Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

O meio é a mensagem

Depois que o whatsapp foi oficialmente instituído no Garden City, houve uma certa euforia mais pelo meio do que pelo conteúdo. A expressão "o meio é a mensagem", foi criada pelo sociólogo canadense Marshall McLuhan. Tal expressão surgiu a partir do momento em que McLuhan se propôs a analisar e explicar os fenômenos dos meios de comunicação e sua relação com a sociedade.

Quando o síndico,  o Administrador de Empresas Reinaldo Soares, proclamou o uso da tecnologia Whatsapp pelos condôminos, ficou decidido que era para ser usado para a segurança da comunidade, mas o que se viu foi uma verdadeira loucura:

Filisbina:

_ “ Pessoal precisamos ajudar um menino queimado. Na casa da família, o menino foi queimado por outro menino por acidente ou não, mas isso não vem ao caso, mas a história é veridica.”

_ “ Pessoal sei que vcs postam várias coisas não referentes ao Condomínio, então achei justo compartilhar o pedido de uma família que pede ajuda com comida e produtos de higiene. Assim como vcs pedem ajuda pros animais como casinha e comida …porque não ajudar o ser humano.

Diogo:

_” O que isso tem a ver com a segurança do Condomínio?”

Aldo, marido da Filisbina:

_ “A empresa que eu trabalho os caras que trabalham comigo são da Restinga e esse fato ocorreu sim na frente do Colégio. Se vcs não querem ajudar, estão duvidando, que se lixem.”

_ “ Sei que não é assunto de segurança, OK. Vai de cada um. A gente expôs o caso e quem quiser e se sentir com vontade que ajude como puder.”

Antônia:

_ “ Sim, é bem isso. Poderia ser alguma criança do Condomínio ou de qualquer lugar que a gente iria ajudar, porque isso é uma atitude de ser humano, coisa que tá faltando no mundo inteiro. Quem quiser ajudar ajude e quem não quiser simplesmente ignore e não questione.”

Celena:

_ “ Só peço que não julguem os que ajudam animais, pois eles não falam e alguns tem sido envenenados.”

Ariane:

_ “ As pessoas devem cuidar bem de pessoas e de animais…Simples assim.”

Sulamita:

_ “ Mas vocês conhecem a família do menino queimado, ou simplesmente viram no Face Book?”

Catarina:

_ “ Pode parecer duro, mas é a triste realidade…cada hora uma outra pessoa precisa de ajuda.”

Filisbina:

_ “Nossa! Obrigada! Dá pra perceber que hoje em dia pessoas ajudam bichos que também não são do nosso Condomínio, mas pessoas ficam fazendo pouco caso para ajudar um ser humano…Grande attitude.”

 

Sulamita:

_ “Mas eles não estão no nosso Condomínio, infelizmente. Não quero ser mal entendida, mas vocês tem condições de ajudar todo mundo?”

Filisbina:

_ “Solidariedade tá no sangue do brasileiro…Os imigrantes talvez venham morar aqui no Brasil para entender o que é essa valiosa atitude nossa: enxergar a necessidade do seu semelhante e buscar ampará-lo.”

Patrícia:

_ “Quanto aos imigrantes eu não sei. Eu preciso pagar muito para viver aqui…eu ajudo onde posso ajudar…mas, eu também tenho a coragem de me negar quando não tenho certeza da real necessidade. Eu não gosto de falsa humanidade.”

Salete:

_ “ Não é por nada não, mas que hospital é esse que está o menino? Não acho que essa postagem  seja verídica. Quando alguém postar alguma coisa sobre assuntos que não são do Garden, que seja feita de forma completa.”

_ “ Onde é a casa do menino?”

Filisbina:

_ “ Pessoal não vamos começar com mimi…quer ajudar ajuda e se não quer não ajuda, tá!”

Salete:

_ “ Falcatruas a gente experimenta todos os dias aqui, basta ver a política brasileira…”

Filisbina:

_ “ Chega de mimi, tenho mais o que fazer do que ficar dando explicação.”

Salete:

_ “ Não estou me negando a ajudar. Só que leio os jornais e constato que existem pessoas  que simplesmente compartilham essas solicitações, muitas delas enganosas, sem verificar a veracidade. Eu, até agora continuo acreditando que não seja verdadeira.”

_ “ E, por favor Filisbina, evita fazer comparativos com as boas ações de moradores do Garden com os cachorros que são largados no nosso Condomínio.”

Celeste:

_ “ Meu Deus! O que tem a ver uma coisa com a outra? Pessoas do bem ajudam a todos  seres indefesos , sem distinção.”

Salete:

_ “ Só pedi que o fato seja publicado com todas as informações.”

Filisbina:

_ “Vou tirar a postagem do menino porque percebi que vai virar assunto pro resto do dia…CHEGA!

Salete:

_ “ Isso aí! Beijo. Tchau.”

Filisbina:

_ “ SOCORRO! Podem falar do som alto e da velocidade dentro do Garden City, pelo amor de Deus! CHEGA.”

Reinaldo Soares:

_ “ Pessoal, quando eu instituí o Whatsapp como meio de comunicação rápido, foi visando a segurança de todos nós, não para criar polêmica, por favor moderem.”

Catarina:

_ “ E as doações, são para encaminhar para a casa da Filisbina?”

 Haja Deus!!!!

Escrito por Saint Clair Nickelle, 12/04/2016 às 14h39 | sannickelle@gmail.com

Chuva de Pedra

Transcorria o mês de outubro daquele remoto ano do século passado, era a primavera sulina e as árvores do Garden City estavam engalanadas para o desfile de beleza. Os verdes com suas nuances confundiam os olhos e as flores com seus matizes multicoloridos denotavam amores escondidos. Os pássaros apressavam-se para remontar os ninhos e depositar o resultado de seus amores intensos e sem censura. O zumbido dos insetos faziam as flores abrirem-se para receber o sêmen da polinização. Era uma festa da paixão da natureza, nem sempre compreendida e respeitada por nós humanos.

 A vidinha humana do Condomínio repetia, dia-a-dia, a natureza rotineira dos moradores, dos funcionários e das empregadas domésticas. Apenas as crianças faziam barulho de alegria, ocupando nas duas praças os balanços, escorregadores, trepa-trepas e gangorras.

O dia estava muito quente para a época do ano, mas não havia sinal de chuva. A previsão meteorológica, no entanto, previa mudança brusca de temperatura com chuva e ventos fortes no início da noite.

A manhã colorida e alegre deu início a tarde, depois do afluxo intenso de carros e colegiais que chegavam para o almoço. Repetia-se  a movimentação de refluxo dos carros que saíam e dos colegiais que estudavam a tarde.

A tarde transcorreu, também, colorida e alegre com as crianças novamente ocupando as pracinhas, muitas acompanhadas de suas babás e algumas mamães donas-de-casa.

Ao final da tarde, como fora previsto pelo Serviço de Meteorologia , nuvens pretas cobriam paulatinamente o colorido azul do céu. Um vento forte vindo do sudeste enxotavam as nuvens mais gordas e carregadas em direção ao Garden. As crianças puxadas por suas mães e babás faziam resistências para voltar para casa, mal sabiam do perigo que se avizinhava.

O Garden City fora edificado, como o próprio nome denota: no Aberta dos Morros, um corredor natural para ventos e chuvaradas e, nessa época ainda  não possuía qualquer barreira física do lado sudeste, onde mais tarde foi construído o Condomínio Green Carpet, que com suas casas e árvores passaram a oferecer uma excelente barreira.

Eu já estava em casa e me surpreendi com o ruído assustador que provinha do lado sudeste, parecia um avião supersônico que se aproximava como se estivesse caindo. Lembro-me de levar todos para o piso inferior da casa, sob a laje de entrepiso.

Aos poucos o ruído ensurdecedor foi chegando e nos envolveu junto com a suspensão da energia elétrica. Uma saraivada de pedras que mais pareciam balas de uma metralhadora enlouquecida batiam sem parar na casa. Encolhidos e abraçados só respiramos quando a chuva, que sempre chega depois do granizo, aliviou nossos assustados ouvidos.

Saímos, então, da zona protegida da casa e fomos ver o estrago.

Nossa perplexidade só dava lugar para exclamações:

- Meu Deus! O que foi isso?!?! Era o que mais se ouvia de nós e dos vizinhos. Nosso muro coberto de hera fora desnudado e restaram só as pedras de granito que o constituíam. A desolação era total.

 

As ruas do Condomínio viraram um emaranhado de galhos, folhas, flores e frutos que se espalhavam por tudo onde se olhasse . Algumas árvores ficaram literalmente peladas e envergonhadas pareciam pedir nossa angustiada complacência. Seus frutos, tão cuidadosamente gestados, jaziam ainda verdes sobre o asfalto e os gramados.

Todas as vidraças do lado sudeste foram quebradas, menos de algumas casas junto a praça da frente, porque ali era o limite do corredor do Aberta dos Morros.

Perplexos diante da força bruta da natureza fomos, aos poucos, nos retirando com as cabeças baixas, ainda lembrando da beleza que tivemos pela manhã.

A noite acordou os pesadelos e poucos conseguiram dormir, talvez imaginando que tudo não passara de um sonho ruim e, que pela manhã, encontraríamos todas as árvores com suas deslumbrantes roupagens de gala.

Mas, de fato o pesadelo era uma verdade tangível. Os mais apressados não conseguiam movimentar seus carros e estava difícil, também, de caminhar. Os funcionários do Garden já estavam recolhendo os entulhos, mas pelo volume levariam todo o dia.

Pelo noticiário ficamos sabendo que em quase todo o Bairro Ipanema a destruição foi imensa. Muitas casas destelhadas, placas de outdoor arrancadas, árvores retorcidas e entulho pelas ruas e avenidas. Recomendavam, inclusive, que não saíssemos de casa, até que a Prefeitura desobstruísse as vias.

Como não devíamos sair do Condomínio, fomos ajudar o síndico e os funcionários na limpeza.

Nossas conversas só comentavam o inusitado temporal, quantidade e tamanho das pedras de gelo que, alguns teimavam terem sido do tamanho de ovos de galinha e outros de laranja. Felizmente, não apareceu nenhum para dizer que eram do tamanho de abacates, porque então nem estaríamos vivos.

As histórias sobre quem  teve mais prejuízo culminaram com a casa do Dr. Alberto. A garagem da casa dele, como também servia de salão de festas, era totalmente envidraçada com vidros temperados, que se estilhaçaram com o bombardeio de granizo. O que preconizava que as pedras de gelo eram do tamanho de laranjas aproveitou e insistiu:

- Viram só como eu tinha razão.

- Vocês acham que vidro temperado quebra com qualquer pedrinha.

Diante daquela certeza não mais contestamos o sabichão.

Entre uma conversa e outra observamos que as crianças, que não ajudavam, se divertiam jogando frutas umas nas outras. Paramos para observar e concluir que diante da desgraça o melhor também era se divertir como elas.

Munidos de laranjas, limões e peras passamos a jogar uns nos outros, rindo toda a vez que acertávamos o inimigo. Até o síndico e os funcionários entraram na brincadeira.  E até o final da tarde, para surpresa, dos que nos observavam pelas janelas, parecíamos todos crianças.

A noite chegou mansa, bem diferente da anterior, e cansados fomos dormir .

 

Nunca mais tivemos um temporal como aquele, mas apenas sons altos para nos incomodar, mas isso já é outra história...

Escrito por Saint Clair Nickelle, 04/04/2016 às 14h50 | sannickelle@gmail.com

Envenenamento

 A questão dos “cachorros” no Condomínio, tanto animais como humanos, sempre foi tema preocupante das assembleias. Somente nos primórdios do Garden City tanto os cães como os humanos andavam soltos, afinal aqui era o paraíso como anunciavam os incorporadores. No entanto,  como Adão e Eva, abusaram da liberdade, comendo frutas proibidas por não estarem maduras, queimando lixo como selvagens, e permitindo também que seus animais de estimação fizessem xixi e cocô em qualquer lugar. Com esse comportamento a sujeira foi se acumulando e irritou até Deus, ou melhor o síndico que, apoiado pela meia dúzia de condôminos que frequentavam as assembleias, viesse a impor a lei e aplicasse multas aos infratores. Teve gente que precisou vender seu imóvel de tanta multa sofrida.

Depois então, que as regras passaram a ser minimamente cumpridas os cachorros, por imposição de seus donos, pareciam santos. Obedeciam sem reclamar e quando passeavam pela guia levavam consigo saquinhos plásticos para que seus donos juntassem suas fedidas necessidades e, quando estes esqueciam rosnavam sem parar. Muitos receberam até medalhas por isso.

Os humanos, por sua vez, com medo das multas obedeciam as regras e até maltratavam os cães fujões, já que essas penalidades eram aplicadas sem que houvesse qualquer possibilidade de apelação, coisa de primeiro mundo se vangloriava o síndico.

Como em todo primeiro mundo apareceram os fanáticos inimigos da natureza canina e felina, enfim pessoa ou pessoas, nunca se pode provar, que por terem viajado ao oriente médio  voltaram com soluções radicais. Foi um período de sexta-feira treze, onde muitos cães e gatos pereceram envenenados para choradeira de seus donos. A comoção era tanta com a perda de seus bichinhos de estimação, que nem o enterro da mãe do síndico pode desviar a atenção dos enlutados. O síndico, aliás, ficou muito desiludido do Condomínio que, naquela hora tão difícil para ele, não recebeu qualquer pêsames dos vizinhos. Depois desse fato ele vendeu o imóvel por uma bagatela.

Por algum tempo  as coisas se acalmaram e parecia que o algoz ou terrorista dos animais havia se conscientizado. Mas o oriente médio depois da desocupação do americanos no Iraque, passou a influenciar ainda mais os fanáticos dos telejornais e um novo caso no Garden City reacendeu a desolação com a raça humana.

Na rua central do Condomínio, ao cair da noite, um cãozinho preto estrebuchava sob efeito de veneno. As crianças que brincavam na pracinha correram apavoradas para suas casas. Algumas criadas e mães foram assistir o desfecho da maldade humana, mas não tomaram nenhuma iniciativa para salvar o pobre cão.

Felizmente, entre tantos que adoram assistir omissos qualquer acontecimento trágico, duas moças recém mudadas para a casa 52 acorreram e logo colocaram-no no carro. Tratava-se da Yurie e da Ariane. Levaram-no para o Veterinário mais próximo que, constatou tratar-se de envenenamento por chumbinho. Como bom profissional da saúde fez-lhe lavagem estomacal e os demais procedimentos para, sob aplausos das duas corajosas moças, salvar-lhe a vida.

 

Muito embora as fofoqueiras do Garden já haviam classificado as moradoras da casa52 como um casal homossexual, ainda assim foram cumprimentá-las, sob influência das crianças, pelo gesto de acudir e salvar o cãozinho. As crianças foram as mais entusiasmadas disputando quem deveria adotar o pretinho. Mas, a Ariane se adiantou e disse que já fizera promessa, caso o cão se salvasse o adotaria sob o nome de Faísca. Como a Yurie já era dona do Temake, ficaram ambas com seus novos amigos.

As duas moças, mais tarde, para descrédito das línguas de trapo, não eram um casal gay, pois ambas tinham namorados, o Fábio que namorava a Yurie e o Renato que namorava a Ariane.

Toda a vez que as duas saíam a passear com o Faísca e com o Temake eram cercadas pelas crianças que, na sua eterna sinceridade, as admiravam pelo salvamento. É claro que algumas mães enciumadas não ofereciam resistências às filhas, mas também, não demonstravam aquela satisfação das crianças.

O salvamento da Faísca, no entanto, ainda gerou muita polêmica, quando um condômino sugeriu fazer uma “vaca”, já que as despesas do Veterinário custaram às duas moradoras R$400,00.  O condômino utilizou o wattsapp para sensibilizar os demais, encarregando-se de fazer a coleta de quem quisesse colaborar.

Ele nunca imaginou receber tantas mensagens de apoio, mas também de críticas, onde alguns diziam:

- Tem gente neste Condomínio que não tem dinheiro para pagar a taxa condominial e ninguém faz “vaca” para acudi-lo. Sou contra. Ninguém mandou elas fazerem essa despesa logo para salvar um cachorro.

Outros alegaram que havia um vizinho precisando de remédios para doença grave e, também, ninguém fazia “vaca” para auxiliá-lo.

O condômino que teve a mais pura e inocente iniciativa, diante te tanto disparate, apenas confirmou:

- Eu vou dar R$ 50,00 e vocês que alegaram tanta coisa que se lixem. As moças merecem, afinal é uma questão de solidariedade para um gesto digno. 

Muitos colaboraram e a Yurie e a Ariane, que não faziam questão alguma de serem ressarcidas, agradeceram, mas fariam de novo se fosse necessário.

Depois da euforia pelo salvamento do Faísca as pessoas voltaram a se preocupar com o envenenamento e foram falar com o síndico, na ocasião o Luiz Paulo, delegado aposentado. O síndico ao tomar conhecimento das mensagens pelo wattsapp disse-lhes:

- Fiquem tranquilhos que eu já tenho um suspeito.

Os mais afoitos foram logo dizendo:

- Só pode ser aquele ermitão que mora na casa 77, ele é muito suspeito e, além disso, é muçulmano. O síndico ficou irritado e lhes disse para não tirar conclusões precipitadas, pois aqui, que eu saiba ninguém é agente do E. Islâmico.

Numa noite, o delegado e mais policiais bateram na casa 76 e prenderam o Pepe, irmão do Joanim, que segundo a polícia era procurado pela Interpol, por pertencer a máfia italiana e possuir várias acusações por matar cães e gatos.

 

 A paz voltou a reinar no Garden até ser quebrada por uma chuva de granizo nunca vista, mas essa já é outra história... 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 28/03/2016 às 15h10 | sannickelle@gmail.com

Páscoa

“Páscoa é uma importante celebração da igreja cristã em homenagem a ressurreição de Jesus Cristo.

 

De acordo com o calendário cristão, a Páscoa consiste no encerramento da chamada Semana Santa. As comemorações referentes à Páscoa começam na "Sexta Feira Santa", onde é celebrada a crucificação de Jesus, terminando no "Domingo de Páscoa", que celebra a sua ressurreição e o primeiro aparecimento aos seus discípulos.

A Semana Santa é a última semana da Quaresma, período em que os fiéis cristãos devem permanecer por 40 dias em constante jejum e penitências.

A Páscoa é comemorada em vários países, principalmente aqueles com fortes influências do cristianismo. Os espanhóis chamam a data de Pascua, os italianos de Pasqua e os franceses de Pâques.

Etimologicamente, o termo Páscoa se originou a partir do latim Pascha, que por sua vez, deriva do hebraico Pessach / Pesach, que significa “a passagem”.”

O síndico do Garden City, por ocasião da Páscoa, era o seu Abraão Salimen, um sujeito megalômano, que tinha a única casa do Condomínio com três andares e piscina no terraço de cobertura, pois dizia não querer que olhos cobiçosos ficassem invadindo sua privacidade. Coube a ele, como autoridade máxima da comunidade do Garden, definir a decoração da Páscoa daquele ano. Como ele vivia do comércio, definiu que se espalharia coelhos, vivos e bonecos,  por todo o Condomínio.

Os moradores receberam instruções para colocar os bonecos, de todos os tamanhos, pelas fachadas e jardins das casas.

Na casa dele, quando a decoração ficou pronta, havia coelhos até na platibanda do terraço. No jardim, havia coelhos gigantes postados nos canteiros, nas árvores, espiando pelas janelas. Na entrada da casa, postados lado a lado, dezenas de coelhos gigantes pareciam reverenciar o dono da casa.

A profusão de coelhos, por toda  área do Garden City, inclusive nas praças e          na área de entrada junto a portaria, foi questionada até pelo padre Lucas da Igreja de Santa Luzia do Bairro. Dizia o representante da Igreja Católica, que aquela única mensagem não condizia com o espírito cristão, pois acentuava um aspecto secundário da celebração. Ele, inclusive emitiu um comunicado, por escrito, que foi posto na portaria do Garden, para que os cristãos daquela comunidade refletissem. Escreveu ele:

“ Os Símbolos da Páscoa são representações que fazem parte dos rituais da Semana Santa.

A Páscoa é uma festividade importante para os cristãos, pois celebra a morte e ressurreição de Jesus Cristo, um episódio bíblico interpretado como a passagem para novos tempos e novas esperanças para a humanidade.

A Semana Santa começa com o Domingo de Ramos.

A Sexta Feira é o dia da celebração da morte de Jesus na Cruz. O Sábado de Aleluia é o dia da celebração da missa da meia noite, na passagem para o Domingo da Ressurreição.

Durante a Semana Santa, vários símbolos fazem parte do ritual das comemorações, entre eles:

Os ramos de palmeira

O Domingo de Ramos, que lembra a entrada de Jesus em Jerusalém, ocasião em que as pessoas cobriam a estrada com folhas de palmeira, para comemorar sua chegada.

Cordeiro

Este é um dos símbolos mais antigos da Páscoa, lembrando a aliança que Deus teria feito com o povo judeu no Antigo Testamento.

Naquela época, a Páscoa era celebrada com o sacrifício de um cordeiro.

Para os cristãos, Jesus Cristo é o “cordeiro de Deus que tirou os pecados do mundo”.

Círio Pascal

O Círio Pascal é uma grande vela, decorada com as letras gregas alfa e ômega, que significam “início” e “fim”, respectivamente, e usada durante as missas da Semana Santa.

Durante a Vigília Pascal é inserido na vela os cinco pontos das chagas de Cristo na cruz.

É acesa no Sábado de Aleluia e sua Luz representa a Ressurreição de Cristo.

O Peixe

O peixe é um símbolo trazido dos apóstolos que eram pescadores.

É um símbolo de vida, usado pelos primeiros cristãos.

Faz parte do ritual da Semana Santa comer peixe na Sexta Feira Santa, para lembrar o ritual dos 40 dias de jejum de carne, seguidos pelos cristãos durante a Quaresma.

Ovo de Páscoa

Por representar o nascimento e a vida, presentear com ovos era um costume antigo entre os povos do Mediterrâneo.

Durante as festividades para comemorar o início da primavera e a época de plantio, os ovos eram cozidos, pintados e presenteados, para representar a fertilidade e a vida.

O costume passou a ser seguido durante as festividades dos cristãos, onde eram pintados com imagens de Jesus e Maria, representando simbolicamente o nascimento do Messias.

Muitas culturas mantêm até hoje esse costume. No mundo moderno, o ovo fabricado com chocolate virou uma tradição de presente no Domingo de Páscoa.

Coelho de Páscoa

O coelho de Páscoa tornou-se o símbolo da fertilidade e da vida, devido a particularidade deste animal de se reproduzir em grandes ninhadas.

Está relacionado com a Páscoa por representar a esperança de vida na Ressurreição de Jesus Cristo.”

Outros representantes de igrejas cristãs do Bairro, como o Pastor Lucas Soares, também se solidarizaram com o padre Lucas, pois entendiam a importância da Semana Santa para a reflexão cristã, especialmente sobre a vida diante da maximização das banalidades, da pouca solidariedade entre as pessoas e das questões políticas e ambientais que afligem todos nós.   

Soube-se, pela rádio corredor, que o Síndico não gostou da intromissão do padre e dos pastores e que, mesmo assim, continuaria com a decoração, tenham eles gostado ou não.

A solidariedade, gesto que caracteriza um compromisso entre as pessoas, nem sempre é bem entendido, mas isso já é outra história...

Escrito por Saint Clair Nickelle, 22/03/2016 às 12h17 | sannickelle@gmail.com

O sonho

Antes de dormir eu tinha o hábito de ficar lendo o facebook. Numa certa noite eu tive um sonho muito estranho. O síndico do Garden City era um tal de Roubalino Larr Hápio, petista roxo, que através de um amigo influente, convidou o Ex Presidente Lula para uma palestra, onde seria abordado o tema:

COMO CHEGAR E SE MANTER NO PODER.

No dia marcado, 13 de março, uma multidão reuniu-se no caramanchão da Praça Central para assistir o ilustre conferencista. No palco improvisado, lá estava, todo enganalado, o seu Roubalino, com a esposa Catilina e membros da Diretoria do Garden City, que assim anunciou:

- Senhoras e Senhores, moradores deste Condomínio, é com muito orgulho e imensa satisfação que eu anuncio a presença ilustre de nosso convidado, Lula da Silva que, sob o patrocínio da maior empresa de engenharia do Brasil, Odebrecht S.A., fará uma palestra aos moradores e convidados especiais sobre o tema Como Chegar e se Manter no Poder. E, sem mais delongas, eu chamo a frente, deste imenso público, o Sr. Lula.

Sob intenso aplausos, o ex Presidente Lula, subiu ao palco e assim falou:

- Companheiru e companheira aqui presente, demais convidadu, estou muito feliz por trazer a voceis a minha inesgotável experiência como sindicalista, político e líder desse país. Não foi fácil chegar onde cheguei, estudando pouco e comendo mal, mas como eu cheguei muitos de voceis poderão chegar, basta passar pelo que eu passei. A vida das pessoa nem sempre é igual, alguns nascem em berço de ouro ou prata, e pessoas como eu nasce em berço de bronze, tirando o último lugar. Nada é fácil, quando o ronco da barriga fala tão alto que acorda até os cachorro. Mas, eu venci a fome e a miséria, chegando ao pódio mais alto da política. Não foi fácil não. Precisei prometer mundos e fundos para a classe dominante deste país. Ainda me alembro de uma reunião na Federação das Indústrias de São Paulo, onde me perguntaram se eu, caso viesse a ser Presidente, se taxaria as grandes riquezas. Na hora até fiquei confuso, porque eu nem tinha pensado nisso, mas o Zé, ao meu lado, me assoprou:

- Diz que não, porque o pobre depende de emprego e ele só existe se os ricos continuarem ainda mais ricos.

- Me saí bem daquela reunião na FIESP, graças ao assopro do Zé que até hoje me dói o ouvido.

Nesta altura do sonho eu me senti nauseado, queria sair dali, mas toda vez que tentava levantar, os meus vizinhos me puxavam pelos ombros e diziam:

- Que coisa fantástica que o seu Roubalino está nos propiciando, parece sonho.

Depois o palestrante continuou:

- Depois enfrentei a turma do Stédile, que desde o descubrimentu do Brasil, sonha em ter terra. Eu sempre disse para os membru, dus “sem terra”, que a terra é de todos, mas só alguns, dentre tantos, é que possui. Eu lhes expliquei que sempre fui contra, desde que o Coronel Severino Castanheira expulsou minha vó e meu avô do sítio deles, só purque eles num plantava nada. Desde lá eu fiquei cum ódio dessa classe dominadora, afinal o Coronel também nunca plantou nadinha e mesmo assim era dono daquele mundaréu de terra.

Os “sem terra”, mesmo no meu governo, continuaram sem terra, purque não é fácil desalojar essa gente, enraizada desde as capitanias hereditárias.

- Depois eu enfrentei os “sem teto”, que desde a libertação dos escravos, tem procurado uma casinha pra ser sua e não consegue. Fica a vida toda pagando aluguel e quando morre não deixa nada pra seus filho. Isso sempre me revoltou muito. A casa da minha mãe era alugada e, todo fim de mês, era a aquela churumela, ou se pagava o aluguel ou se pagava a venda do seu Nivaldo.

- Então, nós criamu o MINHA CASA MINHA VIDA, para que ninguém mais passasse pelo que eu passei. Mas, até hoje tem gente que não entende, que pagar a prestação da Caixa, não é a mesma coisa que pagar aluguel, pois quando o dono morre a casa fica pros filho. Eles dizem que o aluguel, as vezes, é mais barato que a prestação e que não sobra dinheiro pra comida. Vejam, que gente mal agradecida, também querem casa com dois quartu, sala e cozinha. Eu quando era criança pequena morava numa casa de uma cômudu só e não reclamava. Agora, ficaram exigente, o casal num quarto e os filho num outro, coisa de gente rica, tenham a santa paciência sô!

- Depois tive que enfrentar os meus cumpanheiru do Partido, todos queriam cargo no governo. Fui obrigado a criar vários ministérios, tudo pra agradar os militantes. Foi um dos momentos mais difícil do meu governo. Onde colocar a cumpanheirada toda? Tive que criar auxiliar do auxiliar, ajudante de ajudante e assessor de assessor, subchefe de chefe, até inchar tanto a folha de pagamento que eu precisei ressuscitar a CPMF, que eu sempre fui contra quando estava na oposição.

- Quando, pur fim, eu tinha acomodado tudu mundo, terminou meu mandato. Aí eu fui obrigado a colocar a Dilma, que não tinha experiência política nenhuma, mas era formada em economia, coisa de gente bem que passa a maior parte da vida estudando, mas de política não sabe nada.

- Agora que eu tava preparando minha candidatura para 2018, vem essa turma do Moro dizer que eu roubei coisas que me presentearam, como o Sítio de Atibaia e o tríplex de Guarujá, mais aquelas coisinhas do Palácio da Alvorada. Nada é meu, foi só emprestadu para me agradar, já que ajudei tanto estas empresas que tavam com máquinas paradas e precisando arrumá uns contratu milionários, por isso fiz 12 estádios prá copa e as Olimpíada.

- Eu fui o melhor e mais honesto presidente que este país já teve, basta vocês compará. Ter uns agradinhos aqui e lá é normal, mas isto não caracteriza desonestidade. São presentes de governantes, empresários e também de políticos que satisfeitu com minha brilhante atuação, resolveram me agradar. Afinal, não podem me culpar por ser um pobre cum capacidade muito além destes riquinhos incompetentes.

- Não basta ir a escola, estudá qui nem condenadu, e não te experiência de vida dura, suada, cum fome, pois foi assim que eu cresci, mas me orgulho disso. Agora, que eu fui presidente, voceis não vão querer que meus filho passe pelo que eu passei. Qualquer um que podi dá uma mãozinha, não dá? Ou voceis vão negar que filho não merece...vão?

- Olha pessoal, eu já falei bastante e, fim de tarde merece uma geladinha, né?

- Agradeço o convite deste grande cumpanheiru petista, Roubalino e sua esposa Catilina, que me oportunizou falar de forma sincera com a militância deste belíssimo condomínio, tenha todos um ótimo fim de dia.

Consegui me desvenciliar dos vizinhos inoportunos, acordei com náuseas e corri para o banheiro. Vomitei, pasmem, frutos do mar. E eu, só tinha tomada chá com bolachas. 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 18/03/2016 às 13h52 | sannickelle@gmail.com

Irmão Gêmeo

De todas as paisagens do Condomínio a mais expressiva era, sem dúvida, as extremosas quando floridas.  Extremosa ou resedá, arvore pequena de altura até 5,0 metros. É uma árvore que pode ser usada na arborização de ruas, que era o nosso caso.  Ao longo da via principal do Garden City elas, na época da floração, formavam uma alameda de cores vibrantes, passando do branco ao rosa e ao vermelho 

Toda essa beleza, no entanto, não seria capaz de mudar alguns ânimos, nem a rigidez de alguns síndicos. O Seu Gustavo, o mesmo velho arrogante que fora surrado pela turba enfurecida por ocasião da visita fictícia do Fellini, enquanto síndico, implantou algumas regras tidas como as mais rígidas no uso da portaria, das quadras de esporte, da limpeza dos jardins das casas e da deposição de lixo na lixeira única.

A vida, as vezes, prega peças até para os mais exigentes. Talvez como forma de dizer:

“Errar é humano”.

Tendo comido um sushi no almoço para festejar o aniversário de um colega de serviço, seu Gustavo não esperava dar-lhe uma tremenda dor de barriga, ainda mais na fila da lotação Guarujá que, no início da noite, era super concorrida. Pensou então:

- ”Eu não vou perder meu lugar na fila, vou aguentar até chegar no Garden”.

Embarcou e foi dizendo sem parar:

- Vai ter que dar…vai ter que dar…

Disse tantas vezes que o passageiro do seu lado, perguntou:

- Humm? Que foi que disse? É do jogo da mega sena? 

- Não…Nada não…

Sorte do Seu Gustavo que em lotação só se viaja sentado, pois é possível calcar a bunda no assento e se segurar com força. Foi o que fez, mas a viagem que normalmente leva 20 min durou uma eternidade.

Felizmente chegou na sua parada. Apertou a campainha, levantou-se e caminhou como se fosse um bêbado, como diria o Chico Buarque.

Chegando a Portaria foi logo anunciando:

- Deixe-me entrar preciso usar o banheiro.

O Porteiro, reconhecendo o ex-síndico, foi categórico:

- Seu Gustavo foi o Senhor mesmo que proibiu que os condôminos entrassem na Portaria, portanto não posso abrir exceção.

- Mas é uma questão de vida ou morte, meu rapaz.

- É, mas ordens são ordens.

Suando frio, seu Gustavo foi em direção a Praça da frente que, neste horário estava vazia, mas a iluminação não lhe permitia nenhum lugar sem que fosse visto. Só lhe restava a quadra de futebol sete. Cruzando as pernas  abriu o portão e foi logo arriando as calças para disparar uma enxurrada de lama fedida.

 

Estava quase terminando quando, para sua surpresa, as

luzes da quadra se acenderam. Eram dois times prontos para bater aquela bolinha. O primeiro que entrou foi logo dizendo:

- Seu Gustavo, pelo amor de Deus o que é isso?

- Desculpe, mas eu não sou o Gustavo, sou o Adroaldo, irmão gêmeo dele. Eu vim fazer-lhe uma surpresa e fui surpreendido por uma tremenda dor de barriga, mas vocês fiquem tranquilhos que eu vou até a casa dele e trago uma pá de lixo para remover a….

- Tudo bem, a gente espera, seu…seu…

- É Adroaldo.

O vexado Gustavo, ou melhor Adroaldo, puxou as calças e saiu da quadra.

Chegou em casa e foi entrando de sopetão. Passou pela sala e nem viu que tinha visitas, quando dona Olga, sua esposa, lhe disse:

- Meu bem, olha só quem veio nos visitar, o Hortêncio e a Rosa, nossos vizinhos lá da Sebastião Leão.

Humm, hein, quem?

- Pais da Vanessa…

- Ah sim! Me desculpem mas eu já volto…

Gustavo saiu da sala mais encabulado que escolar flagrado colando…e mais sujo que carvoeiro depois do expediente. Ainda apavorado, passou no banheiro de serviço para uma limpezinha preliminar, Quando dona Olga bateu na porta e disse-lhe:

- Gustavo, tem dois times de futebol na porta da frente, querendo falar com um tal de Adroaldo, que eles afirmam que é seu irmão gêmeo.

- Hein…Humm, dá um tempo Olga que eu resolvo isso, fica lá com as visitas. Pegou a pá de lixo e saiu pela lateral da casa.

- Oi rapazes, já falei com o Gustavo e ele me emprestou a pá de lixo, vamos lá…

Lá chegando foi logo recolhendo aquela lama fedida, tal qual o desastre de Mariana em Minas Gerais.

- Tudo bem rapazes, agora está limpo, desculpe o incômodo, mas dor de barriga é difícil de controlar, né?

Estava dobrando a esquina do seu acesso quando vislumbrou que o Leo e a Carini, seus inamistosos vizinhos de frente, o encontrariam com aquele conteúdo fedido nas mãos. Não titubeou, jogou a lama no jardim da casa da esquina, não havia outro jeito. A sorte, no entanto, nem sempre está do nosso lado…acertou em cheio o gato  dos Pereiras que, apavorado e sujo, entrou correndo sala a dentro. Foi uma explosão de gritos de horror, saindo avós, filhos e netos exclamando:

- Que cheiro horrível, infestou a casa toda.

Na frente da casa encontraram o Adroaldo ou melhor o Gustavo, que ainda segurava a arma do crime…

 

A armação da fogueira estava pronta para ser acesa  as 21 horas, seria a primeira FESTA JUNINA do Garden City, mas isso já é outra história…

Escrito por Saint Clair Nickelle, 15/03/2016 às 09h54 | sannickelle@gmail.com



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Saint Clair Nickelle

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.














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Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

O meio é a mensagem

Depois que o whatsapp foi oficialmente instituído no Garden City, houve uma certa euforia mais pelo meio do que pelo conteúdo. A expressão "o meio é a mensagem", foi criada pelo sociólogo canadense Marshall McLuhan. Tal expressão surgiu a partir do momento em que McLuhan se propôs a analisar e explicar os fenômenos dos meios de comunicação e sua relação com a sociedade.

Quando o síndico,  o Administrador de Empresas Reinaldo Soares, proclamou o uso da tecnologia Whatsapp pelos condôminos, ficou decidido que era para ser usado para a segurança da comunidade, mas o que se viu foi uma verdadeira loucura:

Filisbina:

_ “ Pessoal precisamos ajudar um menino queimado. Na casa da família, o menino foi queimado por outro menino por acidente ou não, mas isso não vem ao caso, mas a história é veridica.”

_ “ Pessoal sei que vcs postam várias coisas não referentes ao Condomínio, então achei justo compartilhar o pedido de uma família que pede ajuda com comida e produtos de higiene. Assim como vcs pedem ajuda pros animais como casinha e comida …porque não ajudar o ser humano.

Diogo:

_” O que isso tem a ver com a segurança do Condomínio?”

Aldo, marido da Filisbina:

_ “A empresa que eu trabalho os caras que trabalham comigo são da Restinga e esse fato ocorreu sim na frente do Colégio. Se vcs não querem ajudar, estão duvidando, que se lixem.”

_ “ Sei que não é assunto de segurança, OK. Vai de cada um. A gente expôs o caso e quem quiser e se sentir com vontade que ajude como puder.”

Antônia:

_ “ Sim, é bem isso. Poderia ser alguma criança do Condomínio ou de qualquer lugar que a gente iria ajudar, porque isso é uma atitude de ser humano, coisa que tá faltando no mundo inteiro. Quem quiser ajudar ajude e quem não quiser simplesmente ignore e não questione.”

Celena:

_ “ Só peço que não julguem os que ajudam animais, pois eles não falam e alguns tem sido envenenados.”

Ariane:

_ “ As pessoas devem cuidar bem de pessoas e de animais…Simples assim.”

Sulamita:

_ “ Mas vocês conhecem a família do menino queimado, ou simplesmente viram no Face Book?”

Catarina:

_ “ Pode parecer duro, mas é a triste realidade…cada hora uma outra pessoa precisa de ajuda.”

Filisbina:

_ “Nossa! Obrigada! Dá pra perceber que hoje em dia pessoas ajudam bichos que também não são do nosso Condomínio, mas pessoas ficam fazendo pouco caso para ajudar um ser humano…Grande attitude.”

 

Sulamita:

_ “Mas eles não estão no nosso Condomínio, infelizmente. Não quero ser mal entendida, mas vocês tem condições de ajudar todo mundo?”

Filisbina:

_ “Solidariedade tá no sangue do brasileiro…Os imigrantes talvez venham morar aqui no Brasil para entender o que é essa valiosa atitude nossa: enxergar a necessidade do seu semelhante e buscar ampará-lo.”

Patrícia:

_ “Quanto aos imigrantes eu não sei. Eu preciso pagar muito para viver aqui…eu ajudo onde posso ajudar…mas, eu também tenho a coragem de me negar quando não tenho certeza da real necessidade. Eu não gosto de falsa humanidade.”

Salete:

_ “ Não é por nada não, mas que hospital é esse que está o menino? Não acho que essa postagem  seja verídica. Quando alguém postar alguma coisa sobre assuntos que não são do Garden, que seja feita de forma completa.”

_ “ Onde é a casa do menino?”

Filisbina:

_ “ Pessoal não vamos começar com mimi…quer ajudar ajuda e se não quer não ajuda, tá!”

Salete:

_ “ Falcatruas a gente experimenta todos os dias aqui, basta ver a política brasileira…”

Filisbina:

_ “ Chega de mimi, tenho mais o que fazer do que ficar dando explicação.”

Salete:

_ “ Não estou me negando a ajudar. Só que leio os jornais e constato que existem pessoas  que simplesmente compartilham essas solicitações, muitas delas enganosas, sem verificar a veracidade. Eu, até agora continuo acreditando que não seja verdadeira.”

_ “ E, por favor Filisbina, evita fazer comparativos com as boas ações de moradores do Garden com os cachorros que são largados no nosso Condomínio.”

Celeste:

_ “ Meu Deus! O que tem a ver uma coisa com a outra? Pessoas do bem ajudam a todos  seres indefesos , sem distinção.”

Salete:

_ “ Só pedi que o fato seja publicado com todas as informações.”

Filisbina:

_ “Vou tirar a postagem do menino porque percebi que vai virar assunto pro resto do dia…CHEGA!

Salete:

_ “ Isso aí! Beijo. Tchau.”

Filisbina:

_ “ SOCORRO! Podem falar do som alto e da velocidade dentro do Garden City, pelo amor de Deus! CHEGA.”

Reinaldo Soares:

_ “ Pessoal, quando eu instituí o Whatsapp como meio de comunicação rápido, foi visando a segurança de todos nós, não para criar polêmica, por favor moderem.”

Catarina:

_ “ E as doações, são para encaminhar para a casa da Filisbina?”

 Haja Deus!!!!

Escrito por Saint Clair Nickelle, 12/04/2016 às 14h39 | sannickelle@gmail.com

Chuva de Pedra

Transcorria o mês de outubro daquele remoto ano do século passado, era a primavera sulina e as árvores do Garden City estavam engalanadas para o desfile de beleza. Os verdes com suas nuances confundiam os olhos e as flores com seus matizes multicoloridos denotavam amores escondidos. Os pássaros apressavam-se para remontar os ninhos e depositar o resultado de seus amores intensos e sem censura. O zumbido dos insetos faziam as flores abrirem-se para receber o sêmen da polinização. Era uma festa da paixão da natureza, nem sempre compreendida e respeitada por nós humanos.

 A vidinha humana do Condomínio repetia, dia-a-dia, a natureza rotineira dos moradores, dos funcionários e das empregadas domésticas. Apenas as crianças faziam barulho de alegria, ocupando nas duas praças os balanços, escorregadores, trepa-trepas e gangorras.

O dia estava muito quente para a época do ano, mas não havia sinal de chuva. A previsão meteorológica, no entanto, previa mudança brusca de temperatura com chuva e ventos fortes no início da noite.

A manhã colorida e alegre deu início a tarde, depois do afluxo intenso de carros e colegiais que chegavam para o almoço. Repetia-se  a movimentação de refluxo dos carros que saíam e dos colegiais que estudavam a tarde.

A tarde transcorreu, também, colorida e alegre com as crianças novamente ocupando as pracinhas, muitas acompanhadas de suas babás e algumas mamães donas-de-casa.

Ao final da tarde, como fora previsto pelo Serviço de Meteorologia , nuvens pretas cobriam paulatinamente o colorido azul do céu. Um vento forte vindo do sudeste enxotavam as nuvens mais gordas e carregadas em direção ao Garden. As crianças puxadas por suas mães e babás faziam resistências para voltar para casa, mal sabiam do perigo que se avizinhava.

O Garden City fora edificado, como o próprio nome denota: no Aberta dos Morros, um corredor natural para ventos e chuvaradas e, nessa época ainda  não possuía qualquer barreira física do lado sudeste, onde mais tarde foi construído o Condomínio Green Carpet, que com suas casas e árvores passaram a oferecer uma excelente barreira.

Eu já estava em casa e me surpreendi com o ruído assustador que provinha do lado sudeste, parecia um avião supersônico que se aproximava como se estivesse caindo. Lembro-me de levar todos para o piso inferior da casa, sob a laje de entrepiso.

Aos poucos o ruído ensurdecedor foi chegando e nos envolveu junto com a suspensão da energia elétrica. Uma saraivada de pedras que mais pareciam balas de uma metralhadora enlouquecida batiam sem parar na casa. Encolhidos e abraçados só respiramos quando a chuva, que sempre chega depois do granizo, aliviou nossos assustados ouvidos.

Saímos, então, da zona protegida da casa e fomos ver o estrago.

Nossa perplexidade só dava lugar para exclamações:

- Meu Deus! O que foi isso?!?! Era o que mais se ouvia de nós e dos vizinhos. Nosso muro coberto de hera fora desnudado e restaram só as pedras de granito que o constituíam. A desolação era total.

 

As ruas do Condomínio viraram um emaranhado de galhos, folhas, flores e frutos que se espalhavam por tudo onde se olhasse . Algumas árvores ficaram literalmente peladas e envergonhadas pareciam pedir nossa angustiada complacência. Seus frutos, tão cuidadosamente gestados, jaziam ainda verdes sobre o asfalto e os gramados.

Todas as vidraças do lado sudeste foram quebradas, menos de algumas casas junto a praça da frente, porque ali era o limite do corredor do Aberta dos Morros.

Perplexos diante da força bruta da natureza fomos, aos poucos, nos retirando com as cabeças baixas, ainda lembrando da beleza que tivemos pela manhã.

A noite acordou os pesadelos e poucos conseguiram dormir, talvez imaginando que tudo não passara de um sonho ruim e, que pela manhã, encontraríamos todas as árvores com suas deslumbrantes roupagens de gala.

Mas, de fato o pesadelo era uma verdade tangível. Os mais apressados não conseguiam movimentar seus carros e estava difícil, também, de caminhar. Os funcionários do Garden já estavam recolhendo os entulhos, mas pelo volume levariam todo o dia.

Pelo noticiário ficamos sabendo que em quase todo o Bairro Ipanema a destruição foi imensa. Muitas casas destelhadas, placas de outdoor arrancadas, árvores retorcidas e entulho pelas ruas e avenidas. Recomendavam, inclusive, que não saíssemos de casa, até que a Prefeitura desobstruísse as vias.

Como não devíamos sair do Condomínio, fomos ajudar o síndico e os funcionários na limpeza.

Nossas conversas só comentavam o inusitado temporal, quantidade e tamanho das pedras de gelo que, alguns teimavam terem sido do tamanho de ovos de galinha e outros de laranja. Felizmente, não apareceu nenhum para dizer que eram do tamanho de abacates, porque então nem estaríamos vivos.

As histórias sobre quem  teve mais prejuízo culminaram com a casa do Dr. Alberto. A garagem da casa dele, como também servia de salão de festas, era totalmente envidraçada com vidros temperados, que se estilhaçaram com o bombardeio de granizo. O que preconizava que as pedras de gelo eram do tamanho de laranjas aproveitou e insistiu:

- Viram só como eu tinha razão.

- Vocês acham que vidro temperado quebra com qualquer pedrinha.

Diante daquela certeza não mais contestamos o sabichão.

Entre uma conversa e outra observamos que as crianças, que não ajudavam, se divertiam jogando frutas umas nas outras. Paramos para observar e concluir que diante da desgraça o melhor também era se divertir como elas.

Munidos de laranjas, limões e peras passamos a jogar uns nos outros, rindo toda a vez que acertávamos o inimigo. Até o síndico e os funcionários entraram na brincadeira.  E até o final da tarde, para surpresa, dos que nos observavam pelas janelas, parecíamos todos crianças.

A noite chegou mansa, bem diferente da anterior, e cansados fomos dormir .

 

Nunca mais tivemos um temporal como aquele, mas apenas sons altos para nos incomodar, mas isso já é outra história...

Escrito por Saint Clair Nickelle, 04/04/2016 às 14h50 | sannickelle@gmail.com

Envenenamento

 A questão dos “cachorros” no Condomínio, tanto animais como humanos, sempre foi tema preocupante das assembleias. Somente nos primórdios do Garden City tanto os cães como os humanos andavam soltos, afinal aqui era o paraíso como anunciavam os incorporadores. No entanto,  como Adão e Eva, abusaram da liberdade, comendo frutas proibidas por não estarem maduras, queimando lixo como selvagens, e permitindo também que seus animais de estimação fizessem xixi e cocô em qualquer lugar. Com esse comportamento a sujeira foi se acumulando e irritou até Deus, ou melhor o síndico que, apoiado pela meia dúzia de condôminos que frequentavam as assembleias, viesse a impor a lei e aplicasse multas aos infratores. Teve gente que precisou vender seu imóvel de tanta multa sofrida.

Depois então, que as regras passaram a ser minimamente cumpridas os cachorros, por imposição de seus donos, pareciam santos. Obedeciam sem reclamar e quando passeavam pela guia levavam consigo saquinhos plásticos para que seus donos juntassem suas fedidas necessidades e, quando estes esqueciam rosnavam sem parar. Muitos receberam até medalhas por isso.

Os humanos, por sua vez, com medo das multas obedeciam as regras e até maltratavam os cães fujões, já que essas penalidades eram aplicadas sem que houvesse qualquer possibilidade de apelação, coisa de primeiro mundo se vangloriava o síndico.

Como em todo primeiro mundo apareceram os fanáticos inimigos da natureza canina e felina, enfim pessoa ou pessoas, nunca se pode provar, que por terem viajado ao oriente médio  voltaram com soluções radicais. Foi um período de sexta-feira treze, onde muitos cães e gatos pereceram envenenados para choradeira de seus donos. A comoção era tanta com a perda de seus bichinhos de estimação, que nem o enterro da mãe do síndico pode desviar a atenção dos enlutados. O síndico, aliás, ficou muito desiludido do Condomínio que, naquela hora tão difícil para ele, não recebeu qualquer pêsames dos vizinhos. Depois desse fato ele vendeu o imóvel por uma bagatela.

Por algum tempo  as coisas se acalmaram e parecia que o algoz ou terrorista dos animais havia se conscientizado. Mas o oriente médio depois da desocupação do americanos no Iraque, passou a influenciar ainda mais os fanáticos dos telejornais e um novo caso no Garden City reacendeu a desolação com a raça humana.

Na rua central do Condomínio, ao cair da noite, um cãozinho preto estrebuchava sob efeito de veneno. As crianças que brincavam na pracinha correram apavoradas para suas casas. Algumas criadas e mães foram assistir o desfecho da maldade humana, mas não tomaram nenhuma iniciativa para salvar o pobre cão.

Felizmente, entre tantos que adoram assistir omissos qualquer acontecimento trágico, duas moças recém mudadas para a casa 52 acorreram e logo colocaram-no no carro. Tratava-se da Yurie e da Ariane. Levaram-no para o Veterinário mais próximo que, constatou tratar-se de envenenamento por chumbinho. Como bom profissional da saúde fez-lhe lavagem estomacal e os demais procedimentos para, sob aplausos das duas corajosas moças, salvar-lhe a vida.

 

Muito embora as fofoqueiras do Garden já haviam classificado as moradoras da casa52 como um casal homossexual, ainda assim foram cumprimentá-las, sob influência das crianças, pelo gesto de acudir e salvar o cãozinho. As crianças foram as mais entusiasmadas disputando quem deveria adotar o pretinho. Mas, a Ariane se adiantou e disse que já fizera promessa, caso o cão se salvasse o adotaria sob o nome de Faísca. Como a Yurie já era dona do Temake, ficaram ambas com seus novos amigos.

As duas moças, mais tarde, para descrédito das línguas de trapo, não eram um casal gay, pois ambas tinham namorados, o Fábio que namorava a Yurie e o Renato que namorava a Ariane.

Toda a vez que as duas saíam a passear com o Faísca e com o Temake eram cercadas pelas crianças que, na sua eterna sinceridade, as admiravam pelo salvamento. É claro que algumas mães enciumadas não ofereciam resistências às filhas, mas também, não demonstravam aquela satisfação das crianças.

O salvamento da Faísca, no entanto, ainda gerou muita polêmica, quando um condômino sugeriu fazer uma “vaca”, já que as despesas do Veterinário custaram às duas moradoras R$400,00.  O condômino utilizou o wattsapp para sensibilizar os demais, encarregando-se de fazer a coleta de quem quisesse colaborar.

Ele nunca imaginou receber tantas mensagens de apoio, mas também de críticas, onde alguns diziam:

- Tem gente neste Condomínio que não tem dinheiro para pagar a taxa condominial e ninguém faz “vaca” para acudi-lo. Sou contra. Ninguém mandou elas fazerem essa despesa logo para salvar um cachorro.

Outros alegaram que havia um vizinho precisando de remédios para doença grave e, também, ninguém fazia “vaca” para auxiliá-lo.

O condômino que teve a mais pura e inocente iniciativa, diante te tanto disparate, apenas confirmou:

- Eu vou dar R$ 50,00 e vocês que alegaram tanta coisa que se lixem. As moças merecem, afinal é uma questão de solidariedade para um gesto digno. 

Muitos colaboraram e a Yurie e a Ariane, que não faziam questão alguma de serem ressarcidas, agradeceram, mas fariam de novo se fosse necessário.

Depois da euforia pelo salvamento do Faísca as pessoas voltaram a se preocupar com o envenenamento e foram falar com o síndico, na ocasião o Luiz Paulo, delegado aposentado. O síndico ao tomar conhecimento das mensagens pelo wattsapp disse-lhes:

- Fiquem tranquilhos que eu já tenho um suspeito.

Os mais afoitos foram logo dizendo:

- Só pode ser aquele ermitão que mora na casa 77, ele é muito suspeito e, além disso, é muçulmano. O síndico ficou irritado e lhes disse para não tirar conclusões precipitadas, pois aqui, que eu saiba ninguém é agente do E. Islâmico.

Numa noite, o delegado e mais policiais bateram na casa 76 e prenderam o Pepe, irmão do Joanim, que segundo a polícia era procurado pela Interpol, por pertencer a máfia italiana e possuir várias acusações por matar cães e gatos.

 

 A paz voltou a reinar no Garden até ser quebrada por uma chuva de granizo nunca vista, mas essa já é outra história... 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 28/03/2016 às 15h10 | sannickelle@gmail.com

Páscoa

“Páscoa é uma importante celebração da igreja cristã em homenagem a ressurreição de Jesus Cristo.

 

De acordo com o calendário cristão, a Páscoa consiste no encerramento da chamada Semana Santa. As comemorações referentes à Páscoa começam na "Sexta Feira Santa", onde é celebrada a crucificação de Jesus, terminando no "Domingo de Páscoa", que celebra a sua ressurreição e o primeiro aparecimento aos seus discípulos.

A Semana Santa é a última semana da Quaresma, período em que os fiéis cristãos devem permanecer por 40 dias em constante jejum e penitências.

A Páscoa é comemorada em vários países, principalmente aqueles com fortes influências do cristianismo. Os espanhóis chamam a data de Pascua, os italianos de Pasqua e os franceses de Pâques.

Etimologicamente, o termo Páscoa se originou a partir do latim Pascha, que por sua vez, deriva do hebraico Pessach / Pesach, que significa “a passagem”.”

O síndico do Garden City, por ocasião da Páscoa, era o seu Abraão Salimen, um sujeito megalômano, que tinha a única casa do Condomínio com três andares e piscina no terraço de cobertura, pois dizia não querer que olhos cobiçosos ficassem invadindo sua privacidade. Coube a ele, como autoridade máxima da comunidade do Garden, definir a decoração da Páscoa daquele ano. Como ele vivia do comércio, definiu que se espalharia coelhos, vivos e bonecos,  por todo o Condomínio.

Os moradores receberam instruções para colocar os bonecos, de todos os tamanhos, pelas fachadas e jardins das casas.

Na casa dele, quando a decoração ficou pronta, havia coelhos até na platibanda do terraço. No jardim, havia coelhos gigantes postados nos canteiros, nas árvores, espiando pelas janelas. Na entrada da casa, postados lado a lado, dezenas de coelhos gigantes pareciam reverenciar o dono da casa.

A profusão de coelhos, por toda  área do Garden City, inclusive nas praças e          na área de entrada junto a portaria, foi questionada até pelo padre Lucas da Igreja de Santa Luzia do Bairro. Dizia o representante da Igreja Católica, que aquela única mensagem não condizia com o espírito cristão, pois acentuava um aspecto secundário da celebração. Ele, inclusive emitiu um comunicado, por escrito, que foi posto na portaria do Garden, para que os cristãos daquela comunidade refletissem. Escreveu ele:

“ Os Símbolos da Páscoa são representações que fazem parte dos rituais da Semana Santa.

A Páscoa é uma festividade importante para os cristãos, pois celebra a morte e ressurreição de Jesus Cristo, um episódio bíblico interpretado como a passagem para novos tempos e novas esperanças para a humanidade.

A Semana Santa começa com o Domingo de Ramos.

A Sexta Feira é o dia da celebração da morte de Jesus na Cruz. O Sábado de Aleluia é o dia da celebração da missa da meia noite, na passagem para o Domingo da Ressurreição.

Durante a Semana Santa, vários símbolos fazem parte do ritual das comemorações, entre eles:

Os ramos de palmeira

O Domingo de Ramos, que lembra a entrada de Jesus em Jerusalém, ocasião em que as pessoas cobriam a estrada com folhas de palmeira, para comemorar sua chegada.

Cordeiro

Este é um dos símbolos mais antigos da Páscoa, lembrando a aliança que Deus teria feito com o povo judeu no Antigo Testamento.

Naquela época, a Páscoa era celebrada com o sacrifício de um cordeiro.

Para os cristãos, Jesus Cristo é o “cordeiro de Deus que tirou os pecados do mundo”.

Círio Pascal

O Círio Pascal é uma grande vela, decorada com as letras gregas alfa e ômega, que significam “início” e “fim”, respectivamente, e usada durante as missas da Semana Santa.

Durante a Vigília Pascal é inserido na vela os cinco pontos das chagas de Cristo na cruz.

É acesa no Sábado de Aleluia e sua Luz representa a Ressurreição de Cristo.

O Peixe

O peixe é um símbolo trazido dos apóstolos que eram pescadores.

É um símbolo de vida, usado pelos primeiros cristãos.

Faz parte do ritual da Semana Santa comer peixe na Sexta Feira Santa, para lembrar o ritual dos 40 dias de jejum de carne, seguidos pelos cristãos durante a Quaresma.

Ovo de Páscoa

Por representar o nascimento e a vida, presentear com ovos era um costume antigo entre os povos do Mediterrâneo.

Durante as festividades para comemorar o início da primavera e a época de plantio, os ovos eram cozidos, pintados e presenteados, para representar a fertilidade e a vida.

O costume passou a ser seguido durante as festividades dos cristãos, onde eram pintados com imagens de Jesus e Maria, representando simbolicamente o nascimento do Messias.

Muitas culturas mantêm até hoje esse costume. No mundo moderno, o ovo fabricado com chocolate virou uma tradição de presente no Domingo de Páscoa.

Coelho de Páscoa

O coelho de Páscoa tornou-se o símbolo da fertilidade e da vida, devido a particularidade deste animal de se reproduzir em grandes ninhadas.

Está relacionado com a Páscoa por representar a esperança de vida na Ressurreição de Jesus Cristo.”

Outros representantes de igrejas cristãs do Bairro, como o Pastor Lucas Soares, também se solidarizaram com o padre Lucas, pois entendiam a importância da Semana Santa para a reflexão cristã, especialmente sobre a vida diante da maximização das banalidades, da pouca solidariedade entre as pessoas e das questões políticas e ambientais que afligem todos nós.   

Soube-se, pela rádio corredor, que o Síndico não gostou da intromissão do padre e dos pastores e que, mesmo assim, continuaria com a decoração, tenham eles gostado ou não.

A solidariedade, gesto que caracteriza um compromisso entre as pessoas, nem sempre é bem entendido, mas isso já é outra história...

Escrito por Saint Clair Nickelle, 22/03/2016 às 12h17 | sannickelle@gmail.com

O sonho

Antes de dormir eu tinha o hábito de ficar lendo o facebook. Numa certa noite eu tive um sonho muito estranho. O síndico do Garden City era um tal de Roubalino Larr Hápio, petista roxo, que através de um amigo influente, convidou o Ex Presidente Lula para uma palestra, onde seria abordado o tema:

COMO CHEGAR E SE MANTER NO PODER.

No dia marcado, 13 de março, uma multidão reuniu-se no caramanchão da Praça Central para assistir o ilustre conferencista. No palco improvisado, lá estava, todo enganalado, o seu Roubalino, com a esposa Catilina e membros da Diretoria do Garden City, que assim anunciou:

- Senhoras e Senhores, moradores deste Condomínio, é com muito orgulho e imensa satisfação que eu anuncio a presença ilustre de nosso convidado, Lula da Silva que, sob o patrocínio da maior empresa de engenharia do Brasil, Odebrecht S.A., fará uma palestra aos moradores e convidados especiais sobre o tema Como Chegar e se Manter no Poder. E, sem mais delongas, eu chamo a frente, deste imenso público, o Sr. Lula.

Sob intenso aplausos, o ex Presidente Lula, subiu ao palco e assim falou:

- Companheiru e companheira aqui presente, demais convidadu, estou muito feliz por trazer a voceis a minha inesgotável experiência como sindicalista, político e líder desse país. Não foi fácil chegar onde cheguei, estudando pouco e comendo mal, mas como eu cheguei muitos de voceis poderão chegar, basta passar pelo que eu passei. A vida das pessoa nem sempre é igual, alguns nascem em berço de ouro ou prata, e pessoas como eu nasce em berço de bronze, tirando o último lugar. Nada é fácil, quando o ronco da barriga fala tão alto que acorda até os cachorro. Mas, eu venci a fome e a miséria, chegando ao pódio mais alto da política. Não foi fácil não. Precisei prometer mundos e fundos para a classe dominante deste país. Ainda me alembro de uma reunião na Federação das Indústrias de São Paulo, onde me perguntaram se eu, caso viesse a ser Presidente, se taxaria as grandes riquezas. Na hora até fiquei confuso, porque eu nem tinha pensado nisso, mas o Zé, ao meu lado, me assoprou:

- Diz que não, porque o pobre depende de emprego e ele só existe se os ricos continuarem ainda mais ricos.

- Me saí bem daquela reunião na FIESP, graças ao assopro do Zé que até hoje me dói o ouvido.

Nesta altura do sonho eu me senti nauseado, queria sair dali, mas toda vez que tentava levantar, os meus vizinhos me puxavam pelos ombros e diziam:

- Que coisa fantástica que o seu Roubalino está nos propiciando, parece sonho.

Depois o palestrante continuou:

- Depois enfrentei a turma do Stédile, que desde o descubrimentu do Brasil, sonha em ter terra. Eu sempre disse para os membru, dus “sem terra”, que a terra é de todos, mas só alguns, dentre tantos, é que possui. Eu lhes expliquei que sempre fui contra, desde que o Coronel Severino Castanheira expulsou minha vó e meu avô do sítio deles, só purque eles num plantava nada. Desde lá eu fiquei cum ódio dessa classe dominadora, afinal o Coronel também nunca plantou nadinha e mesmo assim era dono daquele mundaréu de terra.

Os “sem terra”, mesmo no meu governo, continuaram sem terra, purque não é fácil desalojar essa gente, enraizada desde as capitanias hereditárias.

- Depois eu enfrentei os “sem teto”, que desde a libertação dos escravos, tem procurado uma casinha pra ser sua e não consegue. Fica a vida toda pagando aluguel e quando morre não deixa nada pra seus filho. Isso sempre me revoltou muito. A casa da minha mãe era alugada e, todo fim de mês, era a aquela churumela, ou se pagava o aluguel ou se pagava a venda do seu Nivaldo.

- Então, nós criamu o MINHA CASA MINHA VIDA, para que ninguém mais passasse pelo que eu passei. Mas, até hoje tem gente que não entende, que pagar a prestação da Caixa, não é a mesma coisa que pagar aluguel, pois quando o dono morre a casa fica pros filho. Eles dizem que o aluguel, as vezes, é mais barato que a prestação e que não sobra dinheiro pra comida. Vejam, que gente mal agradecida, também querem casa com dois quartu, sala e cozinha. Eu quando era criança pequena morava numa casa de uma cômudu só e não reclamava. Agora, ficaram exigente, o casal num quarto e os filho num outro, coisa de gente rica, tenham a santa paciência sô!

- Depois tive que enfrentar os meus cumpanheiru do Partido, todos queriam cargo no governo. Fui obrigado a criar vários ministérios, tudo pra agradar os militantes. Foi um dos momentos mais difícil do meu governo. Onde colocar a cumpanheirada toda? Tive que criar auxiliar do auxiliar, ajudante de ajudante e assessor de assessor, subchefe de chefe, até inchar tanto a folha de pagamento que eu precisei ressuscitar a CPMF, que eu sempre fui contra quando estava na oposição.

- Quando, pur fim, eu tinha acomodado tudu mundo, terminou meu mandato. Aí eu fui obrigado a colocar a Dilma, que não tinha experiência política nenhuma, mas era formada em economia, coisa de gente bem que passa a maior parte da vida estudando, mas de política não sabe nada.

- Agora que eu tava preparando minha candidatura para 2018, vem essa turma do Moro dizer que eu roubei coisas que me presentearam, como o Sítio de Atibaia e o tríplex de Guarujá, mais aquelas coisinhas do Palácio da Alvorada. Nada é meu, foi só emprestadu para me agradar, já que ajudei tanto estas empresas que tavam com máquinas paradas e precisando arrumá uns contratu milionários, por isso fiz 12 estádios prá copa e as Olimpíada.

- Eu fui o melhor e mais honesto presidente que este país já teve, basta vocês compará. Ter uns agradinhos aqui e lá é normal, mas isto não caracteriza desonestidade. São presentes de governantes, empresários e também de políticos que satisfeitu com minha brilhante atuação, resolveram me agradar. Afinal, não podem me culpar por ser um pobre cum capacidade muito além destes riquinhos incompetentes.

- Não basta ir a escola, estudá qui nem condenadu, e não te experiência de vida dura, suada, cum fome, pois foi assim que eu cresci, mas me orgulho disso. Agora, que eu fui presidente, voceis não vão querer que meus filho passe pelo que eu passei. Qualquer um que podi dá uma mãozinha, não dá? Ou voceis vão negar que filho não merece...vão?

- Olha pessoal, eu já falei bastante e, fim de tarde merece uma geladinha, né?

- Agradeço o convite deste grande cumpanheiru petista, Roubalino e sua esposa Catilina, que me oportunizou falar de forma sincera com a militância deste belíssimo condomínio, tenha todos um ótimo fim de dia.

Consegui me desvenciliar dos vizinhos inoportunos, acordei com náuseas e corri para o banheiro. Vomitei, pasmem, frutos do mar. E eu, só tinha tomada chá com bolachas. 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 18/03/2016 às 13h52 | sannickelle@gmail.com

Irmão Gêmeo

De todas as paisagens do Condomínio a mais expressiva era, sem dúvida, as extremosas quando floridas.  Extremosa ou resedá, arvore pequena de altura até 5,0 metros. É uma árvore que pode ser usada na arborização de ruas, que era o nosso caso.  Ao longo da via principal do Garden City elas, na época da floração, formavam uma alameda de cores vibrantes, passando do branco ao rosa e ao vermelho 

Toda essa beleza, no entanto, não seria capaz de mudar alguns ânimos, nem a rigidez de alguns síndicos. O Seu Gustavo, o mesmo velho arrogante que fora surrado pela turba enfurecida por ocasião da visita fictícia do Fellini, enquanto síndico, implantou algumas regras tidas como as mais rígidas no uso da portaria, das quadras de esporte, da limpeza dos jardins das casas e da deposição de lixo na lixeira única.

A vida, as vezes, prega peças até para os mais exigentes. Talvez como forma de dizer:

“Errar é humano”.

Tendo comido um sushi no almoço para festejar o aniversário de um colega de serviço, seu Gustavo não esperava dar-lhe uma tremenda dor de barriga, ainda mais na fila da lotação Guarujá que, no início da noite, era super concorrida. Pensou então:

- ”Eu não vou perder meu lugar na fila, vou aguentar até chegar no Garden”.

Embarcou e foi dizendo sem parar:

- Vai ter que dar…vai ter que dar…

Disse tantas vezes que o passageiro do seu lado, perguntou:

- Humm? Que foi que disse? É do jogo da mega sena? 

- Não…Nada não…

Sorte do Seu Gustavo que em lotação só se viaja sentado, pois é possível calcar a bunda no assento e se segurar com força. Foi o que fez, mas a viagem que normalmente leva 20 min durou uma eternidade.

Felizmente chegou na sua parada. Apertou a campainha, levantou-se e caminhou como se fosse um bêbado, como diria o Chico Buarque.

Chegando a Portaria foi logo anunciando:

- Deixe-me entrar preciso usar o banheiro.

O Porteiro, reconhecendo o ex-síndico, foi categórico:

- Seu Gustavo foi o Senhor mesmo que proibiu que os condôminos entrassem na Portaria, portanto não posso abrir exceção.

- Mas é uma questão de vida ou morte, meu rapaz.

- É, mas ordens são ordens.

Suando frio, seu Gustavo foi em direção a Praça da frente que, neste horário estava vazia, mas a iluminação não lhe permitia nenhum lugar sem que fosse visto. Só lhe restava a quadra de futebol sete. Cruzando as pernas  abriu o portão e foi logo arriando as calças para disparar uma enxurrada de lama fedida.

 

Estava quase terminando quando, para sua surpresa, as

luzes da quadra se acenderam. Eram dois times prontos para bater aquela bolinha. O primeiro que entrou foi logo dizendo:

- Seu Gustavo, pelo amor de Deus o que é isso?

- Desculpe, mas eu não sou o Gustavo, sou o Adroaldo, irmão gêmeo dele. Eu vim fazer-lhe uma surpresa e fui surpreendido por uma tremenda dor de barriga, mas vocês fiquem tranquilhos que eu vou até a casa dele e trago uma pá de lixo para remover a….

- Tudo bem, a gente espera, seu…seu…

- É Adroaldo.

O vexado Gustavo, ou melhor Adroaldo, puxou as calças e saiu da quadra.

Chegou em casa e foi entrando de sopetão. Passou pela sala e nem viu que tinha visitas, quando dona Olga, sua esposa, lhe disse:

- Meu bem, olha só quem veio nos visitar, o Hortêncio e a Rosa, nossos vizinhos lá da Sebastião Leão.

Humm, hein, quem?

- Pais da Vanessa…

- Ah sim! Me desculpem mas eu já volto…

Gustavo saiu da sala mais encabulado que escolar flagrado colando…e mais sujo que carvoeiro depois do expediente. Ainda apavorado, passou no banheiro de serviço para uma limpezinha preliminar, Quando dona Olga bateu na porta e disse-lhe:

- Gustavo, tem dois times de futebol na porta da frente, querendo falar com um tal de Adroaldo, que eles afirmam que é seu irmão gêmeo.

- Hein…Humm, dá um tempo Olga que eu resolvo isso, fica lá com as visitas. Pegou a pá de lixo e saiu pela lateral da casa.

- Oi rapazes, já falei com o Gustavo e ele me emprestou a pá de lixo, vamos lá…

Lá chegando foi logo recolhendo aquela lama fedida, tal qual o desastre de Mariana em Minas Gerais.

- Tudo bem rapazes, agora está limpo, desculpe o incômodo, mas dor de barriga é difícil de controlar, né?

Estava dobrando a esquina do seu acesso quando vislumbrou que o Leo e a Carini, seus inamistosos vizinhos de frente, o encontrariam com aquele conteúdo fedido nas mãos. Não titubeou, jogou a lama no jardim da casa da esquina, não havia outro jeito. A sorte, no entanto, nem sempre está do nosso lado…acertou em cheio o gato  dos Pereiras que, apavorado e sujo, entrou correndo sala a dentro. Foi uma explosão de gritos de horror, saindo avós, filhos e netos exclamando:

- Que cheiro horrível, infestou a casa toda.

Na frente da casa encontraram o Adroaldo ou melhor o Gustavo, que ainda segurava a arma do crime…

 

A armação da fogueira estava pronta para ser acesa  as 21 horas, seria a primeira FESTA JUNINA do Garden City, mas isso já é outra história…

Escrito por Saint Clair Nickelle, 15/03/2016 às 09h54 | sannickelle@gmail.com



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Saint Clair Nickelle

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.