Jornal Página 3
Coluna
Ex pressão
Por Caroline Cezar

Largar ou pegar?

Eu tava ali à toa quando escutei as vozes no pátio do vizinho. Não mora ninguém ali, só vêm de vez em quando, mas tudo está sempre bem cuidado. Já tinha visto eles, que fazem a limpeza, no terreno do outro lado. Daquela vez tinha tanto mato, tanto mato, que eles levaram uns três dias inteiros pra dar conta. Foi bom ficar olhando.

 

Eles vêm em quatro: pai, mãe, a filha de uns oito, o filho de uns cinco. Volta e meia um vira-lata acompanha. As crianças não tem uma função específica, ficam junto, quebrando um galho aqui outro ali, vendo os pais fazer a poda, passar o rastelo. Conversando. Perguntando. Ouvindo. Há um respeito mútuo na maneira que eles falam uns com os outros. Há o tempo disponível e o ensinamento nas entrelinhas, sem aquele aspecto formal que mais inibe do que convida a aprender algo sobre a vida.


Tô até vendo o 'politicamente correto' gritando lá de longe que é exploração infantil, porque o certo pra nossa sociedade torta seria eles estarem em casa vendo tevê e comendo bolacha, confere?

 

Me fez lembrar um outro dia que caminhamos na praia. Nublado, chuva fraca, areia completamente deserta, se não fosse o casal de pássaros cuidando dos seus filhotes e mais uma família com duas crianças pequenas. Eles, os das asas, gritavam pra gente e voavam pro outro lado, não entendemos o escarcéu até que o marido biólogo confirmou: a idéia era desviar nossa atenção da restinga, porque os bebês-pássaros já nasceram, mas não sabiam voar. Fazia dias que observávamos o casal de pássaros, que vieram pra cá em busca de um sossego pra procriar.
Fiquei pensando muito tempo em quão linda era aquela cena -que bem que podia ser mais cotidiana e menos rara: pai e mãe protegendo seus filhos das interferências desnecessárias, pai e mãe levando seus quase-bebês para caminhar na areia num dia de chuva. Eles iam caminhando de mãos dadas, rindo, sentindo o vento, olhando em volta. Eram simples, tinham um carro caindo aos pedaços, mas estavam dispostos para a vida.

 

Mas diriam os mais-do-mesmo que o "certo" seria aquelas crianças estarem abrigadas dentro de casa comendo bolacha e vendo um filminho. Enquanto os pássaros protegem os bebês dos intrusos, nós colocamos o intruso no centro da sala e consideramos que assim, nossas crianças estão "seguras" e "bem assistidas". Pra que tevê com essa vida gritando lá fora?

 

Estava em dúvida se a flor era mesmo a Onze Horas e os pedreiros asseguraram que não, não era mesmo porque a flor verdadeira é pontual, abre na hora certa. Eles, irmãos, lembraram que eram muito pequenos, não sabiam ver a hora no relógio, só pelo sol e pela flor. E ai deles se a mãe chegasse da rua e o fogão à lenha não estivesse aceso! Eles tinham 4 e 6 anos quando calculavam a hora pela natureza.

 

Eu assisto em todas as temporadas a indignação coletiva sobre os índios nas calçadas e como é "degradante" que eles exponham suas crianças assim, "sentadas no chão". Sobre isso queria dizer: sentar no chão é um hábito indígena. Se você visitar qualquer país onde essa cultura não foi 'tão' dizimada -Bolívia, Peru, Andes- vai ver que a vida toda acontece na calçada: ali tem gente cozinhando, vendendo, brincando, amamentando e seja mais o que for. A cidade é das pessoas e não dos lojistas. E as pessoas deviam poder sentar no chão sim. Concordo que é necessária uma organização, mas não vejo ninguém tão ofendido com os bares que ocupam as calçadas com cadeiras. Ou com os bêbados estacionados ouvindo som alto.

 

Ponto 2 e que veio de encontro com o resto do texto: as indígenas levam as crianças não é pra pedir esmola não. Pode ser que aconteça, mas eu nunca vi um índio pedir esmola, nunca. Esse pensamento é típico da cultura urbana, onde o "normal" é largar os filhos: na creche, com a babá, na tevê, no computador, na escola disso e daquilo, com os outros, pouco com a mãe, nunca em casa, nunca junto. As índias não só se encarregam de parir naturalmente, como aleitam os bebês a livre demanda, e carregam sua cria pra onde forem. Talvez seja algo que possa se aprender.

 

Escrito por Caroline Cezar, 28/02/2014 às 09h31 | carol.jp3@gmail.com



Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.














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Eu tava ali à toa quando escutei as vozes no pátio do vizinho. Não mora ninguém ali, só vêm de vez em quando, mas tudo está sempre bem cuidado. Já tinha visto eles, que fazem a limpeza, no terreno do outro lado. Daquela vez tinha tanto mato, tanto mato, que eles levaram uns três dias inteiros pra dar conta. Foi bom ficar olhando.

 

Eles vêm em quatro: pai, mãe, a filha de uns oito, o filho de uns cinco. Volta e meia um vira-lata acompanha. As crianças não tem uma função específica, ficam junto, quebrando um galho aqui outro ali, vendo os pais fazer a poda, passar o rastelo. Conversando. Perguntando. Ouvindo. Há um respeito mútuo na maneira que eles falam uns com os outros. Há o tempo disponível e o ensinamento nas entrelinhas, sem aquele aspecto formal que mais inibe do que convida a aprender algo sobre a vida.


Tô até vendo o 'politicamente correto' gritando lá de longe que é exploração infantil, porque o certo pra nossa sociedade torta seria eles estarem em casa vendo tevê e comendo bolacha, confere?

 

Me fez lembrar um outro dia que caminhamos na praia. Nublado, chuva fraca, areia completamente deserta, se não fosse o casal de pássaros cuidando dos seus filhotes e mais uma família com duas crianças pequenas. Eles, os das asas, gritavam pra gente e voavam pro outro lado, não entendemos o escarcéu até que o marido biólogo confirmou: a idéia era desviar nossa atenção da restinga, porque os bebês-pássaros já nasceram, mas não sabiam voar. Fazia dias que observávamos o casal de pássaros, que vieram pra cá em busca de um sossego pra procriar.
Fiquei pensando muito tempo em quão linda era aquela cena -que bem que podia ser mais cotidiana e menos rara: pai e mãe protegendo seus filhos das interferências desnecessárias, pai e mãe levando seus quase-bebês para caminhar na areia num dia de chuva. Eles iam caminhando de mãos dadas, rindo, sentindo o vento, olhando em volta. Eram simples, tinham um carro caindo aos pedaços, mas estavam dispostos para a vida.

 

Mas diriam os mais-do-mesmo que o "certo" seria aquelas crianças estarem abrigadas dentro de casa comendo bolacha e vendo um filminho. Enquanto os pássaros protegem os bebês dos intrusos, nós colocamos o intruso no centro da sala e consideramos que assim, nossas crianças estão "seguras" e "bem assistidas". Pra que tevê com essa vida gritando lá fora?

 

Estava em dúvida se a flor era mesmo a Onze Horas e os pedreiros asseguraram que não, não era mesmo porque a flor verdadeira é pontual, abre na hora certa. Eles, irmãos, lembraram que eram muito pequenos, não sabiam ver a hora no relógio, só pelo sol e pela flor. E ai deles se a mãe chegasse da rua e o fogão à lenha não estivesse aceso! Eles tinham 4 e 6 anos quando calculavam a hora pela natureza.

 

Eu assisto em todas as temporadas a indignação coletiva sobre os índios nas calçadas e como é "degradante" que eles exponham suas crianças assim, "sentadas no chão". Sobre isso queria dizer: sentar no chão é um hábito indígena. Se você visitar qualquer país onde essa cultura não foi 'tão' dizimada -Bolívia, Peru, Andes- vai ver que a vida toda acontece na calçada: ali tem gente cozinhando, vendendo, brincando, amamentando e seja mais o que for. A cidade é das pessoas e não dos lojistas. E as pessoas deviam poder sentar no chão sim. Concordo que é necessária uma organização, mas não vejo ninguém tão ofendido com os bares que ocupam as calçadas com cadeiras. Ou com os bêbados estacionados ouvindo som alto.

 

Ponto 2 e que veio de encontro com o resto do texto: as indígenas levam as crianças não é pra pedir esmola não. Pode ser que aconteça, mas eu nunca vi um índio pedir esmola, nunca. Esse pensamento é típico da cultura urbana, onde o "normal" é largar os filhos: na creche, com a babá, na tevê, no computador, na escola disso e daquilo, com os outros, pouco com a mãe, nunca em casa, nunca junto. As índias não só se encarregam de parir naturalmente, como aleitam os bebês a livre demanda, e carregam sua cria pra onde forem. Talvez seja algo que possa se aprender.

 

Escrito por Caroline Cezar, 28/02/2014 às 09h31 | carol.jp3@gmail.com



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