Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

O DUPLO

Andando pela rua, numa esquina qualquer, ele se encontrou consigo mesmo. Avistou com espanto um indivíduo igual a ele em tudo, nas feições, nos gestos, no corpo, nos trajes, na voz. Ora, ele não tinha irmãos gêmeos e foi um choque deparar com um duplo de si próprio.

A questão do duplo tem preocupado escritores, psicólogos e psicanalistas. Célebres peças literárias abordaram o assunto e ele tem sido objeto de acurados estudos. A Professora Vera Lúcia de Oliveira, graduada em Letras e especialista em Teoria Psicanalítica, acaba de publicar curioso ensaio sobre esse tema, merecedor de um comentário (*). Segundo ela, o talentoso escritor alemão E. T. Hoffmann mergulhou no mundo sombrio das histórias sobrenaturais, influenciando outros autores, entre eles Baudelaire, Guy de Maupassant, Edgar Allan Poe, Dostoievski, Oscar Wilde e, entre nós, Álvares de Azevedo. Freud fez minucioso estudo de um dos contos de Hoffmann.

O caso mais curioso, porém, está no romance “O duplo”, de Dostoievski, em que ele descreve as peripécias de Goliádkin e seu duplo num relato ao mesmo tempo surpreendente e sufocante. A ensaísta examina essa obra, inclusive sob as luzes de Freud, e as entranhas de um mundo estranho e obscuro da mente humana.

A leitura do ensaio me trouxe à lembrança um conto que escrevi por volta de 1986 e que foi publicado no meu livro “Erva-Mãe” (Editora do Escritor – S. Paulo), no qual eu abordava um tema parecido, sinal de que a ideia da existência do duplo já bailava na minha cabeça. Na época da publicação recebi várias mensagens de pessoas que praticavam o espiritismo comentando o conto em que encontravam elementos de sua crença. Meu saudoso amigo Benevides, por sinal, nutria tal certeza na existência da alma que só se referia a si próprio como “nós”, ou seja, ele e a alma. Esta, no caso, seria o duplo.

Mas vamos ao meu conto, abaixo transcrito.

O OUTRO

Reclinado sobre a mesa de tampo de vidro, ele se concentrava no que escrevia. Vez por outra interrompia o trabalho, examinava os grossos volumes à sua frente, parecia se perder em pensamentos. Depois, com diligência, retomava a escrita.

A caneta estancou de repente, bem no meio da palavra. Através do pequeno rádio colocado num canto da mesa chegou aos seus ouvidos o seu próprio nome. A voz metálica de um locutor local anunciava um flash com o advogado Janary Messias e em seguida vinha pelo ar, nítida e inconfundível, a sua própria voz.

Incrédulo, ele fixou a atenção no que ouvia. Não tinha dúvida de que era a sua voz, perfeita, reconhecível com facilidade, inclusive pela entonação e pela maneira de formular as frases. Era ele, ou melhor, era a voz dele. Mas o que ela disse, situando-se em relação a um fato político, não eram de modo algum as suas ideias: solidarizava-se com o governo e ele era o líder da oposição.

Só podia ser uma brincadeira, uma troça de mau gosto, pois não havia dado entrevista alguma nos últimos tempos. Embora a transmissão fosse feita com seriedade e tivesse que reconhecer a perícia do imitador, julgou melhor não se importar muito com aquilo. Afinal todos sabiam de suas posições e ninguém poderia imaginar que houvesse aderido. Voltou ao trabalho.

Quando o telefone tocou, retinindo no silêncio do gabinete, estava tão compenetrado que levou um susto.

- Aí, seu vira-casaca! – exclamava risonho um amigo chegado, da outra ponta do fio. Ele também ouvira as declarações e embora o advogado afirmasse com empenho que não fora ele, o outro deixou transparecer que não acreditava.

Janary inquietou-se por alguns momentos. Se um amigo quase íntimo, considerava para si mesmo, acreditava que a entrevista era dele, que iria pensar o povo? Mas, por outro lado, não tinha motivo para aquela fala idiota e não seria de uma hora para outra, sem mais nem menos, que daria tão completa quinada numa posição assumida há mais de uma década. Melhor esquecer o incidente, creditá-lo aos azares da atividade política, afastá-lo da mente. Entregou-se às complicadas razões que redigia.

_______________________

Na manhã seguinte, muito cedo, já estava no escritório. O dia era cinzento e frio, um chuvisco intermitente conservava molhado o piso brilhante da rua. Isso o deixou satisfeito, pois o mau tempo reduzia os consulentes e lhe dava folga para alguns serviços mais longos que iam ficando de lado.

Afundou-se na grande poltrona negra e sentiu o prazer que lhe causava aquele gabinete confortável e bonito. Acendeu um cigarro e correu os olhos pelas lombadas dos livros que atulhavam as estantes, depois pelos quadros das paredes, enquanto sorvia a fumaça e soltava devagar. Depois, com gestos calmos, ligou o rádio, apanhou uma pasta verde e começou a espalhar documentos à sua volta.

Absorvia-se naquela análise monótona quando a emissora anunciou outra vez a sua palavra. E, de fato, respondendo às perguntas de um repórter, sua voz veio pelo ar com respostas incisivas e diretas, dirigindo violentos ataques a muitos de seus companheiros locais. A voz, como da vez anterior, era perfeita até nos detalhes mais insignificantes. Nem ele próprio poderia negar que era a sua voz, exceto pelo fato muito simples e claro de que não dera aquela entrevista e jamais fizera semelhantes afirmações.

Chegava a entrevista ao seu final quando a secretária entrou na sala. Tinha a surpresa desenhada no rosto e evidenciava nervosismo.

- Não sabia que o senhor tinha virado! – foi logo dizendo, sem esperar resposta: - Que vão dizer os amigos que o senhor atacou?

Foram inúteis as explicações, ela não acreditou. Atônito, telefonou para a rádio, mas ouviu do gerente e do próprio repórter que a entrevista fora gravada na noite anterior, no seu próprio gabinete. Diante de sua negativa, o repórter lhe deu o endereço, a hora e até o traje que o advogado usava na ocasião. Era absurdo, incrível!

O telefone naquele dia não cessou de tocar. As visitas se sucederam e ele, afirmando e jurando, extenuou-se em tentativas de explicações. Alguns acreditavam, embora não faltassem maliciosos-que o imaginavam jogando com pau de dois bicos.

Nos dias seguintes procurou aqueles que sua voz criticara e tudo fez para eliminar as desconfianças. Procurou o repórter e o rapaz, diante de sua firme negativa, pareceu duvidar de suas faculdades. Janary o ameaçou com processo, cadeia, o diabo, enquanto ele, perplexo, balançava a cabeça e abria os braços num gesto de impotência.
_______________________

Correu o tempo e o acontecido parecia cair no esquecimento. Janary fechou o escritório e rumou para a casa próxima, onde vivia só. Fez os exercícios do costume e meteu-se no chuveiro. Enquanto a água tépida escorria, ele pensava nas coisas da profissão e do dia-a-dia do foro.

Saiu do banho, vestiu umas roupas caseiras e rumou para a sala. Ligou a televisão. Refestelado numa poltrona, ficou a assistir o noticiário local. Quase pulou quando anunciaram uma entrevista sua. Com os olhos esbugalhados, viu-se aparecer no vídeo, fazendo violentas investidas contra os homens da oposição. Aturdido, teve que admitir que “era” ele, na voz, na fisionomia e até na roupa. Os gestos, as frases, o terno, tudo era exato. Havia apenas um pequeno detalhe: não dera aquela entrevista!

Caminhava desconcertado pela sala, atônito, descontrolado. Que fazer? Como poderia provar que não era ele? Se ele próprio era forçado a reconhecer a semelhança total, melhor ainda, a igualdade absoluta, entre os dois! Enquanto isso o outro, muito tranquilo, deitava falação.

Resolveu fugir, ausentar-se por uns tempos. Recobraria ânimo para enfrentar na volta os comentários, explicações, desmentidos. Escreveu um bilhete à secretária, pedindo-lhe que avisasse aos clientes. Enfiou algumas roupas numa sacola e saiu em direção à garagem. Quando fechava a porta o telefone começava a tocar.

_____________________

Vários dias se passaram. Era uma tarde muito quente, um calor de forno, quando Janary retornou. Foi entrando na cidade pela larga avenida arborizada, foi entrando devagar, o carro ronronando com suavidade. Avistou fisionomias familiares e elas lhe pareceram acolhedoras, algumas pessoas amistosas até lhe abanaram. Tinha a sensação da paz, os problemas acabados, o prazer agradável da volta ao lar.

Abriu a porta e entrou decidido na sua casa. Rumou para o quarto e sentiu um estranho cheiro, fétido, insuportável. Ficou nauseado. Era estranho, pois a casa estivera fechada.

Largou as coisas sobre a cama e começou a cruzar o quarto em direção à janela, quando notou alguma coisa diferente sobre o tapete. Acendeu as luzes e se aproximou para observar. Num montículo desajeitado jaziam suas roupas, seus óculos escuros e uns cabelos em tudo iguais aos seus. Ao redor, numa grande mancha, estendia-se a umidade gordurosa de onde se exalava o cheiro nauseabundo.

Janary de início não entendeu. Aos poucos sua face foi se abrindo num sorriso e descambou numa gargalhada longa e aliviada. O outro se consumira numa malcheirosa torrente.

________________________
(*) “Quintas Literárias”, publicação da Associação
Nacional de Escritores (ANE), Brasília,2019, p.131

Escrito por Enéas Athanázio, 13/10/2020 às 16h33 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Literatura
Por Enéas Athanázio

O DUPLO

Andando pela rua, numa esquina qualquer, ele se encontrou consigo mesmo. Avistou com espanto um indivíduo igual a ele em tudo, nas feições, nos gestos, no corpo, nos trajes, na voz. Ora, ele não tinha irmãos gêmeos e foi um choque deparar com um duplo de si próprio.

A questão do duplo tem preocupado escritores, psicólogos e psicanalistas. Célebres peças literárias abordaram o assunto e ele tem sido objeto de acurados estudos. A Professora Vera Lúcia de Oliveira, graduada em Letras e especialista em Teoria Psicanalítica, acaba de publicar curioso ensaio sobre esse tema, merecedor de um comentário (*). Segundo ela, o talentoso escritor alemão E. T. Hoffmann mergulhou no mundo sombrio das histórias sobrenaturais, influenciando outros autores, entre eles Baudelaire, Guy de Maupassant, Edgar Allan Poe, Dostoievski, Oscar Wilde e, entre nós, Álvares de Azevedo. Freud fez minucioso estudo de um dos contos de Hoffmann.

O caso mais curioso, porém, está no romance “O duplo”, de Dostoievski, em que ele descreve as peripécias de Goliádkin e seu duplo num relato ao mesmo tempo surpreendente e sufocante. A ensaísta examina essa obra, inclusive sob as luzes de Freud, e as entranhas de um mundo estranho e obscuro da mente humana.

A leitura do ensaio me trouxe à lembrança um conto que escrevi por volta de 1986 e que foi publicado no meu livro “Erva-Mãe” (Editora do Escritor – S. Paulo), no qual eu abordava um tema parecido, sinal de que a ideia da existência do duplo já bailava na minha cabeça. Na época da publicação recebi várias mensagens de pessoas que praticavam o espiritismo comentando o conto em que encontravam elementos de sua crença. Meu saudoso amigo Benevides, por sinal, nutria tal certeza na existência da alma que só se referia a si próprio como “nós”, ou seja, ele e a alma. Esta, no caso, seria o duplo.

Mas vamos ao meu conto, abaixo transcrito.

O OUTRO

Reclinado sobre a mesa de tampo de vidro, ele se concentrava no que escrevia. Vez por outra interrompia o trabalho, examinava os grossos volumes à sua frente, parecia se perder em pensamentos. Depois, com diligência, retomava a escrita.

A caneta estancou de repente, bem no meio da palavra. Através do pequeno rádio colocado num canto da mesa chegou aos seus ouvidos o seu próprio nome. A voz metálica de um locutor local anunciava um flash com o advogado Janary Messias e em seguida vinha pelo ar, nítida e inconfundível, a sua própria voz.

Incrédulo, ele fixou a atenção no que ouvia. Não tinha dúvida de que era a sua voz, perfeita, reconhecível com facilidade, inclusive pela entonação e pela maneira de formular as frases. Era ele, ou melhor, era a voz dele. Mas o que ela disse, situando-se em relação a um fato político, não eram de modo algum as suas ideias: solidarizava-se com o governo e ele era o líder da oposição.

Só podia ser uma brincadeira, uma troça de mau gosto, pois não havia dado entrevista alguma nos últimos tempos. Embora a transmissão fosse feita com seriedade e tivesse que reconhecer a perícia do imitador, julgou melhor não se importar muito com aquilo. Afinal todos sabiam de suas posições e ninguém poderia imaginar que houvesse aderido. Voltou ao trabalho.

Quando o telefone tocou, retinindo no silêncio do gabinete, estava tão compenetrado que levou um susto.

- Aí, seu vira-casaca! – exclamava risonho um amigo chegado, da outra ponta do fio. Ele também ouvira as declarações e embora o advogado afirmasse com empenho que não fora ele, o outro deixou transparecer que não acreditava.

Janary inquietou-se por alguns momentos. Se um amigo quase íntimo, considerava para si mesmo, acreditava que a entrevista era dele, que iria pensar o povo? Mas, por outro lado, não tinha motivo para aquela fala idiota e não seria de uma hora para outra, sem mais nem menos, que daria tão completa quinada numa posição assumida há mais de uma década. Melhor esquecer o incidente, creditá-lo aos azares da atividade política, afastá-lo da mente. Entregou-se às complicadas razões que redigia.

_______________________

Na manhã seguinte, muito cedo, já estava no escritório. O dia era cinzento e frio, um chuvisco intermitente conservava molhado o piso brilhante da rua. Isso o deixou satisfeito, pois o mau tempo reduzia os consulentes e lhe dava folga para alguns serviços mais longos que iam ficando de lado.

Afundou-se na grande poltrona negra e sentiu o prazer que lhe causava aquele gabinete confortável e bonito. Acendeu um cigarro e correu os olhos pelas lombadas dos livros que atulhavam as estantes, depois pelos quadros das paredes, enquanto sorvia a fumaça e soltava devagar. Depois, com gestos calmos, ligou o rádio, apanhou uma pasta verde e começou a espalhar documentos à sua volta.

Absorvia-se naquela análise monótona quando a emissora anunciou outra vez a sua palavra. E, de fato, respondendo às perguntas de um repórter, sua voz veio pelo ar com respostas incisivas e diretas, dirigindo violentos ataques a muitos de seus companheiros locais. A voz, como da vez anterior, era perfeita até nos detalhes mais insignificantes. Nem ele próprio poderia negar que era a sua voz, exceto pelo fato muito simples e claro de que não dera aquela entrevista e jamais fizera semelhantes afirmações.

Chegava a entrevista ao seu final quando a secretária entrou na sala. Tinha a surpresa desenhada no rosto e evidenciava nervosismo.

- Não sabia que o senhor tinha virado! – foi logo dizendo, sem esperar resposta: - Que vão dizer os amigos que o senhor atacou?

Foram inúteis as explicações, ela não acreditou. Atônito, telefonou para a rádio, mas ouviu do gerente e do próprio repórter que a entrevista fora gravada na noite anterior, no seu próprio gabinete. Diante de sua negativa, o repórter lhe deu o endereço, a hora e até o traje que o advogado usava na ocasião. Era absurdo, incrível!

O telefone naquele dia não cessou de tocar. As visitas se sucederam e ele, afirmando e jurando, extenuou-se em tentativas de explicações. Alguns acreditavam, embora não faltassem maliciosos-que o imaginavam jogando com pau de dois bicos.

Nos dias seguintes procurou aqueles que sua voz criticara e tudo fez para eliminar as desconfianças. Procurou o repórter e o rapaz, diante de sua firme negativa, pareceu duvidar de suas faculdades. Janary o ameaçou com processo, cadeia, o diabo, enquanto ele, perplexo, balançava a cabeça e abria os braços num gesto de impotência.
_______________________

Correu o tempo e o acontecido parecia cair no esquecimento. Janary fechou o escritório e rumou para a casa próxima, onde vivia só. Fez os exercícios do costume e meteu-se no chuveiro. Enquanto a água tépida escorria, ele pensava nas coisas da profissão e do dia-a-dia do foro.

Saiu do banho, vestiu umas roupas caseiras e rumou para a sala. Ligou a televisão. Refestelado numa poltrona, ficou a assistir o noticiário local. Quase pulou quando anunciaram uma entrevista sua. Com os olhos esbugalhados, viu-se aparecer no vídeo, fazendo violentas investidas contra os homens da oposição. Aturdido, teve que admitir que “era” ele, na voz, na fisionomia e até na roupa. Os gestos, as frases, o terno, tudo era exato. Havia apenas um pequeno detalhe: não dera aquela entrevista!

Caminhava desconcertado pela sala, atônito, descontrolado. Que fazer? Como poderia provar que não era ele? Se ele próprio era forçado a reconhecer a semelhança total, melhor ainda, a igualdade absoluta, entre os dois! Enquanto isso o outro, muito tranquilo, deitava falação.

Resolveu fugir, ausentar-se por uns tempos. Recobraria ânimo para enfrentar na volta os comentários, explicações, desmentidos. Escreveu um bilhete à secretária, pedindo-lhe que avisasse aos clientes. Enfiou algumas roupas numa sacola e saiu em direção à garagem. Quando fechava a porta o telefone começava a tocar.

_____________________

Vários dias se passaram. Era uma tarde muito quente, um calor de forno, quando Janary retornou. Foi entrando na cidade pela larga avenida arborizada, foi entrando devagar, o carro ronronando com suavidade. Avistou fisionomias familiares e elas lhe pareceram acolhedoras, algumas pessoas amistosas até lhe abanaram. Tinha a sensação da paz, os problemas acabados, o prazer agradável da volta ao lar.

Abriu a porta e entrou decidido na sua casa. Rumou para o quarto e sentiu um estranho cheiro, fétido, insuportável. Ficou nauseado. Era estranho, pois a casa estivera fechada.

Largou as coisas sobre a cama e começou a cruzar o quarto em direção à janela, quando notou alguma coisa diferente sobre o tapete. Acendeu as luzes e se aproximou para observar. Num montículo desajeitado jaziam suas roupas, seus óculos escuros e uns cabelos em tudo iguais aos seus. Ao redor, numa grande mancha, estendia-se a umidade gordurosa de onde se exalava o cheiro nauseabundo.

Janary de início não entendeu. Aos poucos sua face foi se abrindo num sorriso e descambou numa gargalhada longa e aliviada. O outro se consumira numa malcheirosa torrente.

________________________
(*) “Quintas Literárias”, publicação da Associação
Nacional de Escritores (ANE), Brasília,2019, p.131

Escrito por Enéas Athanázio, 13/10/2020 às 16h33 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.