente brega ao nosso redor, mente sobre aqueles que lutaram contra a ditadura (eles não eram muito melhores do que os torturadores se tivessem a chance de torturar alguém), nega a importância da culpa porque é mau-caráter, enfim, não é capaz de reconhecer valor em nada porque nega a própria capacidade humana de fazer discernimento.

A praga PC é apenas mais uma face da velha ignorância humana.”

Seu Gumercindo, sabedor do compromisso do convidado no churrasco dos amigos, cortou a tentativa de mais perguntas, parabenizando-o pela gentileza de participar da mateada. Após a despedida e os agradecimentos de todos, comentaram:

- Luiz Paulo, fizeste um excelente convite. Em nome do grupo eu te agradeço. Disse seu Gumercindo, apertando-lhe a mão.

A instigante entrevista, deixou o grupo muito pensativo, a ponto do seu Gumercindo propor o encerramento daquela mateada... 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 02/02/2018 às 09h27 | sannickelle@gmail.com

O contador de histórias

 Naquele domingo de janeiro de 2018, nos encontramos no caramanchão da Praça Central do Garden City para mais uma mateada. Seu Gumercindo, como sempre, foi o primeiro a chegar de cuia, erva mate e uma garrafa térmica gigante. Logo foi cumprimentando os que chegavam: 

- E, aí vivente, como tem passado? A resposta era quase padrão...

- Faceiro, que nem potro novo, correndo atrás das éguas!

- E, as notícias?

- No Brasil, cada vez se descobre mais e mais safadeza...agora é a da Caixa Econômica Federal, reduto dos partidos políticos que apoiam o Temer, onde cada vice-presidência era um esquema de corrupção.

- No plano internacional, o que nos têm chamado a atenção são os Jogos de Inverno na Coréia do Sul, em especial pela aproximação das duas coréias.

- Fico pensando como tem sido o encontro dos dois comitês, que estão discutindo a participação das duas coréias.

- Deve ser interessante imaginar, de um lado uma república democrática e de outro uma ditadura hereditária. Disse seu Gumercindo do alto de sua sabedoria e, completou: 

- Querido amigo San, você como cronista imaginaria para nós como poderia ser a interlocução das duas coréias...

- Agora?

- Sim, de improviso, já que você é muito criativo...

- Tá bom, aceito o desafio, mas por favor me interrompam quando ficar enfadonho, bem como estarei aberto para sugestões...

- Como vocês sabem, as Coréias do Norte e do Sul vão participar juntas dos jogos, desde é claro que seus interlocutores acertem e aceitem todos os detalhes, que passam pelo desfile conjunto, modalidades de jogos, uniformes, emblemas, bandeiras, etc...

Na primeira reunião já surgiu um impasse, pois o chefe do comitê da Coréia do Sul se referiu ao Líder da Coréia do Norte como Ditador, fato que fez os membros do Comitê do Norte fazerem menção de se
retirar.

- Ao se referirem ao nosso SUPREMO LÍDER, jamais o nominem ditador ou presidente, isso é inaceitável para nós.

O Chefe do Comitê da Coréia do Sul pediu, então, desculpas. Logo a seguir falou:

- Nosso Presidente, Moon Jae-in, sugeriu que no desfile usemos uma bandeira unificando, para os Jogos de Inverno, as duas Coréias.

O Chefe do Comitê do Norte pediu um intervalo e, depois de meia hora retornou, junto com os demais membros, à mesa de negociação.

- Nós concordamos com esse item, desde que um representante de cada país, desfile cada um com uma bandeira e, os demais atletas, com pequenas bandeiras com o mesmo símbolo das principais.

A Coréia do Sul prontamente concordou.

A Coréia do Norte expôs que durante o desfile os dois mandatários ficarão lado a lado, desde que o SUPREMO LÍDER, fique do lado esquerdo.

Os coreanos do sul, perguntaram:

- Para quem olha de frente ou por quem olha de trás?

Os coreanos do norte ficaram perplexos diante da pergunta e pediram um recesso. Depois de meia hora retornaram, dizendo:

- Sim! Para quem olha de frente, já que por trás jamais haverá alguém, a não ser, é claro, nosso grupo de segurança.

A Coréia do Sul concordou.

- Em quais modalidades a Coréia do Norte pretende enviar atletas?

Perguntou o Chefe da delegação da Coréia do Sul, Lee Hee-beom.

Os coreanos do norte pediram recesso para consultar seus alfarrábios.

E, depois de uma hora, voltaram com a resposta:

- Patinação artística, esqui alpino, esqui cross-country, hóquei feminino, tiro ao alvo, acionamento de foguetes e botão-de-mesa, para tanto enviaremos 550 atletas.

Agora quem ficou perplexo foi o comitê do sul, que logo informaram:

- As quatro primeiras modalidades fazem parte dos Jogos de Inverno, mas as três últimas não.

Extremamente contrariados os membros do Comitê do norte pediram novo recesso. Uma hora depois voltaram, informando:

- Daremos nossa resposta na próxima reunião.

Os coreanos do sul, por seu chefe do comitê, perguntaram:

- Vocês não tem autonomia para decidir algo tão simples?

Tanto o Chefe do comitê do norte, como os demais membros, ficaram perplexos diante da pergunta e pediram novo recesso.

Pacientemente os membros do sul aguardaram uma hora e meia, quando finalmente eles voltaram à mesa de negociação. Quem falou foi o Chefe do norte:

- O que vocês querem dizer com autonomia?

Agora a perplexidade passou para o lado do sul...

- Ora! Autonomia é o que nós temos enquanto Comitê...

- Como assim

Perguntou o Chefe do norte.

- Autonomia para decidir com independência, liberdade e autossuficiência os termos de nossa participação conjunta.

Os membros do Comitê do norte, ficaram pouco a vontade e decidiram pedir novo recesso. Ao voltarem, disseram:

Infelizmente nós não temos isso que vocês disseram, até porque o termo é totalmente desconhecido no nosso país. No, entanto, gostaríamos de sugerir mais um aspecto para os desfiles de abertura e encerramento...

- Pois, então, façam, antes de encerrarmos a reunião...

- Nosso SUPREMO LÍDER gostaria de incluir, nos desfiles, uma demonstração de força com a apresentação de foguetes e ogivas...

O Comitê do sul, já demonstrando irritação, rebateu:

- Isso não faz o mínimo sentido, já que os Jogos Olímpicos, quer sejam de inverno ou não, visam o congraçamento entre os povos pela paz, através das diversas modalidades esportivas.

Sob o olhar incrédulo dos representantes das duas Coréias, se propôs o encerramento dessa primeira reunião, antes, porém, os do sul perguntaram:

- Por quê vocês estão com as mãos enfaixadas?

- Por ter o orgulho de aplaudir constantemente nosso SUPREMO LÍDER!

E, o San foi aplaudido pelos companheiros de mateada, mas de forma moderada

Escrito por Saint Clair Nickelle, 22/01/2018 às 14h59 | sannickelle@gmail.com

Como viver em paz?

 São tantas bobagens que nos cercam, que nos induzem a pensar somente em desgraça, em parte pelo exagero dos noticiários, em parte por nossa avidez pela desgraça dos outros, que não sabemos mais como viver em paz.

No plano internacional, dois líderes atuais, King Jong Un e Donald Trump, brincam, como crianças mimadas, de destruir-se com suas ogivas nucleares, bastando para tanto apertar botões e, como brincadeira de videogame, arrasar a vida.

Para muita gente, como eu, que luta contra doenças quase incuráveis, a vida é o bem mais precioso, não uma brincadeira de mentes insanas.

Fico feliz quando recebo mensagens positivas, como a que vou reproduzir a seguir, enviada pela minha grande amiga budista, Silvana B. Scapini.

“A vida vai dar certo para mim quando eu tomar consciência...
de que um problema que está acontecendo “neste momento”
pode ser uma história “de muito tempo atrás”.
Não conte essa história outra vez!
Não fale do quanto sofreu,
Não fale sobre ele ou sobre ela,
a não ser que isso faça você se sentir melhor.
Não pronuncie uma única sílaba sobre a dor e sobre as perdas,
A não ser que tenha condições de se recuperar neste instante.
Pare com isso!
Pare de se agarrar ao passado, lembrando-se do quanto as coisas lhe fizeram mal,
A não ser que isso ajude no que você está fazendo agora.
Cada vez que você pensa naquilo,
Fala sobre aquilo, ou se lembra daquele tempo,
Traz a energia negativa do passado para o momento presente.
É claro que você precisa reconhecer como se sente
em relação a todas as experiências que já viveu.
Não deve, no entanto, ficar remoendo ou contando uma história
que faz você se sentir mal.
Fale do que aprendeu!
Conte como você se curou!
De como a força da vida em você superou o sofrimento.
Se examinar bem sua história,
verá que há muitas coisas que você pode usar para seguir adiante.
Quando, no entanto, você se prende a detalhes
Que só servem para reavivar sua dor,
É por que está contando a história de maneira errada.
Sim, você precisa ter consciência dos detalhes da sua vida
Para aceitar a sua parcela de responsabilidade.
Na verdade, cada vez que você conta sua história
_mesmo os detalhezinhos sórdidos
_para aprender com ela,
pode descobrir novos níveis
de compreensão e perdão.
Quando, no entanto, você remói uma história que lhe faz mal,
Pare de contá-la!
Hoje, eu me dedico a deixar para trás as velhas histórias
Que me fizeram mal
Para viver melhor com o que aprendi com elas.
Ótimo dia, contemple a sua vida,
Aprecie a sua vida.”
Autor: Lyanla Vanzant

Quando internalizamos as notícias ruins, acabamos falando delas, aceitando-as como naturais. Isso, no entanto, mina nossa capacidade de apreciar a chuva como necessária, não como desgraça...de apreciar as matas com seus matizes diversos...de olhar para o céu e admirar aquele azul único, inexistente no universo sem cor...enfim, de se dar tempo para sonhar e alimentar o desejo de viver em paz.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 09/01/2018 às 14h43 | sannickelle@gmail.com



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Saint Clair Nickelle

Assina a coluna Condomínio Garden City

Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.


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Página 3
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Intervenção

 A família do seu Ivo, morador do Garden City, saiu em férias, depois de muitos anos, já que queriam conhecer Paraty, passando pelo Rio de Janeiro. É claro que, obviamente, temiam pela insegurança na ex-capital do Brasil.

Um belo dia, alugaram um carro no Rio e da locadora mesmo, rumaram para Paraty. Todos acomodados, música tocando a milhão, bocas mastigando salgadinhos e risos soltos;

...Até que, no trajeto, os carros começaram a parar, Lucas, que estava no banco de trás, se agarrou no seu Ivo:

- Pai! Pai! O que está acontecendo...?!!!!!!

A mãe engasgada e já apavorada:

- Ivo, pelo amor de Deus, fecha as janelas!

- Luquinhas, fica calmo, filho...não há de ser nada...Vamos rezar...

- Não posso, mãe! Não paro de tremer...

Seu Ivo, com o rosto suando e muito branco, pediu calma e segurou firme nas mãos de Dona Bibiana e do Lucas. Mas, logo a realidade veio à tona, quando alguém lhes gritou::

- Corre pra cá, cara! Não fica no carro que é pior! Traz toda a tua família pra junto do muro...Era o motorista de outro carro...

Ofegante e tremendo que nem vara verde, Seu Ivo arrastou a mulher e o filho para junto do muro de concreto, que dividia as pistas da Linha Vermelha. Agachados, ficaram ali, com as balas sibilando sobre as cabeças.

- Obrigado, cara, pela força! Já não sabia o que fazer...

- Eu e minha família também fomos surpreendidos...Sou de São Paulo e me dirigia para Cabo Frio, e vocês?

- Somos gaúchos, de Porto Alegre, íamos conhecer Paraty.

- Não desistam de conhecer Paraty, daqui a pouco este tiroteio vai acabar!

- Se não acabar com a gente...

- Só se os policiais nos atingirem!

- Como assim? Não é guerra de facções?

- Do lado de cá, estão os bandidos, mas como eles têm armamento mais moderno e são bons de tiro, se quisessem nos acertar, já teriam feito. O problema para nós são os que estão do lado oposto, mal armados e só estão acertando no nosso muro de concreto, os policiais.

- Deus do céu!

- Eu vim passear, achando que a intervenção federal teria acabado com a bandidagem, estou perplexo e minha família traumatizada.

- Para acabar com a bandidagem no Brasil, teriam que ter começado por Brasília...

- É verdade!

- Já estilhaçaram os vidros dos nossos carros, será que ainda temos chance de continuar viagem?

- Eu espero que sim!

- Como é seu nome?

- Ivo Cezimbra.

- E o seu?

- Adeodato Medeiros.

- Vocês, são de onde, Ivo?

- Moramos em Porto Alegre, no Condomínio Garden City, um verdadeiro paraíso de tranquilidade.

- E vocês, Adeodato?

- Moramos na Aclimação.

- E lá, é seguro?

- Muito. É um bairro de classe média, não atrai os bandidos.

Depois de terem trocado os números de seus celulares, perceberam que os tiros tinham parado. Estavam, por pelo menos duas horas, acocorados e deitados no chão. Ainda apavorados, começaram a levantar, lentamente. Seu Ivo chamou a mulher e o filho, despediram-se rapidamente da família do Adeodato, e correram para o carro; mesmo com os vidros estilhaçados...seguiram estrada a fora:

- Rio de Janeiro nunca mais!

Saíram da divisa do Rio de Janeiro e deram graças a Deus! No entanto, quando já estavam chegando em Angra dos Reis, foram parados pela P. R. F.

- Graças a Deus, que estamos sendo parados por vocês policiais! Vou lhes contar o que aconteceu. O policial, para surpresa geral, mandou que saíssemos com as mãos na cabeça.

- Policial, o que está acontecendo?

- Vocês estão detidos! Houve um assalto em Duque de Caxias, e a polícia de lá informou que os carros dos assaltantes foram metralhados, tal qual o seu! Dona Bibiana e o Luquinhas choravam copiosamente. Seu Ivo, ficou desesperado, ao vê-los assim, depois de tudo que passaram na Linha Vermelha.

O policial, então, levou-os para a guarita da PRF, e os obrigaram, em silêncio, a aguardar o chefe da guarnição.

Depois de quase uma hora, chegou uma viatura da PRF, com o tal chefe. Seu Ivo aproveitou para falar:

- Senhor! Senhor! Deve estar havendo um terrível engano...E, ouviu:

- Cale a boca! Eu não lhe autorizei a falar! Enquanto isso, a mulher e o filho  não paravam de chorar, agarrados no Seu Ivo. Até que finalmente, o chefe da PRF o autorizou a falar:

- Senhor, nós somos turistas de Porto Alegre e, pela manhã, passando pela Linha Vermelha, fomos surpreendidos por um grande tiroteio. Nossa única alternativa foi buscar abrigo no muro de concreto que separa as duas pistas. Quando, finalmente, cessou o tiroteio, partimos para nosso destino, que é visitar Paraty.

- O Senhor tem alguma testemunha, que possa confirmar o que está me dizendo?

- As pessoas que passaram o que nós passamos, tão logo cessou o tiroteio saíram, como nós, apavoradas e fugindo o mais rápido possível.

- Então, o Senhor, não tem alguém que possa confirmar sua versão?

- Sim! Sim!, Alguém nos ajudou, quando a situação estava incontrolável.

- O Senhor tem o nome dessa pessoa?

- Sim! Não só o nome, como o telefone cellular.

O Chefe da PRF fez a ligação e foi atendido pelo próprio Adeodato...

Em seguida. os liberou.

Saíram de lá, abraçados, e prometendo voltar o mais rápido possível, para a tranquilidade do Garden City.

No caminho, o celular do Seu Ivo tocou:

- Eu atendo, Ivo!

- Alô! É a Bibiana, Adeodato!

- Sim! Sim! Estamos bem!

- O Ivo tá dirigindo, sim! Muito obrigada, viu? Olha, já te consideramos um grande amigo! ?- O Ivo manda um abraço também! Luquinhas, idem!?? Depois disso, durante o trajeto de retorno:

- Sabem o que aprendi com toda essa nossa "aventura"...??- Fala, pai!!!?- Olha, filho, entendi o quanto vocês são importantes pra mim. E que não existe um lugar seguro ou sem problemas.? Sabe, tudo na vida é impermanente e transitório. Esse senhor, o Adeodato, nem nos conhece direito e ligou pra saber se estamos bem...?- Isso é maravilhoso!?- A amizade, o amor, a união nos momentos cruciais.

- Paiê! Mãeeê! Tive muito medo! Mas, acho que amo vocês até o infinito! ??Seu Ivo sorriu e seus olhos "marejaram águas salgadas das praias do Rio".?    ??

 
 
Escrito por Saint Clair Nickelle, 07/03/2018 às 09h39 | sannickelle@gmail.com

Olimpíada Campeira

Naquela mateada de domingo, estávamos conversando sobre a Olimpíada de inverno, que se disputava na Coréia do Sul, quando seu Gumercindo passou a falar da primeira Olimpíada Campeira, realizada em Bagé:

- Eu era piazito, mas acompanhei meu pai e meu avô naquele acontecimento, que reuniu gente do Brasil, da Argentina e do Uruguai. Na corrida de cancha reta, um tio meu, seu Godofredo, ganhou a medalha de ouro.

- O que consistia a corrida de cancha reta?

- Os ginetes, em plena lida campeira, se desafiavam. Muitas vezes, no retorno das campeiradas, tiravam cismas de quem possuía o cavalo mais rápido. Daí surgiram as corridas nos campos com os cavalos da própria lida, chamados crioulos. Com o passar dos tempos, foram criando disputas em canchas retas de 260 e até de 400m, não com os cavalos de trabalho, mas sim com os melhores da estância.

- Mas, voltando à disputa onde o perdedor Juan Ortiz, uruguaio de Rivera, não se conformara com a derrota e passou a ofender os juízes. Dizia ele que os juízes roubaram, já que eles terminaram focinho com focinho, ou seja, no mínimo o empate teria sido o mais justo. Ali começou o primeiro arranca rabo, pois um dos juízes, Dr. Marco Antônio Borges de Medeiros, sentindo-se ofendido, puxou do trabuco e queria matar o uruguaio safado, como dizia ele, aos berros; só não atirou porque a turma dos deixa-disso conseguiu contê-lo. Mas, dali pra frente o clima ficou pesado, tanto é que algumas mulheres levaram seus rebentos para a segurança do lar.

- Seu Gumercindo, e que outras modalidades foram disputadas?

- Olha pessoal, uma que foi muito disputada e concorrida, até pelas apostas em dinheiro, foi a do jogo do osso.

- Jogo do osso? O que é isso seu Gumercindo?

- O Jogo do Osso, é de origem asiática, muito praticado na região da fronteira do Rio Grande do Sul. O jogo chegou à Bacia do Prata através dos espanhóis. Uma prova de sua procedência platina, seja pelo nordeste argentino, seja pelo Uruguai, é o fato de conservar o jogo até hoje. Até os termos ainda conservam a terminologia da língua castelhana, tais como SUERTE, CULO e CLAVADA.

- Que tipo de osso é esse?

- É o osso do garrão do boi...

- E, como se joga, seu Gumercindo?

- Sobre uma cancha plana de 7m, no mínimo, e de 9m no máximo, equipes de até quatro picadores ou jogar sozinho e concorrer apenas na pontuação individual, contabilizam a posição que o osso ou TAVA cai. Uma vez jogado o osso, conforme a maneira que cai, dá SUETRE ou CULO, isto é ganha ou perde a pessoa que o atira. Quando o osso cai sobre uma das extremidades, e fica assim em pé ou inclinado, dá-se o que se chama de CLAVADA.

- E, como se contabiliza os pontos, tchê?

- SUERTE CLAVADA 2 pontos positivos;

- SUERTE CORRIDA 1 ponto positivo;

- CULO CLAVADO 2 pontos negativos;

- CULO CORRIDO 1 ponto negativo.

- Naquela Olimpíada, quando os contentores estavam na última bateria, disputavam o Josias, o João e o Calinhos pelo lado brasileiro e, pelo lado argentino, o Carbajal, o Ortega e o Ignácio.

A disputa deles ficou mais acirrada, pois além das medalhas em jogo, corria por fora, uma grande soma em dinheiro das apostas. Para ambos havia promessa de uma guaiaca cheia de grana, fato que esganiçou a disputa dos contendores e dos que os apoiavam.

- Como se sabe, meu sogro, o lado certo do osso para aferir a pontuação?

- Caro Clóvis, de um lado do osso é fixada uma chapa de bronze que corresponde a SUERTE, do lado oposto uma de ferro  que corresponde ao CULO, assim, após ter sido arremessado é a posição da TAVA no solo, cravada ou não, que define se será sorte ou culo.

- E a Olimpíada Campeira se resumia apenas nessas duas modalidades?

- Claro que não, havia disputa de laço, de tiro, de arremesso de boleadeira, de montagem e desmontagem de arreios, de doma, etc...

- Então, foram necessários vários dias para completar a maratona de disputas olímpicas campeiras?

- Sim e não!

- Como assim, seu Gumercindo?

- Aconteceu o que ninguém esperava, após a disputa do jogo de osso.

- E esse acontecimento foi muito grave?

- Se foi! Acabou com a primeira olimpíada campeira.

- Mas, o que de tão grave aconteceu?

- O Brasil estava a frente da Argentina por um ponto, mas a última jogada era dos hermanos. A TAVA estava na mão do Carbajal, que suava frio, pois se desse SUERTE ganhavam a medalha de ouro e a guaiaca recheada de pilas. Logo que arremessou, ouviu-se do juiz responsável pela guarda do dinheiro das apostas:

- PESSOAL O DINHEIRO SUMIU!...O osso girou no ar como se tivesse em câmara lenta, e todos os olhares esqueceram aquela trajetória,  que, finalmente tocou o picadeiro da cancha plana. Mas, perplexos os apostadores passaram a se empurrar, exigindo uma explicação. A confusão foi tal que acabaram esquecendo da TAVA, só queriam saber da grana.

- No entanto, os juízes e os contendores se agruparam em volta da peça, que definiria o campeão daquela modalidade olímpica. Ao se aproximar da TAVA o juiz brasileiro, Sérgio Sandin Medeiros, tocou-a com a ponta da bota, gerando uma pequena inclinação  na mesma, que seria  CULO CLAVADO. Com isso a equipe brasileira seria campeã, mas os Hermanos partiram pra cima da nossa equipe e do juiz. Facões e adagas brilhavam no ar, desferindo-se golpes mortais pelos dois lados. Não houve quem os apartasse e a peleja se estendeu pelos apoiadores. Naquela confusão generalizada, o juiz responsável pela guarda do dinheiro das apostas, subiu no alambrado e gritou para a turba enfurecida:

- PESSOAL, A BOLSA DO DINHEIRO FOI ENCONTRADA...

- O seu Curra achou!

- Como num passe de mágica, a peleja acabou e os contendores foram beber para esquecer a tragédia da Primeira Olimpíada Campeira.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 21/02/2018 às 11h45 | sannickelle@gmail.com

Um carnaval inesquecível

 Em conversa amistosa com meu sogro, seu Gumercindo, um dos moradores mais antigos do Garden City, fiquei sabendo que já tinha havido um carnaval que mobilizou todos os moradores. Isso veio a tona, depois que o Síndico, seu Fabiano, resolveu ressuscitar um carnaval que envolvesse toda a comunidade; dizia, com jeito orgulhoso, querer marcar sua gestão pela alegria, mas como todo mundo sabe a última grande festa, a de Natal, foi um grande desastre.

Perguntei ao seu Gumercindo:

- Como foi organizado aquele carnaval, que os mais antigos não cansam de lembrar?

- Olha Clóvis, foi muito espontâneo e criativo, graças a sugestão do carnavalesco Paulão, morador da Restinga; esposa trabalhava no Condomínio. Ele sugeriu que cada acesso, são sete ao todo, organizasse um bloco que teria por tema a música de carnaval escolhida. As fantasias, também, estariam de acordo com a marchinha escolhida.

- E, os moradores corresponderam, meu sogro?

- Sim! Eles até nos surpreenderam!

- Havia algum júri para julgar os blocos carnavalescos?

- Sim! Na Praça Central foi montado um pequeno palanque, onde o síndico, na ocasião, se não me falha a memória era o falecido seu Agenor, e alguns convidados especiais, como a dona Clarice e o pintor Voldinei Lucas, que juntos com os membros da diretoria do Garden City compunham o júri.

- E aí? Correu tudo bem?

- De um modo geral, sim.

- O que o Senhor quer dizer com esse “...de um modo geral...”?

- Até então, não tínhamos um conhecimento muito apurado dos moradores, especialmente em ocasiões em que a bebida pode ser um diferencial...

- Como assim?

- O acesso 6, lá dos fundos do Condomínio, sob o comando do Sebastião, marido da dona Valquíria, escolheu como música enredo “CACHAÇA NÃO É ÁGUA”, cuja letra começa:

Você pensa que cachaça é água

Cachaça não é água não

Cachaça vem do alambique

E água vem do ribeirão”

- Todo o bloco portava garrafas na mão, e as fantasias típicas de bêbados de rua, esfarrapados e sujos se apresentavam bebendo e jogando o líquido no público. O que não se sabia é que o liquido não era água e, sim, cachaça. Para alguns moradores e visitantes isso pareceu normal, mas nem todos queriam sair fedendo de cachaça vagabunda. Nós, integrantes do Júri, imaginávamos que eles estariam jogando água perfumada, mas não aguardente, e do mais ordinário! É claro que eles foram desclassificados!!!!

O carnaval só não acabou ali, porque eles foram os últimos a desfilar.

- Esse foi o único incidente?

- Não, mas deixa pra depois, que eu conto!

 

  

 

- Prosseguindo com a prosa, o primeiro bloco a desfilar foi o acesso 1, com o enredo: “AS PASTORINHAS”

A estrela d'alva no céu desponta

E a lua anda tonta com tamanho esplendor

E as pastorinhas pra consolo da lua

Vão cantando na rua lindos versos de amor

- Todo o bloco, muito bem concebido, onde predominavam jovens e crianças encantaram o público, bem como os jurados…

 

- O acesso 2, veio com a música enredo: Allah - lá - ô

“Allah – lá- ô ô ô ô ô ô

Mas que calor, ô ô ô ô ô ô

Atravessamos o deserto do Saara

O sol estava quente

Queimou a nossa cara”

- Seus componentes, todos vestidos de árabes, deram um show de bom gosto, com seus turbantes, roupas coloridas e esvoaçantes, além do rítmo e da interpretação musical. Acabaram tirando o primeiro lugar.

- E, os demais acessos?

- O acesso 3, também mereceu esfusiantes aplausos com a música enredo “CABELEIRA DO ZEZÉ” :

Olha a cabeleira do zezé

Será que ele é

Será que ele é

Será que ele é bossa nova

Será que ele é maomé

Parece que é transviado

Mas isso eu não sei se ele é

- Todo bloco composto só de rapazes, mas vestidos de mulheres, arrasaram tirando homens, que assistiam, para dançar e pedir em namoro. Esse humorismo saudável, hoje seria criticado, mas naquela época ainda não havia tantas restrições.

- E, os demais acessos, como se saíram?

- Olha Clóvis, muito entusiasmo, mas pouca criatividade.

- Antes de encerrar nossa conversa, o que o Senhor teria para completar a respeito do bloco do acesso 6?

- Pois é, caro genro, aquele grupo, com raras exceções, não aceitaram a desclassificação, principalmente pela violência do Sebastião, que queria bater nos membros do Júri, que só não virou em pancadaria porque o pessoal percebeu a embriaguez do morador. De qualquer forma isso marcou aquela festa, ao ponto de nunca mais ter se repetido um carnaval  no Garden City.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 14/02/2018 às 10h45 | sannickelle@gmail.com

Um convidado muito especial

Estávamos combinando a mateada de domingo, quando surgiu a informação de que o escritor Luiz Felipe Pondé, estava no Garden City, em visita a uns amigos. Através de nosso relações públicas, Luiz Paulo, pedimos se ele faria uma visita à nossa mateada de domingo. Para nossa surpresa ele aceitou.

No domingo, diante de nossa confraria do mate, ele se apresentou, sendo recepcionado pelo nosso decano, seu Gumercindo:

- Pessoal, é com grande honra e satisfação que recebemos o filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé, pernambucano do Recife, que em visita à Porto Alegre, nos vai dar uma “palhinha” na nossa mateada.

Depois dos cumprimentos, seu Gumercindo perguntou-lhe:

- No seu livro Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, o que seria o politicamente correto?

- ”O politicamente correto é um “ramo” do pensamento de esquerda americano. Se pensarmos no contexto onde ele nasceu, veremos a ascensão social dos negros americanos no final dos anos 60. Fenômeno semelhante aos gays a partir dos anos 80. O politicamente correto, assim, se caracterizará por um movimento que busca moldar comportamentos, hábitos, gestos e linguagem para gerar a inclusão social desses grupos e, por tabela, combater comportamentos, hábitos, gestos e linguagem que indiquem uma recusa dessa inclusão...”

- A esquerda, em geral, defende o coletivo e a igualdade entre as pessoas. O que você pensa a respeito?

- ”Tocqueville já dizia, no século 19, a igualdade ama a mediocridade, já a filósofa russa exilada nos EUA, Ayn Rand, acerta em cheio quando mostra uma sociedade que só fala no “bem comum” e na “igualdade entre as pessoas” contra as diferenças naturais de virtudes entre elas, estas a serviço do mau-caratismo, da preguiça e da nulidade. Ao buscar destruir as “injustiças sociais”, o mundo descrito por Rand destrói a produtividade, fonte de toda a vida, paralisando o mundo. Rand é conhecida por seu realismo objetivo em ética. Para ela, uma pessoa corajosa, trabalhadora, inteligente, ousada produz a sua volta relações humanas concretas que são úteis, abundantes, produtivas. Por exemplo, coragem produz no mundo ganhos materiais para todo mundo. Preguiça e covardia produzem miséria, mesquinhez, mentira. Isso mesmo: força e coragem fazem as pessoas verdadeiras nas suas relações, enquanto a ausência de virtudes como essas as faz mentirosas e traiçoeiras.

- E, quanto a democracia, ele é um regime político menos ruim ou um ideal a ser aperfeiçoado?

- A democracia é um regime que vive entre dois valores essenciais: liberdade e igualdade, segundo Tocqueville. E, esse convívio não é fácil.

 

Entre os dois, habita o que eu chamo de sensibilidade democrática, um conjunto de características que vão além do mero debate acerca das instituições democráticas, como poderes públicos, partidos, eleições, plebiscitos, etc.

Não se trata de falar mal da democracia, ela é o regime político “menos ruim”. Até onde os especialistas podem falar, precisamos viver em grupos para sobreviver, mas para isso fazemos concessões ao grupo em troca de segurança...Dentro desse quadro de ausência de opção de vida sem “Estado político”, a democracia é o menos pior porque procura institucionalizar as tensões da vida em grupo, distribuindo  “os poderes” de modo menos concentrado. A tentativa de definir a democracia como “regime de direitos” é ridícula porque não existem direitos sem deveres.”

- O politicamente correto, a seu ver é uma forma de ser mau-caráter?

- ”...A praga politicamente correto deve ser combatida não porque seja bonito dizer piadas racistas, mas porque ela é um instrumento de maus profissionais da cultura, normalmente gente mau-caráter, fraca intelectualmente, pobre e oportunista, para aniquilar o livre  “comércio de ideias” ao seu redor, controlando as instâncias de razão pública, como universidades, escolas, jornais, revistas, rádio, TV e tribunais. Nascida da esquerda americana, ela é pior do que a esquerda clássica, porque essa pelo menos não era covarde.

...A praga PC é apenas mais uma forma enraivecida de recusar a idade adulta e de aniquilar a inteligência. O que ela mais teme é a coragem. Por isso diz que o povo é lindo quando não é, diz que as mulheres estão bem sozinhas, quando não estão , diz que a natureza é uma mãe quando ela mais Medeia, nos proíbe de reclamar de gente brega ao nosso redor, mente sobre aqueles que lutaram contra a ditadura (eles não eram muito melhores do que os torturadores se tivessem a chance de torturar alguém), nega a importância da culpa porque é mau-caráter, enfim, não é capaz de reconhecer valor em nada porque nega a própria capacidade humana de fazer discernimento.

A praga PC é apenas mais uma face da velha ignorância humana.”

Seu Gumercindo, sabedor do compromisso do convidado no churrasco dos amigos, cortou a tentativa de mais perguntas, parabenizando-o pela gentileza de participar da mateada. Após a despedida e os agradecimentos de todos, comentaram:

- Luiz Paulo, fizeste um excelente convite. Em nome do grupo eu te agradeço. Disse seu Gumercindo, apertando-lhe a mão.

A instigante entrevista, deixou o grupo muito pensativo, a ponto do seu Gumercindo propor o encerramento daquela mateada... 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 02/02/2018 às 09h27 | sannickelle@gmail.com

O contador de histórias

 Naquele domingo de janeiro de 2018, nos encontramos no caramanchão da Praça Central do Garden City para mais uma mateada. Seu Gumercindo, como sempre, foi o primeiro a chegar de cuia, erva mate e uma garrafa térmica gigante. Logo foi cumprimentando os que chegavam: 

- E, aí vivente, como tem passado? A resposta era quase padrão...

- Faceiro, que nem potro novo, correndo atrás das éguas!

- E, as notícias?

- No Brasil, cada vez se descobre mais e mais safadeza...agora é a da Caixa Econômica Federal, reduto dos partidos políticos que apoiam o Temer, onde cada vice-presidência era um esquema de corrupção.

- No plano internacional, o que nos têm chamado a atenção são os Jogos de Inverno na Coréia do Sul, em especial pela aproximação das duas coréias.

- Fico pensando como tem sido o encontro dos dois comitês, que estão discutindo a participação das duas coréias.

- Deve ser interessante imaginar, de um lado uma república democrática e de outro uma ditadura hereditária. Disse seu Gumercindo do alto de sua sabedoria e, completou: 

- Querido amigo San, você como cronista imaginaria para nós como poderia ser a interlocução das duas coréias...

- Agora?

- Sim, de improviso, já que você é muito criativo...

- Tá bom, aceito o desafio, mas por favor me interrompam quando ficar enfadonho, bem como estarei aberto para sugestões...

- Como vocês sabem, as Coréias do Norte e do Sul vão participar juntas dos jogos, desde é claro que seus interlocutores acertem e aceitem todos os detalhes, que passam pelo desfile conjunto, modalidades de jogos, uniformes, emblemas, bandeiras, etc...

Na primeira reunião já surgiu um impasse, pois o chefe do comitê da Coréia do Sul se referiu ao Líder da Coréia do Norte como Ditador, fato que fez os membros do Comitê do Norte fazerem menção de se
retirar.

- Ao se referirem ao nosso SUPREMO LÍDER, jamais o nominem ditador ou presidente, isso é inaceitável para nós.

O Chefe do Comitê da Coréia do Sul pediu, então, desculpas. Logo a seguir falou:

- Nosso Presidente, Moon Jae-in, sugeriu que no desfile usemos uma bandeira unificando, para os Jogos de Inverno, as duas Coréias.

O Chefe do Comitê do Norte pediu um intervalo e, depois de meia hora retornou, junto com os demais membros, à mesa de negociação.

- Nós concordamos com esse item, desde que um representante de cada país, desfile cada um com uma bandeira e, os demais atletas, com pequenas bandeiras com o mesmo símbolo das principais.

A Coréia do Sul prontamente concordou.

A Coréia do Norte expôs que durante o desfile os dois mandatários ficarão lado a lado, desde que o SUPREMO LÍDER, fique do lado esquerdo.

Os coreanos do sul, perguntaram:

- Para quem olha de frente ou por quem olha de trás?

Os coreanos do norte ficaram perplexos diante da pergunta e pediram um recesso. Depois de meia hora retornaram, dizendo:

- Sim! Para quem olha de frente, já que por trás jamais haverá alguém, a não ser, é claro, nosso grupo de segurança.

A Coréia do Sul concordou.

- Em quais modalidades a Coréia do Norte pretende enviar atletas?

Perguntou o Chefe da delegação da Coréia do Sul, Lee Hee-beom.

Os coreanos do norte pediram recesso para consultar seus alfarrábios.

E, depois de uma hora, voltaram com a resposta:

- Patinação artística, esqui alpino, esqui cross-country, hóquei feminino, tiro ao alvo, acionamento de foguetes e botão-de-mesa, para tanto enviaremos 550 atletas.

Agora quem ficou perplexo foi o comitê do sul, que logo informaram:

- As quatro primeiras modalidades fazem parte dos Jogos de Inverno, mas as três últimas não.

Extremamente contrariados os membros do Comitê do norte pediram novo recesso. Uma hora depois voltaram, informando:

- Daremos nossa resposta na próxima reunião.

Os coreanos do sul, por seu chefe do comitê, perguntaram:

- Vocês não tem autonomia para decidir algo tão simples?

Tanto o Chefe do comitê do norte, como os demais membros, ficaram perplexos diante da pergunta e pediram novo recesso.

Pacientemente os membros do sul aguardaram uma hora e meia, quando finalmente eles voltaram à mesa de negociação. Quem falou foi o Chefe do norte:

- O que vocês querem dizer com autonomia?

Agora a perplexidade passou para o lado do sul...

- Ora! Autonomia é o que nós temos enquanto Comitê...

- Como assim

Perguntou o Chefe do norte.

- Autonomia para decidir com independência, liberdade e autossuficiência os termos de nossa participação conjunta.

Os membros do Comitê do norte, ficaram pouco a vontade e decidiram pedir novo recesso. Ao voltarem, disseram:

Infelizmente nós não temos isso que vocês disseram, até porque o termo é totalmente desconhecido no nosso país. No, entanto, gostaríamos de sugerir mais um aspecto para os desfiles de abertura e encerramento...

- Pois, então, façam, antes de encerrarmos a reunião...

- Nosso SUPREMO LÍDER gostaria de incluir, nos desfiles, uma demonstração de força com a apresentação de foguetes e ogivas...

O Comitê do sul, já demonstrando irritação, rebateu:

- Isso não faz o mínimo sentido, já que os Jogos Olímpicos, quer sejam de inverno ou não, visam o congraçamento entre os povos pela paz, através das diversas modalidades esportivas.

Sob o olhar incrédulo dos representantes das duas Coréias, se propôs o encerramento dessa primeira reunião, antes, porém, os do sul perguntaram:

- Por quê vocês estão com as mãos enfaixadas?

- Por ter o orgulho de aplaudir constantemente nosso SUPREMO LÍDER!

E, o San foi aplaudido pelos companheiros de mateada, mas de forma moderada

Escrito por Saint Clair Nickelle, 22/01/2018 às 14h59 | sannickelle@gmail.com

Como viver em paz?

 São tantas bobagens que nos cercam, que nos induzem a pensar somente em desgraça, em parte pelo exagero dos noticiários, em parte por nossa avidez pela desgraça dos outros, que não sabemos mais como viver em paz.

No plano internacional, dois líderes atuais, King Jong Un e Donald Trump, brincam, como crianças mimadas, de destruir-se com suas ogivas nucleares, bastando para tanto apertar botões e, como brincadeira de videogame, arrasar a vida.

Para muita gente, como eu, que luta contra doenças quase incuráveis, a vida é o bem mais precioso, não uma brincadeira de mentes insanas.

Fico feliz quando recebo mensagens positivas, como a que vou reproduzir a seguir, enviada pela minha grande amiga budista, Silvana B. Scapini.

“A vida vai dar certo para mim quando eu tomar consciência...
de que um problema que está acontecendo “neste momento”
pode ser uma história “de muito tempo atrás”.
Não conte essa história outra vez!
Não fale do quanto sofreu,
Não fale sobre ele ou sobre ela,
a não ser que isso faça você se sentir melhor.
Não pronuncie uma única sílaba sobre a dor e sobre as perdas,
A não ser que tenha condições de se recuperar neste instante.
Pare com isso!
Pare de se agarrar ao passado, lembrando-se do quanto as coisas lhe fizeram mal,
A não ser que isso ajude no que você está fazendo agora.
Cada vez que você pensa naquilo,
Fala sobre aquilo, ou se lembra daquele tempo,
Traz a energia negativa do passado para o momento presente.
É claro que você precisa reconhecer como se sente
em relação a todas as experiências que já viveu.
Não deve, no entanto, ficar remoendo ou contando uma história
que faz você se sentir mal.
Fale do que aprendeu!
Conte como você se curou!
De como a força da vida em você superou o sofrimento.
Se examinar bem sua história,
verá que há muitas coisas que você pode usar para seguir adiante.
Quando, no entanto, você se prende a detalhes
Que só servem para reavivar sua dor,
É por que está contando a história de maneira errada.
Sim, você precisa ter consciência dos detalhes da sua vida
Para aceitar a sua parcela de responsabilidade.
Na verdade, cada vez que você conta sua história
_mesmo os detalhezinhos sórdidos
_para aprender com ela,
pode descobrir novos níveis
de compreensão e perdão.
Quando, no entanto, você remói uma história que lhe faz mal,
Pare de contá-la!
Hoje, eu me dedico a deixar para trás as velhas histórias
Que me fizeram mal
Para viver melhor com o que aprendi com elas.
Ótimo dia, contemple a sua vida,
Aprecie a sua vida.”
Autor: Lyanla Vanzant

Quando internalizamos as notícias ruins, acabamos falando delas, aceitando-as como naturais. Isso, no entanto, mina nossa capacidade de apreciar a chuva como necessária, não como desgraça...de apreciar as matas com seus matizes diversos...de olhar para o céu e admirar aquele azul único, inexistente no universo sem cor...enfim, de se dar tempo para sonhar e alimentar o desejo de viver em paz.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 09/01/2018 às 14h43 | sannickelle@gmail.com



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Saint Clair Nickelle

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.


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