Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Um carnaval inesquecível

 Em conversa amistosa com meu sogro, seu Gumercindo, um dos moradores mais antigos do Garden City, fiquei sabendo que já tinha havido um carnaval que mobilizou todos os moradores. Isso veio a tona, depois que o Síndico, seu Fabiano, resolveu ressuscitar um carnaval que envolvesse toda a comunidade; dizia, com jeito orgulhoso, querer marcar sua gestão pela alegria, mas como todo mundo sabe a última grande festa, a de Natal, foi um grande desastre.

Perguntei ao seu Gumercindo:

- Como foi organizado aquele carnaval, que os mais antigos não cansam de lembrar?

- Olha Clóvis, foi muito espontâneo e criativo, graças a sugestão do carnavalesco Paulão, morador da Restinga; esposa trabalhava no Condomínio. Ele sugeriu que cada acesso, são sete ao todo, organizasse um bloco que teria por tema a música de carnaval escolhida. As fantasias, também, estariam de acordo com a marchinha escolhida.

- E, os moradores corresponderam, meu sogro?

- Sim! Eles até nos surpreenderam!

- Havia algum júri para julgar os blocos carnavalescos?

- Sim! Na Praça Central foi montado um pequeno palanque, onde o síndico, na ocasião, se não me falha a memória era o falecido seu Agenor, e alguns convidados especiais, como a dona Clarice e o pintor Voldinei Lucas, que juntos com os membros da diretoria do Garden City compunham o júri.

- E aí? Correu tudo bem?

- De um modo geral, sim.

- O que o Senhor quer dizer com esse “...de um modo geral...”?

- Até então, não tínhamos um conhecimento muito apurado dos moradores, especialmente em ocasiões em que a bebida pode ser um diferencial...

- Como assim?

- O acesso 6, lá dos fundos do Condomínio, sob o comando do Sebastião, marido da dona Valquíria, escolheu como música enredo “CACHAÇA NÃO É ÁGUA”, cuja letra começa:

Você pensa que cachaça é água

Cachaça não é água não

Cachaça vem do alambique

E água vem do ribeirão”

- Todo o bloco portava garrafas na mão, e as fantasias típicas de bêbados de rua, esfarrapados e sujos se apresentavam bebendo e jogando o líquido no público. O que não se sabia é que o liquido não era água e, sim, cachaça. Para alguns moradores e visitantes isso pareceu normal, mas nem todos queriam sair fedendo de cachaça vagabunda. Nós, integrantes do Júri, imaginávamos que eles estariam jogando água perfumada, mas não aguardente, e do mais ordinário! É claro que eles foram desclassificados!!!!

O carnaval só não acabou ali, porque eles foram os últimos a desfilar.

- Esse foi o único incidente?

- Não, mas deixa pra depois, que eu conto!

 

  

 

- Prosseguindo com a prosa, o primeiro bloco a desfilar foi o acesso 1, com o enredo: “AS PASTORINHAS”

A estrela d'alva no céu desponta

E a lua anda tonta com tamanho esplendor

E as pastorinhas pra consolo da lua

Vão cantando na rua lindos versos de amor

- Todo o bloco, muito bem concebido, onde predominavam jovens e crianças encantaram o público, bem como os jurados…

 

- O acesso 2, veio com a música enredo: Allah - lá - ô

“Allah – lá- ô ô ô ô ô ô

Mas que calor, ô ô ô ô ô ô

Atravessamos o deserto do Saara

O sol estava quente

Queimou a nossa cara”

- Seus componentes, todos vestidos de árabes, deram um show de bom gosto, com seus turbantes, roupas coloridas e esvoaçantes, além do rítmo e da interpretação musical. Acabaram tirando o primeiro lugar.

- E, os demais acessos?

- O acesso 3, também mereceu esfusiantes aplausos com a música enredo “CABELEIRA DO ZEZÉ” :

Olha a cabeleira do zezé

Será que ele é

Será que ele é

Será que ele é bossa nova

Será que ele é maomé

Parece que é transviado

Mas isso eu não sei se ele é

- Todo bloco composto só de rapazes, mas vestidos de mulheres, arrasaram tirando homens, que assistiam, para dançar e pedir em namoro. Esse humorismo saudável, hoje seria criticado, mas naquela época ainda não havia tantas restrições.

- E, os demais acessos, como se saíram?

- Olha Clóvis, muito entusiasmo, mas pouca criatividade.

- Antes de encerrar nossa conversa, o que o Senhor teria para completar a respeito do bloco do acesso 6?

- Pois é, caro genro, aquele grupo, com raras exceções, não aceitaram a desclassificação, principalmente pela violência do Sebastião, que queria bater nos membros do Júri, que só não virou em pancadaria porque o pessoal percebeu a embriaguez do morador. De qualquer forma isso marcou aquela festa, ao ponto de nunca mais ter se repetido um carnaval  no Garden City.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 14/02/2018 às 10h45 | sannickelle@gmail.com

Um convidado muito especial

Estávamos combinando a mateada de domingo, quando surgiu a informação de que o escritor Luiz Felipe Pondé, estava no Garden City, em visita a uns amigos. Através de nosso relações públicas, Luiz Paulo, pedimos se ele faria uma visita à nossa mateada de domingo. Para nossa surpresa ele aceitou.

No domingo, diante de nossa confraria do mate, ele se apresentou, sendo recepcionado pelo nosso decano, seu Gumercindo:

- Pessoal, é com grande honra e satisfação que recebemos o filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé, pernambucano do Recife, que em visita à Porto Alegre, nos vai dar uma “palhinha” na nossa mateada.

Depois dos cumprimentos, seu Gumercindo perguntou-lhe:

- No seu livro Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, o que seria o politicamente correto?

- ”O politicamente correto é um “ramo” do pensamento de esquerda americano. Se pensarmos no contexto onde ele nasceu, veremos a ascensão social dos negros americanos no final dos anos 60. Fenômeno semelhante aos gays a partir dos anos 80. O politicamente correto, assim, se caracterizará por um movimento que busca moldar comportamentos, hábitos, gestos e linguagem para gerar a inclusão social desses grupos e, por tabela, combater comportamentos, hábitos, gestos e linguagem que indiquem uma recusa dessa inclusão...”

- A esquerda, em geral, defende o coletivo e a igualdade entre as pessoas. O que você pensa a respeito?

- ”Tocqueville já dizia, no século 19, a igualdade ama a mediocridade, já a filósofa russa exilada nos EUA, Ayn Rand, acerta em cheio quando mostra uma sociedade que só fala no “bem comum” e na “igualdade entre as pessoas” contra as diferenças naturais de virtudes entre elas, estas a serviço do mau-caratismo, da preguiça e da nulidade. Ao buscar destruir as “injustiças sociais”, o mundo descrito por Rand destrói a produtividade, fonte de toda a vida, paralisando o mundo. Rand é conhecida por seu realismo objetivo em ética. Para ela, uma pessoa corajosa, trabalhadora, inteligente, ousada produz a sua volta relações humanas concretas que são úteis, abundantes, produtivas. Por exemplo, coragem produz no mundo ganhos materiais para todo mundo. Preguiça e covardia produzem miséria, mesquinhez, mentira. Isso mesmo: força e coragem fazem as pessoas verdadeiras nas suas relações, enquanto a ausência de virtudes como essas as faz mentirosas e traiçoeiras.

- E, quanto a democracia, ele é um regime político menos ruim ou um ideal a ser aperfeiçoado?

- A democracia é um regime que vive entre dois valores essenciais: liberdade e igualdade, segundo Tocqueville. E, esse convívio não é fácil.

 

Entre os dois, habita o que eu chamo de sensibilidade democrática, um conjunto de características que vão além do mero debate acerca das instituições democráticas, como poderes públicos, partidos, eleições, plebiscitos, etc.

Não se trata de falar mal da democracia, ela é o regime político “menos ruim”. Até onde os especialistas podem falar, precisamos viver em grupos para sobreviver, mas para isso fazemos concessões ao grupo em troca de segurança...Dentro desse quadro de ausência de opção de vida sem “Estado político”, a democracia é o menos pior porque procura institucionalizar as tensões da vida em grupo, distribuindo  “os poderes” de modo menos concentrado. A tentativa de definir a democracia como “regime de direitos” é ridícula porque não existem direitos sem deveres.”

- O politicamente correto, a seu ver é uma forma de ser mau-caráter?

- ”...A praga politicamente correto deve ser combatida não porque seja bonito dizer piadas racistas, mas porque ela é um instrumento de maus profissionais da cultura, normalmente gente mau-caráter, fraca intelectualmente, pobre e oportunista, para aniquilar o livre  “comércio de ideias” ao seu redor, controlando as instâncias de razão pública, como universidades, escolas, jornais, revistas, rádio, TV e tribunais. Nascida da esquerda americana, ela é pior do que a esquerda clássica, porque essa pelo menos não era covarde.

...A praga PC é apenas mais uma forma enraivecida de recusar a idade adulta e de aniquilar a inteligência. O que ela mais teme é a coragem. Por isso diz que o povo é lindo quando não é, diz que as mulheres estão bem sozinhas, quando não estão , diz que a natureza é uma mãe quando ela mais Medeia, nos proíbe de reclamar de gente brega ao nosso redor, mente sobre aqueles que lutaram contra a ditadura (eles não eram muito melhores do que os torturadores se tivessem a chance de torturar alguém), nega a importância da culpa porque é mau-caráter, enfim, não é capaz de reconhecer valor em nada porque nega a própria capacidade humana de fazer discernimento.

A praga PC é apenas mais uma face da velha ignorância humana.”

Seu Gumercindo, sabedor do compromisso do convidado no churrasco dos amigos, cortou a tentativa de mais perguntas, parabenizando-o pela gentileza de participar da mateada. Após a despedida e os agradecimentos de todos, comentaram:

- Luiz Paulo, fizeste um excelente convite. Em nome do grupo eu te agradeço. Disse seu Gumercindo, apertando-lhe a mão.

A instigante entrevista, deixou o grupo muito pensativo, a ponto do seu Gumercindo propor o encerramento daquela mateada... 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 02/02/2018 às 09h27 | sannickelle@gmail.com

O contador de histórias

 Naquele domingo de janeiro de 2018, nos encontramos no caramanchão da Praça Central do Garden City para mais uma mateada. Seu Gumercindo, como sempre, foi o primeiro a chegar de cuia, erva mate e uma garrafa térmica gigante. Logo foi cumprimentando os que chegavam: 

- E, aí vivente, como tem passado? A resposta era quase padrão...

- Faceiro, que nem potro novo, correndo atrás das éguas!

- E, as notícias?

- No Brasil, cada vez se descobre mais e mais safadeza...agora é a da Caixa Econômica Federal, reduto dos partidos políticos que apoiam o Temer, onde cada vice-presidência era um esquema de corrupção.

- No plano internacional, o que nos têm chamado a atenção são os Jogos de Inverno na Coréia do Sul, em especial pela aproximação das duas coréias.

- Fico pensando como tem sido o encontro dos dois comitês, que estão discutindo a participação das duas coréias.

- Deve ser interessante imaginar, de um lado uma república democrática e de outro uma ditadura hereditária. Disse seu Gumercindo do alto de sua sabedoria e, completou: 

- Querido amigo San, você como cronista imaginaria para nós como poderia ser a interlocução das duas coréias...

- Agora?

- Sim, de improviso, já que você é muito criativo...

- Tá bom, aceito o desafio, mas por favor me interrompam quando ficar enfadonho, bem como estarei aberto para sugestões...

- Como vocês sabem, as Coréias do Norte e do Sul vão participar juntas dos jogos, desde é claro que seus interlocutores acertem e aceitem todos os detalhes, que passam pelo desfile conjunto, modalidades de jogos, uniformes, emblemas, bandeiras, etc...

Na primeira reunião já surgiu um impasse, pois o chefe do comitê da Coréia do Sul se referiu ao Líder da Coréia do Norte como Ditador, fato que fez os membros do Comitê do Norte fazerem menção de se
retirar.

- Ao se referirem ao nosso SUPREMO LÍDER, jamais o nominem ditador ou presidente, isso é inaceitável para nós.

O Chefe do Comitê da Coréia do Sul pediu, então, desculpas. Logo a seguir falou:

- Nosso Presidente, Moon Jae-in, sugeriu que no desfile usemos uma bandeira unificando, para os Jogos de Inverno, as duas Coréias.

O Chefe do Comitê do Norte pediu um intervalo e, depois de meia hora retornou, junto com os demais membros, à mesa de negociação.

- Nós concordamos com esse item, desde que um representante de cada país, desfile cada um com uma bandeira e, os demais atletas, com pequenas bandeiras com o mesmo símbolo das principais.

A Coréia do Sul prontamente concordou.

A Coréia do Norte expôs que durante o desfile os dois mandatários ficarão lado a lado, desde que o SUPREMO LÍDER, fique do lado esquerdo.

Os coreanos do sul, perguntaram:

- Para quem olha de frente ou por quem olha de trás?

Os coreanos do norte ficaram perplexos diante da pergunta e pediram um recesso. Depois de meia hora retornaram, dizendo:

- Sim! Para quem olha de frente, já que por trás jamais haverá alguém, a não ser, é claro, nosso grupo de segurança.

A Coréia do Sul concordou.

- Em quais modalidades a Coréia do Norte pretende enviar atletas?

Perguntou o Chefe da delegação da Coréia do Sul, Lee Hee-beom.

Os coreanos do norte pediram recesso para consultar seus alfarrábios.

E, depois de uma hora, voltaram com a resposta:

- Patinação artística, esqui alpino, esqui cross-country, hóquei feminino, tiro ao alvo, acionamento de foguetes e botão-de-mesa, para tanto enviaremos 550 atletas.

Agora quem ficou perplexo foi o comitê do sul, que logo informaram:

- As quatro primeiras modalidades fazem parte dos Jogos de Inverno, mas as três últimas não.

Extremamente contrariados os membros do Comitê do norte pediram novo recesso. Uma hora depois voltaram, informando:

- Daremos nossa resposta na próxima reunião.

Os coreanos do sul, por seu chefe do comitê, perguntaram:

- Vocês não tem autonomia para decidir algo tão simples?

Tanto o Chefe do comitê do norte, como os demais membros, ficaram perplexos diante da pergunta e pediram novo recesso.

Pacientemente os membros do sul aguardaram uma hora e meia, quando finalmente eles voltaram à mesa de negociação. Quem falou foi o Chefe do norte:

- O que vocês querem dizer com autonomia?

Agora a perplexidade passou para o lado do sul...

- Ora! Autonomia é o que nós temos enquanto Comitê...

- Como assim

Perguntou o Chefe do norte.

- Autonomia para decidir com independência, liberdade e autossuficiência os termos de nossa participação conjunta.

Os membros do Comitê do norte, ficaram pouco a vontade e decidiram pedir novo recesso. Ao voltarem, disseram:

Infelizmente nós não temos isso que vocês disseram, até porque o termo é totalmente desconhecido no nosso país. No, entanto, gostaríamos de sugerir mais um aspecto para os desfiles de abertura e encerramento...

- Pois, então, façam, antes de encerrarmos a reunião...

- Nosso SUPREMO LÍDER gostaria de incluir, nos desfiles, uma demonstração de força com a apresentação de foguetes e ogivas...

O Comitê do sul, já demonstrando irritação, rebateu:

- Isso não faz o mínimo sentido, já que os Jogos Olímpicos, quer sejam de inverno ou não, visam o congraçamento entre os povos pela paz, através das diversas modalidades esportivas.

Sob o olhar incrédulo dos representantes das duas Coréias, se propôs o encerramento dessa primeira reunião, antes, porém, os do sul perguntaram:

- Por quê vocês estão com as mãos enfaixadas?

- Por ter o orgulho de aplaudir constantemente nosso SUPREMO LÍDER!

E, o San foi aplaudido pelos companheiros de mateada, mas de forma moderada

Escrito por Saint Clair Nickelle, 22/01/2018 às 14h59 | sannickelle@gmail.com

Como viver em paz?

 São tantas bobagens que nos cercam, que nos induzem a pensar somente em desgraça, em parte pelo exagero dos noticiários, em parte por nossa avidez pela desgraça dos outros, que não sabemos mais como viver em paz.

No plano internacional, dois líderes atuais, King Jong Un e Donald Trump, brincam, como crianças mimadas, de destruir-se com suas ogivas nucleares, bastando para tanto apertar botões e, como brincadeira de videogame, arrasar a vida.

Para muita gente, como eu, que luta contra doenças quase incuráveis, a vida é o bem mais precioso, não uma brincadeira de mentes insanas.

Fico feliz quando recebo mensagens positivas, como a que vou reproduzir a seguir, enviada pela minha grande amiga budista, Silvana B. Scapini.

“A vida vai dar certo para mim quando eu tomar consciência...
de que um problema que está acontecendo “neste momento”
pode ser uma história “de muito tempo atrás”.
Não conte essa história outra vez!
Não fale do quanto sofreu,
Não fale sobre ele ou sobre ela,
a não ser que isso faça você se sentir melhor.
Não pronuncie uma única sílaba sobre a dor e sobre as perdas,
A não ser que tenha condições de se recuperar neste instante.
Pare com isso!
Pare de se agarrar ao passado, lembrando-se do quanto as coisas lhe fizeram mal,
A não ser que isso ajude no que você está fazendo agora.
Cada vez que você pensa naquilo,
Fala sobre aquilo, ou se lembra daquele tempo,
Traz a energia negativa do passado para o momento presente.
É claro que você precisa reconhecer como se sente
em relação a todas as experiências que já viveu.
Não deve, no entanto, ficar remoendo ou contando uma história
que faz você se sentir mal.
Fale do que aprendeu!
Conte como você se curou!
De como a força da vida em você superou o sofrimento.
Se examinar bem sua história,
verá que há muitas coisas que você pode usar para seguir adiante.
Quando, no entanto, você se prende a detalhes
Que só servem para reavivar sua dor,
É por que está contando a história de maneira errada.
Sim, você precisa ter consciência dos detalhes da sua vida
Para aceitar a sua parcela de responsabilidade.
Na verdade, cada vez que você conta sua história
_mesmo os detalhezinhos sórdidos
_para aprender com ela,
pode descobrir novos níveis
de compreensão e perdão.
Quando, no entanto, você remói uma história que lhe faz mal,
Pare de contá-la!
Hoje, eu me dedico a deixar para trás as velhas histórias
Que me fizeram mal
Para viver melhor com o que aprendi com elas.
Ótimo dia, contemple a sua vida,
Aprecie a sua vida.”
Autor: Lyanla Vanzant

Quando internalizamos as notícias ruins, acabamos falando delas, aceitando-as como naturais. Isso, no entanto, mina nossa capacidade de apreciar a chuva como necessária, não como desgraça...de apreciar as matas com seus matizes diversos...de olhar para o céu e admirar aquele azul único, inexistente no universo sem cor...enfim, de se dar tempo para sonhar e alimentar o desejo de viver em paz.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 09/01/2018 às 14h43 | sannickelle@gmail.com

Festa de Natal

Como o Natal deste ano cai na segunda-feira e os preparativos finais para as festas devem ser feitas até domingo, decidimos fazer nossa mateada no sábado, dia 23.

Claro que o principal comentário foi a tal Festa de Natal de 2017, que o síndico, seu Fabiano, declarou que seria inesquecível,; para tanto estava mobilizado, desde outubro, com todo o seu grupo de administração.

- Olha pessoal, não é por estar na presença do seu Gumercindo, mas eu acho muito difícil a atual Administração do Garden City atingir o sucesso daquela de 2016.

- Eu, também acho, Luiz Carlos. Desde que eu resido no Condomínio, que uma Festa de Natal soube fazer uma confraternização digna, onde o que predominou foi a sensibilidade dos jovens atores, levando-nos a chorar de emoção, tanto no Presépio Vivo, como nas falas que dona Clarice preparou para a interpretação dos personagens.

- Eu concordo plenamente contigo, Reinaldo! Pela primeira vez, de fato, comemoramos o Natal como merecíamos, deixando de lado o aspecto comercial da principal festa cristã, onde de um modo geral, só Papai Noel é o que importa.

- É o consumismo, caro Clóvis! 

Depois da maravilhosa Festa de Natal de 2016, empreendida  pela Administração do Seu Gumercindo que, ao dar ênfase ao nascimento de Jesus Cristo, com a criação de um Presépio Vivo só composto por jovens do Condomínio, deixou-se de lado a origem pagã desse evento, que acabou, ao longo da história, tornando-se, junto com a Páscoa, as duas maiores festas do cristianismo.

No entanto, o novo síndico, por ser bem mais pragmático, resolveu, em 2017, dar ênfase ao lado comercial da festa de Natal. Montou, na Praça Central do Garden City, dois enormes ícones do Natal comercial. Uma gigantesca árvore e um Papai Noel inflável, também gigante, além da decoração de duendes segurando pirulitos enormes, também uma imensa mesa para a ceia natalina, onde os moradores nada precisariam levar, pois o Condomínio bancaria tudo.

Como Dona Clarice, que foi responsável pela organização do Natal passado, fora convidada pelo atual síndico, para a reunião que decidiria a festa deste ano, ela nos contou que todas as suas sugestões foram rejeitadas.

- Olha gente, não foi fácil participar dessa reunião com os membros da atual Administração do Garden City!

Seu Gumercindo, que a havia convidado para participar da Mateada, disse:

- Em primeiro lugar, dona Clarice obrigado por nos dar a honra de sua presença em nossa tradicional mateada. Em segundo lugar, perguntar-lhe por quê, não foi fácil?

- Olha seu Gumercindo e demais vizinhos, o atual síndico é muito personalíssimo, pois convidou-me, e acredito os demais membros da Diretoria, para informar como seria a Festa de Natal, ou seja, foi incapaz de aceitar qualquer sugestão. O que, na verdade ele queria, era dar aparência de decisão colegiada, mas foi, tão-somente, monocrática.

 

 

Vocês, como estão vendo pela decoração da Praça Central, notem que é apenas o lado comercial do Natal. Eu acredito que aquele espírito e sensibilização, que a Festa do ano passado deu, não vai existir.

Com a saída da dona Clarice, o seu Gumercindo encerrou a mateada, esperando reencontrar a todos na noite de domingo.

O domingo amanheceu muito quente, não soprava brisa alguma. Isso poderia ser sinal de mudança e talvez uma chuvarada para o final da tarde ou início da noite.

No início da noite, o pessoal do Condomínio foi chegando para a anunciada Festa de Natal do seu Fabiano. Ele, era só sorrisos, ouvindo as constantes frases dos puxa-sacos:

- Fabiano, a Praça está magnífica!

- Jamais houve tal pompa.

- Afinal o Garden City merecia tão deslumbrante decoração!

- Em meu nome e de meus parentes, eu te parabenizo, Fabiano!

- A Festa de Natal desse ano já é um sucesso, mesmo antes de iniciar.

- E. esse Papai Noel gigante, está magnífico! Parabéns, seu Fabiano!

Seu Fabiano, envaidecido, agradecia com um largo sorriso.

A iluminação da Praça Central era tanta, que já nem se percebia a noite escura e nublada que dominava em Porto Alegre. Seu Gumercindo e seus amigos, um pouco afastados dos bajuladores, comentaram:

- Vocês já observaram, olhando em direção ao Guaíba, as nuvens do tipo cúmulos e até raios se aproximando?

- Sim, Gumercindo! É bom ficarmos fora da aglomeração, pois se cair um toró vai ser gente correndo pra tudo que é lado!!!

Não deu outra! Em meia hora começou uma ventania, com poeira que cobria tudo e, logo em seguida, uma chuva de granizo. Na primeira rajada de vento forte, a gigantesca árvore de natal tombou sobre a mesa já repleta de comida e bebidas.

Depois, foi a vez do Papai Noel inflável que, apesar dos esforços dos que lhe seguravam por meio de cordas, acabou se soltando e voou por cima das árvores.

Dizem, que que ele foi encontrado, dias depois, na Praia do Lami, em Viamão.

Todas as pessoas, mesmo os puxa-sacos, deram as costas para a “tragédia” e abandonaram o local. Apenas o seu Gumercindo e seus amigos ficaram pra prestar solidariedade ao Síndico e aos funcionários. Ajudaram a recolher o que era possível e sob o Caramanchão, que ano passado serviu de cenário para o Presépio Vivo; foram remontando o que ainda estava aproveitável.

Por fim, sentaram-se exaustos.

Sob a luz de velas, aquelas dez pessoas remontaram uma ceia simples com os restos...Parece que algo muito mágico aconteceu, naquele momento. Não se sabe como, mas a pequena manjedoura improvisada, permaneceu intacta...Parece que todos sentiram a mesma emoção ao mesmo tempo. Encharcados da cabeça aos pés, meio atrapalhados, entre lágrimas e risos...De um jeito muito espontâneo, fizeram um círculo e abraçados, desejaram-se um FELIZ NATAL!

Escrito por Saint Clair Nickelle, 29/12/2017 às 10h29 | sannickelle@gmail.com

A mensagem

Recebi, de uma moradora do Garden City, dona Simone, uma mensagem muita linda sobre mulheres especiais que caminham dessa maneira em suas vidas ou as que possam se beneficiar com a reflexão, que ela enseja.

Eis a mensagem:

“Chegou no meio da vida e sentou-se para tomar um pouco de ar.

Não sabia.

Não era cansaço, nem estava perdida. Notou-se inteira pela primeira vez em todos esses anos.

Parou ali, entre os dois lados da estrada e ficou observando as margens da sua história, a estrada da vida ficando fininha, calando-se de tão longe que ia.

Estava em paz observando a menina que foi graciosa, cheia de vida.

Estava olhando para si mesma e nem notou.

Ali, naquele instante estava recebendo um presente.

Desembrulhava silenciosamente a sabedoria que tanto pediu para ter mais.

Quando a mulher chega à metade da estrada da vida, começa lentamente a ralentar o passo. (ralentar: o mesmo que tornar-se ralo)

Já notou como tem gente que adora conturbar a própria rotina, alimentar o próprio caos? Ela não. Não mais.

Deixa que passem, deixa que corram, a vida é curta demais para acelerar qualquer coisa.

Ela quer sentir tudo com as pontas dos dedos, ela quer notar o que não viu da primeira vez. Senhora do próprio tempo.

Percebeu, à metade da vida, que caminhou com elegância, que viveu com verdade, que guiou a própria sombra na estrada em direção ao amor.

E como amou! Amor por si, pelos outros, amou em dobro, amou sozinha, amou amar.

A mulher ao centro da vida traz  a leveza que os anos teceram, pacientemente.

Escuta bem mais, coloca a doçura à frente das palavras, guarda as pessoas com preciosismo.

Aquela mulher já perdeu pessoas demais.

Ao meio da estrada, ela já não dorme tanto, mas sonha bem mais.

Sonha pelo simples exercício de sonhar.

Sonha porque notou que o sonho que é o sonho que tempera a vida.

Aprendeu a parar de ficar encarando as linhas do corpo.

Seu espírito teso, seu riso aberto, sua fé gigante não têm rugas, nem celulite, sem encanação. (encanação: sentimento de inquietação ou dúvida)

Descobriu que o segredo é prestar atenção no melhor das coisas, nas qualidades das pessoas , nas belas costas que tem e deixá-las ao alcance da vida dos outros.

Sentada ali, ao centro da própria vida, decidiu seguir um pouco mais.

Há mais estrada para caminhar, mais certezas para perder, mais paixão para trilhar.

Não há dádiva maior do que compreender-se, que encontrar conforto para morar em si mesmo, que perdoar-se de dentro pra fora. Ao centro da vida ela descobriu que a gente não se acaba, a gente vai mesmo é se cabendo, a cada ano um pouco mais. ”

De autoria de Diego Engenho Novo, escritor, publicitário e filho de dona Betânia. Criador do blog Palavra Crônica, vive em São Paulo de onde escreve sobre relacionamentos e cotidiano.

Fiquei muito grato à dona Simone, pela sensibilidade de me enviar o texto acima, o qual li várias vezes, para desobstruir meus olhos e ouvidos das notícias das constantes prisões feitas pela Polícia Federal; do futebol de resultados duvidosos; da eterna troca de favores dos nossos congressistas e por fim, das incríveis facilidades com que são concedidos “habeas corpus” para corruptos contumazes.

Espero, caríssima vizinha, que outros olhos se deliciem dessa mensagem e reflitam, como eu, sobre a estrada de nossas vidas.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 13/12/2017 às 13h42 | sannickelle@gmail.com



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Saint Clair Nickelle

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.


















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