Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

OLGA SAVARY: TELURISMO E SENSUALIDADE

Olga Savary (Foto Divulgação)

Embora só a conhecesse em pessoa de poucos anos, acompanhei de longe o trabalho de Olga Savary desde muito tempo, lendo publicações de sua autoria e a respeito do que produziu na poesia e na ficção. Minha atitude em relação a ela sempre foi de respeito intelectual, não apenas pela qualidade de sua obra, – de resto notória, – mas também em virtude de outros fatores, em especial de três: a solidariedade, o amor à terra e o arrojo na composição da obra.

Sempre disposta a ajudar colegas de ofício, ainda mais quando se tratava de iniciantes, desde que revelassem talento, nunca se furtou a divulgá-los, publicando seus trabalhos em antologias, enviando livros a resenhistas e críticos, recomendando a escritores amigos. Eu próprio recebi indicações de poetas e escritores que ela julgou merecedores, sempre de forma acertada, revelando aquele “faro” típico das pessoas sensíveis e que não se entregam à contemplação única do próprio umbigo. Mais de uma vez escrevi a respeito de escritores e poetas por ela indicados e minhas palavras, nessas ocasiões, mereceram a confirmação de outros juízos. É claro que nesse afã de ajudar, alguns desgostos e decepções foram inevitáveis, não fosse o ser humano feito do barro que é. Isso, porém, só engrandeceu essa postura solidária, quase extinta nos dias bicudos que vivemos.

Quanto ao corajoso arrojo de suas posições, é fato conhecido e decantado. Todos recordam de seu pioneirismo na publicação da antologia “Carne Viva” (1984), a única que reúne apenas poemas eróticos, por ela organizada. Foi também a primeira mulher em nossa história literária a escrever um livro sobre temas eróticos no país e que recebeu o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras – “Magma” (1982). Para ela, sem liberdade e independência não poderia haver poesia. Como disse num de seus poemas inéditos, poeta é tudo, “é mulher e homem, demônio e anjo, pedra também, e árvore, selva e semente, grama e montanha, lava e água...” Livre, enfim.

Além disso, há na sua obra algo que me toca de forma especial, talvez porque esse sentimento também seja muito forte em mim – o amor à terra. Em toda sua produção, de forma explícita ou não, o chão natal amazônico é uma constante. O verdor da selva, os mananciais imensos de água, o clima abrasador, os mistérios indecifráveis, a alma do povo, o sotaque característico – tudo é subjacente na sua escrita como um visgo impregnado de amor, saudade, inspiração. Por urbano que seja o tema abordado, sinto por debaixo dele o fundo telúrico. Mesmo quando é universal e cosmopolita, nunca deixa de ser a mais brasileira de nossas poetas, como bem observou Gilberto Freyre, sempre arguto nas análises que fazia: “A poesia de Olga Savary é das coisas mais brasileiras que eu já vi. O Brasil respira na sua poesia, no seu texto. Viva o Brasil através de Olga Savary!” Para concluir, tomo a liberdade de lembrar o genial Câmara Cascudo, provinciano incurável e emérito fazedor de frases, numa das melhores que produziu: “Não rezo e nem ofereço a escritor que não tem o pó da terra natal debaixo dos pés da alma!”

__________________________
Homenagem à querida amiga Olga Savary,
falecida no dia 15 de maio, vítima de Covid-19.
Ela publicava um livro tendo este artigo
como prefácio.

Escrito por Enéas Athanázio, 20/07/2020 às 19h17 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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OLGA SAVARY: TELURISMO E SENSUALIDADE

Olga Savary (Foto Divulgação)

Embora só a conhecesse em pessoa de poucos anos, acompanhei de longe o trabalho de Olga Savary desde muito tempo, lendo publicações de sua autoria e a respeito do que produziu na poesia e na ficção. Minha atitude em relação a ela sempre foi de respeito intelectual, não apenas pela qualidade de sua obra, – de resto notória, – mas também em virtude de outros fatores, em especial de três: a solidariedade, o amor à terra e o arrojo na composição da obra.

Sempre disposta a ajudar colegas de ofício, ainda mais quando se tratava de iniciantes, desde que revelassem talento, nunca se furtou a divulgá-los, publicando seus trabalhos em antologias, enviando livros a resenhistas e críticos, recomendando a escritores amigos. Eu próprio recebi indicações de poetas e escritores que ela julgou merecedores, sempre de forma acertada, revelando aquele “faro” típico das pessoas sensíveis e que não se entregam à contemplação única do próprio umbigo. Mais de uma vez escrevi a respeito de escritores e poetas por ela indicados e minhas palavras, nessas ocasiões, mereceram a confirmação de outros juízos. É claro que nesse afã de ajudar, alguns desgostos e decepções foram inevitáveis, não fosse o ser humano feito do barro que é. Isso, porém, só engrandeceu essa postura solidária, quase extinta nos dias bicudos que vivemos.

Quanto ao corajoso arrojo de suas posições, é fato conhecido e decantado. Todos recordam de seu pioneirismo na publicação da antologia “Carne Viva” (1984), a única que reúne apenas poemas eróticos, por ela organizada. Foi também a primeira mulher em nossa história literária a escrever um livro sobre temas eróticos no país e que recebeu o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras – “Magma” (1982). Para ela, sem liberdade e independência não poderia haver poesia. Como disse num de seus poemas inéditos, poeta é tudo, “é mulher e homem, demônio e anjo, pedra também, e árvore, selva e semente, grama e montanha, lava e água...” Livre, enfim.

Além disso, há na sua obra algo que me toca de forma especial, talvez porque esse sentimento também seja muito forte em mim – o amor à terra. Em toda sua produção, de forma explícita ou não, o chão natal amazônico é uma constante. O verdor da selva, os mananciais imensos de água, o clima abrasador, os mistérios indecifráveis, a alma do povo, o sotaque característico – tudo é subjacente na sua escrita como um visgo impregnado de amor, saudade, inspiração. Por urbano que seja o tema abordado, sinto por debaixo dele o fundo telúrico. Mesmo quando é universal e cosmopolita, nunca deixa de ser a mais brasileira de nossas poetas, como bem observou Gilberto Freyre, sempre arguto nas análises que fazia: “A poesia de Olga Savary é das coisas mais brasileiras que eu já vi. O Brasil respira na sua poesia, no seu texto. Viva o Brasil através de Olga Savary!” Para concluir, tomo a liberdade de lembrar o genial Câmara Cascudo, provinciano incurável e emérito fazedor de frases, numa das melhores que produziu: “Não rezo e nem ofereço a escritor que não tem o pó da terra natal debaixo dos pés da alma!”

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Homenagem à querida amiga Olga Savary,
falecida no dia 15 de maio, vítima de Covid-19.
Ela publicava um livro tendo este artigo
como prefácio.

Escrito por Enéas Athanázio, 20/07/2020 às 19h17 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.