Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

A vida que queremos

Como não tinha plantão no Hospital das clínicas, cheguei em casa no final da tarde. Abracei minha esposa, dei um beijo e disse-lhe:

- Hoje meu dia foi excelente, querida. Os pacientes que estou tratando estão bem melhores, um até teve alta hoje.

Precisamos comemorar, disse ela, então.

- O dia está quente, próprio para uma caminhada pelo nosso arborizado Garden City.

- Amor! Vou trocar de roupa para nossa caminhada, vais querer ir?

- Hoje não, meu bem. Vou te esperar com uma comidinha leve e um bom vinho para brindarmos.

- Que bom, querida.

E, assim saí para uma caminhada, pensando é claro na recompensa de um jantar a dois.

Estava caminhando e usufruindo dos perfumes das flores, quando um vizinho, que também caminhava, chegou ao meu lado. Cumprimentei-o:

- Boa noite, vizinho!

- Boa noite nada, como podes desejar “boa noite” com a desgraceira que é o nosso país e nosso mundo.

- Mas, usufruir da natureza que o Garden City nos proporciona, não lhe deixa feliz?

- Eu nem noto essas coisas, levanto ouvindo o rádio e é só desgraça, assaltos, corrupção, acidentes. Por acaso você não ouve rádio ou assisti televisão?

- Sim! Leio meus jornais diários e procuro no rádio ouvir música e na TV alguns programas de alto astral.

- Isto significa que você está alienado da realidade do Brasil e do mundo. E ainda lê jornais, Meu Deus!

- Vizinho, o jornal é um meio bem mais democrático do que os informativos televisivos.

- Como assim?

- Ora, no jornal eu seleciono o quero ler, na televisão eles te empurram notícias goela abaixo e você não tem opção de escolha. Sou profissional da área médica e lido com o  sofrimento dos pacientes e seus familiares, por isso preciso estar tranquilo para ajudá-los. E você o que faz vizinho?

- Sou Corretor de Imóveis. Vivo correndo atrás de pessoas indecisas, sovinas e muitas de mau caráter, que só querem levar vantagens, até com nossa mirrada comissão.

- Bom, cada um com suas peculiaridades profissionais. Mas, voltando ao início da nossa conversa, em que medida estar ligado nas notícias lhe ajuda no seu trabalho?

- Não só ajuda, mas é uma questão de estar sempre bem informado, pois até para puxar conversa preciso saber o que ocorre no nosso mundo.

- Tudo bem, mas só ficar sabendo de assaltos, de acidentes, corrupção, de mortes violentas, ajuda em quê?

- Ué! Ficar informado, ora!

- Tá, mas você, talvez bem mais informado que eu, tens feito alguma coisa para melhorar a situação?

- Claro, não é! Melhora o meu relacionamento com as demais pessoas, pois do contrário nem teríamos assuntos para conversar.

- Ah, então, serve para aqueles comentários entre as pessoas, que acabam somando informações negativas, mas sem qualquer resultado prático ou de melhora...É esse o único mérito?

- Sim, em parte, porque nos ajuda a ficar mais cautelosos com a segurança, com certos locais, com algumas cidades, que por ventura escolhemos para viajar.

- Nisso eu concordo com você, mas daí estar, permanentemente, informado das desgraças pode comprometer a nossa saúde mental, afinal a vida continua, com todas as suas nuances, onde, apesar disso, temos a obrigação de bem cumprir nosso papel profissional, familiar e de convívio.

- Você não concorda comigo?

- Sabe! Eu nem prestei atenção ao que tu disseste.

- Por quê?

- É que estou preocupado com a hora...

- Mas, você recém começou a caminhar...

- Que horas são?

- São 20 h e trinta.

- Bah, cara! Preciso voltar urgente para casa, não posso perder o Jornal Nacional.

 

E, lá se foi meu vizinho bem informado.

Acabei minha caminhada, ainda apreciando o início da noite naquele paraíso que escolhemos para morar.

Suado, mas muito satisfeito fui tomar um banho e me vestir para um encontro romântico.

Já banhado, bem penteado e um toque de colônia “eau de toilette Calvin Klein” fui ao encontro da minha amada. Ela, linda como sempre, me esperava com a mesa posta e duas taças de vinho tinto já servidas. Beijei-a e senti aquele perfume, “Fleur de Rocaille” que lhe dera de presente no dia dos namorados.

Levantamos nossas taças e brindamos:

- À vida!

Escrito por Saint Clair Nickelle, 18/04/2018 às 09h38 | sannickelle@gmail.com

BEAU GEST II

Tenho muito orgulho dos meus dois filhos. A Sabrina é Corretora de imóveis em Balneário Camboriú, o Michel que mora em Bombinhas e trabalha na Optolamp,  com sede em Porto Belo. Mas afinal, por que estou a falar de meus filhos? Por várias razões, mas uma em especial ocorrida dia 02 de abril de 2018, que eu vou passar a descrever, exatamente como o Michel me passou pelo WhatSapp:

“...Preciso compartilhar com vocês algo que aconteceu comigo. Após o trabalho. Fui buscar o Vicente na escola (meu neto que vai fazer 2 anos), às 18h. Íamos direto para casa, só os dois, pois a Aline (minha nora) tinha um curso em Balneário Camboriú.

No caminho de casa, na Avenida Hironildo Conceição, em Porto Belo, neste horário muito  movimentada, nos deparamos com um cachorro andando em ziguezague por entre os carros, liguei o pisca alerta e diminuí a velocidade. Obviamente os carros e motos buzinavam atrás do nosso carro. Permaneci assim até que o cachorro saísse da rua. Ele, então, foi para o acostamento, andando rápido e com nítida aparência de estar perdido. Andamos mais um pouco e de repente o trânsito parou. Era novamente ele entre os carros. Olhei para o Vicente e falei:

- Filho, vamos pegar esse cachorrinho, senão ele vai ser atropelado.

Dei a volta com o carro, estacionei na calçada e o chamei. Ele veio rebolando e pulou para dentro do carro. O Vicente se assustou e começou a chorar, mas logo parou.

Descobri que era uma cadelinha, toda preta e peluda, parecendo uma Cocker Spaniel mestiça. Aí começou a aventura...O que eu ia fazer agora?

Nisso ela já estava acomodada no chão do carro, abaixo do banco do passageiro.

Pensei, um pouco e resolvi voltar para o ponto onde a tinha visto pela primeira vez, há uns quinhentos metros dali.

Comecei a perguntar para algumas pessoas se sabiam de onde ela era, mas ninguém sabia.

- Acho que é do dono do Trovão Lanches. Falou uma senhora.

Ela, então, me acompanhou até lá e soubemos que não era, pois o cachorro dele é macho.

- Quem sabe tu vais até a casa do Senhor Borges das vans, ele tem mais de 20 cachorros, falou o dono do Trovão Lanches. Lá fomos nós, após pegar o endereço. Infelizmente ele não estava em casa, mas um vizinho disse que não era do Borges.

Lembrei-me de uma Pet Shop que fica no início da avenida onde encontrei a Princesa (eu já havia batizado a cachorra para acalmar o Vicente). Já passavam das 19h. Não a conheciam no Pet, mas me passaram o telefone de duas cuidadoras de animais, que talvez poderiam me ajudar.

Fui até lá e, ambas estavam lotadas de cachorros, mais de 20 cada uma. Pediram-me que tirasse uma foto e mandasse para elas, pois iriam postar no facebook.

 

Eu já estava desistindo, pensava na confusão, caso a levasse para casa, pois tenho dois, a Prenda e o Pitoco. Liguei para a dona Dália, minha sogra, para saber de alguém que pudesse ficar coma cachorrinha, pelo menos até o outro dia. Ela, também não sabia.

Dei mais umas voltas e retornei na casa do Borges, mas ele ainda não havia chegado.

Quando estava indo embora passou uma van com a inscrição Borges, quase  me joguei na frente do carro. Estavam ele e a esposa. Expliquei a situação e a esposa dele me disse:

- Quem falou que pegamos cachorros de rua?

- Pode largar essa aí que ela vai retornar para casa.

Agradeci e fui embora.

Liguei novamente para  a dona Dália. Combinei que deixaria o Vicente na casa dela em Itapema e voltaria para tentar localizar a casa do dono da cachorrinha. Deixei o Vicente e retornei para Porto Belo.

Lembrei que tinha no porta malas, a coleira e a guia do Shanti, que morrera há pouco tempo. Coloquei, então, na Princesa e saímos a caminhar pela Avenida e ruas transversais. Ela andava farejando como se conhecesse a área, mas fazia isso em todos os cantos.

Ainda estava na Avenida e de repente passei por casal de catadores, com uns 5 cachorros. A esposa me chamou e perguntou se o cachorro era meu. Disse que não e que estava justamente procurando pelo dono. Então, ela disse:

- Esse cachorro é meu!

Nisso apareceu o marido dela e veio falar comigo. Disse que era deles, que tinham há pouco tempo e que ele não havia se acostumado com eles. Falou que havia ganho de um homem que morava em apartamento e que não poderia ficar com ele.

Eu estava quase convencido, mas preocupado com a situação, pois andando solta, mesmo com eles, poderia ser atropelada.

Enquanto minha dúvida persistia,  de repente passou um carro e a motorista ficou olhando, parou  e estacionou. Tive a sensação que poderia ser, de fato, a dona da Princesa.

A moça atravessou a rua e afirmou:

- Moço! Essa cachorrinha é minha!

Na hora  me deu uma alívio e falei:

- Eu não acredito, Graças a Deus!

A Moça bateu as mãos e disse:

- Meg, vem com a mãe.

A cachorrinha abanou o rabo e pulou no colo dela.

Ela me contou que a Meg havia desaparecido há uns três meses. Alguém da família afirmou tê-la visto na rua, por isso saíram para procurá-la.

Conversei novamente com o catador e ele estava reclamando que não ganhou recompensa.

Então, eu lhe disse :

- Fique tranquilo que eu vou providenciar umas roupas para entregar-lhe.

Enfim, tive a grata sensação de dever cumprido. Avisei e agradeci a todos que eu havia mobilizado e, fui buscar  o Vicente.”

Escrito por Saint Clair Nickelle, 09/04/2018 às 09h55 | sannickelle@gmail.com

A cidade que seduzia

Naquela mateada de meados de março, todos compareceram, inclusive um convidado especial, seu Ivo, vizinho do Luiz Paulo, que viveu no Rio de Janeiro uma situação quase trágica.

Ele nos contou em detalhes o que passou, acompanhado da esposa, dona Bibiana e do seu filho Lucas. De ouvidos atentos e curtindo o chimarrão preparado pelo Clóvis, fomos imaginando o sofrimento dos nossos queridos vizinhos.

O Seu Ivo ainda arrematou:

- Ao sair daquele sufoco, eu vaticinei para minha família: “Rio de Janeiro nunca mais!”. Não é possível que uma cidade como aquela, de belezas naturais incomparáveis, tenha se transformado num covil de ladrões e bandidos.

 Após, vieram os comentários, o primeiro a falar foi o próprio Luiz Paulo:

- Seu Ivo, essa situação não é nova, talvez pouco noticiada alguns anos atrás. Começou com a deterioração da classe política e das autoridades constituídas. Vou lhe relatar um caso que acompanhei de perto e o Senhor vai poder tirar suas conclusões.

Como Delegado de Polícia, o Luiz Paulo referiu-se referiu a um acontecimento que vivenciou ao acompanhar um amigo, cujo filho, Gerson, que voltava de uma viagem à Europa, havia sido preso no Aeroporto Internacional do Galeão.

- O rapaz, de 25 anos, havia sido preso porque, em sua bagagem encontraram cocaína. Mas ele sequer recebeu a mala, como todos os demais passageiros; mesmo assim foi levado pela P.F. para esclarecer o transporte daquela droga. O tal rapaz ficou extremamente confuso, pois desde o embarque em Madri, no Aeroporto de Barajas, ele não teve mais acesso à mala. Deram-lhe voz de prisão e o prenderam como traficante.

Nesta altura, o Clóvis que estava servindo o chimarrão, perguntou:

- Luiz Paulo, me desculpe, mas o que tem haver o c.u. com as calças?

- Tenha paciência, Clóvis, logo logo o que estou contando vai fazer sentido com o que passou o Ivo.

- Tá bem, Luiz Paulo, toma aqui mais um mate e me desculpe pela pressa.

- Mas, voltando ao assunto, Seu Ivo e demais amigos, o pai do rapaz, um empresário de sucesso do ramo calçadista, de Novo Hamburgo, Adroaldo Pederneira, justamente, me procurou porque sabia da fama das autoridades do Rio, que só agiam mediante pagamento de propina. E, assim fomos para lá.

Em primeiro lugar fomos falar com o Gerson, já na Papuda. Ele, então, diante do pai, jurou de pé junto que jamais tocou em droga pesada, como cocaína. Um baseadinho, tudo bem, mas transportar droga de alto custo para quê, se sua vida era confortável e sempre teve o apoio da mãe e do pai, para estudar fora, fazer turismo internacional...

- Eu que estava assistindo, de longe, me convenci da inocência do rapaz, tal qual o pai, que depois me externou seu sentimento.

- O que me deixou intrigado é que ele, em Madri, depois de despachar sua mala, e mesmo depois de chegar ao Brasil, não teve acesso à bagagem;

como, então, os policiais da alfândega o abordaram sem a prova da droga,

 

diante da sua presença? Ou a droga foi colocada nos bastidores do aeroporto de Madri, ou foi colocada aqui, no Brasil, para chantagear-lhe. Ignorei a hipótese de um transporte involuntário entre agentes de lá e daqui, pois não seria lógico prender o transportador inocente.

Saímos da Papuda, quase em silêncio, mas tivemos o mesmo insight:

- A chantagem deve ser destinada para o senhor mesmo, seu Adroaldo, pois devem saber da sua situação financeira.

- Também pensei nisso, Luiz Paulo. Mas, eu estou disposto a bancar o que esses F.D.P estão querendo, pois o meu filho não merece ser considerado traficante.

- Por onde começamos, Luiz Paulo?

- Vamos falar com o Delegado que determinou sua prisão.

Lá fomos nós. Depois de muito esperar, fomos recebidos pelo Delegado Braga, o qual nos recebeu em seu Gabinete, mandou-nos sentar e depois fechou a porta.

Ficamos sem qualquer testemunha. Depois das explicações de praxe, ele insinuou que a pena para esse tipo de crime é muito severa, portanto, teríamos que estar dispostos a pagar pela soltura do rapaz, antes de ir a julgamento. Tentei argumentar pelas circunstâncias em que a droga foi apreendida, sem a presença do acusado, mas o delegado, simplesmente, argumentou:

- Vocês tem alguma prova de que o acusado não estava presente na abertura da mala?

- Não, apenas a palavra do Gerson.

- Então, arquem com as consequências jurídicas ou...

Saímos dali perplexos, quase não acreditando que tivemos uma conversa com um funcionário público, o qual na maior cara-de-pau, exigiu propina para que o processo não andasse.

Lembrei-me de um colega de Faculdade, que também estudara Direito na PUC  e, que hoje está no Ministério Público do Rio.

Ele nos recebeu, em seu Gabinete, e depois das velhas recordações, expus o caso do filho do Empresário Adroaldo. Ele, após nos ouvir atentamente, pediu-me para falar em particular comigo:

- Olha, Luiz Paulo, como delegado no Rio Grande do Sul, você deve ter uma idéia bem mais otimista das relações das diversas instâncias do Poder Judiciário, mas aqui há muitas coisas duvidosas, portanto, ou vocês se submetem à chantagem desse delegado ou vão penar para soltar o filho desse empresário gaúcho. Eu, espero que esse conselho não seja mal interpretado, pois se o processo correr e passar por mãos honestas, poderá até resultar em vitória para vocês.

Saímos dali, divididos e eu sugeri:

- Vamos voltar para o Hotel, descansar e, após o jantar, decidimos qual a estratégia a adotar.

Em dois dias estávamos de volta a Porto Alegre. Fiquei conhecendo a mãe do Gerson que nos esperava no Aeroporto Salgado Filho. Foram momentos de muita emoção, onde pai e mãe abraçados ao filho, entre lágrimas e agradecimentos deram-me adeus.

- Essa história, seu Ivo, ocorrida há muitos anos atrás, mostra porquê o Rio de Janeiro virou o que é hoje...

Escrito por Saint Clair Nickelle, 26/03/2018 às 08h37 | sannickelle@gmail.com

Intervenção

 A família do seu Ivo, morador do Garden City, saiu em férias, depois de muitos anos, já que queriam conhecer Paraty, passando pelo Rio de Janeiro. É claro que, obviamente, temiam pela insegurança na ex-capital do Brasil.

Um belo dia, alugaram um carro no Rio e da locadora mesmo, rumaram para Paraty. Todos acomodados, música tocando a milhão, bocas mastigando salgadinhos e risos soltos;

...Até que, no trajeto, os carros começaram a parar, Lucas, que estava no banco de trás, se agarrou no seu Ivo:

- Pai! Pai! O que está acontecendo...?!!!!!!

A mãe engasgada e já apavorada:

- Ivo, pelo amor de Deus, fecha as janelas!

- Luquinhas, fica calmo, filho...não há de ser nada...Vamos rezar...

- Não posso, mãe! Não paro de tremer...

Seu Ivo, com o rosto suando e muito branco, pediu calma e segurou firme nas mãos de Dona Bibiana e do Lucas. Mas, logo a realidade veio à tona, quando alguém lhes gritou::

- Corre pra cá, cara! Não fica no carro que é pior! Traz toda a tua família pra junto do muro...Era o motorista de outro carro...

Ofegante e tremendo que nem vara verde, Seu Ivo arrastou a mulher e o filho para junto do muro de concreto, que dividia as pistas da Linha Vermelha. Agachados, ficaram ali, com as balas sibilando sobre as cabeças.

- Obrigado, cara, pela força! Já não sabia o que fazer...

- Eu e minha família também fomos surpreendidos...Sou de São Paulo e me dirigia para Cabo Frio, e vocês?

- Somos gaúchos, de Porto Alegre, íamos conhecer Paraty.

- Não desistam de conhecer Paraty, daqui a pouco este tiroteio vai acabar!

- Se não acabar com a gente...

- Só se os policiais nos atingirem!

- Como assim? Não é guerra de facções?

- Do lado de cá, estão os bandidos, mas como eles têm armamento mais moderno e são bons de tiro, se quisessem nos acertar, já teriam feito. O problema para nós são os que estão do lado oposto, mal armados e só estão acertando no nosso muro de concreto, os policiais.

- Deus do céu!

- Eu vim passear, achando que a intervenção federal teria acabado com a bandidagem, estou perplexo e minha família traumatizada.

- Para acabar com a bandidagem no Brasil, teriam que ter começado por Brasília...

- É verdade!

- Já estilhaçaram os vidros dos nossos carros, será que ainda temos chance de continuar viagem?

- Eu espero que sim!

- Como é seu nome?

- Ivo Cezimbra.

- E o seu?

- Adeodato Medeiros.

- Vocês, são de onde, Ivo?

- Moramos em Porto Alegre, no Condomínio Garden City, um verdadeiro paraíso de tranquilidade.

- E vocês, Adeodato?

- Moramos na Aclimação.

- E lá, é seguro?

- Muito. É um bairro de classe média, não atrai os bandidos.

Depois de terem trocado os números de seus celulares, perceberam que os tiros tinham parado. Estavam, por pelo menos duas horas, acocorados e deitados no chão. Ainda apavorados, começaram a levantar, lentamente. Seu Ivo chamou a mulher e o filho, despediram-se rapidamente da família do Adeodato, e correram para o carro; mesmo com os vidros estilhaçados...seguiram estrada a fora:

- Rio de Janeiro nunca mais!

Saíram da divisa do Rio de Janeiro e deram graças a Deus! No entanto, quando já estavam chegando em Angra dos Reis, foram parados pela P. R. F.

- Graças a Deus, que estamos sendo parados por vocês policiais! Vou lhes contar o que aconteceu. O policial, para surpresa geral, mandou que saíssemos com as mãos na cabeça.

- Policial, o que está acontecendo?

- Vocês estão detidos! Houve um assalto em Duque de Caxias, e a polícia de lá informou que os carros dos assaltantes foram metralhados, tal qual o seu! Dona Bibiana e o Luquinhas choravam copiosamente. Seu Ivo, ficou desesperado, ao vê-los assim, depois de tudo que passaram na Linha Vermelha.

O policial, então, levou-os para a guarita da PRF, e os obrigaram, em silêncio, a aguardar o chefe da guarnição.

Depois de quase uma hora, chegou uma viatura da PRF, com o tal chefe. Seu Ivo aproveitou para falar:

- Senhor! Senhor! Deve estar havendo um terrível engano...E, ouviu:

- Cale a boca! Eu não lhe autorizei a falar! Enquanto isso, a mulher e o filho  não paravam de chorar, agarrados no Seu Ivo. Até que finalmente, o chefe da PRF o autorizou a falar:

- Senhor, nós somos turistas de Porto Alegre e, pela manhã, passando pela Linha Vermelha, fomos surpreendidos por um grande tiroteio. Nossa única alternativa foi buscar abrigo no muro de concreto que separa as duas pistas. Quando, finalmente, cessou o tiroteio, partimos para nosso destino, que é visitar Paraty.

- O Senhor tem alguma testemunha, que possa confirmar o que está me dizendo?

- As pessoas que passaram o que nós passamos, tão logo cessou o tiroteio saíram, como nós, apavoradas e fugindo o mais rápido possível.

- Então, o Senhor, não tem alguém que possa confirmar sua versão?

- Sim! Sim!, Alguém nos ajudou, quando a situação estava incontrolável.

- O Senhor tem o nome dessa pessoa?

- Sim! Não só o nome, como o telefone cellular.

O Chefe da PRF fez a ligação e foi atendido pelo próprio Adeodato...

Em seguida. os liberou.

Saíram de lá, abraçados, e prometendo voltar o mais rápido possível, para a tranquilidade do Garden City.

No caminho, o celular do Seu Ivo tocou:

- Eu atendo, Ivo!

- Alô! É a Bibiana, Adeodato!

- Sim! Sim! Estamos bem!

- O Ivo tá dirigindo, sim! Muito obrigada, viu? Olha, já te consideramos um grande amigo! ?- O Ivo manda um abraço também! Luquinhas, idem!?? Depois disso, durante o trajeto de retorno:

- Sabem o que aprendi com toda essa nossa "aventura"...??- Fala, pai!!!?- Olha, filho, entendi o quanto vocês são importantes pra mim. E que não existe um lugar seguro ou sem problemas.? Sabe, tudo na vida é impermanente e transitório. Esse senhor, o Adeodato, nem nos conhece direito e ligou pra saber se estamos bem...?- Isso é maravilhoso!?- A amizade, o amor, a união nos momentos cruciais.

- Paiê! Mãeeê! Tive muito medo! Mas, acho que amo vocês até o infinito! ??Seu Ivo sorriu e seus olhos "marejaram águas salgadas das praias do Rio".?    ??

 
 
Escrito por Saint Clair Nickelle, 07/03/2018 às 09h39 | sannickelle@gmail.com

Olimpíada Campeira

Naquela mateada de domingo, estávamos conversando sobre a Olimpíada de inverno, que se disputava na Coréia do Sul, quando seu Gumercindo passou a falar da primeira Olimpíada Campeira, realizada em Bagé:

- Eu era piazito, mas acompanhei meu pai e meu avô naquele acontecimento, que reuniu gente do Brasil, da Argentina e do Uruguai. Na corrida de cancha reta, um tio meu, seu Godofredo, ganhou a medalha de ouro.

- O que consistia a corrida de cancha reta?

- Os ginetes, em plena lida campeira, se desafiavam. Muitas vezes, no retorno das campeiradas, tiravam cismas de quem possuía o cavalo mais rápido. Daí surgiram as corridas nos campos com os cavalos da própria lida, chamados crioulos. Com o passar dos tempos, foram criando disputas em canchas retas de 260 e até de 400m, não com os cavalos de trabalho, mas sim com os melhores da estância.

- Mas, voltando à disputa onde o perdedor Juan Ortiz, uruguaio de Rivera, não se conformara com a derrota e passou a ofender os juízes. Dizia ele que os juízes roubaram, já que eles terminaram focinho com focinho, ou seja, no mínimo o empate teria sido o mais justo. Ali começou o primeiro arranca rabo, pois um dos juízes, Dr. Marco Antônio Borges de Medeiros, sentindo-se ofendido, puxou do trabuco e queria matar o uruguaio safado, como dizia ele, aos berros; só não atirou porque a turma dos deixa-disso conseguiu contê-lo. Mas, dali pra frente o clima ficou pesado, tanto é que algumas mulheres levaram seus rebentos para a segurança do lar.

- Seu Gumercindo, e que outras modalidades foram disputadas?

- Olha pessoal, uma que foi muito disputada e concorrida, até pelas apostas em dinheiro, foi a do jogo do osso.

- Jogo do osso? O que é isso seu Gumercindo?

- O Jogo do Osso, é de origem asiática, muito praticado na região da fronteira do Rio Grande do Sul. O jogo chegou à Bacia do Prata através dos espanhóis. Uma prova de sua procedência platina, seja pelo nordeste argentino, seja pelo Uruguai, é o fato de conservar o jogo até hoje. Até os termos ainda conservam a terminologia da língua castelhana, tais como SUERTE, CULO e CLAVADA.

- Que tipo de osso é esse?

- É o osso do garrão do boi...

- E, como se joga, seu Gumercindo?

- Sobre uma cancha plana de 7m, no mínimo, e de 9m no máximo, equipes de até quatro picadores ou jogar sozinho e concorrer apenas na pontuação individual, contabilizam a posição que o osso ou TAVA cai. Uma vez jogado o osso, conforme a maneira que cai, dá SUETRE ou CULO, isto é ganha ou perde a pessoa que o atira. Quando o osso cai sobre uma das extremidades, e fica assim em pé ou inclinado, dá-se o que se chama de CLAVADA.

- E, como se contabiliza os pontos, tchê?

- SUERTE CLAVADA 2 pontos positivos;

- SUERTE CORRIDA 1 ponto positivo;

- CULO CLAVADO 2 pontos negativos;

- CULO CORRIDO 1 ponto negativo.

- Naquela Olimpíada, quando os contentores estavam na última bateria, disputavam o Josias, o João e o Calinhos pelo lado brasileiro e, pelo lado argentino, o Carbajal, o Ortega e o Ignácio.

A disputa deles ficou mais acirrada, pois além das medalhas em jogo, corria por fora, uma grande soma em dinheiro das apostas. Para ambos havia promessa de uma guaiaca cheia de grana, fato que esganiçou a disputa dos contendores e dos que os apoiavam.

- Como se sabe, meu sogro, o lado certo do osso para aferir a pontuação?

- Caro Clóvis, de um lado do osso é fixada uma chapa de bronze que corresponde a SUERTE, do lado oposto uma de ferro  que corresponde ao CULO, assim, após ter sido arremessado é a posição da TAVA no solo, cravada ou não, que define se será sorte ou culo.

- E a Olimpíada Campeira se resumia apenas nessas duas modalidades?

- Claro que não, havia disputa de laço, de tiro, de arremesso de boleadeira, de montagem e desmontagem de arreios, de doma, etc...

- Então, foram necessários vários dias para completar a maratona de disputas olímpicas campeiras?

- Sim e não!

- Como assim, seu Gumercindo?

- Aconteceu o que ninguém esperava, após a disputa do jogo de osso.

- E esse acontecimento foi muito grave?

- Se foi! Acabou com a primeira olimpíada campeira.

- Mas, o que de tão grave aconteceu?

- O Brasil estava a frente da Argentina por um ponto, mas a última jogada era dos hermanos. A TAVA estava na mão do Carbajal, que suava frio, pois se desse SUERTE ganhavam a medalha de ouro e a guaiaca recheada de pilas. Logo que arremessou, ouviu-se do juiz responsável pela guarda do dinheiro das apostas:

- PESSOAL O DINHEIRO SUMIU!...O osso girou no ar como se tivesse em câmara lenta, e todos os olhares esqueceram aquela trajetória,  que, finalmente tocou o picadeiro da cancha plana. Mas, perplexos os apostadores passaram a se empurrar, exigindo uma explicação. A confusão foi tal que acabaram esquecendo da TAVA, só queriam saber da grana.

- No entanto, os juízes e os contendores se agruparam em volta da peça, que definiria o campeão daquela modalidade olímpica. Ao se aproximar da TAVA o juiz brasileiro, Sérgio Sandin Medeiros, tocou-a com a ponta da bota, gerando uma pequena inclinação  na mesma, que seria  CULO CLAVADO. Com isso a equipe brasileira seria campeã, mas os Hermanos partiram pra cima da nossa equipe e do juiz. Facões e adagas brilhavam no ar, desferindo-se golpes mortais pelos dois lados. Não houve quem os apartasse e a peleja se estendeu pelos apoiadores. Naquela confusão generalizada, o juiz responsável pela guarda do dinheiro das apostas, subiu no alambrado e gritou para a turba enfurecida:

- PESSOAL, A BOLSA DO DINHEIRO FOI ENCONTRADA...

- O seu Curra achou!

- Como num passe de mágica, a peleja acabou e os contendores foram beber para esquecer a tragédia da Primeira Olimpíada Campeira.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 21/02/2018 às 11h45 | sannickelle@gmail.com

Um carnaval inesquecível

 Em conversa amistosa com meu sogro, seu Gumercindo, um dos moradores mais antigos do Garden City, fiquei sabendo que já tinha havido um carnaval que mobilizou todos os moradores. Isso veio a tona, depois que o Síndico, seu Fabiano, resolveu ressuscitar um carnaval que envolvesse toda a comunidade; dizia, com jeito orgulhoso, querer marcar sua gestão pela alegria, mas como todo mundo sabe a última grande festa, a de Natal, foi um grande desastre.

Perguntei ao seu Gumercindo:

- Como foi organizado aquele carnaval, que os mais antigos não cansam de lembrar?

- Olha Clóvis, foi muito espontâneo e criativo, graças a sugestão do carnavalesco Paulão, morador da Restinga; esposa trabalhava no Condomínio. Ele sugeriu que cada acesso, são sete ao todo, organizasse um bloco que teria por tema a música de carnaval escolhida. As fantasias, também, estariam de acordo com a marchinha escolhida.

- E, os moradores corresponderam, meu sogro?

- Sim! Eles até nos surpreenderam!

- Havia algum júri para julgar os blocos carnavalescos?

- Sim! Na Praça Central foi montado um pequeno palanque, onde o síndico, na ocasião, se não me falha a memória era o falecido seu Agenor, e alguns convidados especiais, como a dona Clarice e o pintor Voldinei Lucas, que juntos com os membros da diretoria do Garden City compunham o júri.

- E aí? Correu tudo bem?

- De um modo geral, sim.

- O que o Senhor quer dizer com esse “...de um modo geral...”?

- Até então, não tínhamos um conhecimento muito apurado dos moradores, especialmente em ocasiões em que a bebida pode ser um diferencial...

- Como assim?

- O acesso 6, lá dos fundos do Condomínio, sob o comando do Sebastião, marido da dona Valquíria, escolheu como música enredo “CACHAÇA NÃO É ÁGUA”, cuja letra começa:

Você pensa que cachaça é água

Cachaça não é água não

Cachaça vem do alambique

E água vem do ribeirão”

- Todo o bloco portava garrafas na mão, e as fantasias típicas de bêbados de rua, esfarrapados e sujos se apresentavam bebendo e jogando o líquido no público. O que não se sabia é que o liquido não era água e, sim, cachaça. Para alguns moradores e visitantes isso pareceu normal, mas nem todos queriam sair fedendo de cachaça vagabunda. Nós, integrantes do Júri, imaginávamos que eles estariam jogando água perfumada, mas não aguardente, e do mais ordinário! É claro que eles foram desclassificados!!!!

O carnaval só não acabou ali, porque eles foram os últimos a desfilar.

- Esse foi o único incidente?

- Não, mas deixa pra depois, que eu conto!

 

  

 

- Prosseguindo com a prosa, o primeiro bloco a desfilar foi o acesso 1, com o enredo: “AS PASTORINHAS”

A estrela d'alva no céu desponta

E a lua anda tonta com tamanho esplendor

E as pastorinhas pra consolo da lua

Vão cantando na rua lindos versos de amor

- Todo o bloco, muito bem concebido, onde predominavam jovens e crianças encantaram o público, bem como os jurados…

 

- O acesso 2, veio com a música enredo: Allah - lá - ô

“Allah – lá- ô ô ô ô ô ô

Mas que calor, ô ô ô ô ô ô

Atravessamos o deserto do Saara

O sol estava quente

Queimou a nossa cara”

- Seus componentes, todos vestidos de árabes, deram um show de bom gosto, com seus turbantes, roupas coloridas e esvoaçantes, além do rítmo e da interpretação musical. Acabaram tirando o primeiro lugar.

- E, os demais acessos?

- O acesso 3, também mereceu esfusiantes aplausos com a música enredo “CABELEIRA DO ZEZÉ” :

Olha a cabeleira do zezé

Será que ele é

Será que ele é

Será que ele é bossa nova

Será que ele é maomé

Parece que é transviado

Mas isso eu não sei se ele é

- Todo bloco composto só de rapazes, mas vestidos de mulheres, arrasaram tirando homens, que assistiam, para dançar e pedir em namoro. Esse humorismo saudável, hoje seria criticado, mas naquela época ainda não havia tantas restrições.

- E, os demais acessos, como se saíram?

- Olha Clóvis, muito entusiasmo, mas pouca criatividade.

- Antes de encerrar nossa conversa, o que o Senhor teria para completar a respeito do bloco do acesso 6?

- Pois é, caro genro, aquele grupo, com raras exceções, não aceitaram a desclassificação, principalmente pela violência do Sebastião, que queria bater nos membros do Júri, que só não virou em pancadaria porque o pessoal percebeu a embriaguez do morador. De qualquer forma isso marcou aquela festa, ao ponto de nunca mais ter se repetido um carnaval  no Garden City.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 14/02/2018 às 10h45 | sannickelle@gmail.com



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Saint Clair Nickelle

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.


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