Jornal Página 3
Coluna
Ex pressão
Por Caroline Cezar

No improviso

E já que o assunto é o Quintal, compartilho aqui o breve textinho que minha amiga Nana Góis publicou recentemente, junto com um videozin das crias cantando:

 

"Coração não é tão simples qto pensa, nele cabe o que não cabe na dispensa, cabe o meu amor!

Nenhuma apresentação de escola se compara a uma que não foi orquestrada, marcada ou ensaiada, saiu assim, deles mesmos no meio do churrasco: dia das crianças como toda criança deveria ter direito, livre para desafinar, para cair, para se sentir amada. Crianças livres, talentosas e com iniciativa, cantam e se ordenam como querem. Cantaram e emocionaram porque quiseram, porque sabem, porque amam!"

 


Me fez lembrar muito desse texto aqui, publicado em 2 de março na Ex pressão impressa:


Tem pais que não gostam de apresentações em escolas. Dá pra entender, porque as apresentações em escolas, em geral, são muito chatas, mecânicas. Um teatrinho para "mostrar serviço", segurar clientela, já que educação, ao patamar que desceu há alguns tempos, é negócio. Mas quando a coisa é humana, estar à frente de crianças apresentando -ou não-, o que ensaiam -ou não-, é rico. Quando a escola tem confiança no seu aprofundamento humano, não tem medo da espontaneidade. Só consegue ser espontâneo quem tem chão firme pra pisar. Só consegue lidar com a espontaneidade quem sabe o que está plantando, mas não tenta ficar controlando o que colhe.


O espontâneo é pintado como desleixo, falta de disciplina, pouco sério, descontraído, mas é sempre a forma mais pura de manifestação. Ao redor, causa medo e repulsa, um quase desespero. Espontaneidade -dar ou receber- é só para corajosos, e não vale vestir máscara pra parecer à vontade, "agora todo mundo senta de qualquer jeito e faz cara de tô nem aí". O espontâneo está sempre mostrando mais uma face que a gente não vê, confirmando outra que a gente desconfia, trazendo novos pontos de vista, mais perguntas do que respostas, mais dúvidas do que certezas, mais reticências... surpresas. O espontâneo faz pensar, provoca, questiona, força o improviso, trabalha a cintura, o sistema respiratório, a circulação. O espontâneo é muito livre, e sabe como é, livre dá problema. A ausência do espontâneo também denuncia, - e como!-, mas só pra quem quer mesmo ver.


Leia-se como "apresentação" o que se torna público, uma expressão, um desenho, uma frase, um silêncio.


Faz tempo, mas não esqueço, do casal que chegou na metade do show e sentou pra ver a filha, já que era "a vez dela". Eu me desconcentrei do que dizia a música porque percebia a mulher se mexendo e fazendo sinal pra professora que o chapéu estava no rosto. "Arruma, arruma"; e a professora, no palco, tentando ajeitar, nervosa; e a criança se afundando no chapéu, -mas dava de ver os olhos-; e uma tensão coletiva ligando aqueles que estavam de alguma forma presenciando aquilo, poucos acredito: a mulher; a criança; o marido; a professora; eu; meu vizinho; e um foco totalmente distorcido de um momento. Quando não acenava e dialogava labialmente com a professora posicionada atrás da menina, reclamava para o marido que ai, que nervoso, ai, tá horrível, ai, credo, mas logo acabou a música, eles levantaram, foram embora, tinham ido só pra isso, ver a filha se afundar no chapéu.


Morri.

Já tava morrendo desde que cheguei e vi uma exposição de frases na parede lá da frente. Na porta do teatro. Não sei se alguém mais viu. Não sei se alguém leu mais do que a frase do seu filho, passando rápido os olhos pelas caligrafias até reconhecer uma, e ler "o que já sabia". Sempre sabem né? O que é certo, o que não é, como deve ser e o que será, o que deve ser esperado daquilo. Lê só o que bem entende (ou o que mal entende seria?). 


Só naquela porta tinha tanta riqueza que dava pra morrer mil vezes.

 

 

E foi assim por horas seguidas, pura arte, uma essência implícita, latente, farta de aparência -tudo simples, manual, pouco 'tecnológico', mais farto ainda de significado. Mas tantos estavam ali pra ver um chapéu ajeitado numa cabeça. Uma figura individual. Uma projeção. O "seu" filho, a "sua" música, a "sua" participação, o "seu" desenho, a "sua" performance.


Ninguém tem culpa, porque há muito tempo não se treina os olhos pra beleza, pra olhar em volta. Se decora datas de guerras, se resolve equações inusáveis, fórmulas químicas, aprende-se nomes técnicos, prima-se pela competição e superação do próximo chamando isso de sucesso, mas pouco se fala nas coisas essenciais do viver, pouco se ensina sobre o lado prático, as cotidianices, pouco se fala sobre o corpo, a mente, pouco se conversa. Filosofia é só o nome de uma disciplina que aparece lá nas últimas séries, coisa rápida pra embelezar o quadro. E vale nota.

Eu não sei por que me lembrei disso agora.



GALERIA:
Vê a galeria de fotos de frases aqui: "Oi, consegue me ver?"

Escrito por Caroline Cezar, 17/10/2013 às 07h44 | carol.jp3@gmail.com

Do quintal, 3

 

Escrito por Caroline Cezar, 11/10/2013 às 06h57 | carol.jp3@gmail.com

Do quintal, 2

Escrito por Caroline Cezar, 09/10/2013 às 08h10 | carol.jp3@gmail.com

Encontro

Só não enxerga quem não quer. Ou quem não pode! Mas que essa escola dá espaço, dá. É um campo vasto, não só para as crianças, que naturalmente ainda estão mais abertas; mas para os adultos, que já cheios de condicionamentos seguem repetindo padrões, no automático, sem questionamentos, sem observação, sem auto-olhar e sem olhar em volta. Teve Feira de Ciências no Quintal Mágico, e acho que vale compartilhar, um pouquinho a cada dia, o algo-a-mais que esse espaço fértil oferece.

 

Escrito por Caroline Cezar, 30/09/2013 às 17h53 | carol.jp3@gmail.com

Aí sim #RockInRio

Tava meio que repelindo esse negócio de Rock n'Rio, porque né, cada coisa que botaram ali que não dá nem pra dialogar mentalmente. Também não gosto do oba oba extremo em cima da parada. Mas no domingo de chuva e casinha não deu pra não topar com as telas, e que grata surpresa, Sepultura, de quem já fui muito fã, exalando brasilidade -primeiro ao homenagear o grande mestre Chico Science, e depois em parceria com o não menos gênio Zé Ramalho, que encaixou-se perfeitamente no contexto. Foi lindo!

 


(Foto Luciano Carvalho/ G1. Tem outras fotos legais aqui)

 

Showzaço de peso também do Slayer, qualidade indiscutível, e a cara de mestre zen do vocal Tom Araya, em frente aquele peso fenomenal, indica que ele nasceu exatamente pra isso. Dom! Queria ficar pro Iron Maiden, mas não deu pra mim; também gostei dos relances que vi de uma blueseira no dia anterior ou sexta, e é isso.
 

Mas de longe o mais sensacional é assistir a tudo acompanhado das crianças, que são as comentaristas mais indispensáveis da vida. 
 

Escrito por Caroline Cezar, 23/09/2013 às 07h44 | carol.jp3@gmail.com

"Déficit de atenção":

 

Oi "mundo moderno", não tá na hora de acordar? Bom dia!



 

Escrito por Caroline Cezar, 09/09/2013 às 08h03 | carol.jp3@gmail.com



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Caroline Cezar

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É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.














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E já que o assunto é o Quintal, compartilho aqui o breve textinho que minha amiga Nana Góis publicou recentemente, junto com um videozin das crias cantando:

 

"Coração não é tão simples qto pensa, nele cabe o que não cabe na dispensa, cabe o meu amor!

Nenhuma apresentação de escola se compara a uma que não foi orquestrada, marcada ou ensaiada, saiu assim, deles mesmos no meio do churrasco: dia das crianças como toda criança deveria ter direito, livre para desafinar, para cair, para se sentir amada. Crianças livres, talentosas e com iniciativa, cantam e se ordenam como querem. Cantaram e emocionaram porque quiseram, porque sabem, porque amam!"

 


Me fez lembrar muito desse texto aqui, publicado em 2 de março na Ex pressão impressa:


Tem pais que não gostam de apresentações em escolas. Dá pra entender, porque as apresentações em escolas, em geral, são muito chatas, mecânicas. Um teatrinho para "mostrar serviço", segurar clientela, já que educação, ao patamar que desceu há alguns tempos, é negócio. Mas quando a coisa é humana, estar à frente de crianças apresentando -ou não-, o que ensaiam -ou não-, é rico. Quando a escola tem confiança no seu aprofundamento humano, não tem medo da espontaneidade. Só consegue ser espontâneo quem tem chão firme pra pisar. Só consegue lidar com a espontaneidade quem sabe o que está plantando, mas não tenta ficar controlando o que colhe.


O espontâneo é pintado como desleixo, falta de disciplina, pouco sério, descontraído, mas é sempre a forma mais pura de manifestação. Ao redor, causa medo e repulsa, um quase desespero. Espontaneidade -dar ou receber- é só para corajosos, e não vale vestir máscara pra parecer à vontade, "agora todo mundo senta de qualquer jeito e faz cara de tô nem aí". O espontâneo está sempre mostrando mais uma face que a gente não vê, confirmando outra que a gente desconfia, trazendo novos pontos de vista, mais perguntas do que respostas, mais dúvidas do que certezas, mais reticências... surpresas. O espontâneo faz pensar, provoca, questiona, força o improviso, trabalha a cintura, o sistema respiratório, a circulação. O espontâneo é muito livre, e sabe como é, livre dá problema. A ausência do espontâneo também denuncia, - e como!-, mas só pra quem quer mesmo ver.


Leia-se como "apresentação" o que se torna público, uma expressão, um desenho, uma frase, um silêncio.


Faz tempo, mas não esqueço, do casal que chegou na metade do show e sentou pra ver a filha, já que era "a vez dela". Eu me desconcentrei do que dizia a música porque percebia a mulher se mexendo e fazendo sinal pra professora que o chapéu estava no rosto. "Arruma, arruma"; e a professora, no palco, tentando ajeitar, nervosa; e a criança se afundando no chapéu, -mas dava de ver os olhos-; e uma tensão coletiva ligando aqueles que estavam de alguma forma presenciando aquilo, poucos acredito: a mulher; a criança; o marido; a professora; eu; meu vizinho; e um foco totalmente distorcido de um momento. Quando não acenava e dialogava labialmente com a professora posicionada atrás da menina, reclamava para o marido que ai, que nervoso, ai, tá horrível, ai, credo, mas logo acabou a música, eles levantaram, foram embora, tinham ido só pra isso, ver a filha se afundar no chapéu.


Morri.

Já tava morrendo desde que cheguei e vi uma exposição de frases na parede lá da frente. Na porta do teatro. Não sei se alguém mais viu. Não sei se alguém leu mais do que a frase do seu filho, passando rápido os olhos pelas caligrafias até reconhecer uma, e ler "o que já sabia". Sempre sabem né? O que é certo, o que não é, como deve ser e o que será, o que deve ser esperado daquilo. Lê só o que bem entende (ou o que mal entende seria?). 


Só naquela porta tinha tanta riqueza que dava pra morrer mil vezes.

 

 

E foi assim por horas seguidas, pura arte, uma essência implícita, latente, farta de aparência -tudo simples, manual, pouco 'tecnológico', mais farto ainda de significado. Mas tantos estavam ali pra ver um chapéu ajeitado numa cabeça. Uma figura individual. Uma projeção. O "seu" filho, a "sua" música, a "sua" participação, o "seu" desenho, a "sua" performance.


Ninguém tem culpa, porque há muito tempo não se treina os olhos pra beleza, pra olhar em volta. Se decora datas de guerras, se resolve equações inusáveis, fórmulas químicas, aprende-se nomes técnicos, prima-se pela competição e superação do próximo chamando isso de sucesso, mas pouco se fala nas coisas essenciais do viver, pouco se ensina sobre o lado prático, as cotidianices, pouco se fala sobre o corpo, a mente, pouco se conversa. Filosofia é só o nome de uma disciplina que aparece lá nas últimas séries, coisa rápida pra embelezar o quadro. E vale nota.

Eu não sei por que me lembrei disso agora.



GALERIA:
Vê a galeria de fotos de frases aqui: "Oi, consegue me ver?"

Escrito por Caroline Cezar, 17/10/2013 às 07h44 | carol.jp3@gmail.com

Do quintal, 3

 

Escrito por Caroline Cezar, 11/10/2013 às 06h57 | carol.jp3@gmail.com

Do quintal, 2

Escrito por Caroline Cezar, 09/10/2013 às 08h10 | carol.jp3@gmail.com

Encontro

Só não enxerga quem não quer. Ou quem não pode! Mas que essa escola dá espaço, dá. É um campo vasto, não só para as crianças, que naturalmente ainda estão mais abertas; mas para os adultos, que já cheios de condicionamentos seguem repetindo padrões, no automático, sem questionamentos, sem observação, sem auto-olhar e sem olhar em volta. Teve Feira de Ciências no Quintal Mágico, e acho que vale compartilhar, um pouquinho a cada dia, o algo-a-mais que esse espaço fértil oferece.

 

Escrito por Caroline Cezar, 30/09/2013 às 17h53 | carol.jp3@gmail.com

Aí sim #RockInRio

Tava meio que repelindo esse negócio de Rock n'Rio, porque né, cada coisa que botaram ali que não dá nem pra dialogar mentalmente. Também não gosto do oba oba extremo em cima da parada. Mas no domingo de chuva e casinha não deu pra não topar com as telas, e que grata surpresa, Sepultura, de quem já fui muito fã, exalando brasilidade -primeiro ao homenagear o grande mestre Chico Science, e depois em parceria com o não menos gênio Zé Ramalho, que encaixou-se perfeitamente no contexto. Foi lindo!

 


(Foto Luciano Carvalho/ G1. Tem outras fotos legais aqui)

 

Showzaço de peso também do Slayer, qualidade indiscutível, e a cara de mestre zen do vocal Tom Araya, em frente aquele peso fenomenal, indica que ele nasceu exatamente pra isso. Dom! Queria ficar pro Iron Maiden, mas não deu pra mim; também gostei dos relances que vi de uma blueseira no dia anterior ou sexta, e é isso.
 

Mas de longe o mais sensacional é assistir a tudo acompanhado das crianças, que são as comentaristas mais indispensáveis da vida. 
 

Escrito por Caroline Cezar, 23/09/2013 às 07h44 | carol.jp3@gmail.com

"Déficit de atenção":

 

Oi "mundo moderno", não tá na hora de acordar? Bom dia!



 

Escrito por Caroline Cezar, 09/09/2013 às 08h03 | carol.jp3@gmail.com



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