Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

MULHERES EM DESFILE

Clauder Arcanjo (Foto Cezar Alves)

A mulher sempre foi fonte de inspiração para poetas e escritores. Certos poetas românticos viam na lua uma mulher e ficavam a dedicar-lhe versos cheios de amor, como faziam também compositores de músicas populares. Ricardo Gonçalves, integrante do grupo de Monteiro Lobato, era um desses poetas apaixonados, o que levou o taubateano a defini-lo como um cão lírico que ladra à lua. Mas a mulher, desde que existe literatura, tem sido retratada nas letras de todas as formas imagináveis e numa variedade de enfoques que parece não ter fim.

Clauder Arcanjo, conhecido escritor cearense, inovou na maneira de ver a mulher e publicou um delicioso livro em que ela é vista nos mais variados papéis. Trata-se de “Mulheres Fantásticas”, publicado em belíssima edição pela Editora Sarau das Letras (Mossoró – 2019). Segundo o autor, o livro nasceu de um desafio que lhe foi formulado e desde então ele se entregou a pensar, observar e interpretar a mulher nas mais variadas posições numa coletânea de crônicas de leitura fascinante. Dentre as figuras focalizadas, exibem-se a mulher galinha, sapo, eterna, ventania, elétrica, abelha, consolação e assim por diante. Em todas as situações a mulher sai por cima, ou seja, a figura feminina é sempre exaltada. Merecem uma referência especial as ilustrações de Raísa Christina, apropriadas e sugestivas.

Dentre tantas que desfilam no livro, a mulher elétrica chamou minha atenção. Depois de longos anos à luz de velas e lamparinas, Licânia, cidade mítica em que se ambientam muitas histórias do autor, conheceu a luz elétrica. Com festa e foguetório foi inaugurado um gerador elétrico a diesel e a luz varreu a escuridão das ruas e das casas. Mas a alegria durou pouco e uma semana depois a máquina pifou. O técnico alemão foi chamado e, mesmo usando de todo seu conhecimento, estudando os manuais e verificando cada engrenagem, não conseguia colocar em ação o genioso aparelho. Até que alguém, em boa hora, se lembrou de Fabrícia de Luzia, uma das belas filhas do lugar e mulher de um tal Chico das Tripas. Linda como era, ela produzia luz onde passava. Foi levada à prefeitura e ao local onde estava o gerador. Foi entrando, linda e poderosa, saudada pelo técnico admirado: “Fraulein! Fraulein!” Sem querer, a moça tropeçou numa alavanca e a geringonça começou a funcionar com perfeição. Desde então, a presença de Fabrícia no local garantia o perfeito funcionamento do gerador e não faltou mais luz em Licânia. Na voz do povo ela passou a ser a mulher elétrica e todos temiam pela sorte do marido, o Chico das Tripas, “que andava com a bateria meio arriada.”

A crônica é desenvolvida com perfeição, a linguagem é adequada ao local e à situação. A vida da pequena cidade transparece em cada passo e o leitor sente o ambiente reinante. Tudo escrito com economia de palavras como requer a verdadeira crônica.

Todas as mulheres que desfilam no livro são surpreendentes e encantadoras, às vezes enigmáticas e complexas, mas atraem o leitor de forma irresistível. Vale a pena tentar decifrá-las uma a uma.

Como asseverou Dimas Macedo, “mesmo tratando-se de histórias ficcionais, “Mulheres Fantásticas” também pode ser lido como uma reunião de crônicas e memórias, quanto fragmentos daquilo que se pode fazer com a magia das mulheres e com aura de suas fantasias.”

Com este livro, Clauder Arcanjo crava mais um ponto significativo em sua exitosa carreira de escritor criativo e plural. 

Escrito por Enéas Athanázio, 25/08/2020 às 08h45 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Clauder Arcanjo (Foto Cezar Alves)

A mulher sempre foi fonte de inspiração para poetas e escritores. Certos poetas românticos viam na lua uma mulher e ficavam a dedicar-lhe versos cheios de amor, como faziam também compositores de músicas populares. Ricardo Gonçalves, integrante do grupo de Monteiro Lobato, era um desses poetas apaixonados, o que levou o taubateano a defini-lo como um cão lírico que ladra à lua. Mas a mulher, desde que existe literatura, tem sido retratada nas letras de todas as formas imagináveis e numa variedade de enfoques que parece não ter fim.

Clauder Arcanjo, conhecido escritor cearense, inovou na maneira de ver a mulher e publicou um delicioso livro em que ela é vista nos mais variados papéis. Trata-se de “Mulheres Fantásticas”, publicado em belíssima edição pela Editora Sarau das Letras (Mossoró – 2019). Segundo o autor, o livro nasceu de um desafio que lhe foi formulado e desde então ele se entregou a pensar, observar e interpretar a mulher nas mais variadas posições numa coletânea de crônicas de leitura fascinante. Dentre as figuras focalizadas, exibem-se a mulher galinha, sapo, eterna, ventania, elétrica, abelha, consolação e assim por diante. Em todas as situações a mulher sai por cima, ou seja, a figura feminina é sempre exaltada. Merecem uma referência especial as ilustrações de Raísa Christina, apropriadas e sugestivas.

Dentre tantas que desfilam no livro, a mulher elétrica chamou minha atenção. Depois de longos anos à luz de velas e lamparinas, Licânia, cidade mítica em que se ambientam muitas histórias do autor, conheceu a luz elétrica. Com festa e foguetório foi inaugurado um gerador elétrico a diesel e a luz varreu a escuridão das ruas e das casas. Mas a alegria durou pouco e uma semana depois a máquina pifou. O técnico alemão foi chamado e, mesmo usando de todo seu conhecimento, estudando os manuais e verificando cada engrenagem, não conseguia colocar em ação o genioso aparelho. Até que alguém, em boa hora, se lembrou de Fabrícia de Luzia, uma das belas filhas do lugar e mulher de um tal Chico das Tripas. Linda como era, ela produzia luz onde passava. Foi levada à prefeitura e ao local onde estava o gerador. Foi entrando, linda e poderosa, saudada pelo técnico admirado: “Fraulein! Fraulein!” Sem querer, a moça tropeçou numa alavanca e a geringonça começou a funcionar com perfeição. Desde então, a presença de Fabrícia no local garantia o perfeito funcionamento do gerador e não faltou mais luz em Licânia. Na voz do povo ela passou a ser a mulher elétrica e todos temiam pela sorte do marido, o Chico das Tripas, “que andava com a bateria meio arriada.”

A crônica é desenvolvida com perfeição, a linguagem é adequada ao local e à situação. A vida da pequena cidade transparece em cada passo e o leitor sente o ambiente reinante. Tudo escrito com economia de palavras como requer a verdadeira crônica.

Todas as mulheres que desfilam no livro são surpreendentes e encantadoras, às vezes enigmáticas e complexas, mas atraem o leitor de forma irresistível. Vale a pena tentar decifrá-las uma a uma.

Como asseverou Dimas Macedo, “mesmo tratando-se de histórias ficcionais, “Mulheres Fantásticas” também pode ser lido como uma reunião de crônicas e memórias, quanto fragmentos daquilo que se pode fazer com a magia das mulheres e com aura de suas fantasias.”

Com este livro, Clauder Arcanjo crava mais um ponto significativo em sua exitosa carreira de escritor criativo e plural. 

Escrito por Enéas Athanázio, 25/08/2020 às 08h45 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.