Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

GILBERTO AMADO, AINDA

Eugênio Gudin, Nereu Ramos, Gilberto Amado e Napoleão Alencastro Guimarães

Meus artigos a respeito de Gilberto Amado (1887/1969) provocaram muitas manifestações, em sua quase totalidade positivas, revelando que o sergipano ainda tem leitores e admiradores. Algumas, no entanto, revelaram vívida antipatia contra o memorialista de “História de Minha Infância.” Dentre estas, a carta curta e seca de um leitor de Brasília, também escritor, diz o seguinte: “Tudo bem, ele merece todos os elogios etc. Só faltou você mencionar que o diplomata, escritor, deputado e senador, era também um criminoso, já que ele assassinou um cidadão em seu Estado, lapso imperdoável para um promotor público.”

Ora, ora, pois, pois.O puxão de orelha revela que o missivista não conhece os fatos; ouviu o galo cantar mas não sabe onde. Não haveria razão para relembrar evento tão amargo numa série de artigos sobre a obra e as realizações culturais do escritor. Seja como for, não desconheço o trágico capítulo e li tudo que encontrei a respeito, além de ter conversado com pessoas que o conheciam em detalhes. Para escrever sobre o fato, vou me valer de autor que não foi biógrafo de Gilberto Amado e que, a rigor, não existe, e nem publicou ensaios sobre ele, presumindo, portanto, seja insuspeito. Como advertiu o crítico Wilson Martins, certos biógrafos tendem à hagiografia.

Gilberto Amado não costumava abdicar de suas posições ou de dizer o que pensava, mesmo que isso desagradasse a muitos. Como crítico, ousou fazer restrições à literatura de Coelho Neto e atacou Rui Barbosa por pretensões políticas que considerou injustificáveis, atitudes inconcebíveis na época, um quase delito de lesa-pátria. Escrevia em “O País”, de João Lage, como sucessor de Cármen Dolores, jornal de grande circulação e prestígio, e contava com a franca simpatia de Pinheiro Machado. Muito jovem, é natural que despertasse invejas e ressentimentos. Para muita gente, é difícil tolerar o sucesso alheio.

Tempos antes havia criticado obras de Elóí Pontes, romancista, e Lindolfo Collor, poeta, autores que julgava sofríveis e que, no entanto, recebiam “um chorrilho de elogios.” Irritado, Gilberto escreveu o artigo “É demais!”, denunciando a falsidade dos que aclamavam como gênios “simples espíritos medíocres, incapazes de um esforço para além da mediania.” Palavras que o tempo só fez ratificar, uma vez que ambos os criticados não sobreviveram na literatura. Na tarde do mesmo dia, quando caminhava pela Rua do Ouvidor em companhia de João do Rio, Gilberto foi surpreendido pela chegada de Collor que contra ele investiu de bengala em punho, ameaçando espancá-lo. Em seguida surge Elói Pontes, por acaso ou em combinação com o outro, e também investe contra o articulista. Diante da agressão iminente, Gilberto sacou do revólver e disparou um tiro que a ninguém atingiu e logo em seguida outro, este para o ar. Formou-se grande aglomeração de populares e os atacantes, esbaforidos, trataram de se safar. O fato teve intensa repercussão, inclusive na imprensa, mas deixou claro que o sergipano, embora pequeno e magrinho, não era de matar com a unha.

Formaram-se, a partir dali, duas correntes: uma pró e outra contra Gilberto. Nesta última alistou-se como voluntário o poeta mato-grossense Aníbal Teófilo, inimigo gratuito do escritor e que passou a exercitar contra ele uma série de ofensas, provocações e ameaças em todas as ocasiões. “A mesma intolerância em relação ao novo deputado por Sergipe manifestava o mato-grossense Aníbal Teófilo, compadre e comensal de Coelho Neto, muito grato a este, a quem devia o emprego de secretário do Teatro Municipal. Autor de escassa obra literária, tornara-se famoso por alguns sonetos, principalmente “A Cegonha”, que rapidamente se popularizara. Verdadeiro atleta, de porte gigantesco, era um tipo truculento e desafiador. Habituado a intimidar adversários, estava disposto a humilhar o desafeto pequeno e fraco, onde quer que o encontrasse.” São palavras de R. Magalhães Júnior, pesquisador sério e respeitado, fundadas em elementos criteriosos e em peças do próprio inquérito policial (“A Vida Vertiginosa de João do Rio”, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978, pág. 237). Eis o adversário temeroso que o destino colocou no caminho ascendente do jovem escritor, jornalista e deputado federal por Sergipe. Assombrado com o impasse, Gilberto tratou de evitar certos lugares e suas memórias registram a angústia que a situação provocava. Noites sem dormir, ausências à Câmara, nervosismo, fugas dos amigos. Pediu a intervenção de conhecidos comuns mas de nada adiantou, as ameaças prosseguiam na rua, nos bondes, nas redações – e ele via “as risadinhas em cada rosto.” Apavorava-o a hipótese de ser puxado pelas orelhas, de receber um puxavante em público, à frente de todos. Dias angustiantes se escoam devagar.

O mundo girava, indiferente ao drama do sergipano. Era o período da “epidemia” das conferências literárias, iniciadas por inspiração de Medeiros e Albuquerque em seu retorno da França, e que se encerraria exatamente no dia fatal. Faziam-se palestras sobre tudo: A Palavra, Beijos, Os Mortos, A Água, O Riso, O Diabo, A Beleza, A Graça, O Dinheiro, O Fogo, A Esperança, O Silêncio é de Ouro, A Dor, Os Poetas do Sertão, Casar é Bom, Mas não casar é Melhor e por aí além. Agripino Grieco em uma de suas entrevistas relembra essa fase da vida carioca em que o público acorria para ouvir seus palestrantes mediante entrada paga.

Até que, em 19 de junho de 1915, um sábado à tarde, terminava mais uma dessas conferências no salão nobre do “Jornal do Commercio” e os ouvintes se retiravam. Entre eles estava o deputado sergipano, discreto e silencioso, com certeza ressabiado de encontros indesejáveis. Trazia pelo braço a jovem esposa, grávida de seis meses, e estava acompanhado da cunhada, do irmão Gildo, ainda colegial, e de Paulo Hasslocher, seu sócio na banca de advocacia. Míope como era e na penumbra do local, pareceu-lhe que alguém o saudava e respondeu sem identificar o outro. Seguem-se minutos decisivos da tragédia que R. Magalhães Júnior assim resumiu: “E foi então que ouviu isto: - ‘Foi à sua mulher que eu cumprimentei! Não a você, seu...! A você, quando muito, eu puxo as orelhas!’ Disse-o marchando de dedo em riste, quase tocando o rosto de Gilberto, que não tinha ânimo para nada, tolhido e desarvorado (...) Fingira, em desespero de causa, não ter ouvido a nova e injuriosa provocação, e se dirigira ao elevador, mas Paulo Hasslocher procurou retê-lo, dizendo: - ‘Seu Gilberto, um homem não suporta isso! Meta a bengala nesse bandido!’ Gilberto se desculpou: - ‘Paulo, eu estou acompanhado de minha família. Que posso fazer? De resto, não brigarei nunca com esse homem. Devo desprezá-lo sempre. Faça você de mim o juízo que quiser...’ Foi então que Hasslocher, gaúcho de temperamento exaltado, dirigiu-se indignadamente a Aníbal: - ‘Você não pode desfeitear o meu amigo!’ Aníbal bradou-lhe: - ‘Tanto posso que o desfeiteei! E desfeitearei a você também!’ Atracaram-se. Ao ver o início de uma luta desigual, Gilberto sacou a arma e atirou em Aníbal. Teve morte imediata o atleta provocador” (Op. cit., págs. 238 e 239).

O ambiente ferveu e Gilberto foi preso em flagrante. Recolhido ao quartel da cavalaria da Polícia Militar, lá permaneceu preso até o julgamento. Foi denunciado por homicídio sem agravantes (simples) e Hasslocher como cúmplice (co-autor). Submetido a dois júris, foi absolvido em ambos, isentado, portanto, de qualquer responsabilidade criminal. Não é preciso ser criminalista para perceber que agiu em estrita legítima defesa de terceiro e com moderação. Apesar das distorções dos assistentes de acusação e da pressão de parte da imprensa, o júri popular reconheceu sua inocência.

Enquanto as ofensas foram contra ele, Gilberto tudo engoliu, procurando evitar o pior, ainda que mortificado pela injustiça das injúrias. Mas quando viu seu colega e amigo prestes a apanhar em público e sair desmoralizado por sua causa, não suportou. Como não tinha experiência no manejo de armas e mal sabia atirar, a circunstância de acertar a vítima de forma letal foi fruto de pura casualidade. Como diz a sabedoria popular, quem não sabe atirar acerta. Anos antes, fôra excluído da linha-de-tiro, em Pernambuco, porque nunca lograva acertar o alvo. Foi defendido pelo grande Evaristo de Morais e outros advogados.

Muito conversei sobre o assunto com os amigos Luiz Luna e Joaquim Inojosa. Ambos conheceram Gilberto Amado de perto, com ele convivendo na atividade jornalística, e o segundo chegou a ser seu sócio num escritório de advocacia, conforme relato que me fez. Confirmaram na íntegra a versão que procurei resumir. Luna ainda afirmou que o sergipano não sabia atirar, além de ser míope, atribuindo o desfecho à fatalidade. Note-se que ele não nutria grande simpatia pelo escritor.

Cotejando o relato com outros, constatei não haver discrepância. Assim aconteceu com o que consta de “Perfil Parlamentar de Gilberto Amado”, ainda que muito simplificado (Publicação da Câmara dos Deputados – Brasília – 1979) e com as palavras do próprio Gilberto (“Presença na Política”, Rio de Janeiro, José Olympio, 1958, capítulo “Terrível Prova”, págs. 328 a 346).

Conclui-se, pois, que ele não foi um criminoso vulgar mas agiu como homem naquelas lamentáveis circunstâncias. Não deu início à agressão e tudo fez por evitar o sangrento desenlace. Mas, convenhamos, não poderia apanhar em público e dali se retirar com o rabo entre as pernas.

O fato provocou um longo hiato em sua carreira, afastando-o por bom tempo das atividades mais visíveis. A tragédia deixou fundas cicatrizes em sua alma. Conta-se que, já bem idoso (faleceu aos 82 anos), ele não a esquecia e costumava repetir: “Aquele homem roubou a minha solidão!”

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Outras fontes:
Wilson Martins, “História da Inteligência Brasileira”, S. Paulo, Cultrix/USP, Vol. VI, 1978.
Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa, “Enciclopédia de Literatura Brasileira”, Rio de Janeiro, MEC, 1990, Vol. I, págs. 202/203.
Raimundo de Menezes, “Dicionário Literário Brasileiro”, Rio de Janeiro, Editora LTC, 1978, págs. 34/35. 

 

Escrito por Enéas Athanázio, 21/09/2020 às 10h35 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Meus artigos a respeito de Gilberto Amado (1887/1969) provocaram muitas manifestações, em sua quase totalidade positivas, revelando que o sergipano ainda tem leitores e admiradores. Algumas, no entanto, revelaram vívida antipatia contra o memorialista de “História de Minha Infância.” Dentre estas, a carta curta e seca de um leitor de Brasília, também escritor, diz o seguinte: “Tudo bem, ele merece todos os elogios etc. Só faltou você mencionar que o diplomata, escritor, deputado e senador, era também um criminoso, já que ele assassinou um cidadão em seu Estado, lapso imperdoável para um promotor público.”

Ora, ora, pois, pois.O puxão de orelha revela que o missivista não conhece os fatos; ouviu o galo cantar mas não sabe onde. Não haveria razão para relembrar evento tão amargo numa série de artigos sobre a obra e as realizações culturais do escritor. Seja como for, não desconheço o trágico capítulo e li tudo que encontrei a respeito, além de ter conversado com pessoas que o conheciam em detalhes. Para escrever sobre o fato, vou me valer de autor que não foi biógrafo de Gilberto Amado e que, a rigor, não existe, e nem publicou ensaios sobre ele, presumindo, portanto, seja insuspeito. Como advertiu o crítico Wilson Martins, certos biógrafos tendem à hagiografia.

Gilberto Amado não costumava abdicar de suas posições ou de dizer o que pensava, mesmo que isso desagradasse a muitos. Como crítico, ousou fazer restrições à literatura de Coelho Neto e atacou Rui Barbosa por pretensões políticas que considerou injustificáveis, atitudes inconcebíveis na época, um quase delito de lesa-pátria. Escrevia em “O País”, de João Lage, como sucessor de Cármen Dolores, jornal de grande circulação e prestígio, e contava com a franca simpatia de Pinheiro Machado. Muito jovem, é natural que despertasse invejas e ressentimentos. Para muita gente, é difícil tolerar o sucesso alheio.

Tempos antes havia criticado obras de Elóí Pontes, romancista, e Lindolfo Collor, poeta, autores que julgava sofríveis e que, no entanto, recebiam “um chorrilho de elogios.” Irritado, Gilberto escreveu o artigo “É demais!”, denunciando a falsidade dos que aclamavam como gênios “simples espíritos medíocres, incapazes de um esforço para além da mediania.” Palavras que o tempo só fez ratificar, uma vez que ambos os criticados não sobreviveram na literatura. Na tarde do mesmo dia, quando caminhava pela Rua do Ouvidor em companhia de João do Rio, Gilberto foi surpreendido pela chegada de Collor que contra ele investiu de bengala em punho, ameaçando espancá-lo. Em seguida surge Elói Pontes, por acaso ou em combinação com o outro, e também investe contra o articulista. Diante da agressão iminente, Gilberto sacou do revólver e disparou um tiro que a ninguém atingiu e logo em seguida outro, este para o ar. Formou-se grande aglomeração de populares e os atacantes, esbaforidos, trataram de se safar. O fato teve intensa repercussão, inclusive na imprensa, mas deixou claro que o sergipano, embora pequeno e magrinho, não era de matar com a unha.

Formaram-se, a partir dali, duas correntes: uma pró e outra contra Gilberto. Nesta última alistou-se como voluntário o poeta mato-grossense Aníbal Teófilo, inimigo gratuito do escritor e que passou a exercitar contra ele uma série de ofensas, provocações e ameaças em todas as ocasiões. “A mesma intolerância em relação ao novo deputado por Sergipe manifestava o mato-grossense Aníbal Teófilo, compadre e comensal de Coelho Neto, muito grato a este, a quem devia o emprego de secretário do Teatro Municipal. Autor de escassa obra literária, tornara-se famoso por alguns sonetos, principalmente “A Cegonha”, que rapidamente se popularizara. Verdadeiro atleta, de porte gigantesco, era um tipo truculento e desafiador. Habituado a intimidar adversários, estava disposto a humilhar o desafeto pequeno e fraco, onde quer que o encontrasse.” São palavras de R. Magalhães Júnior, pesquisador sério e respeitado, fundadas em elementos criteriosos e em peças do próprio inquérito policial (“A Vida Vertiginosa de João do Rio”, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978, pág. 237). Eis o adversário temeroso que o destino colocou no caminho ascendente do jovem escritor, jornalista e deputado federal por Sergipe. Assombrado com o impasse, Gilberto tratou de evitar certos lugares e suas memórias registram a angústia que a situação provocava. Noites sem dormir, ausências à Câmara, nervosismo, fugas dos amigos. Pediu a intervenção de conhecidos comuns mas de nada adiantou, as ameaças prosseguiam na rua, nos bondes, nas redações – e ele via “as risadinhas em cada rosto.” Apavorava-o a hipótese de ser puxado pelas orelhas, de receber um puxavante em público, à frente de todos. Dias angustiantes se escoam devagar.

O mundo girava, indiferente ao drama do sergipano. Era o período da “epidemia” das conferências literárias, iniciadas por inspiração de Medeiros e Albuquerque em seu retorno da França, e que se encerraria exatamente no dia fatal. Faziam-se palestras sobre tudo: A Palavra, Beijos, Os Mortos, A Água, O Riso, O Diabo, A Beleza, A Graça, O Dinheiro, O Fogo, A Esperança, O Silêncio é de Ouro, A Dor, Os Poetas do Sertão, Casar é Bom, Mas não casar é Melhor e por aí além. Agripino Grieco em uma de suas entrevistas relembra essa fase da vida carioca em que o público acorria para ouvir seus palestrantes mediante entrada paga.

Até que, em 19 de junho de 1915, um sábado à tarde, terminava mais uma dessas conferências no salão nobre do “Jornal do Commercio” e os ouvintes se retiravam. Entre eles estava o deputado sergipano, discreto e silencioso, com certeza ressabiado de encontros indesejáveis. Trazia pelo braço a jovem esposa, grávida de seis meses, e estava acompanhado da cunhada, do irmão Gildo, ainda colegial, e de Paulo Hasslocher, seu sócio na banca de advocacia. Míope como era e na penumbra do local, pareceu-lhe que alguém o saudava e respondeu sem identificar o outro. Seguem-se minutos decisivos da tragédia que R. Magalhães Júnior assim resumiu: “E foi então que ouviu isto: - ‘Foi à sua mulher que eu cumprimentei! Não a você, seu...! A você, quando muito, eu puxo as orelhas!’ Disse-o marchando de dedo em riste, quase tocando o rosto de Gilberto, que não tinha ânimo para nada, tolhido e desarvorado (...) Fingira, em desespero de causa, não ter ouvido a nova e injuriosa provocação, e se dirigira ao elevador, mas Paulo Hasslocher procurou retê-lo, dizendo: - ‘Seu Gilberto, um homem não suporta isso! Meta a bengala nesse bandido!’ Gilberto se desculpou: - ‘Paulo, eu estou acompanhado de minha família. Que posso fazer? De resto, não brigarei nunca com esse homem. Devo desprezá-lo sempre. Faça você de mim o juízo que quiser...’ Foi então que Hasslocher, gaúcho de temperamento exaltado, dirigiu-se indignadamente a Aníbal: - ‘Você não pode desfeitear o meu amigo!’ Aníbal bradou-lhe: - ‘Tanto posso que o desfeiteei! E desfeitearei a você também!’ Atracaram-se. Ao ver o início de uma luta desigual, Gilberto sacou a arma e atirou em Aníbal. Teve morte imediata o atleta provocador” (Op. cit., págs. 238 e 239).

O ambiente ferveu e Gilberto foi preso em flagrante. Recolhido ao quartel da cavalaria da Polícia Militar, lá permaneceu preso até o julgamento. Foi denunciado por homicídio sem agravantes (simples) e Hasslocher como cúmplice (co-autor). Submetido a dois júris, foi absolvido em ambos, isentado, portanto, de qualquer responsabilidade criminal. Não é preciso ser criminalista para perceber que agiu em estrita legítima defesa de terceiro e com moderação. Apesar das distorções dos assistentes de acusação e da pressão de parte da imprensa, o júri popular reconheceu sua inocência.

Enquanto as ofensas foram contra ele, Gilberto tudo engoliu, procurando evitar o pior, ainda que mortificado pela injustiça das injúrias. Mas quando viu seu colega e amigo prestes a apanhar em público e sair desmoralizado por sua causa, não suportou. Como não tinha experiência no manejo de armas e mal sabia atirar, a circunstância de acertar a vítima de forma letal foi fruto de pura casualidade. Como diz a sabedoria popular, quem não sabe atirar acerta. Anos antes, fôra excluído da linha-de-tiro, em Pernambuco, porque nunca lograva acertar o alvo. Foi defendido pelo grande Evaristo de Morais e outros advogados.

Muito conversei sobre o assunto com os amigos Luiz Luna e Joaquim Inojosa. Ambos conheceram Gilberto Amado de perto, com ele convivendo na atividade jornalística, e o segundo chegou a ser seu sócio num escritório de advocacia, conforme relato que me fez. Confirmaram na íntegra a versão que procurei resumir. Luna ainda afirmou que o sergipano não sabia atirar, além de ser míope, atribuindo o desfecho à fatalidade. Note-se que ele não nutria grande simpatia pelo escritor.

Cotejando o relato com outros, constatei não haver discrepância. Assim aconteceu com o que consta de “Perfil Parlamentar de Gilberto Amado”, ainda que muito simplificado (Publicação da Câmara dos Deputados – Brasília – 1979) e com as palavras do próprio Gilberto (“Presença na Política”, Rio de Janeiro, José Olympio, 1958, capítulo “Terrível Prova”, págs. 328 a 346).

Conclui-se, pois, que ele não foi um criminoso vulgar mas agiu como homem naquelas lamentáveis circunstâncias. Não deu início à agressão e tudo fez por evitar o sangrento desenlace. Mas, convenhamos, não poderia apanhar em público e dali se retirar com o rabo entre as pernas.

O fato provocou um longo hiato em sua carreira, afastando-o por bom tempo das atividades mais visíveis. A tragédia deixou fundas cicatrizes em sua alma. Conta-se que, já bem idoso (faleceu aos 82 anos), ele não a esquecia e costumava repetir: “Aquele homem roubou a minha solidão!”

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Outras fontes:
Wilson Martins, “História da Inteligência Brasileira”, S. Paulo, Cultrix/USP, Vol. VI, 1978.
Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa, “Enciclopédia de Literatura Brasileira”, Rio de Janeiro, MEC, 1990, Vol. I, págs. 202/203.
Raimundo de Menezes, “Dicionário Literário Brasileiro”, Rio de Janeiro, Editora LTC, 1978, págs. 34/35. 

 

Escrito por Enéas Athanázio, 21/09/2020 às 10h35 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.