Jornal Página 3
Coluna
Ex pressão
Por Caroline Cezar

...

 

"E, aquele
Que não morou nunca
em seus próprios abismos...
Não foi marcado.
Não será exposto

Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema."

(Manoel de Barros)

Escrito por Caroline Cezar, 30/08/2013 às 17h50 | carol.jp3@gmail.com

"Brasileiras adoram cesárea" ?

 

Recebi aqui no email um artigo com esse título:
“MEDO DA DOR E SENSAÇÃO DE SEGURANÇA, NÃO PRESSÃO MÉDICA, LEVAM BRASILEIRA A MARCAR CESARIANA”


Empurrar para as mulheres o peso desse título é cretino e tendencioso. Isso é uma questão grave e complexa de saúde pública que precisa ser revista com urgência. O email chegou por uma assessoria de imprensa que não diz a quem assessora, mas se apóia na pesquisa realizada pelo Baby Center, “maior site de gravidez e maternidade do mundo”, como descreve o texto, que oferece infográficos, e ressalta apenas os pontos que fortalecem o título, ou fatos superficiais. “Elas ficaram muito satisfeitas”. “Maioria fez a unha, depilação e cabelos antes de parir”. “As mulheres estão mais contentes do que imaginávamos”.


Outras questões da pesquisa, que pode ser conferida na íntegra no site não tiveram destaque: “maioria não sabe que tipo de anestesia tomou”; “grande número não pôde ficar com seus acompanhantes”; “só 4 entrevistadas (das quase duas mil) tiveram seus bebês em casa”.


E isso: “Mais de um terço (36%) das que optaram com antecedência pela cesárea citaram como motivo o medo do parto normal. Outro terço (31%) afirmou ter preferido a cirurgia eletiva por acreditar que era mais seguro para o bebê”. Depoimentos: “O médico não me encorajou ao parto normal, dizendo que o hospital que eu queria era longe e poderia não ter vaga.”/ “A impressão que tenho é que não existem tantos médicos prontos para um parto normal.”/ “Medo de acontecer alguma coisa errada e eu perder meu filho”.

Fonte: www.facebook.com/orenascimentodoparto


E então, por que a brasileira tem tanto medo? É ela mesma quem decide? Como se não fosse nada, o texto cita brevemente que quase 80% dos nascimentos particulares no Brasil acontecem por cirurgias, mesmo que a OMS indique de 10 a 15% como taxa aceitável, mas tudo bem, “elas estão muito satisfeitas, e não são os médicos que pressionam”. Esse release faz mais do mesmo, elimina o contexto e a gravidade do assunto e diz que a decisão é sempre da mulher.


Me pareceu uma defesa desesperada já que o assunto “parto humanizado” anda em voga no Brasil. O filme Renascimento do Parto, que está em cartaz nas principais cidades do país ampliou o debate e foi notícia nos principais jornais brasileiros - e em alguns gringos também. A Globo volta e meia tá fazendo matéria dos “partos na água”; a GNT veiculou por dois meses a sequência “Parto pelo Mundo”, com a parteira Mayra Calvette, ali de Floripa, que participou dos partos de Gisele Bundchen, a uber model mais famosa do mundo. O galã Márcio Garcia e sua esposa depõem no filme contra o sistema institucionalizado de parir e contam suas experiências, já que passaram pelos “três tipos de nascimentos”. Virou assunto, tá na mídia.


O filme é eficiente e forte. Traz de uma forma clara e explicativa, e não romântica ou hippie, os benefícios de um bom parto. E isso não quer dizer, necessariamente ser natural, na água ou de cócoras. E sim um parto onde a mulher está sob o comando, preparada e esclarecida, e sabe principalmente sobre a fisiologia do seu corpo. Em que ela está abastecida o suficiente com informações de fonte segura. Para exigir por exemplo, que seu filho fique no seu colo imediatamente depois que nasça, não um ou dois minutos, mas uma hora, duas, o tempo de mamar, se sentir seguro, amado, amparado. Para exigir que um cordão umbilical não seja cortado apressadamente, no apavoro habitual, e sim com tranquilidade, paciência e adaptação. Para que seja chamada pelo nome e perceba a diferença que isso faz. Para que fique na posição que se sentir melhor. Para que anestesias e outros “sorinhos” sejam chamados claramente de drogas, que afetam sim um bebê recém nascido.


São uma série de equívocos institucionalizados, mas parece muito aceitável que ao chegar para parir você siga aquelas “etapas”, que começam mais ou menos como acontece numa prisão: não pode comer, não pode beber, não pode se mexer, só quando mandarem; vai tirando a roupa, os brincos, raspa os cabelos, deixa sua identidade lá fora e põe o avental verde. Agora pode começar. E anda logo!


Muito estimulante o cenário para gerar a vida, receber um novo ser no mundo. Mas isso “é normal”. Esfregar a cara do bebê e tirar sua proteção natural, “normal”. Enfiar um cano no seu nariz, “normal”. Obrigá-lo a respirar abruptamente, “normal”. Deixar a natureza agir a seu tempo, “frescura”. Ou “moda” (essa é ótima, moda desde o início dos tempos). E aqui nem sequer falamos das cesáreas, de marcar horário, amarrar os braços, parir ouvindo comentários sobre futebol. Só dos partos “normais”.


A ordem que foi erroneamente estabelecida, que é a habitual e que a maioria tem acesso aqui no Brasil, é recente em comparação com a história da humanidade, mas tá montada numa arrogância sem par. O sentimento de controle e posse predominam. Mas é a brasileira que adora a cesária.

 

É fácil fazer ela escolher. Assusta ela vai. Diz que o bebê é grande, que a bacia é estreita, que o bebê pode morrer sufocado, que vai ficar preso, que está há tempo demais... que ela é grande, pequena, gorda, fraca, acha um defeito, quem não tem defeito? Ah, e o argumento infalível, DÓI DEMAIS, ninguém quer isso!

 

Hoje não se disassocia mais a palavra “parto” da palavra “dor”, mas não se vê ninguém dizer o quanto uma cesárea dói... Os riscos que oferece. As sequelas que deixa. Que muitos bebês nascem e vão direto pra UTI. Que ultrassons tem margens de erros significativas. Que infecções hospitalares acontecem com frequência. Só pra falar dos prejuízos físicos, nem vamos entrar na questão sócio-psico-emocional.
E por que isso é uma escolha mesmo?


Nos países esclarecidos nem se discute. Cesariana é uma cirurgia de emergência, ponto final. A tecnologia evoluiu, e existe para nos amparar, não para nos amputar. E nós precisamos de uma sociedade que entenda e pratique isso, uma sociedade de confiança, amorosa. E para isso não basta só o apoio e informação às mulheres, precisamos educar crianças e adolescentes, reformular a escola e universidades de medicina; amparar os profissionais e espaços de saúde, que se ficarem uma ou doze horas esperando um bebê nascer, ganham a mesma merreca. Não são monstros os médicos, são vítimas também desse sistema.


Mas o máximo que conseguirem lavar as mãos empurrando para os outros a decisão por métodos rápidos e mecânicos, assim será. É muito fácil manipular e isso pode ser feito de forma extremamente sutil, doce, carinhosa. Nem sempre por maldade. Pode ser conveniência. Necessidade. Inconformismo. Desvalorização. E até medo. Despreparo. Desamparo. Não sei quando colocamos os médicos num posto que mal podemos alcançar e passamos a considerá-los autoridades, esquecendo que antes disso são gente.

 

Mas "é a mulher que decide". Não uma sociedade inteira que gira feito cadeia de produção, onde tempo é dinheiro. Que planeja, controla, contabiliza, mas não tem capacidade de olhar para si e perceber o quão doente está. 



* Texto originalmente publicado no Página3 impresso, coluna Ex pressão, de 24 de agosto de 2013

 

Escrito por Caroline Cezar, 27/08/2013 às 12h35 | carol.jp3@gmail.com

Liberdade de ir e vir! #cidadeparapessoas

Acho muito esquisito quando vejo essas leis que limitam a circulação das pessoas nas ruas, "isso pode, isso não pode", ainda mais em cidades "turísticas" onde são solenemente ignoradas saídas de bares e festas, de onde muitos motoristas vão embora de carro, trocando as pernas e caindo de bêbados. Inclusive as festas organizadas pela prefeitura, durante o dia, e que "fecham" a rua, como os tais "Encontros dos Amigos". Nessa mesma cidade muitas calçadas são ocupadas por mesas -dos mesmos bares-, e outras tem placas de propaganda, carros estacionados "só por um minutinho", ladeiras, buracos. Já fomos considerados os piores do Brasil nesse quesito!

Aí um vereador vai lá e tenta "melhorar" o trânsito, primeiro com uma lei esdrúxula e limitadora sobre bicicletas, patinetes e outros veículos alternativos -que não poluem, não engarrafam e não pagam grandes impostos - soluções que as pessoas encontram para "sair pela tangente" nesse sistema falido em que vivemos. Deu polêmica, então ele amenizou, mas continuou batendo na tecla de que a rua é só para alguns. Me diz como alguém em sã consciência tenta coibir que outro alguém se locomova com um skate numa via pública? Para onde estamos andando?

 


Durante passeio exigindo a ciclovia na Atlântica, prometida há mais de ano (Foto Caroline Cezar)
 

 

O skate nasceu na rua, não tem esporte mais entranhado na cultura street do que ele. Sempre foi marginalizado, ok, mas isso era na década de 20 né, acho que hoje todo mundo está mais esclarecido sobre a liberdade das pessoas se mexerem como quiserem.

Tenho um amigo, o Renanzinho, que não tem carro, e para ir de um lado a outro utiliza pernas, ônibus, bicicleta, carona e skate. De todos o que prefere é o "carrinho", apelido das antigas, porque pode guardar embaixo do braço. A bicicleta, exige um "estacionamento" em segurança - o que a cidade não possibilita (exceto em casas de amigos, e olhe lá); os ônibus levam só a um pedaço do percurso, o resto tem que ser feito a pé - e às vezes é longe; as pernas têm um limite de velocidade; e as caronas é cada um por si e Deus por todos. O skate possibilita uma independência ímpar pra que tem habilidade como meu amigo. Ele pode se cansar na metade e subir num ônibus, pode voltar de bicicleta, pode pôr na mochila.

No "projeto de lei" o vereador tomou o cuidado de lembrar que as bicicletas, quando não tem ciclovia (80% dos casos), devem se locomover pelo lado direito - sentido do trânsito. Ok, correto. Ele esqueceu de lembrar aos ciclistas que os carros não respeitam a distância exigida das bicicletas e que por isso essas estão sujeitas a portas abrindo na cara, a atropelamentos e "finos" que causam tombos graves, mas isso tudo bem, é "normal".

E os patins se encaixam em que "categoria"? Será que levo multa ou apreensão se sair por aí patinando?

 

Não vamos inverter as coisas, sugiro aos vereadores fazerem valer as leis de segurança que já existem e que por falta de fiscalização continuam oferecendo grande risco à comunidade, principalmente quando envolvem álcool e volante. No mais, lembremos sempre, a rua é um lugar PÚBLICO, é para todos, e deve oferecer iguais condições, não importa se é para alguém que gosta de usar o corpo como veículo, ou para outro que passa a vida a imaginar como deve ser isso, com a bunda num escritório.

 


Isso também é BC vereador! (Foto Guilherme Meneghelli)
 

Escrito por Caroline Cezar, 21/08/2013 às 09h09 | carol.jp3@gmail.com

Erramos #dãr

Não sei quem foi o espírito brincalhão que creditou a foto da Ex pressão dessa semana (edição impressa) a Davi Baumgarten, que vem a ser meu filho, mas não, a foto não é dele. Talvez por uma pequena semelhança com a modelo na forma de parar-se-pra-esperar ou porque dia desses usei a imagem pra ilustrar perfil de facebook, tipo metáfora -mesmo motivo pelo qual ela ilustra a coluna impressa. Ou só apenas porque faltou internet na roça e a titular da coluna deixou para enviar a imagem de última hora, esquecendo de citar o crédito a Vince Cavataio, o verdadeiro autor da imagem, que tem outras fotos maravilhosas do Hawaii na rede. 
 

Pela falha cometida aqui me redimo! Confira mais imagens de Cavataio em seu site oficial.



Escrito por Caroline Cezar, 19/08/2013 às 08h02 | carol.jp3@gmail.com

"Devo me apressar mamãe?"

Outro textinho legal que está repercutindo na web sobre valores, pressas e criação dos filhos. A coluna Ex pressão compactua com a visão da autora e acha que esse tipo de coisa deve ser compartilhada o máximo possível!  
 

Texto de Rachel Macy Stafford, professora de educação especial, publicado originalmente em inglês no blog “Hands free mama”; com tradução para o português pela equipe do Portal Aprendiz.

 

"Quando se está vivendo uma vida distraída, dispersa, cada minuto precisa ser contabilizado. Você sente que precisa estar cumprindo alguma tarefa da lista, olhando para uma tela, ou correndo para o próximo compromisso. E não importa de quantas maneiras você divide o seu tempo e atenção, não importa quantas obrigações você cumpra em modo multi-tarefa, nunca há tempo suficiente em um dia.

Essa foi minha vida por dois anos frenéticos. Meus pensamentos e ações foram controlados por notificações eletrônicas, toques de celular e uma agenda lotada. Cada fibra do meu sargento interior queria cumprir com o tempo de cada atividade marcada na minha agenda super-lotada, mas eu nunca conseguia estar à altura...

Veja bem, seis anos atrás, eu fui abençoada com uma criança tranquila, sem preocupações, do tipo que para para cheirar flores. Quando eu precisava sair de casa, ela estava levando seu doce tempo pegando uma bolsa e uma coroa brilhante. Quando eu precisava estar em algum lugar há cinco minutos, ela insistia em colocar o cinto de segurança em seu bichinho de pelúcia. Quando eu precisava pegar um almoço rápido num fast-food, ela parava para conversar com uma senhora que parecia com sua avó. Quando eu tinha 30 minutos para caminhar, ela queria que eu parasse o carrinho e acariciasse todos os cachorros em nosso percurso. Quando eu tinha uma agenda cheia que começava às 6h da manhã, ela me pedia para quebrar os ovos e mexê-los gentilmente.

Minha criança sem preocupações foi um presente para minha personalidade apressada e tarefeira – mas eu não pude perceber isso. Ó não, quando se vive uma vida dispersa, você tem uma visão em forma de túnel – sempre olhando para o próximo compromisso na agenda. E qualquer coisa que não possa ser ticada na lista é uma perda de tempo..."



Leia o texto completo no Portal Aprendiz.
 

 

Escrito por Caroline Cezar, 16/08/2013 às 10h42 | carol.jp3@gmail.com

Renascimento em Floripa #dica #cinema

Levar um documentário aos cinemas já é difícil, quem dirá um documentário independente que aborda uma realidade social vigente, comum e corriqueira que coloca o interesse econômico acima da saúde e felicidade das pessoas.

 

  


Estréia em Floripa, Curitiba e POA nessa sexta, 16 (a pré-estréia já rolou e foi um sucesso), o documentário "O Renascimento do Parto", trabalho social de fundamental importância e que merece o devido reconhecimento. Diferente do que parece, o filme não é pra "gravidinhas, mãezinhas e alternativos em geral", e sim pra todo mundo que costuma se informar sobre o que acontece ao seu redor, pois a forma de nascer afeta não só as famílias que recebem "um lindo bebezinho", mas toda uma sociedade que sofre as consequências que isso gera, dependendo da forma que acontece. A curto e longo prazo.


A distribuição nos cinemas se deu por meio do www.benfeitoria.com, através de financiamento coletivo. Foram R$ 142 mil arrecadados, enquanto a meta era R$ 65 mil. Mil e duzentas pessoas contribuíram para que o documentário percorresse as principais capitais brasileiras. Acho lindo!

É parte de uma construção que precisa ser feita, já está sendo feita. Prestigie!

 

 

 

Estréias em 16/08:

Florianópolis - Cinespaço Beira Mar
Curitiba - Espaço Itaú de Cinema
Porto Alegre - Espaço Itaú de Cinema 

(Saiba mais no site oficial do filme)

 

TRAILER:



 

Escrito por Caroline Cezar, 14/08/2013 às 09h01 | carol.jp3@gmail.com



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Caroline Cezar

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É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.














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Ex pressão
Por Caroline Cezar

...

 

"E, aquele
Que não morou nunca
em seus próprios abismos...
Não foi marcado.
Não será exposto

Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema."

(Manoel de Barros)

Escrito por Caroline Cezar, 30/08/2013 às 17h50 | carol.jp3@gmail.com

"Brasileiras adoram cesárea" ?

 

Recebi aqui no email um artigo com esse título:
“MEDO DA DOR E SENSAÇÃO DE SEGURANÇA, NÃO PRESSÃO MÉDICA, LEVAM BRASILEIRA A MARCAR CESARIANA”


Empurrar para as mulheres o peso desse título é cretino e tendencioso. Isso é uma questão grave e complexa de saúde pública que precisa ser revista com urgência. O email chegou por uma assessoria de imprensa que não diz a quem assessora, mas se apóia na pesquisa realizada pelo Baby Center, “maior site de gravidez e maternidade do mundo”, como descreve o texto, que oferece infográficos, e ressalta apenas os pontos que fortalecem o título, ou fatos superficiais. “Elas ficaram muito satisfeitas”. “Maioria fez a unha, depilação e cabelos antes de parir”. “As mulheres estão mais contentes do que imaginávamos”.


Outras questões da pesquisa, que pode ser conferida na íntegra no site não tiveram destaque: “maioria não sabe que tipo de anestesia tomou”; “grande número não pôde ficar com seus acompanhantes”; “só 4 entrevistadas (das quase duas mil) tiveram seus bebês em casa”.


E isso: “Mais de um terço (36%) das que optaram com antecedência pela cesárea citaram como motivo o medo do parto normal. Outro terço (31%) afirmou ter preferido a cirurgia eletiva por acreditar que era mais seguro para o bebê”. Depoimentos: “O médico não me encorajou ao parto normal, dizendo que o hospital que eu queria era longe e poderia não ter vaga.”/ “A impressão que tenho é que não existem tantos médicos prontos para um parto normal.”/ “Medo de acontecer alguma coisa errada e eu perder meu filho”.

Fonte: www.facebook.com/orenascimentodoparto


E então, por que a brasileira tem tanto medo? É ela mesma quem decide? Como se não fosse nada, o texto cita brevemente que quase 80% dos nascimentos particulares no Brasil acontecem por cirurgias, mesmo que a OMS indique de 10 a 15% como taxa aceitável, mas tudo bem, “elas estão muito satisfeitas, e não são os médicos que pressionam”. Esse release faz mais do mesmo, elimina o contexto e a gravidade do assunto e diz que a decisão é sempre da mulher.


Me pareceu uma defesa desesperada já que o assunto “parto humanizado” anda em voga no Brasil. O filme Renascimento do Parto, que está em cartaz nas principais cidades do país ampliou o debate e foi notícia nos principais jornais brasileiros - e em alguns gringos também. A Globo volta e meia tá fazendo matéria dos “partos na água”; a GNT veiculou por dois meses a sequência “Parto pelo Mundo”, com a parteira Mayra Calvette, ali de Floripa, que participou dos partos de Gisele Bundchen, a uber model mais famosa do mundo. O galã Márcio Garcia e sua esposa depõem no filme contra o sistema institucionalizado de parir e contam suas experiências, já que passaram pelos “três tipos de nascimentos”. Virou assunto, tá na mídia.


O filme é eficiente e forte. Traz de uma forma clara e explicativa, e não romântica ou hippie, os benefícios de um bom parto. E isso não quer dizer, necessariamente ser natural, na água ou de cócoras. E sim um parto onde a mulher está sob o comando, preparada e esclarecida, e sabe principalmente sobre a fisiologia do seu corpo. Em que ela está abastecida o suficiente com informações de fonte segura. Para exigir por exemplo, que seu filho fique no seu colo imediatamente depois que nasça, não um ou dois minutos, mas uma hora, duas, o tempo de mamar, se sentir seguro, amado, amparado. Para exigir que um cordão umbilical não seja cortado apressadamente, no apavoro habitual, e sim com tranquilidade, paciência e adaptação. Para que seja chamada pelo nome e perceba a diferença que isso faz. Para que fique na posição que se sentir melhor. Para que anestesias e outros “sorinhos” sejam chamados claramente de drogas, que afetam sim um bebê recém nascido.


São uma série de equívocos institucionalizados, mas parece muito aceitável que ao chegar para parir você siga aquelas “etapas”, que começam mais ou menos como acontece numa prisão: não pode comer, não pode beber, não pode se mexer, só quando mandarem; vai tirando a roupa, os brincos, raspa os cabelos, deixa sua identidade lá fora e põe o avental verde. Agora pode começar. E anda logo!


Muito estimulante o cenário para gerar a vida, receber um novo ser no mundo. Mas isso “é normal”. Esfregar a cara do bebê e tirar sua proteção natural, “normal”. Enfiar um cano no seu nariz, “normal”. Obrigá-lo a respirar abruptamente, “normal”. Deixar a natureza agir a seu tempo, “frescura”. Ou “moda” (essa é ótima, moda desde o início dos tempos). E aqui nem sequer falamos das cesáreas, de marcar horário, amarrar os braços, parir ouvindo comentários sobre futebol. Só dos partos “normais”.


A ordem que foi erroneamente estabelecida, que é a habitual e que a maioria tem acesso aqui no Brasil, é recente em comparação com a história da humanidade, mas tá montada numa arrogância sem par. O sentimento de controle e posse predominam. Mas é a brasileira que adora a cesária.

 

É fácil fazer ela escolher. Assusta ela vai. Diz que o bebê é grande, que a bacia é estreita, que o bebê pode morrer sufocado, que vai ficar preso, que está há tempo demais... que ela é grande, pequena, gorda, fraca, acha um defeito, quem não tem defeito? Ah, e o argumento infalível, DÓI DEMAIS, ninguém quer isso!

 

Hoje não se disassocia mais a palavra “parto” da palavra “dor”, mas não se vê ninguém dizer o quanto uma cesárea dói... Os riscos que oferece. As sequelas que deixa. Que muitos bebês nascem e vão direto pra UTI. Que ultrassons tem margens de erros significativas. Que infecções hospitalares acontecem com frequência. Só pra falar dos prejuízos físicos, nem vamos entrar na questão sócio-psico-emocional.
E por que isso é uma escolha mesmo?


Nos países esclarecidos nem se discute. Cesariana é uma cirurgia de emergência, ponto final. A tecnologia evoluiu, e existe para nos amparar, não para nos amputar. E nós precisamos de uma sociedade que entenda e pratique isso, uma sociedade de confiança, amorosa. E para isso não basta só o apoio e informação às mulheres, precisamos educar crianças e adolescentes, reformular a escola e universidades de medicina; amparar os profissionais e espaços de saúde, que se ficarem uma ou doze horas esperando um bebê nascer, ganham a mesma merreca. Não são monstros os médicos, são vítimas também desse sistema.


Mas o máximo que conseguirem lavar as mãos empurrando para os outros a decisão por métodos rápidos e mecânicos, assim será. É muito fácil manipular e isso pode ser feito de forma extremamente sutil, doce, carinhosa. Nem sempre por maldade. Pode ser conveniência. Necessidade. Inconformismo. Desvalorização. E até medo. Despreparo. Desamparo. Não sei quando colocamos os médicos num posto que mal podemos alcançar e passamos a considerá-los autoridades, esquecendo que antes disso são gente.

 

Mas "é a mulher que decide". Não uma sociedade inteira que gira feito cadeia de produção, onde tempo é dinheiro. Que planeja, controla, contabiliza, mas não tem capacidade de olhar para si e perceber o quão doente está. 



* Texto originalmente publicado no Página3 impresso, coluna Ex pressão, de 24 de agosto de 2013

 

Escrito por Caroline Cezar, 27/08/2013 às 12h35 | carol.jp3@gmail.com

Liberdade de ir e vir! #cidadeparapessoas

Acho muito esquisito quando vejo essas leis que limitam a circulação das pessoas nas ruas, "isso pode, isso não pode", ainda mais em cidades "turísticas" onde são solenemente ignoradas saídas de bares e festas, de onde muitos motoristas vão embora de carro, trocando as pernas e caindo de bêbados. Inclusive as festas organizadas pela prefeitura, durante o dia, e que "fecham" a rua, como os tais "Encontros dos Amigos". Nessa mesma cidade muitas calçadas são ocupadas por mesas -dos mesmos bares-, e outras tem placas de propaganda, carros estacionados "só por um minutinho", ladeiras, buracos. Já fomos considerados os piores do Brasil nesse quesito!

Aí um vereador vai lá e tenta "melhorar" o trânsito, primeiro com uma lei esdrúxula e limitadora sobre bicicletas, patinetes e outros veículos alternativos -que não poluem, não engarrafam e não pagam grandes impostos - soluções que as pessoas encontram para "sair pela tangente" nesse sistema falido em que vivemos. Deu polêmica, então ele amenizou, mas continuou batendo na tecla de que a rua é só para alguns. Me diz como alguém em sã consciência tenta coibir que outro alguém se locomova com um skate numa via pública? Para onde estamos andando?

 


Durante passeio exigindo a ciclovia na Atlântica, prometida há mais de ano (Foto Caroline Cezar)
 

 

O skate nasceu na rua, não tem esporte mais entranhado na cultura street do que ele. Sempre foi marginalizado, ok, mas isso era na década de 20 né, acho que hoje todo mundo está mais esclarecido sobre a liberdade das pessoas se mexerem como quiserem.

Tenho um amigo, o Renanzinho, que não tem carro, e para ir de um lado a outro utiliza pernas, ônibus, bicicleta, carona e skate. De todos o que prefere é o "carrinho", apelido das antigas, porque pode guardar embaixo do braço. A bicicleta, exige um "estacionamento" em segurança - o que a cidade não possibilita (exceto em casas de amigos, e olhe lá); os ônibus levam só a um pedaço do percurso, o resto tem que ser feito a pé - e às vezes é longe; as pernas têm um limite de velocidade; e as caronas é cada um por si e Deus por todos. O skate possibilita uma independência ímpar pra que tem habilidade como meu amigo. Ele pode se cansar na metade e subir num ônibus, pode voltar de bicicleta, pode pôr na mochila.

No "projeto de lei" o vereador tomou o cuidado de lembrar que as bicicletas, quando não tem ciclovia (80% dos casos), devem se locomover pelo lado direito - sentido do trânsito. Ok, correto. Ele esqueceu de lembrar aos ciclistas que os carros não respeitam a distância exigida das bicicletas e que por isso essas estão sujeitas a portas abrindo na cara, a atropelamentos e "finos" que causam tombos graves, mas isso tudo bem, é "normal".

E os patins se encaixam em que "categoria"? Será que levo multa ou apreensão se sair por aí patinando?

 

Não vamos inverter as coisas, sugiro aos vereadores fazerem valer as leis de segurança que já existem e que por falta de fiscalização continuam oferecendo grande risco à comunidade, principalmente quando envolvem álcool e volante. No mais, lembremos sempre, a rua é um lugar PÚBLICO, é para todos, e deve oferecer iguais condições, não importa se é para alguém que gosta de usar o corpo como veículo, ou para outro que passa a vida a imaginar como deve ser isso, com a bunda num escritório.

 


Isso também é BC vereador! (Foto Guilherme Meneghelli)
 

Escrito por Caroline Cezar, 21/08/2013 às 09h09 | carol.jp3@gmail.com

Erramos #dãr

Não sei quem foi o espírito brincalhão que creditou a foto da Ex pressão dessa semana (edição impressa) a Davi Baumgarten, que vem a ser meu filho, mas não, a foto não é dele. Talvez por uma pequena semelhança com a modelo na forma de parar-se-pra-esperar ou porque dia desses usei a imagem pra ilustrar perfil de facebook, tipo metáfora -mesmo motivo pelo qual ela ilustra a coluna impressa. Ou só apenas porque faltou internet na roça e a titular da coluna deixou para enviar a imagem de última hora, esquecendo de citar o crédito a Vince Cavataio, o verdadeiro autor da imagem, que tem outras fotos maravilhosas do Hawaii na rede. 
 

Pela falha cometida aqui me redimo! Confira mais imagens de Cavataio em seu site oficial.



Escrito por Caroline Cezar, 19/08/2013 às 08h02 | carol.jp3@gmail.com

"Devo me apressar mamãe?"

Outro textinho legal que está repercutindo na web sobre valores, pressas e criação dos filhos. A coluna Ex pressão compactua com a visão da autora e acha que esse tipo de coisa deve ser compartilhada o máximo possível!  
 

Texto de Rachel Macy Stafford, professora de educação especial, publicado originalmente em inglês no blog “Hands free mama”; com tradução para o português pela equipe do Portal Aprendiz.

 

"Quando se está vivendo uma vida distraída, dispersa, cada minuto precisa ser contabilizado. Você sente que precisa estar cumprindo alguma tarefa da lista, olhando para uma tela, ou correndo para o próximo compromisso. E não importa de quantas maneiras você divide o seu tempo e atenção, não importa quantas obrigações você cumpra em modo multi-tarefa, nunca há tempo suficiente em um dia.

Essa foi minha vida por dois anos frenéticos. Meus pensamentos e ações foram controlados por notificações eletrônicas, toques de celular e uma agenda lotada. Cada fibra do meu sargento interior queria cumprir com o tempo de cada atividade marcada na minha agenda super-lotada, mas eu nunca conseguia estar à altura...

Veja bem, seis anos atrás, eu fui abençoada com uma criança tranquila, sem preocupações, do tipo que para para cheirar flores. Quando eu precisava sair de casa, ela estava levando seu doce tempo pegando uma bolsa e uma coroa brilhante. Quando eu precisava estar em algum lugar há cinco minutos, ela insistia em colocar o cinto de segurança em seu bichinho de pelúcia. Quando eu precisava pegar um almoço rápido num fast-food, ela parava para conversar com uma senhora que parecia com sua avó. Quando eu tinha 30 minutos para caminhar, ela queria que eu parasse o carrinho e acariciasse todos os cachorros em nosso percurso. Quando eu tinha uma agenda cheia que começava às 6h da manhã, ela me pedia para quebrar os ovos e mexê-los gentilmente.

Minha criança sem preocupações foi um presente para minha personalidade apressada e tarefeira – mas eu não pude perceber isso. Ó não, quando se vive uma vida dispersa, você tem uma visão em forma de túnel – sempre olhando para o próximo compromisso na agenda. E qualquer coisa que não possa ser ticada na lista é uma perda de tempo..."



Leia o texto completo no Portal Aprendiz.
 

 

Escrito por Caroline Cezar, 16/08/2013 às 10h42 | carol.jp3@gmail.com

Renascimento em Floripa #dica #cinema

Levar um documentário aos cinemas já é difícil, quem dirá um documentário independente que aborda uma realidade social vigente, comum e corriqueira que coloca o interesse econômico acima da saúde e felicidade das pessoas.

 

  


Estréia em Floripa, Curitiba e POA nessa sexta, 16 (a pré-estréia já rolou e foi um sucesso), o documentário "O Renascimento do Parto", trabalho social de fundamental importância e que merece o devido reconhecimento. Diferente do que parece, o filme não é pra "gravidinhas, mãezinhas e alternativos em geral", e sim pra todo mundo que costuma se informar sobre o que acontece ao seu redor, pois a forma de nascer afeta não só as famílias que recebem "um lindo bebezinho", mas toda uma sociedade que sofre as consequências que isso gera, dependendo da forma que acontece. A curto e longo prazo.


A distribuição nos cinemas se deu por meio do www.benfeitoria.com, através de financiamento coletivo. Foram R$ 142 mil arrecadados, enquanto a meta era R$ 65 mil. Mil e duzentas pessoas contribuíram para que o documentário percorresse as principais capitais brasileiras. Acho lindo!

É parte de uma construção que precisa ser feita, já está sendo feita. Prestigie!

 

 

 

Estréias em 16/08:

Florianópolis - Cinespaço Beira Mar
Curitiba - Espaço Itaú de Cinema
Porto Alegre - Espaço Itaú de Cinema 

(Saiba mais no site oficial do filme)

 

TRAILER:



 

Escrito por Caroline Cezar, 14/08/2013 às 09h01 | carol.jp3@gmail.com



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Caroline Cezar

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É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.