Jornal Página 3
Coluna
Ex pressão
Por Caroline Cezar

Automático midiático #cuidado

Você que tá ali assistindo o jornal da tevê, lendo o noticiário on line, ou ainda bradando comentários no facebook, e manda aquele tradicional “teve o que merece” ao saber sobre meninas violentadas e coisa do tipo, mais cuidado e atenção. Absolutamente nenhum, NEM UM motivo serve de justificativa para alguém invadir e violentar outro corpo sem o devido consentimento.


Desligue o automático no “teve o que merece” porque seus filhos que estão aí do lado enquanto você repete essas barbáries vão achando que é normal abusar da colega na festinha “porque estava bêbada”; que tudo bem passar a mão na menina “porque ela estava com saia curta”; que podem ter relações com a esposa por bem ou por mal, porque ela “é sua e lhe deve isso”; que tá tranquilo espancar prostitutas, mulheres da rua ou quem entenderem que é “vadia” por passatempo.


Não invertam os valores, porque educação não é discurso, é prática cotidiana. Pode ir na missa domingo e em casa no almoço falar que é bonito respeitar os outros, mas se nesses momentos de impulso midiático você embarca e solta as suas, está deseducando para o amor.

 

Justificativa pra abuso não falta, o que falta é uma educação sexual mais livre, natural e sagrada e não essa distorção que acaba em casos como esses. Falta exercitar o respeito, conversar abertamente e entender que todo corpo é um templo e que ninguém tem direito de desrespeitar isso.  Ainda fico perplexa em como a sociedade pode achar que alguém “teve o que merecia” quando uma pessoa é ferida profundamente com um abuso sexual e emocional. Um espancamento na alma, geralmente complementado com muitos hematomas pelo corpo. Essas vítimas geralmente encontram uma polícia despreparada, uma família que não as apóia, e uma centena de pessoas que as julgam porque elas “tiveram o que procuraram”. Não é de se admirar que muitas vezes guardem o segredo doloroso só pra si e uma ou outra confidente, o que torna o fardo ainda pior.

 

Elas não estão bem assistidas e muitas vezes já têm um histórico de abandono emocional, que vai se agravando até que viram esses fiapos de vida que a gente vê todo dia mas finge que não vê. Tem uns aí cheio de moral que fingem que não pegam. O que é mais desvio de comportamento, agredir (muitas vezes até uma quase morte) ou ser agredida?

Pra quem acha que acontece só “em beira de estrada” tá enganado, tem muita mulher “estudada e esclarecida” que esconde o que passou porque se acha culpada. 

 

Nem marido, nem filho, nem estranho, nem quem paga tem direito sobre o corpo alheio. A violência sexual é socialmente aceita e aí sim temos um grave desvio de comportamento. E corre lá todo mundo comprar presentinho pras mulher no shopping e não se fala mais nisso.

 

Texto originalmente publicado na coluna ex pressão impressa, em 08 de março de 2014

Escrito por Caroline Cezar, 14/03/2014 às 09h21 | carol.jp3@gmail.com

Largar ou pegar?

Eu tava ali à toa quando escutei as vozes no pátio do vizinho. Não mora ninguém ali, só vêm de vez em quando, mas tudo está sempre bem cuidado. Já tinha visto eles, que fazem a limpeza, no terreno do outro lado. Daquela vez tinha tanto mato, tanto mato, que eles levaram uns três dias inteiros pra dar conta. Foi bom ficar olhando.

 

Eles vêm em quatro: pai, mãe, a filha de uns oito, o filho de uns cinco. Volta e meia um vira-lata acompanha. As crianças não tem uma função específica, ficam junto, quebrando um galho aqui outro ali, vendo os pais fazer a poda, passar o rastelo. Conversando. Perguntando. Ouvindo. Há um respeito mútuo na maneira que eles falam uns com os outros. Há o tempo disponível e o ensinamento nas entrelinhas, sem aquele aspecto formal que mais inibe do que convida a aprender algo sobre a vida.


Tô até vendo o 'politicamente correto' gritando lá de longe que é exploração infantil, porque o certo pra nossa sociedade torta seria eles estarem em casa vendo tevê e comendo bolacha, confere?

 

Me fez lembrar um outro dia que caminhamos na praia. Nublado, chuva fraca, areia completamente deserta, se não fosse o casal de pássaros cuidando dos seus filhotes e mais uma família com duas crianças pequenas. Eles, os das asas, gritavam pra gente e voavam pro outro lado, não entendemos o escarcéu até que o marido biólogo confirmou: a idéia era desviar nossa atenção da restinga, porque os bebês-pássaros já nasceram, mas não sabiam voar. Fazia dias que observávamos o casal de pássaros, que vieram pra cá em busca de um sossego pra procriar.
Fiquei pensando muito tempo em quão linda era aquela cena -que bem que podia ser mais cotidiana e menos rara: pai e mãe protegendo seus filhos das interferências desnecessárias, pai e mãe levando seus quase-bebês para caminhar na areia num dia de chuva. Eles iam caminhando de mãos dadas, rindo, sentindo o vento, olhando em volta. Eram simples, tinham um carro caindo aos pedaços, mas estavam dispostos para a vida.

 

Mas diriam os mais-do-mesmo que o "certo" seria aquelas crianças estarem abrigadas dentro de casa comendo bolacha e vendo um filminho. Enquanto os pássaros protegem os bebês dos intrusos, nós colocamos o intruso no centro da sala e consideramos que assim, nossas crianças estão "seguras" e "bem assistidas". Pra que tevê com essa vida gritando lá fora?

 

Estava em dúvida se a flor era mesmo a Onze Horas e os pedreiros asseguraram que não, não era mesmo porque a flor verdadeira é pontual, abre na hora certa. Eles, irmãos, lembraram que eram muito pequenos, não sabiam ver a hora no relógio, só pelo sol e pela flor. E ai deles se a mãe chegasse da rua e o fogão à lenha não estivesse aceso! Eles tinham 4 e 6 anos quando calculavam a hora pela natureza.

 

Eu assisto em todas as temporadas a indignação coletiva sobre os índios nas calçadas e como é "degradante" que eles exponham suas crianças assim, "sentadas no chão". Sobre isso queria dizer: sentar no chão é um hábito indígena. Se você visitar qualquer país onde essa cultura não foi 'tão' dizimada -Bolívia, Peru, Andes- vai ver que a vida toda acontece na calçada: ali tem gente cozinhando, vendendo, brincando, amamentando e seja mais o que for. A cidade é das pessoas e não dos lojistas. E as pessoas deviam poder sentar no chão sim. Concordo que é necessária uma organização, mas não vejo ninguém tão ofendido com os bares que ocupam as calçadas com cadeiras. Ou com os bêbados estacionados ouvindo som alto.

 

Ponto 2 e que veio de encontro com o resto do texto: as indígenas levam as crianças não é pra pedir esmola não. Pode ser que aconteça, mas eu nunca vi um índio pedir esmola, nunca. Esse pensamento é típico da cultura urbana, onde o "normal" é largar os filhos: na creche, com a babá, na tevê, no computador, na escola disso e daquilo, com os outros, pouco com a mãe, nunca em casa, nunca junto. As índias não só se encarregam de parir naturalmente, como aleitam os bebês a livre demanda, e carregam sua cria pra onde forem. Talvez seja algo que possa se aprender.

 

Escrito por Caroline Cezar, 28/02/2014 às 09h31 | carol.jp3@gmail.com

Pois olhe!

Ó, às vezes vem coisa legal da escola (hihi):

Davi apresentou em casa o eucalipto arco-íris. Não conhecia e achei demais! 
Já pensou que quanto mais a gente sabe, mais ignorante fica?*

 

Se alguém tem uma muda tô querendo!



Muito avatar!
Nesse link tem um monte de coisa sobre ela.

 


*
"Quanto mais a gente conhece sobre as coisas, mais a gente desconhece também, mais perguntas surgem, e essa questão tá ligada profundamente com a questão de quanto a gente pode conhecer do mundo. Esse oceano do desconhecido, que em princípio é infinito... mesmo que o conhecimento humano aumente com o tempo a gente nunca vai poder conhecer tudo... Então nossa visão de mundo é necessariamente incompleta, e a gente tem que viver com essa sabedoria: que nunca vai poder ter uma visão completa do mundo, o que não nos torna menos humanos, na verdade nos torna mais humanos, e menos deuses". (Marcelo Gleiser, em Eu Maior)

 

Escrito por Caroline Cezar, 19/02/2014 às 22h34 | carol.jp3@gmail.com

Escola é pra aprender o quê?

Deu um nervoso atípico esse início de ano letivo: o calor excessivo, -sem intenção de soar lamentosa e repetitiva-, somado à jornadas de amamentação, cuidados caseiros e exercício materno em três diferentes faixas etárias potencializou os questionamentos internos. A mente como um furacão. O que resta senão respirar e sair de si para analisar mais a frio o que passa?


Tem os agravantes, mas sim, deve ter algo errado, não podem ser só efeitos colaterais do tempo e esforço. Porque dá trabalho, mas trabalho a gente guenta, cansa, mas do cansaço se refaz, o problema é quando a coisa vai para um lado que a gente não acredita.


Faz anos que não entendo o mecanismo. Pra que raio de taxa de matrícula se os filhos já estão matriculados, desde pequenininhos, na mesma escola? E se tem um motivo plausível, por que dão esse nome que não explica pra que serve esse dinheiro? Essa é só a primeira taxa, de muitas que se seguem depois, e todo ano tem reajuste de tantos por cento. De taxas, mas não de postura.


É louvável que ainda se usem livros para estudar, mas há anos que me pergunto o que faço com os livros do ano passado -livros não, “apostilas”, que na sua maioria devem ir em toneladas para o lixo comum nos finais de anos. Alguém se pergunta o que se faz afinal com as apostilas de seiscentos reais? São caros os livros das escolas, mais caros que os livros de verdade e que não são usados nas pesquisas -para isso temos o google?


As cantinas das escolas, em sua maioria, vendem coisas que não comemos em casa. Os amigos da escola, em sua maioria, têm hábitos que não temos em casa. Na escola se pratica o desperdício, o consumo, a comparação, a segregação, a competição. Os uniformes escolares são vendidos apenas em um ou dois “pontos de venda” por preços exorbitantes. Me dá aqui esse quarentão que faço três camisetas bordadas.


As apresentações escolares pedem dinheiro para mais roupa, mais enfeite, e algumas vezes até para entrada dos pais no recinto. As homenagens são baseadas em comprar alguma coisa inútil pra dar a alguém entediado. As campanhas solidárias são sempre tão pobres, “traga um presente em bom estado, nem veja a quem oferece e continue esbanjando o ano inteiro; sem culpa”.


Pouco se fala em reutilizar. Pouco se ensina a usar o que tem. Nunca se fala em não ter. Nada se conversa, porque precisa dar toda matéria. Pra que perder tempo com o que não cai no vestibular?


Os estacionamentos escolares, DIARIAMENTE, são o pior retrato que se pode ver de uma falta de educação explícita e escancarada, de pais que não se importam em mostrar na prática o quanto estão se lixando para a teoria das boas maneiras em sociedade que as escolas ensinam nas suas aulas de atravessar na faixa.


Conviver com o diferente é enriquecedor, mas será que essa convivência não está muito baseada no sentido mais raso da palavra, no tem-que-ter? A menina, que pouco circula nos shoppings teve um mini-chilique porque não queria entrar na escola com a mochila “velha”. Não queria usar as canetinhas “velhas”. Não queria usar as coisas “velhas” porque todas as amigas têm as coisas da moda. Ela tem oito anos!!


Em quanto a escola, com suas listas homéricas, colabora para a formação de valor do que realmente importa? E os pais, o quanto colaboram, ao comprar tudo novo a cada ano, de preferência pagando o triplo porque tem personagem na capa? Será que não seria saudável uma reflexão coletiva, baseada menos em consumo e mais em essência? Como se educa para o amor? Como fazer o conteúdo valer a pena?


Eu sei que existe escola pública. Onde falta o uniforme, falta o material, falta o professor, que ganha mal e não é valorizado (na particular é?). Falta respeito, porque cargo de confiança é costa-quente. Falta vaga, se não acordar na madrugada. Mas e na escola particular, que sobra tudo? O que é pior?

 

Não é intenção pichar a escola porque ela só é mais um retrato da sociedade. A sociedade que não se preocupa em pagar caro porque quer um lugar para despejar os filhos e “ter um pouco de paz”. Mas esse retrato soa tão evidente, me sinto inconformada, me inquieto. Pra mim não tá bom não.

Escrito por Caroline Cezar, 19/02/2014 às 07h33 | carol.jp3@gmail.com

Ei, palhaço!

 "...o circo é um espetáculo que desafia à lei da gravidade, as pessoas voam, se equilibram em cima de um fio, jogam sete objetos pro ar, fazem aparecer e desaparecer coisas, corpos perfeitos...

 

O palhaço tá ali por quê?

 

O palhaço é aquele que cai... É aquele que erra... É aquele que tá ali pra dizer 'tu é humano. Tá? Tem lei da gravidade. Tá?'

 

O que que faz o palhaço derrubar tudo? O que que faz ele bater a cabeça na parede, o que faz ele cair no buraco? Ser quem você é...

 

Eu sou aquilo lá...e tenho que ser o que os outros querem que eu seja, aí estou indo pra lá, me chamam e eu derrubo o microfone, esbarro na moça…Isso é a palhaçaria... o erro...a imperfeição, a aceitação da sua inadequação...

 

Eu sou inadequado, e agora? Vai deprimir? ou vai rir?"

(trechos de entrevista com Márcio Líbar no documentário Eu Maior, e tem mais ali embaixo)

 

 

Segunda-feira, 17 agora, começa o curso de palhaçaria em Itajaí, com meu amigo Charles aí de cima e olha que linda proposta: "Acreditamos em superar os limites comuns através da arte e em melhorar as relações com sinceridade. MANIFESTE O RISO! SEJA QUEM VOCÊ É!"

 

Sou a favor!

As aulas acontecem todas as segundas à noite. Informe-se na Casa de Cultura Dide Brandão.

 

 


Mais aqui do Eu Maior:
 

Escrito por Caroline Cezar, 14/02/2014 às 08h27 | carol.jp3@gmail.com

Mais atenção, menos tensão!

Utilidade pública circulando no facebook; pegaí!


"Para refletir!! Se você acha que é mais “espiritual” andar de bicicleta ou usar transporte público para se locomover, tudo bem, mas se você julgar qualquer outra pessoa que dirige um carro, então você está preso em uma armadilha do ego. Se você acha que é mais “espiritual” não ver televisão porque mexe com o seu cérebro, tudo bem, mas se julgar aqueles que ainda assistem, então você está preso em uma armadilha do ego. Se você acha que é mais “espiritual” evitar saber de fofocas ou noticias da mídia , mas se encontra julgando aqueles que leem essas coisas, então você está preso em uma armadilha do ego. Se você acha que é mais “espiritual” fazer Yoga, se tornar vegano, comprar só comidas orgânicas, comprar cristais, praticar reiki, meditar, usar roupas “hippies”, visitar templos e ler livros sobre iluminação espiritual, mas julgar qualquer pessoa que não faça isso, então você está preso em uma armadilha do ego. Sempre esteja consciente ao se sentir superior. A noção de que você é superior é a maior indicação de que você está em uma armadilha egóica. O ego adora entrar pela porta de trás. Ele vai pegar uma ideia nobre, como começar yoga e, então, distorcê-la para servir o seu objetivo ao fazer você se sentir superior aos outros; você começará a menosprezar aqueles que não estão seguindo o seu “caminho espiritual certo”. Superioridade, julgamento e condenação. Essas são armadilhas do ego". 

? Mooji

Escrito por Caroline Cezar, 05/02/2014 às 10h51 | carol.jp3@gmail.com



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Caroline Cezar

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É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.


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Automático midiático #cuidado

Você que tá ali assistindo o jornal da tevê, lendo o noticiário on line, ou ainda bradando comentários no facebook, e manda aquele tradicional “teve o que merece” ao saber sobre meninas violentadas e coisa do tipo, mais cuidado e atenção. Absolutamente nenhum, NEM UM motivo serve de justificativa para alguém invadir e violentar outro corpo sem o devido consentimento.


Desligue o automático no “teve o que merece” porque seus filhos que estão aí do lado enquanto você repete essas barbáries vão achando que é normal abusar da colega na festinha “porque estava bêbada”; que tudo bem passar a mão na menina “porque ela estava com saia curta”; que podem ter relações com a esposa por bem ou por mal, porque ela “é sua e lhe deve isso”; que tá tranquilo espancar prostitutas, mulheres da rua ou quem entenderem que é “vadia” por passatempo.


Não invertam os valores, porque educação não é discurso, é prática cotidiana. Pode ir na missa domingo e em casa no almoço falar que é bonito respeitar os outros, mas se nesses momentos de impulso midiático você embarca e solta as suas, está deseducando para o amor.

 

Justificativa pra abuso não falta, o que falta é uma educação sexual mais livre, natural e sagrada e não essa distorção que acaba em casos como esses. Falta exercitar o respeito, conversar abertamente e entender que todo corpo é um templo e que ninguém tem direito de desrespeitar isso.  Ainda fico perplexa em como a sociedade pode achar que alguém “teve o que merecia” quando uma pessoa é ferida profundamente com um abuso sexual e emocional. Um espancamento na alma, geralmente complementado com muitos hematomas pelo corpo. Essas vítimas geralmente encontram uma polícia despreparada, uma família que não as apóia, e uma centena de pessoas que as julgam porque elas “tiveram o que procuraram”. Não é de se admirar que muitas vezes guardem o segredo doloroso só pra si e uma ou outra confidente, o que torna o fardo ainda pior.

 

Elas não estão bem assistidas e muitas vezes já têm um histórico de abandono emocional, que vai se agravando até que viram esses fiapos de vida que a gente vê todo dia mas finge que não vê. Tem uns aí cheio de moral que fingem que não pegam. O que é mais desvio de comportamento, agredir (muitas vezes até uma quase morte) ou ser agredida?

Pra quem acha que acontece só “em beira de estrada” tá enganado, tem muita mulher “estudada e esclarecida” que esconde o que passou porque se acha culpada. 

 

Nem marido, nem filho, nem estranho, nem quem paga tem direito sobre o corpo alheio. A violência sexual é socialmente aceita e aí sim temos um grave desvio de comportamento. E corre lá todo mundo comprar presentinho pras mulher no shopping e não se fala mais nisso.

 

Texto originalmente publicado na coluna ex pressão impressa, em 08 de março de 2014

Escrito por Caroline Cezar, 14/03/2014 às 09h21 | carol.jp3@gmail.com

Largar ou pegar?

Eu tava ali à toa quando escutei as vozes no pátio do vizinho. Não mora ninguém ali, só vêm de vez em quando, mas tudo está sempre bem cuidado. Já tinha visto eles, que fazem a limpeza, no terreno do outro lado. Daquela vez tinha tanto mato, tanto mato, que eles levaram uns três dias inteiros pra dar conta. Foi bom ficar olhando.

 

Eles vêm em quatro: pai, mãe, a filha de uns oito, o filho de uns cinco. Volta e meia um vira-lata acompanha. As crianças não tem uma função específica, ficam junto, quebrando um galho aqui outro ali, vendo os pais fazer a poda, passar o rastelo. Conversando. Perguntando. Ouvindo. Há um respeito mútuo na maneira que eles falam uns com os outros. Há o tempo disponível e o ensinamento nas entrelinhas, sem aquele aspecto formal que mais inibe do que convida a aprender algo sobre a vida.


Tô até vendo o 'politicamente correto' gritando lá de longe que é exploração infantil, porque o certo pra nossa sociedade torta seria eles estarem em casa vendo tevê e comendo bolacha, confere?

 

Me fez lembrar um outro dia que caminhamos na praia. Nublado, chuva fraca, areia completamente deserta, se não fosse o casal de pássaros cuidando dos seus filhotes e mais uma família com duas crianças pequenas. Eles, os das asas, gritavam pra gente e voavam pro outro lado, não entendemos o escarcéu até que o marido biólogo confirmou: a idéia era desviar nossa atenção da restinga, porque os bebês-pássaros já nasceram, mas não sabiam voar. Fazia dias que observávamos o casal de pássaros, que vieram pra cá em busca de um sossego pra procriar.
Fiquei pensando muito tempo em quão linda era aquela cena -que bem que podia ser mais cotidiana e menos rara: pai e mãe protegendo seus filhos das interferências desnecessárias, pai e mãe levando seus quase-bebês para caminhar na areia num dia de chuva. Eles iam caminhando de mãos dadas, rindo, sentindo o vento, olhando em volta. Eram simples, tinham um carro caindo aos pedaços, mas estavam dispostos para a vida.

 

Mas diriam os mais-do-mesmo que o "certo" seria aquelas crianças estarem abrigadas dentro de casa comendo bolacha e vendo um filminho. Enquanto os pássaros protegem os bebês dos intrusos, nós colocamos o intruso no centro da sala e consideramos que assim, nossas crianças estão "seguras" e "bem assistidas". Pra que tevê com essa vida gritando lá fora?

 

Estava em dúvida se a flor era mesmo a Onze Horas e os pedreiros asseguraram que não, não era mesmo porque a flor verdadeira é pontual, abre na hora certa. Eles, irmãos, lembraram que eram muito pequenos, não sabiam ver a hora no relógio, só pelo sol e pela flor. E ai deles se a mãe chegasse da rua e o fogão à lenha não estivesse aceso! Eles tinham 4 e 6 anos quando calculavam a hora pela natureza.

 

Eu assisto em todas as temporadas a indignação coletiva sobre os índios nas calçadas e como é "degradante" que eles exponham suas crianças assim, "sentadas no chão". Sobre isso queria dizer: sentar no chão é um hábito indígena. Se você visitar qualquer país onde essa cultura não foi 'tão' dizimada -Bolívia, Peru, Andes- vai ver que a vida toda acontece na calçada: ali tem gente cozinhando, vendendo, brincando, amamentando e seja mais o que for. A cidade é das pessoas e não dos lojistas. E as pessoas deviam poder sentar no chão sim. Concordo que é necessária uma organização, mas não vejo ninguém tão ofendido com os bares que ocupam as calçadas com cadeiras. Ou com os bêbados estacionados ouvindo som alto.

 

Ponto 2 e que veio de encontro com o resto do texto: as indígenas levam as crianças não é pra pedir esmola não. Pode ser que aconteça, mas eu nunca vi um índio pedir esmola, nunca. Esse pensamento é típico da cultura urbana, onde o "normal" é largar os filhos: na creche, com a babá, na tevê, no computador, na escola disso e daquilo, com os outros, pouco com a mãe, nunca em casa, nunca junto. As índias não só se encarregam de parir naturalmente, como aleitam os bebês a livre demanda, e carregam sua cria pra onde forem. Talvez seja algo que possa se aprender.

 

Escrito por Caroline Cezar, 28/02/2014 às 09h31 | carol.jp3@gmail.com

Pois olhe!

Ó, às vezes vem coisa legal da escola (hihi):

Davi apresentou em casa o eucalipto arco-íris. Não conhecia e achei demais! 
Já pensou que quanto mais a gente sabe, mais ignorante fica?*

 

Se alguém tem uma muda tô querendo!



Muito avatar!
Nesse link tem um monte de coisa sobre ela.

 


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"Quanto mais a gente conhece sobre as coisas, mais a gente desconhece também, mais perguntas surgem, e essa questão tá ligada profundamente com a questão de quanto a gente pode conhecer do mundo. Esse oceano do desconhecido, que em princípio é infinito... mesmo que o conhecimento humano aumente com o tempo a gente nunca vai poder conhecer tudo... Então nossa visão de mundo é necessariamente incompleta, e a gente tem que viver com essa sabedoria: que nunca vai poder ter uma visão completa do mundo, o que não nos torna menos humanos, na verdade nos torna mais humanos, e menos deuses". (Marcelo Gleiser, em Eu Maior)

 

Escrito por Caroline Cezar, 19/02/2014 às 22h34 | carol.jp3@gmail.com

Escola é pra aprender o quê?

Deu um nervoso atípico esse início de ano letivo: o calor excessivo, -sem intenção de soar lamentosa e repetitiva-, somado à jornadas de amamentação, cuidados caseiros e exercício materno em três diferentes faixas etárias potencializou os questionamentos internos. A mente como um furacão. O que resta senão respirar e sair de si para analisar mais a frio o que passa?


Tem os agravantes, mas sim, deve ter algo errado, não podem ser só efeitos colaterais do tempo e esforço. Porque dá trabalho, mas trabalho a gente guenta, cansa, mas do cansaço se refaz, o problema é quando a coisa vai para um lado que a gente não acredita.


Faz anos que não entendo o mecanismo. Pra que raio de taxa de matrícula se os filhos já estão matriculados, desde pequenininhos, na mesma escola? E se tem um motivo plausível, por que dão esse nome que não explica pra que serve esse dinheiro? Essa é só a primeira taxa, de muitas que se seguem depois, e todo ano tem reajuste de tantos por cento. De taxas, mas não de postura.


É louvável que ainda se usem livros para estudar, mas há anos que me pergunto o que faço com os livros do ano passado -livros não, “apostilas”, que na sua maioria devem ir em toneladas para o lixo comum nos finais de anos. Alguém se pergunta o que se faz afinal com as apostilas de seiscentos reais? São caros os livros das escolas, mais caros que os livros de verdade e que não são usados nas pesquisas -para isso temos o google?


As cantinas das escolas, em sua maioria, vendem coisas que não comemos em casa. Os amigos da escola, em sua maioria, têm hábitos que não temos em casa. Na escola se pratica o desperdício, o consumo, a comparação, a segregação, a competição. Os uniformes escolares são vendidos apenas em um ou dois “pontos de venda” por preços exorbitantes. Me dá aqui esse quarentão que faço três camisetas bordadas.


As apresentações escolares pedem dinheiro para mais roupa, mais enfeite, e algumas vezes até para entrada dos pais no recinto. As homenagens são baseadas em comprar alguma coisa inútil pra dar a alguém entediado. As campanhas solidárias são sempre tão pobres, “traga um presente em bom estado, nem veja a quem oferece e continue esbanjando o ano inteiro; sem culpa”.


Pouco se fala em reutilizar. Pouco se ensina a usar o que tem. Nunca se fala em não ter. Nada se conversa, porque precisa dar toda matéria. Pra que perder tempo com o que não cai no vestibular?


Os estacionamentos escolares, DIARIAMENTE, são o pior retrato que se pode ver de uma falta de educação explícita e escancarada, de pais que não se importam em mostrar na prática o quanto estão se lixando para a teoria das boas maneiras em sociedade que as escolas ensinam nas suas aulas de atravessar na faixa.


Conviver com o diferente é enriquecedor, mas será que essa convivência não está muito baseada no sentido mais raso da palavra, no tem-que-ter? A menina, que pouco circula nos shoppings teve um mini-chilique porque não queria entrar na escola com a mochila “velha”. Não queria usar as canetinhas “velhas”. Não queria usar as coisas “velhas” porque todas as amigas têm as coisas da moda. Ela tem oito anos!!


Em quanto a escola, com suas listas homéricas, colabora para a formação de valor do que realmente importa? E os pais, o quanto colaboram, ao comprar tudo novo a cada ano, de preferência pagando o triplo porque tem personagem na capa? Será que não seria saudável uma reflexão coletiva, baseada menos em consumo e mais em essência? Como se educa para o amor? Como fazer o conteúdo valer a pena?


Eu sei que existe escola pública. Onde falta o uniforme, falta o material, falta o professor, que ganha mal e não é valorizado (na particular é?). Falta respeito, porque cargo de confiança é costa-quente. Falta vaga, se não acordar na madrugada. Mas e na escola particular, que sobra tudo? O que é pior?

 

Não é intenção pichar a escola porque ela só é mais um retrato da sociedade. A sociedade que não se preocupa em pagar caro porque quer um lugar para despejar os filhos e “ter um pouco de paz”. Mas esse retrato soa tão evidente, me sinto inconformada, me inquieto. Pra mim não tá bom não.

Escrito por Caroline Cezar, 19/02/2014 às 07h33 | carol.jp3@gmail.com

Ei, palhaço!

 "...o circo é um espetáculo que desafia à lei da gravidade, as pessoas voam, se equilibram em cima de um fio, jogam sete objetos pro ar, fazem aparecer e desaparecer coisas, corpos perfeitos...

 

O palhaço tá ali por quê?

 

O palhaço é aquele que cai... É aquele que erra... É aquele que tá ali pra dizer 'tu é humano. Tá? Tem lei da gravidade. Tá?'

 

O que que faz o palhaço derrubar tudo? O que que faz ele bater a cabeça na parede, o que faz ele cair no buraco? Ser quem você é...

 

Eu sou aquilo lá...e tenho que ser o que os outros querem que eu seja, aí estou indo pra lá, me chamam e eu derrubo o microfone, esbarro na moça…Isso é a palhaçaria... o erro...a imperfeição, a aceitação da sua inadequação...

 

Eu sou inadequado, e agora? Vai deprimir? ou vai rir?"

(trechos de entrevista com Márcio Líbar no documentário Eu Maior, e tem mais ali embaixo)

 

 

Segunda-feira, 17 agora, começa o curso de palhaçaria em Itajaí, com meu amigo Charles aí de cima e olha que linda proposta: "Acreditamos em superar os limites comuns através da arte e em melhorar as relações com sinceridade. MANIFESTE O RISO! SEJA QUEM VOCÊ É!"

 

Sou a favor!

As aulas acontecem todas as segundas à noite. Informe-se na Casa de Cultura Dide Brandão.

 

 


Mais aqui do Eu Maior:
 

Escrito por Caroline Cezar, 14/02/2014 às 08h27 | carol.jp3@gmail.com

Mais atenção, menos tensão!

Utilidade pública circulando no facebook; pegaí!


"Para refletir!! Se você acha que é mais “espiritual” andar de bicicleta ou usar transporte público para se locomover, tudo bem, mas se você julgar qualquer outra pessoa que dirige um carro, então você está preso em uma armadilha do ego. Se você acha que é mais “espiritual” não ver televisão porque mexe com o seu cérebro, tudo bem, mas se julgar aqueles que ainda assistem, então você está preso em uma armadilha do ego. Se você acha que é mais “espiritual” evitar saber de fofocas ou noticias da mídia , mas se encontra julgando aqueles que leem essas coisas, então você está preso em uma armadilha do ego. Se você acha que é mais “espiritual” fazer Yoga, se tornar vegano, comprar só comidas orgânicas, comprar cristais, praticar reiki, meditar, usar roupas “hippies”, visitar templos e ler livros sobre iluminação espiritual, mas julgar qualquer pessoa que não faça isso, então você está preso em uma armadilha do ego. Sempre esteja consciente ao se sentir superior. A noção de que você é superior é a maior indicação de que você está em uma armadilha egóica. O ego adora entrar pela porta de trás. Ele vai pegar uma ideia nobre, como começar yoga e, então, distorcê-la para servir o seu objetivo ao fazer você se sentir superior aos outros; você começará a menosprezar aqueles que não estão seguindo o seu “caminho espiritual certo”. Superioridade, julgamento e condenação. Essas são armadilhas do ego". 

? Mooji

Escrito por Caroline Cezar, 05/02/2014 às 10h51 | carol.jp3@gmail.com



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Caroline Cezar

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É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.


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