Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

DESCANSO INTERROMPIDO

A obra e a figura do escritor americano Ernest Hemingway (1899/1961) continuam fascinando leitores e escritores. Não sei qual delas tem maior apelo, mas o romancista detentor do Prêmio Nobel que foi ao mesmo tempo viajante incansável, aventureiro, caçador e homem de ação tem encontrado incontáveis fãs em todo o mundo, sem falar nos imitadores e sósias. Não foram poucas as oportunidades em que virou personagem de obras de ficção de outros autores, como aconteceu no romance “Um mistério para Ernest Hemingway”, de Michael Atkinson, escritor americano nascido em 1962, e lançado em tradução brasileira pela Editora Globo (S. Paulo – 2011).

É uma ficção policialesca que se estende em complicado emaranhado ao longo de 320 páginas, envolvendo a polícia, a CIA, o FBI, o ditador Fulgêncio Batista e até Fidel Castro, além de espiões, olheiros, dedo-duros, contrabandistas e uma vasta fauna da ralé humana. E nela Hemingway acaba envolvido, sem saber e sem querer, obrigando-se a enfrentar situações e perigos jamais imaginados. A história contém várias passagens de ficção descabelada, onde o exagero é evidente, perdendo a lógica e a verossimilhança. Poderiam ser eliminadas sem qualquer prejuízo à narrativa; ao contrário, a fortaleceriam. Assim acontece, por exemplo, quando o escritor caça lagartixas com uma arma de grosso calibre, ocasião em que cai do telhado fraturando o tornozelo e amortecendo a queda ao se agarrar ao galho de uma palmeira. Também nas ocasiões em que quebra o braço de um policial, mata os guarda-costas do chefe do contrabando ou na forma brutal com que se dirige aos policiais em geral. Além disso, aparece quase sempre embriagado ou curtindo pesadas ressacas. Ora, mesmo que gostasse de uns tragos, ele não vivia embriagado. Tais exageros e outros do tipo, no entanto, são perdoáveis quando o herói é Hemingway e o livro contém muito de biográfico.

Tudo tem início quando Hemingway descansa na sua casa em Key West, curtindo a visita dos filhos Gregory e Patrick, enquanto sua quarta mulher, Mary, permanece na “Finca Vigia”, em Cuba. É então que corre a notícia de que Peter Cuthbert havia sido assassinado com tremendo golpe de um grande arpão de tipo antigo e não usado por ali. Peter era um pobre diabo, pequeno contrabandista, sem família ou propriedades e mais ou menos amigo do escritor. Ele compareceu ao velório, ficou chocado com o caso e percebeu o total desinteresse das autoridades policiais em investigar o fato. Percebeu o comportamento enigmático de algumas pessoas e ficou intrigado com certas atitudes. Começou então a se interrogar dos motivos do crime, uma vez que Peter não fazia mal a ninguém e não tinha inimigos. Inicia, a partir daí, uma investigação por conta própria na qual o silêncio das pessoas é pétreo e só aos poucos, a muito custo, vai arrancando meias palavras, insinuações e alusões veladas. É um cipoal inescrutável.

A partir daí Hemingway passa a ser seguido. Onde vá, manquilotando com a perna engessada e apoiado numa bengala, olhares agudos o observam, seja em Key West ou em Cuba. É detido e interrogado pela polícia sobre coisas que não sabe, chega a sofrer sério risco de vida cercado no Iate Clube, é perseguido no mar e alvo de tiros, e, se tudo não bastasse, é sequestrado por guerrilheiros e conduzido às montanhas Escambray. Num acampamento em plena selva conhece Castro e Guevara, bebe e conversa com eles, além de saborear deliciosa carne de porco preparada pelo primeiro. Quando acorda, no dia seguinte, não havia ninguém e o acampamento desaparecera. Voltando a Havana, é libertado no Malecón e retorna à “Finca Vigia” onde sua mulher tenta convencê-lo a abandonar o caso. Mas ele prossegue, acicatado pelo desejo de saber a verdade. Até que, afinal, depois de muito matutar, vai ligando as pontas de maneira precária e chega a uma conclusão que precisava ser comprovada com ação.

Num velho barco do amigo Rick vai ao ponto imaginado e, por fim, desvenda a tão procurada verdade. Nos fundos de um barco abandonado, carcomido pelo sol e pela maresia, está o grande segredo. O inocente Peter não era assim tão inocente e estava metido em altas transações criminosas internacionais das quais ninguém, nem de longe, suspeitava. Mas elas não podem ser aqui reveladas porque tirariam do eventual leitor do livro o prazer da descoberta.

Enfim satisfeito e livre de perseguições, Hemingway retorna para casa, na “Finca Vigia”, prometendo a Mary que agora será em definitivo. E recomeça a escrever, pelo menos até que surja nova aventura.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/01/2021 às 15h33 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 59 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: [email protected]

Página 3
Literatura
Por Enéas Athanázio

DESCANSO INTERROMPIDO

A obra e a figura do escritor americano Ernest Hemingway (1899/1961) continuam fascinando leitores e escritores. Não sei qual delas tem maior apelo, mas o romancista detentor do Prêmio Nobel que foi ao mesmo tempo viajante incansável, aventureiro, caçador e homem de ação tem encontrado incontáveis fãs em todo o mundo, sem falar nos imitadores e sósias. Não foram poucas as oportunidades em que virou personagem de obras de ficção de outros autores, como aconteceu no romance “Um mistério para Ernest Hemingway”, de Michael Atkinson, escritor americano nascido em 1962, e lançado em tradução brasileira pela Editora Globo (S. Paulo – 2011).

É uma ficção policialesca que se estende em complicado emaranhado ao longo de 320 páginas, envolvendo a polícia, a CIA, o FBI, o ditador Fulgêncio Batista e até Fidel Castro, além de espiões, olheiros, dedo-duros, contrabandistas e uma vasta fauna da ralé humana. E nela Hemingway acaba envolvido, sem saber e sem querer, obrigando-se a enfrentar situações e perigos jamais imaginados. A história contém várias passagens de ficção descabelada, onde o exagero é evidente, perdendo a lógica e a verossimilhança. Poderiam ser eliminadas sem qualquer prejuízo à narrativa; ao contrário, a fortaleceriam. Assim acontece, por exemplo, quando o escritor caça lagartixas com uma arma de grosso calibre, ocasião em que cai do telhado fraturando o tornozelo e amortecendo a queda ao se agarrar ao galho de uma palmeira. Também nas ocasiões em que quebra o braço de um policial, mata os guarda-costas do chefe do contrabando ou na forma brutal com que se dirige aos policiais em geral. Além disso, aparece quase sempre embriagado ou curtindo pesadas ressacas. Ora, mesmo que gostasse de uns tragos, ele não vivia embriagado. Tais exageros e outros do tipo, no entanto, são perdoáveis quando o herói é Hemingway e o livro contém muito de biográfico.

Tudo tem início quando Hemingway descansa na sua casa em Key West, curtindo a visita dos filhos Gregory e Patrick, enquanto sua quarta mulher, Mary, permanece na “Finca Vigia”, em Cuba. É então que corre a notícia de que Peter Cuthbert havia sido assassinado com tremendo golpe de um grande arpão de tipo antigo e não usado por ali. Peter era um pobre diabo, pequeno contrabandista, sem família ou propriedades e mais ou menos amigo do escritor. Ele compareceu ao velório, ficou chocado com o caso e percebeu o total desinteresse das autoridades policiais em investigar o fato. Percebeu o comportamento enigmático de algumas pessoas e ficou intrigado com certas atitudes. Começou então a se interrogar dos motivos do crime, uma vez que Peter não fazia mal a ninguém e não tinha inimigos. Inicia, a partir daí, uma investigação por conta própria na qual o silêncio das pessoas é pétreo e só aos poucos, a muito custo, vai arrancando meias palavras, insinuações e alusões veladas. É um cipoal inescrutável.

A partir daí Hemingway passa a ser seguido. Onde vá, manquilotando com a perna engessada e apoiado numa bengala, olhares agudos o observam, seja em Key West ou em Cuba. É detido e interrogado pela polícia sobre coisas que não sabe, chega a sofrer sério risco de vida cercado no Iate Clube, é perseguido no mar e alvo de tiros, e, se tudo não bastasse, é sequestrado por guerrilheiros e conduzido às montanhas Escambray. Num acampamento em plena selva conhece Castro e Guevara, bebe e conversa com eles, além de saborear deliciosa carne de porco preparada pelo primeiro. Quando acorda, no dia seguinte, não havia ninguém e o acampamento desaparecera. Voltando a Havana, é libertado no Malecón e retorna à “Finca Vigia” onde sua mulher tenta convencê-lo a abandonar o caso. Mas ele prossegue, acicatado pelo desejo de saber a verdade. Até que, afinal, depois de muito matutar, vai ligando as pontas de maneira precária e chega a uma conclusão que precisava ser comprovada com ação.

Num velho barco do amigo Rick vai ao ponto imaginado e, por fim, desvenda a tão procurada verdade. Nos fundos de um barco abandonado, carcomido pelo sol e pela maresia, está o grande segredo. O inocente Peter não era assim tão inocente e estava metido em altas transações criminosas internacionais das quais ninguém, nem de longe, suspeitava. Mas elas não podem ser aqui reveladas porque tirariam do eventual leitor do livro o prazer da descoberta.

Enfim satisfeito e livre de perseguições, Hemingway retorna para casa, na “Finca Vigia”, prometendo a Mary que agora será em definitivo. E recomeça a escrever, pelo menos até que surja nova aventura.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/01/2021 às 15h33 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 59 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.