Jornal Página 3
Coluna
Ex pressão
Por Caroline Cezar

"Brasileiras adoram cesárea" ?

 

Recebi aqui no email um artigo com esse título:
“MEDO DA DOR E SENSAÇÃO DE SEGURANÇA, NÃO PRESSÃO MÉDICA, LEVAM BRASILEIRA A MARCAR CESARIANA”


Empurrar para as mulheres o peso desse título é cretino e tendencioso. Isso é uma questão grave e complexa de saúde pública que precisa ser revista com urgência. O email chegou por uma assessoria de imprensa que não diz a quem assessora, mas se apóia na pesquisa realizada pelo Baby Center, “maior site de gravidez e maternidade do mundo”, como descreve o texto, que oferece infográficos, e ressalta apenas os pontos que fortalecem o título, ou fatos superficiais. “Elas ficaram muito satisfeitas”. “Maioria fez a unha, depilação e cabelos antes de parir”. “As mulheres estão mais contentes do que imaginávamos”.


Outras questões da pesquisa, que pode ser conferida na íntegra no site não tiveram destaque: “maioria não sabe que tipo de anestesia tomou”; “grande número não pôde ficar com seus acompanhantes”; “só 4 entrevistadas (das quase duas mil) tiveram seus bebês em casa”.


E isso: “Mais de um terço (36%) das que optaram com antecedência pela cesárea citaram como motivo o medo do parto normal. Outro terço (31%) afirmou ter preferido a cirurgia eletiva por acreditar que era mais seguro para o bebê”. Depoimentos: “O médico não me encorajou ao parto normal, dizendo que o hospital que eu queria era longe e poderia não ter vaga.”/ “A impressão que tenho é que não existem tantos médicos prontos para um parto normal.”/ “Medo de acontecer alguma coisa errada e eu perder meu filho”.

Fonte: www.facebook.com/orenascimentodoparto


E então, por que a brasileira tem tanto medo? É ela mesma quem decide? Como se não fosse nada, o texto cita brevemente que quase 80% dos nascimentos particulares no Brasil acontecem por cirurgias, mesmo que a OMS indique de 10 a 15% como taxa aceitável, mas tudo bem, “elas estão muito satisfeitas, e não são os médicos que pressionam”. Esse release faz mais do mesmo, elimina o contexto e a gravidade do assunto e diz que a decisão é sempre da mulher.


Me pareceu uma defesa desesperada já que o assunto “parto humanizado” anda em voga no Brasil. O filme Renascimento do Parto, que está em cartaz nas principais cidades do país ampliou o debate e foi notícia nos principais jornais brasileiros - e em alguns gringos também. A Globo volta e meia tá fazendo matéria dos “partos na água”; a GNT veiculou por dois meses a sequência “Parto pelo Mundo”, com a parteira Mayra Calvette, ali de Floripa, que participou dos partos de Gisele Bundchen, a uber model mais famosa do mundo. O galã Márcio Garcia e sua esposa depõem no filme contra o sistema institucionalizado de parir e contam suas experiências, já que passaram pelos “três tipos de nascimentos”. Virou assunto, tá na mídia.


O filme é eficiente e forte. Traz de uma forma clara e explicativa, e não romântica ou hippie, os benefícios de um bom parto. E isso não quer dizer, necessariamente ser natural, na água ou de cócoras. E sim um parto onde a mulher está sob o comando, preparada e esclarecida, e sabe principalmente sobre a fisiologia do seu corpo. Em que ela está abastecida o suficiente com informações de fonte segura. Para exigir por exemplo, que seu filho fique no seu colo imediatamente depois que nasça, não um ou dois minutos, mas uma hora, duas, o tempo de mamar, se sentir seguro, amado, amparado. Para exigir que um cordão umbilical não seja cortado apressadamente, no apavoro habitual, e sim com tranquilidade, paciência e adaptação. Para que seja chamada pelo nome e perceba a diferença que isso faz. Para que fique na posição que se sentir melhor. Para que anestesias e outros “sorinhos” sejam chamados claramente de drogas, que afetam sim um bebê recém nascido.


São uma série de equívocos institucionalizados, mas parece muito aceitável que ao chegar para parir você siga aquelas “etapas”, que começam mais ou menos como acontece numa prisão: não pode comer, não pode beber, não pode se mexer, só quando mandarem; vai tirando a roupa, os brincos, raspa os cabelos, deixa sua identidade lá fora e põe o avental verde. Agora pode começar. E anda logo!


Muito estimulante o cenário para gerar a vida, receber um novo ser no mundo. Mas isso “é normal”. Esfregar a cara do bebê e tirar sua proteção natural, “normal”. Enfiar um cano no seu nariz, “normal”. Obrigá-lo a respirar abruptamente, “normal”. Deixar a natureza agir a seu tempo, “frescura”. Ou “moda” (essa é ótima, moda desde o início dos tempos). E aqui nem sequer falamos das cesáreas, de marcar horário, amarrar os braços, parir ouvindo comentários sobre futebol. Só dos partos “normais”.


A ordem que foi erroneamente estabelecida, que é a habitual e que a maioria tem acesso aqui no Brasil, é recente em comparação com a história da humanidade, mas tá montada numa arrogância sem par. O sentimento de controle e posse predominam. Mas é a brasileira que adora a cesária.

 

É fácil fazer ela escolher. Assusta ela vai. Diz que o bebê é grande, que a bacia é estreita, que o bebê pode morrer sufocado, que vai ficar preso, que está há tempo demais... que ela é grande, pequena, gorda, fraca, acha um defeito, quem não tem defeito? Ah, e o argumento infalível, DÓI DEMAIS, ninguém quer isso!

 

Hoje não se disassocia mais a palavra “parto” da palavra “dor”, mas não se vê ninguém dizer o quanto uma cesárea dói... Os riscos que oferece. As sequelas que deixa. Que muitos bebês nascem e vão direto pra UTI. Que ultrassons tem margens de erros significativas. Que infecções hospitalares acontecem com frequência. Só pra falar dos prejuízos físicos, nem vamos entrar na questão sócio-psico-emocional.
E por que isso é uma escolha mesmo?


Nos países esclarecidos nem se discute. Cesariana é uma cirurgia de emergência, ponto final. A tecnologia evoluiu, e existe para nos amparar, não para nos amputar. E nós precisamos de uma sociedade que entenda e pratique isso, uma sociedade de confiança, amorosa. E para isso não basta só o apoio e informação às mulheres, precisamos educar crianças e adolescentes, reformular a escola e universidades de medicina; amparar os profissionais e espaços de saúde, que se ficarem uma ou doze horas esperando um bebê nascer, ganham a mesma merreca. Não são monstros os médicos, são vítimas também desse sistema.


Mas o máximo que conseguirem lavar as mãos empurrando para os outros a decisão por métodos rápidos e mecânicos, assim será. É muito fácil manipular e isso pode ser feito de forma extremamente sutil, doce, carinhosa. Nem sempre por maldade. Pode ser conveniência. Necessidade. Inconformismo. Desvalorização. E até medo. Despreparo. Desamparo. Não sei quando colocamos os médicos num posto que mal podemos alcançar e passamos a considerá-los autoridades, esquecendo que antes disso são gente.

 

Mas "é a mulher que decide". Não uma sociedade inteira que gira feito cadeia de produção, onde tempo é dinheiro. Que planeja, controla, contabiliza, mas não tem capacidade de olhar para si e perceber o quão doente está. 



* Texto originalmente publicado no Página3 impresso, coluna Ex pressão, de 24 de agosto de 2013

 

Escrito por Caroline Cezar, 27/08/2013 às 12h35 | carol.jp3@gmail.com



Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.














Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: [email protected]

Página 3
Ex pressão
Por Caroline Cezar

"Brasileiras adoram cesárea" ?

 

Recebi aqui no email um artigo com esse título:
“MEDO DA DOR E SENSAÇÃO DE SEGURANÇA, NÃO PRESSÃO MÉDICA, LEVAM BRASILEIRA A MARCAR CESARIANA”


Empurrar para as mulheres o peso desse título é cretino e tendencioso. Isso é uma questão grave e complexa de saúde pública que precisa ser revista com urgência. O email chegou por uma assessoria de imprensa que não diz a quem assessora, mas se apóia na pesquisa realizada pelo Baby Center, “maior site de gravidez e maternidade do mundo”, como descreve o texto, que oferece infográficos, e ressalta apenas os pontos que fortalecem o título, ou fatos superficiais. “Elas ficaram muito satisfeitas”. “Maioria fez a unha, depilação e cabelos antes de parir”. “As mulheres estão mais contentes do que imaginávamos”.


Outras questões da pesquisa, que pode ser conferida na íntegra no site não tiveram destaque: “maioria não sabe que tipo de anestesia tomou”; “grande número não pôde ficar com seus acompanhantes”; “só 4 entrevistadas (das quase duas mil) tiveram seus bebês em casa”.


E isso: “Mais de um terço (36%) das que optaram com antecedência pela cesárea citaram como motivo o medo do parto normal. Outro terço (31%) afirmou ter preferido a cirurgia eletiva por acreditar que era mais seguro para o bebê”. Depoimentos: “O médico não me encorajou ao parto normal, dizendo que o hospital que eu queria era longe e poderia não ter vaga.”/ “A impressão que tenho é que não existem tantos médicos prontos para um parto normal.”/ “Medo de acontecer alguma coisa errada e eu perder meu filho”.

Fonte: www.facebook.com/orenascimentodoparto


E então, por que a brasileira tem tanto medo? É ela mesma quem decide? Como se não fosse nada, o texto cita brevemente que quase 80% dos nascimentos particulares no Brasil acontecem por cirurgias, mesmo que a OMS indique de 10 a 15% como taxa aceitável, mas tudo bem, “elas estão muito satisfeitas, e não são os médicos que pressionam”. Esse release faz mais do mesmo, elimina o contexto e a gravidade do assunto e diz que a decisão é sempre da mulher.


Me pareceu uma defesa desesperada já que o assunto “parto humanizado” anda em voga no Brasil. O filme Renascimento do Parto, que está em cartaz nas principais cidades do país ampliou o debate e foi notícia nos principais jornais brasileiros - e em alguns gringos também. A Globo volta e meia tá fazendo matéria dos “partos na água”; a GNT veiculou por dois meses a sequência “Parto pelo Mundo”, com a parteira Mayra Calvette, ali de Floripa, que participou dos partos de Gisele Bundchen, a uber model mais famosa do mundo. O galã Márcio Garcia e sua esposa depõem no filme contra o sistema institucionalizado de parir e contam suas experiências, já que passaram pelos “três tipos de nascimentos”. Virou assunto, tá na mídia.


O filme é eficiente e forte. Traz de uma forma clara e explicativa, e não romântica ou hippie, os benefícios de um bom parto. E isso não quer dizer, necessariamente ser natural, na água ou de cócoras. E sim um parto onde a mulher está sob o comando, preparada e esclarecida, e sabe principalmente sobre a fisiologia do seu corpo. Em que ela está abastecida o suficiente com informações de fonte segura. Para exigir por exemplo, que seu filho fique no seu colo imediatamente depois que nasça, não um ou dois minutos, mas uma hora, duas, o tempo de mamar, se sentir seguro, amado, amparado. Para exigir que um cordão umbilical não seja cortado apressadamente, no apavoro habitual, e sim com tranquilidade, paciência e adaptação. Para que seja chamada pelo nome e perceba a diferença que isso faz. Para que fique na posição que se sentir melhor. Para que anestesias e outros “sorinhos” sejam chamados claramente de drogas, que afetam sim um bebê recém nascido.


São uma série de equívocos institucionalizados, mas parece muito aceitável que ao chegar para parir você siga aquelas “etapas”, que começam mais ou menos como acontece numa prisão: não pode comer, não pode beber, não pode se mexer, só quando mandarem; vai tirando a roupa, os brincos, raspa os cabelos, deixa sua identidade lá fora e põe o avental verde. Agora pode começar. E anda logo!


Muito estimulante o cenário para gerar a vida, receber um novo ser no mundo. Mas isso “é normal”. Esfregar a cara do bebê e tirar sua proteção natural, “normal”. Enfiar um cano no seu nariz, “normal”. Obrigá-lo a respirar abruptamente, “normal”. Deixar a natureza agir a seu tempo, “frescura”. Ou “moda” (essa é ótima, moda desde o início dos tempos). E aqui nem sequer falamos das cesáreas, de marcar horário, amarrar os braços, parir ouvindo comentários sobre futebol. Só dos partos “normais”.


A ordem que foi erroneamente estabelecida, que é a habitual e que a maioria tem acesso aqui no Brasil, é recente em comparação com a história da humanidade, mas tá montada numa arrogância sem par. O sentimento de controle e posse predominam. Mas é a brasileira que adora a cesária.

 

É fácil fazer ela escolher. Assusta ela vai. Diz que o bebê é grande, que a bacia é estreita, que o bebê pode morrer sufocado, que vai ficar preso, que está há tempo demais... que ela é grande, pequena, gorda, fraca, acha um defeito, quem não tem defeito? Ah, e o argumento infalível, DÓI DEMAIS, ninguém quer isso!

 

Hoje não se disassocia mais a palavra “parto” da palavra “dor”, mas não se vê ninguém dizer o quanto uma cesárea dói... Os riscos que oferece. As sequelas que deixa. Que muitos bebês nascem e vão direto pra UTI. Que ultrassons tem margens de erros significativas. Que infecções hospitalares acontecem com frequência. Só pra falar dos prejuízos físicos, nem vamos entrar na questão sócio-psico-emocional.
E por que isso é uma escolha mesmo?


Nos países esclarecidos nem se discute. Cesariana é uma cirurgia de emergência, ponto final. A tecnologia evoluiu, e existe para nos amparar, não para nos amputar. E nós precisamos de uma sociedade que entenda e pratique isso, uma sociedade de confiança, amorosa. E para isso não basta só o apoio e informação às mulheres, precisamos educar crianças e adolescentes, reformular a escola e universidades de medicina; amparar os profissionais e espaços de saúde, que se ficarem uma ou doze horas esperando um bebê nascer, ganham a mesma merreca. Não são monstros os médicos, são vítimas também desse sistema.


Mas o máximo que conseguirem lavar as mãos empurrando para os outros a decisão por métodos rápidos e mecânicos, assim será. É muito fácil manipular e isso pode ser feito de forma extremamente sutil, doce, carinhosa. Nem sempre por maldade. Pode ser conveniência. Necessidade. Inconformismo. Desvalorização. E até medo. Despreparo. Desamparo. Não sei quando colocamos os médicos num posto que mal podemos alcançar e passamos a considerá-los autoridades, esquecendo que antes disso são gente.

 

Mas "é a mulher que decide". Não uma sociedade inteira que gira feito cadeia de produção, onde tempo é dinheiro. Que planeja, controla, contabiliza, mas não tem capacidade de olhar para si e perceber o quão doente está. 



* Texto originalmente publicado no Página3 impresso, coluna Ex pressão, de 24 de agosto de 2013

 

Escrito por Caroline Cezar, 27/08/2013 às 12h35 | carol.jp3@gmail.com



Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.