Jornal Página 3
Coluna
Ex pressão
Por Caroline Cezar

Automático midiático #cuidado

Você que tá ali assistindo o jornal da tevê, lendo o noticiário on line, ou ainda bradando comentários no facebook, e manda aquele tradicional “teve o que merece” ao saber sobre meninas violentadas e coisa do tipo, mais cuidado e atenção. Absolutamente nenhum, NEM UM motivo serve de justificativa para alguém invadir e violentar outro corpo sem o devido consentimento.


Desligue o automático no “teve o que merece” porque seus filhos que estão aí do lado enquanto você repete essas barbáries vão achando que é normal abusar da colega na festinha “porque estava bêbada”; que tudo bem passar a mão na menina “porque ela estava com saia curta”; que podem ter relações com a esposa por bem ou por mal, porque ela “é sua e lhe deve isso”; que tá tranquilo espancar prostitutas, mulheres da rua ou quem entenderem que é “vadia” por passatempo.


Não invertam os valores, porque educação não é discurso, é prática cotidiana. Pode ir na missa domingo e em casa no almoço falar que é bonito respeitar os outros, mas se nesses momentos de impulso midiático você embarca e solta as suas, está deseducando para o amor.

 

Justificativa pra abuso não falta, o que falta é uma educação sexual mais livre, natural e sagrada e não essa distorção que acaba em casos como esses. Falta exercitar o respeito, conversar abertamente e entender que todo corpo é um templo e que ninguém tem direito de desrespeitar isso.  Ainda fico perplexa em como a sociedade pode achar que alguém “teve o que merecia” quando uma pessoa é ferida profundamente com um abuso sexual e emocional. Um espancamento na alma, geralmente complementado com muitos hematomas pelo corpo. Essas vítimas geralmente encontram uma polícia despreparada, uma família que não as apóia, e uma centena de pessoas que as julgam porque elas “tiveram o que procuraram”. Não é de se admirar que muitas vezes guardem o segredo doloroso só pra si e uma ou outra confidente, o que torna o fardo ainda pior.

 

Elas não estão bem assistidas e muitas vezes já têm um histórico de abandono emocional, que vai se agravando até que viram esses fiapos de vida que a gente vê todo dia mas finge que não vê. Tem uns aí cheio de moral que fingem que não pegam. O que é mais desvio de comportamento, agredir (muitas vezes até uma quase morte) ou ser agredida?

Pra quem acha que acontece só “em beira de estrada” tá enganado, tem muita mulher “estudada e esclarecida” que esconde o que passou porque se acha culpada. 

 

Nem marido, nem filho, nem estranho, nem quem paga tem direito sobre o corpo alheio. A violência sexual é socialmente aceita e aí sim temos um grave desvio de comportamento. E corre lá todo mundo comprar presentinho pras mulher no shopping e não se fala mais nisso.

 

Texto originalmente publicado na coluna ex pressão impressa, em 08 de março de 2014

Escrito por Caroline Cezar, 14/03/2014 às 09h21 | carol.jp3@gmail.com



Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.














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Você que tá ali assistindo o jornal da tevê, lendo o noticiário on line, ou ainda bradando comentários no facebook, e manda aquele tradicional “teve o que merece” ao saber sobre meninas violentadas e coisa do tipo, mais cuidado e atenção. Absolutamente nenhum, NEM UM motivo serve de justificativa para alguém invadir e violentar outro corpo sem o devido consentimento.


Desligue o automático no “teve o que merece” porque seus filhos que estão aí do lado enquanto você repete essas barbáries vão achando que é normal abusar da colega na festinha “porque estava bêbada”; que tudo bem passar a mão na menina “porque ela estava com saia curta”; que podem ter relações com a esposa por bem ou por mal, porque ela “é sua e lhe deve isso”; que tá tranquilo espancar prostitutas, mulheres da rua ou quem entenderem que é “vadia” por passatempo.


Não invertam os valores, porque educação não é discurso, é prática cotidiana. Pode ir na missa domingo e em casa no almoço falar que é bonito respeitar os outros, mas se nesses momentos de impulso midiático você embarca e solta as suas, está deseducando para o amor.

 

Justificativa pra abuso não falta, o que falta é uma educação sexual mais livre, natural e sagrada e não essa distorção que acaba em casos como esses. Falta exercitar o respeito, conversar abertamente e entender que todo corpo é um templo e que ninguém tem direito de desrespeitar isso.  Ainda fico perplexa em como a sociedade pode achar que alguém “teve o que merecia” quando uma pessoa é ferida profundamente com um abuso sexual e emocional. Um espancamento na alma, geralmente complementado com muitos hematomas pelo corpo. Essas vítimas geralmente encontram uma polícia despreparada, uma família que não as apóia, e uma centena de pessoas que as julgam porque elas “tiveram o que procuraram”. Não é de se admirar que muitas vezes guardem o segredo doloroso só pra si e uma ou outra confidente, o que torna o fardo ainda pior.

 

Elas não estão bem assistidas e muitas vezes já têm um histórico de abandono emocional, que vai se agravando até que viram esses fiapos de vida que a gente vê todo dia mas finge que não vê. Tem uns aí cheio de moral que fingem que não pegam. O que é mais desvio de comportamento, agredir (muitas vezes até uma quase morte) ou ser agredida?

Pra quem acha que acontece só “em beira de estrada” tá enganado, tem muita mulher “estudada e esclarecida” que esconde o que passou porque se acha culpada. 

 

Nem marido, nem filho, nem estranho, nem quem paga tem direito sobre o corpo alheio. A violência sexual é socialmente aceita e aí sim temos um grave desvio de comportamento. E corre lá todo mundo comprar presentinho pras mulher no shopping e não se fala mais nisso.

 

Texto originalmente publicado na coluna ex pressão impressa, em 08 de março de 2014

Escrito por Caroline Cezar, 14/03/2014 às 09h21 | carol.jp3@gmail.com



Caroline Cezar

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É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.