Jornal Página 3
Coluna
Ex pressão
Por Caroline Cezar

Escola é pra aprender o quê?

Deu um nervoso atípico esse início de ano letivo: o calor excessivo, -sem intenção de soar lamentosa e repetitiva-, somado à jornadas de amamentação, cuidados caseiros e exercício materno em três diferentes faixas etárias potencializou os questionamentos internos. A mente como um furacão. O que resta senão respirar e sair de si para analisar mais a frio o que passa?


Tem os agravantes, mas sim, deve ter algo errado, não podem ser só efeitos colaterais do tempo e esforço. Porque dá trabalho, mas trabalho a gente guenta, cansa, mas do cansaço se refaz, o problema é quando a coisa vai para um lado que a gente não acredita.


Faz anos que não entendo o mecanismo. Pra que raio de taxa de matrícula se os filhos já estão matriculados, desde pequenininhos, na mesma escola? E se tem um motivo plausível, por que dão esse nome que não explica pra que serve esse dinheiro? Essa é só a primeira taxa, de muitas que se seguem depois, e todo ano tem reajuste de tantos por cento. De taxas, mas não de postura.


É louvável que ainda se usem livros para estudar, mas há anos que me pergunto o que faço com os livros do ano passado -livros não, “apostilas”, que na sua maioria devem ir em toneladas para o lixo comum nos finais de anos. Alguém se pergunta o que se faz afinal com as apostilas de seiscentos reais? São caros os livros das escolas, mais caros que os livros de verdade e que não são usados nas pesquisas -para isso temos o google?


As cantinas das escolas, em sua maioria, vendem coisas que não comemos em casa. Os amigos da escola, em sua maioria, têm hábitos que não temos em casa. Na escola se pratica o desperdício, o consumo, a comparação, a segregação, a competição. Os uniformes escolares são vendidos apenas em um ou dois “pontos de venda” por preços exorbitantes. Me dá aqui esse quarentão que faço três camisetas bordadas.


As apresentações escolares pedem dinheiro para mais roupa, mais enfeite, e algumas vezes até para entrada dos pais no recinto. As homenagens são baseadas em comprar alguma coisa inútil pra dar a alguém entediado. As campanhas solidárias são sempre tão pobres, “traga um presente em bom estado, nem veja a quem oferece e continue esbanjando o ano inteiro; sem culpa”.


Pouco se fala em reutilizar. Pouco se ensina a usar o que tem. Nunca se fala em não ter. Nada se conversa, porque precisa dar toda matéria. Pra que perder tempo com o que não cai no vestibular?


Os estacionamentos escolares, DIARIAMENTE, são o pior retrato que se pode ver de uma falta de educação explícita e escancarada, de pais que não se importam em mostrar na prática o quanto estão se lixando para a teoria das boas maneiras em sociedade que as escolas ensinam nas suas aulas de atravessar na faixa.


Conviver com o diferente é enriquecedor, mas será que essa convivência não está muito baseada no sentido mais raso da palavra, no tem-que-ter? A menina, que pouco circula nos shoppings teve um mini-chilique porque não queria entrar na escola com a mochila “velha”. Não queria usar as canetinhas “velhas”. Não queria usar as coisas “velhas” porque todas as amigas têm as coisas da moda. Ela tem oito anos!!


Em quanto a escola, com suas listas homéricas, colabora para a formação de valor do que realmente importa? E os pais, o quanto colaboram, ao comprar tudo novo a cada ano, de preferência pagando o triplo porque tem personagem na capa? Será que não seria saudável uma reflexão coletiva, baseada menos em consumo e mais em essência? Como se educa para o amor? Como fazer o conteúdo valer a pena?


Eu sei que existe escola pública. Onde falta o uniforme, falta o material, falta o professor, que ganha mal e não é valorizado (na particular é?). Falta respeito, porque cargo de confiança é costa-quente. Falta vaga, se não acordar na madrugada. Mas e na escola particular, que sobra tudo? O que é pior?

 

Não é intenção pichar a escola porque ela só é mais um retrato da sociedade. A sociedade que não se preocupa em pagar caro porque quer um lugar para despejar os filhos e “ter um pouco de paz”. Mas esse retrato soa tão evidente, me sinto inconformada, me inquieto. Pra mim não tá bom não.

Escrito por Caroline Cezar, 19/02/2014 às 07h33 | carol.jp3@gmail.com



Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.














Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br

Página 3
Ex pressão
Por Caroline Cezar

Escola é pra aprender o quê?

Deu um nervoso atípico esse início de ano letivo: o calor excessivo, -sem intenção de soar lamentosa e repetitiva-, somado à jornadas de amamentação, cuidados caseiros e exercício materno em três diferentes faixas etárias potencializou os questionamentos internos. A mente como um furacão. O que resta senão respirar e sair de si para analisar mais a frio o que passa?


Tem os agravantes, mas sim, deve ter algo errado, não podem ser só efeitos colaterais do tempo e esforço. Porque dá trabalho, mas trabalho a gente guenta, cansa, mas do cansaço se refaz, o problema é quando a coisa vai para um lado que a gente não acredita.


Faz anos que não entendo o mecanismo. Pra que raio de taxa de matrícula se os filhos já estão matriculados, desde pequenininhos, na mesma escola? E se tem um motivo plausível, por que dão esse nome que não explica pra que serve esse dinheiro? Essa é só a primeira taxa, de muitas que se seguem depois, e todo ano tem reajuste de tantos por cento. De taxas, mas não de postura.


É louvável que ainda se usem livros para estudar, mas há anos que me pergunto o que faço com os livros do ano passado -livros não, “apostilas”, que na sua maioria devem ir em toneladas para o lixo comum nos finais de anos. Alguém se pergunta o que se faz afinal com as apostilas de seiscentos reais? São caros os livros das escolas, mais caros que os livros de verdade e que não são usados nas pesquisas -para isso temos o google?


As cantinas das escolas, em sua maioria, vendem coisas que não comemos em casa. Os amigos da escola, em sua maioria, têm hábitos que não temos em casa. Na escola se pratica o desperdício, o consumo, a comparação, a segregação, a competição. Os uniformes escolares são vendidos apenas em um ou dois “pontos de venda” por preços exorbitantes. Me dá aqui esse quarentão que faço três camisetas bordadas.


As apresentações escolares pedem dinheiro para mais roupa, mais enfeite, e algumas vezes até para entrada dos pais no recinto. As homenagens são baseadas em comprar alguma coisa inútil pra dar a alguém entediado. As campanhas solidárias são sempre tão pobres, “traga um presente em bom estado, nem veja a quem oferece e continue esbanjando o ano inteiro; sem culpa”.


Pouco se fala em reutilizar. Pouco se ensina a usar o que tem. Nunca se fala em não ter. Nada se conversa, porque precisa dar toda matéria. Pra que perder tempo com o que não cai no vestibular?


Os estacionamentos escolares, DIARIAMENTE, são o pior retrato que se pode ver de uma falta de educação explícita e escancarada, de pais que não se importam em mostrar na prática o quanto estão se lixando para a teoria das boas maneiras em sociedade que as escolas ensinam nas suas aulas de atravessar na faixa.


Conviver com o diferente é enriquecedor, mas será que essa convivência não está muito baseada no sentido mais raso da palavra, no tem-que-ter? A menina, que pouco circula nos shoppings teve um mini-chilique porque não queria entrar na escola com a mochila “velha”. Não queria usar as canetinhas “velhas”. Não queria usar as coisas “velhas” porque todas as amigas têm as coisas da moda. Ela tem oito anos!!


Em quanto a escola, com suas listas homéricas, colabora para a formação de valor do que realmente importa? E os pais, o quanto colaboram, ao comprar tudo novo a cada ano, de preferência pagando o triplo porque tem personagem na capa? Será que não seria saudável uma reflexão coletiva, baseada menos em consumo e mais em essência? Como se educa para o amor? Como fazer o conteúdo valer a pena?


Eu sei que existe escola pública. Onde falta o uniforme, falta o material, falta o professor, que ganha mal e não é valorizado (na particular é?). Falta respeito, porque cargo de confiança é costa-quente. Falta vaga, se não acordar na madrugada. Mas e na escola particular, que sobra tudo? O que é pior?

 

Não é intenção pichar a escola porque ela só é mais um retrato da sociedade. A sociedade que não se preocupa em pagar caro porque quer um lugar para despejar os filhos e “ter um pouco de paz”. Mas esse retrato soa tão evidente, me sinto inconformada, me inquieto. Pra mim não tá bom não.

Escrito por Caroline Cezar, 19/02/2014 às 07h33 | carol.jp3@gmail.com



Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.