Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

O LOBATO DAS GERAIS

Como estou sempre escrevendo sobre o Lobato da Paulicéia, o Monteiro, uso este título para que o leitor veja logo que hoje escrevo sobre outro Lobato, o das Minas Gerais. Manoel Lobato, com quem comecei a trocar cartas há poucos anos e só conheci cara-a-cara no ano passado, vive em Belo Horizonte, depois de ter perambulado pelo Espírito Santo e Rio de Janeiro. Bacharel em Direito, farmacêutico e jornalista profissional, tem escrito para grandes jornais brasileiros e foi editor do “Suplemento Literário do Minas Gerais”, numa das melhores fases dessa acatada publicação. Erudito, embora não goste de demonstrá-lo, é excelente papo e dono de uma verve admirável. Acima de tudo, porém, Manoel Lobato é o escritor consagrado – contista, cronista, articulista – sempre de primeira linha. Para completar, é um exímio carteador, arte que, infelizmente, está em extinção, vencida pelo telefone, o celular e o e-mail. Poucas pessoas sabem escrever cartas hoje em dia.

Suas cartas, datilografadas, tomam toda a folha do papel e começam com um “EA, fraterno” – sua marca registrada. Em vez daquela datação convencional, ele coloca, por exemplo, “são seis horas da tarde, em ponto, hora do ângelus, sexta-feira, com chuva fina, um pouco frio, 23 de janeiro de 2004, Sagrada Família (bairro onde reside), BH/MG.” Alinha depois os assuntos, sempre de uma forma sintética, mas muito clara. “Você me fala num filme baseado em seu conto – escreve. – Deve ser uma experiência boa para o autor. Vi aqui, há séculos, filme baseado num romance de Oswaldo França Jr., que já morreu. Ele estava na sala do cinema, todo risonho e feliz. Morreu num acidente de carro...” Em outra passagem: “Já escreveram que me viram com você na foto do jornal. O Possidonio diz que estou com pose de pai-de-santo, talvez por causa da roupa branca.” Falando sobre a foto que tiramos na Academia Mineira, disse ele: “Estamos os três em pose para a eternidade: o professor Guilherme com seu jeito de jovem, como ele é mesmo, você com seu jeito elegante, como você é mesmo, no corpo e no espírito, e eu, com meu jeito caipira, como sou mesmo, tentando protegê-lo com meu braço direito, como se quisesse prendê-lo mais tempo em terras mineiras. Gostei demais da foto. Vou colocá-la num quadro e pendurá-la em meu escritório.” Depois de alguns queixumes, aliás muito justos, escreve: “Que você seja o depositário de meu segredo e de minhas queixas. Afinal, amigo é para ouvir queixa de amigo. Você será o relicário em que deixarei minhas jóias falsas, bijuteria, nada de valor, embora minhas derradeiras relíquias.”

Concluindo a carta, lá vêm as boas tiradas de humor: “Em sinal de vassalagem, ato-lhe os atacadores de seu borzeguim. Em verdade e em metáfora, lavo seus pés em cerimônia lítero-religiosa, pois sou seu discípulo e acólito. Se você fundar uma religião, serei seu seguidor. Pode acreditar em minha profissão de fé: sou seu professo! Osculo-lhe, genuflexo, o dorso da destra. Sou seu fã.”

Grande Lobato! Bom seria se todas as cartas que recebo tivessem o mesmo sabor literário. Eu as recomendaria como modelos aos novos escritores, caso eles ainda escrevessem cartas.

_________________________

Para nosso pesar, Manoel Lobato foi mais uma vítima do Covid-19. Faleceu no dia 24 de julho. Farmacêutico, advogado e jornalista profissional, foi cronista diário do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. Autor de vários livros, era muito festejado pela crítica. Homem ativo, movimentado, na juventude ostentava um cabelo hirsuto, sempre desgrenhado, usava óculos de armação escura e pesada e andava com a camisa desabotoada e a gravata frouxa. Dava a impressão de um sujeito zangado, irritadiço, mas na verdade era alegre e risonho. Trocamos cartas por longos anos mas só o encontrei uma única vez como ele menciona em carta. Lamento muito, amigo Lobato! Você fará muita falta. 

Escrito por Enéas Athanázio, 03/08/2020 às 09h52 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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O LOBATO DAS GERAIS

Como estou sempre escrevendo sobre o Lobato da Paulicéia, o Monteiro, uso este título para que o leitor veja logo que hoje escrevo sobre outro Lobato, o das Minas Gerais. Manoel Lobato, com quem comecei a trocar cartas há poucos anos e só conheci cara-a-cara no ano passado, vive em Belo Horizonte, depois de ter perambulado pelo Espírito Santo e Rio de Janeiro. Bacharel em Direito, farmacêutico e jornalista profissional, tem escrito para grandes jornais brasileiros e foi editor do “Suplemento Literário do Minas Gerais”, numa das melhores fases dessa acatada publicação. Erudito, embora não goste de demonstrá-lo, é excelente papo e dono de uma verve admirável. Acima de tudo, porém, Manoel Lobato é o escritor consagrado – contista, cronista, articulista – sempre de primeira linha. Para completar, é um exímio carteador, arte que, infelizmente, está em extinção, vencida pelo telefone, o celular e o e-mail. Poucas pessoas sabem escrever cartas hoje em dia.

Suas cartas, datilografadas, tomam toda a folha do papel e começam com um “EA, fraterno” – sua marca registrada. Em vez daquela datação convencional, ele coloca, por exemplo, “são seis horas da tarde, em ponto, hora do ângelus, sexta-feira, com chuva fina, um pouco frio, 23 de janeiro de 2004, Sagrada Família (bairro onde reside), BH/MG.” Alinha depois os assuntos, sempre de uma forma sintética, mas muito clara. “Você me fala num filme baseado em seu conto – escreve. – Deve ser uma experiência boa para o autor. Vi aqui, há séculos, filme baseado num romance de Oswaldo França Jr., que já morreu. Ele estava na sala do cinema, todo risonho e feliz. Morreu num acidente de carro...” Em outra passagem: “Já escreveram que me viram com você na foto do jornal. O Possidonio diz que estou com pose de pai-de-santo, talvez por causa da roupa branca.” Falando sobre a foto que tiramos na Academia Mineira, disse ele: “Estamos os três em pose para a eternidade: o professor Guilherme com seu jeito de jovem, como ele é mesmo, você com seu jeito elegante, como você é mesmo, no corpo e no espírito, e eu, com meu jeito caipira, como sou mesmo, tentando protegê-lo com meu braço direito, como se quisesse prendê-lo mais tempo em terras mineiras. Gostei demais da foto. Vou colocá-la num quadro e pendurá-la em meu escritório.” Depois de alguns queixumes, aliás muito justos, escreve: “Que você seja o depositário de meu segredo e de minhas queixas. Afinal, amigo é para ouvir queixa de amigo. Você será o relicário em que deixarei minhas jóias falsas, bijuteria, nada de valor, embora minhas derradeiras relíquias.”

Concluindo a carta, lá vêm as boas tiradas de humor: “Em sinal de vassalagem, ato-lhe os atacadores de seu borzeguim. Em verdade e em metáfora, lavo seus pés em cerimônia lítero-religiosa, pois sou seu discípulo e acólito. Se você fundar uma religião, serei seu seguidor. Pode acreditar em minha profissão de fé: sou seu professo! Osculo-lhe, genuflexo, o dorso da destra. Sou seu fã.”

Grande Lobato! Bom seria se todas as cartas que recebo tivessem o mesmo sabor literário. Eu as recomendaria como modelos aos novos escritores, caso eles ainda escrevessem cartas.

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Para nosso pesar, Manoel Lobato foi mais uma vítima do Covid-19. Faleceu no dia 24 de julho. Farmacêutico, advogado e jornalista profissional, foi cronista diário do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. Autor de vários livros, era muito festejado pela crítica. Homem ativo, movimentado, na juventude ostentava um cabelo hirsuto, sempre desgrenhado, usava óculos de armação escura e pesada e andava com a camisa desabotoada e a gravata frouxa. Dava a impressão de um sujeito zangado, irritadiço, mas na verdade era alegre e risonho. Trocamos cartas por longos anos mas só o encontrei uma única vez como ele menciona em carta. Lamento muito, amigo Lobato! Você fará muita falta. 

Escrito por Enéas Athanázio, 03/08/2020 às 09h52 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.