Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

UMA HISTÓRIA REAL

É impossível não ficar chocado com a leitura do livro “O garoto que seguiu o pai para Auschwitz”, de autoria do jornalista americano Jeremy Dronfield (Editora Objetiva - Rio – 2019). Depois de se tornar um best-seller internacional, o livro tem merecido a atenção da crítica nacional graças ao que contém de espantoso e revoltante. Dentre a imensa bibliografia existente sobre o tema, o livro se destaca porque reconstrói o cotidiano dos campos de concentração nazistas com base, em grande parte, no diário que um dos prisioneiros, no caso o pai, consegue esconder e manter atualizado durante os anos de sobrevivência na prisão. Além de relatar os acontecimentos com toda a crueza do momento, o diário indicou incontáveis fontes para a reconstituição dos fatos e apontou personagens que se sobressaíram pela inacreditável crueldade.

Gustav Kleinmann era um modesto artesão de Viena. Vivia em paz e de maneira modesta em companhia da esposa e de quatro filhos. Tinha bom relacionamento com os vizinhos e numerosas pessoas da cidade que o cumprimentavam com um sorriso nos lábios. Mas era judeu e isso o predestinava ao sofrimento e à desgraça. Quando Hitler se fixou no poder na Alemanha, a pregação antissemita na Áustria cresceu com grande rapidez, ainda mais depois que ele tornou público o antigo desejo de anexar os dois países que, para ele, constituíam uma só Alemanha. Os judeus passaram a ser discriminados, as pessoas os evitavam e até os vizinhos, antes amigos, agora se mostravam hostis. Uma das filhas é ofendida na rua por um colega de colégio e os filhos eram forçados a quebrar esquinas para não se depararem com os grupos nazistas que faziam pregação. As opiniões se dividem a favor e contra a anexação. Para decidir a questão, o chanceler austríaco designou um plebiscito. Furioso, Hitler exigiu o cancelamento da votação, temeroso de uma derrota. O chanceler resistiu e acabou deposto do cargo, sucedido por um fantoche, uma dessas pessoas abjetas que sempre surgem nesses momentos. O plebiscito é realizado, os resultados manipulados, e os favoráveis à anexação obtêm grande vitória. Hitler decreta a anexação. Era a Anschluss, comemorada por Hitler em pessoa em monumental desfile pelas ruas de Viena. A partir de então os direitos dos judeus foram suprimidos um a um, a tal ponto que a vida se tornou impossível.

Nenhum judeu podia viver em paz. Todos reduziram suas atividades e passaram a viver segregados em suas casas. Embora judeu, Gustav não era ortodoxo e se considerava em tudo um cidadão austríaco e patriota. Havia lutado pela pátria, como soldado, na I Guerra Mundial, quando sofreu graves ferimentos e foi condecorado. Mas nada disso adiantou e ele e o filho Fritz, ainda menino, foram presos e enviados para o campo de concentração de Buchenvald num daqueles trens destinados ao transporte de gado e sempre superlotadas. Aí tem início um inferno indescritível.

Depois de uma viagem estafante, em que muitos morreram, foram descarregados no campo. Cabelos raspados e trajando uniformes listrados, são enviados ao trabalho escravo em favor do esforço nazista de guerra. As condições de trabalho são brutais, os espancamentos comuns, as ofensas e os insultos se repetem (“porco judeu” é o mais usado) e até mesmo o assassinato se torna banal. Tempos depois Gustav, o pai, é designado para Auschwitz, o mais absurdo engenho montado para a execução de seres humanos em escala industrial. É nesse momento que o ainda menino Fritz toma uma dessas decisões heróicas de que só os grandes são capazes. Para não se afastar do pai, pede para ser enviado com ele, mesmo sabendo que isso provavelmente lhe custaria a vida. Embarcados para o novo destino, iniciam uma fase ainda mais brutal. Os mais fracos são enviados para as câmaras de gás, cujas chaminés expelem a fumaça que impregna não apenas o campo mas também a região. Submetidos ao trabalho escravo, famintos, sujos e mal agasalhados, realizam trabalhos forçados em pedreiras, nos bosques, nas olarias e outros mais, sempre vigiados pelos oficiais da SS e pelos kapos, levando chicotadas e coronhadas por qualquer motivo e até mesmo sem motivo algum. Muitos oficiais se destacaram pela extrema brutalidade; outros foram premiados pelo número de prisioneiros assassinados. Mas pai e filho resistem como podem, superando dias tenebrosos e decididos mais que nunca a sobreviver.

A II Guerra Mundial prossegue. O sucesso até então favorável aos nazistas começa a mudar e os ares da vitória bafejam os Aliados. O Exército Vermelho se aproxima de Auschwitz, o campo vai sendo desativado, é necessário esconder os vestígios das brutalidades cometidas. Em longas filas, os prisioneiros são forçados a uma longa marcha rumo à Alemanha. Trôpegos, famintos, vacilantes, homens, mulheres, velhos, crianças, doentes, aleijados, todos têm que caminhar e caminhar; Os que vacilam são espancados; os que caem, fuzilados. E a marcha tenebrosa prossegue porque os soviéticos avançam e é imperioso esconder os indícios. Ao verificar o que acontecera naquele campo, o comandante das forças Aliadas determinou: “Filmem e fotografem tudo, tomem o maior número de depoimentos porque dentro de dez anos não faltará algum louco que diga que isso não aconteceu!” Exatamente como veio a acontecer.

Pai e filho continuam vivos enquanto são levados de um campo para outro, todos lotados. Num desses trechos Fritz consegue saltar do trem em movimento e fugir. Mais tarde, terminada a guerra, eles se reencontram em Viena e lutam para retomar o itinerário da vida. Fritz se torna ativo defensor dos direitos humanos e divulgador incansável do que aconteceu nos tenebrosos campos nazistas. Mas pai e filho levam na alma as cicatrizes dos abomináveis sofrimentos de que padeceram. Depois de tudo, só espíritos de força extraordinária conseguem reiniciar uma vida normal. A depressão, a tristeza, a revolta os marcará para sempre. No caso deles, tanto o diário de Gustav como as entrevistas de Fritz contribuíram para reforçar a documentação a respeito de uma das mais monstruosas experiências humanas. Ainda bem!

Escrito por Enéas Athanázio, 27/07/2020 às 11h22 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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UMA HISTÓRIA REAL

É impossível não ficar chocado com a leitura do livro “O garoto que seguiu o pai para Auschwitz”, de autoria do jornalista americano Jeremy Dronfield (Editora Objetiva - Rio – 2019). Depois de se tornar um best-seller internacional, o livro tem merecido a atenção da crítica nacional graças ao que contém de espantoso e revoltante. Dentre a imensa bibliografia existente sobre o tema, o livro se destaca porque reconstrói o cotidiano dos campos de concentração nazistas com base, em grande parte, no diário que um dos prisioneiros, no caso o pai, consegue esconder e manter atualizado durante os anos de sobrevivência na prisão. Além de relatar os acontecimentos com toda a crueza do momento, o diário indicou incontáveis fontes para a reconstituição dos fatos e apontou personagens que se sobressaíram pela inacreditável crueldade.

Gustav Kleinmann era um modesto artesão de Viena. Vivia em paz e de maneira modesta em companhia da esposa e de quatro filhos. Tinha bom relacionamento com os vizinhos e numerosas pessoas da cidade que o cumprimentavam com um sorriso nos lábios. Mas era judeu e isso o predestinava ao sofrimento e à desgraça. Quando Hitler se fixou no poder na Alemanha, a pregação antissemita na Áustria cresceu com grande rapidez, ainda mais depois que ele tornou público o antigo desejo de anexar os dois países que, para ele, constituíam uma só Alemanha. Os judeus passaram a ser discriminados, as pessoas os evitavam e até os vizinhos, antes amigos, agora se mostravam hostis. Uma das filhas é ofendida na rua por um colega de colégio e os filhos eram forçados a quebrar esquinas para não se depararem com os grupos nazistas que faziam pregação. As opiniões se dividem a favor e contra a anexação. Para decidir a questão, o chanceler austríaco designou um plebiscito. Furioso, Hitler exigiu o cancelamento da votação, temeroso de uma derrota. O chanceler resistiu e acabou deposto do cargo, sucedido por um fantoche, uma dessas pessoas abjetas que sempre surgem nesses momentos. O plebiscito é realizado, os resultados manipulados, e os favoráveis à anexação obtêm grande vitória. Hitler decreta a anexação. Era a Anschluss, comemorada por Hitler em pessoa em monumental desfile pelas ruas de Viena. A partir de então os direitos dos judeus foram suprimidos um a um, a tal ponto que a vida se tornou impossível.

Nenhum judeu podia viver em paz. Todos reduziram suas atividades e passaram a viver segregados em suas casas. Embora judeu, Gustav não era ortodoxo e se considerava em tudo um cidadão austríaco e patriota. Havia lutado pela pátria, como soldado, na I Guerra Mundial, quando sofreu graves ferimentos e foi condecorado. Mas nada disso adiantou e ele e o filho Fritz, ainda menino, foram presos e enviados para o campo de concentração de Buchenvald num daqueles trens destinados ao transporte de gado e sempre superlotadas. Aí tem início um inferno indescritível.

Depois de uma viagem estafante, em que muitos morreram, foram descarregados no campo. Cabelos raspados e trajando uniformes listrados, são enviados ao trabalho escravo em favor do esforço nazista de guerra. As condições de trabalho são brutais, os espancamentos comuns, as ofensas e os insultos se repetem (“porco judeu” é o mais usado) e até mesmo o assassinato se torna banal. Tempos depois Gustav, o pai, é designado para Auschwitz, o mais absurdo engenho montado para a execução de seres humanos em escala industrial. É nesse momento que o ainda menino Fritz toma uma dessas decisões heróicas de que só os grandes são capazes. Para não se afastar do pai, pede para ser enviado com ele, mesmo sabendo que isso provavelmente lhe custaria a vida. Embarcados para o novo destino, iniciam uma fase ainda mais brutal. Os mais fracos são enviados para as câmaras de gás, cujas chaminés expelem a fumaça que impregna não apenas o campo mas também a região. Submetidos ao trabalho escravo, famintos, sujos e mal agasalhados, realizam trabalhos forçados em pedreiras, nos bosques, nas olarias e outros mais, sempre vigiados pelos oficiais da SS e pelos kapos, levando chicotadas e coronhadas por qualquer motivo e até mesmo sem motivo algum. Muitos oficiais se destacaram pela extrema brutalidade; outros foram premiados pelo número de prisioneiros assassinados. Mas pai e filho resistem como podem, superando dias tenebrosos e decididos mais que nunca a sobreviver.

A II Guerra Mundial prossegue. O sucesso até então favorável aos nazistas começa a mudar e os ares da vitória bafejam os Aliados. O Exército Vermelho se aproxima de Auschwitz, o campo vai sendo desativado, é necessário esconder os vestígios das brutalidades cometidas. Em longas filas, os prisioneiros são forçados a uma longa marcha rumo à Alemanha. Trôpegos, famintos, vacilantes, homens, mulheres, velhos, crianças, doentes, aleijados, todos têm que caminhar e caminhar; Os que vacilam são espancados; os que caem, fuzilados. E a marcha tenebrosa prossegue porque os soviéticos avançam e é imperioso esconder os indícios. Ao verificar o que acontecera naquele campo, o comandante das forças Aliadas determinou: “Filmem e fotografem tudo, tomem o maior número de depoimentos porque dentro de dez anos não faltará algum louco que diga que isso não aconteceu!” Exatamente como veio a acontecer.

Pai e filho continuam vivos enquanto são levados de um campo para outro, todos lotados. Num desses trechos Fritz consegue saltar do trem em movimento e fugir. Mais tarde, terminada a guerra, eles se reencontram em Viena e lutam para retomar o itinerário da vida. Fritz se torna ativo defensor dos direitos humanos e divulgador incansável do que aconteceu nos tenebrosos campos nazistas. Mas pai e filho levam na alma as cicatrizes dos abomináveis sofrimentos de que padeceram. Depois de tudo, só espíritos de força extraordinária conseguem reiniciar uma vida normal. A depressão, a tristeza, a revolta os marcará para sempre. No caso deles, tanto o diário de Gustav como as entrevistas de Fritz contribuíram para reforçar a documentação a respeito de uma das mais monstruosas experiências humanas. Ainda bem!

Escrito por Enéas Athanázio, 27/07/2020 às 11h22 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.