Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

POR AMOR À MÚSICA

Dmitri Shostakovich

Com origens siberianas, Dmitri Shostakovich (1906/1975) nasceu em São Petersburgo em uma família de antigas tradições revolucionárias e de acentuada tendência musical. Desde seu avô, vários membros da família participaram de algumas das tantas insurreições populares que marcaram a história russa. Por outro lado, o amor e o cultivo da música foram uma constante, e sua mãe, Sonya, mulher de grande coragem, foi extraordinária pianista e liderou a família com habilidade e valentia, mesmo nos momentos em que esteve beirando a miséria. Desde cedo percebeu a genialidade do filho e o estimulou sempre na busca da realização artística. Graças a ela o clã familiar se manteve unido e ativo.

No período pós-revolucionário, nos anos posteriores a 1917, o país viveu tempos aflitivos. Toda a economia se desorganizou em virtude da mudança de regime e as carências se sucederam. Foram dias, meses e anos de privações, racionamento, desabastecimento, frio e medo. O desemprego campeava, enquanto se multiplicavam os boicotes, as sabotagens e toda sorte de resistência à implantação do novo sistema econômico. Havia desemprego e os salários eram miseráveis. Apesar de tudo, porém, os Shostakovih lutavam com bravura pela sobrevivência e nunca deixaram de cultivar a música. O jovem Dmitri, chamado de Mitya pelos familiares, aos treze anos de idade já se revelava exímio pianista e até realizava pequenas composições musicais.

Dotado de constituição frágil, embora de postura elegante, o rapaz estudava e estudava. Frequentou aulas particulares com mestres renomados, fez cursos em escolas famosas e passou por importantes conservatórios. Seu talento era exaltado e suas produções musicais começaram a aparecer e despertar vivo interesse. Grandes maestros e virtuoses por elas se interessaram e a crítica as aclamou. Suas obras passaram a ser apresentadas em São Petersburgo, Moscou a outras cidades europeias, sempre atraindo numeroso público e merecendo o aplauso dos “experts.” Já casado, Dmitri melhorou de condição financeira e passou a desfrutar uma vida de fausto e luxo, desaprovada pela mãe, cujo senso prático não via aquilo com bons olhos. Apesar do sucesso, ele se torna nervoso e irritadiço, não poupando nem mesmo os familiares.

Tudo corria bem, sua obra estava consagrada, a vida prosseguia numa linha ascendente. Mas, como raios que caem do céu sem aviso, dois editoriais do “Pravda”, jornal oficial do governo e do partido, o fulminam. Com mão pesada, a censura o acusa de produzir obra burguesa, afastada dos interesses do povo e, portanto, condenável. Usando das costumeiras frases feitas e expressões de sentido duvidoso, os censores reprovam suas produções, em especial a ópera “Lady MacBeth do Distrito de Mzensk”, sobre a qual recai o ódio virulento da censura. Nela o compositor procura tornar simpática a vilã de um conto célebre, o que parece ter irritado o todo-poderoso Stálin, cuja mão era sentida por detrás dos editoriais. Pareciam entender que a edulcoração de uma criminosa não ficava bem, ainda mais no exterior, no contexto da Guerra Fria.

Em consequência, Dmitri cai no ostracismo. Suas obras são retiradas dos repertórios, perde as mordomias, é forçado a tocar nos cinemas, como outrora, e permanece esquecido por longo tempo. Mais tarde, após a morte de Stálin, reconquista sua posição, recupera o espaço e sua música volta a ser executada, não apenas na Rússia mas em todo o mundo. Desde então é colocado entre os grandes compositores da música universal. Foi autor de 59 composições de elevado sentido musical, segundo relações efetuadas por seus biógrafos, entre eles Victor Seroff, cujo livro foi traduzido por Guilherme de Figueiredo e publicado no Brasil, com excelente prefácio de Mário de Andrade. Nessa relação não estão incluídas as obras que permanecem em manuscrito.

Apesar das dificuldades e dos tropeços, o gênio de Dmitri Shostakovich se realizou na plenitude e sua obra é reverenciada em todo o mundo pelos apreciadores da boa música.

Outro excelente livro sobre o compositor é “O ruído do tempo”, de autoria de Julian Barnes, um dos expoentes da moderna literatura britânica (Editora Rocco – Rio de Janeiro – 2017). Nele o autor revela o sofrimento de Shostakovich, espírito sensível, diante da pressão a que foi submetido antes e depois da reabilitação. Teve que ler discursos que não escreveu, assinar artigos que não eram escritos por ele, fazer declarações que contrariavam seu pensamento e se conformar com uma vigilância permanente. Nomearam-lhe até mesmo um orientador com o objetivo de “reeducá-lo.” Em certa fase, temendo ser preso a qualquer momento, permanecia horas a fio em pé, diante do elevador e com a mala na mão para poupar a esposa de um trauma ao ser retirado da cama na calada da noite, como acontecia com frequência. Estarrecedor.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/12/2019 às 13h14 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: [email protected]

Página 3
Literatura
Por Enéas Athanázio

POR AMOR À MÚSICA

Dmitri Shostakovich

Com origens siberianas, Dmitri Shostakovich (1906/1975) nasceu em São Petersburgo em uma família de antigas tradições revolucionárias e de acentuada tendência musical. Desde seu avô, vários membros da família participaram de algumas das tantas insurreições populares que marcaram a história russa. Por outro lado, o amor e o cultivo da música foram uma constante, e sua mãe, Sonya, mulher de grande coragem, foi extraordinária pianista e liderou a família com habilidade e valentia, mesmo nos momentos em que esteve beirando a miséria. Desde cedo percebeu a genialidade do filho e o estimulou sempre na busca da realização artística. Graças a ela o clã familiar se manteve unido e ativo.

No período pós-revolucionário, nos anos posteriores a 1917, o país viveu tempos aflitivos. Toda a economia se desorganizou em virtude da mudança de regime e as carências se sucederam. Foram dias, meses e anos de privações, racionamento, desabastecimento, frio e medo. O desemprego campeava, enquanto se multiplicavam os boicotes, as sabotagens e toda sorte de resistência à implantação do novo sistema econômico. Havia desemprego e os salários eram miseráveis. Apesar de tudo, porém, os Shostakovih lutavam com bravura pela sobrevivência e nunca deixaram de cultivar a música. O jovem Dmitri, chamado de Mitya pelos familiares, aos treze anos de idade já se revelava exímio pianista e até realizava pequenas composições musicais.

Dotado de constituição frágil, embora de postura elegante, o rapaz estudava e estudava. Frequentou aulas particulares com mestres renomados, fez cursos em escolas famosas e passou por importantes conservatórios. Seu talento era exaltado e suas produções musicais começaram a aparecer e despertar vivo interesse. Grandes maestros e virtuoses por elas se interessaram e a crítica as aclamou. Suas obras passaram a ser apresentadas em São Petersburgo, Moscou a outras cidades europeias, sempre atraindo numeroso público e merecendo o aplauso dos “experts.” Já casado, Dmitri melhorou de condição financeira e passou a desfrutar uma vida de fausto e luxo, desaprovada pela mãe, cujo senso prático não via aquilo com bons olhos. Apesar do sucesso, ele se torna nervoso e irritadiço, não poupando nem mesmo os familiares.

Tudo corria bem, sua obra estava consagrada, a vida prosseguia numa linha ascendente. Mas, como raios que caem do céu sem aviso, dois editoriais do “Pravda”, jornal oficial do governo e do partido, o fulminam. Com mão pesada, a censura o acusa de produzir obra burguesa, afastada dos interesses do povo e, portanto, condenável. Usando das costumeiras frases feitas e expressões de sentido duvidoso, os censores reprovam suas produções, em especial a ópera “Lady MacBeth do Distrito de Mzensk”, sobre a qual recai o ódio virulento da censura. Nela o compositor procura tornar simpática a vilã de um conto célebre, o que parece ter irritado o todo-poderoso Stálin, cuja mão era sentida por detrás dos editoriais. Pareciam entender que a edulcoração de uma criminosa não ficava bem, ainda mais no exterior, no contexto da Guerra Fria.

Em consequência, Dmitri cai no ostracismo. Suas obras são retiradas dos repertórios, perde as mordomias, é forçado a tocar nos cinemas, como outrora, e permanece esquecido por longo tempo. Mais tarde, após a morte de Stálin, reconquista sua posição, recupera o espaço e sua música volta a ser executada, não apenas na Rússia mas em todo o mundo. Desde então é colocado entre os grandes compositores da música universal. Foi autor de 59 composições de elevado sentido musical, segundo relações efetuadas por seus biógrafos, entre eles Victor Seroff, cujo livro foi traduzido por Guilherme de Figueiredo e publicado no Brasil, com excelente prefácio de Mário de Andrade. Nessa relação não estão incluídas as obras que permanecem em manuscrito.

Apesar das dificuldades e dos tropeços, o gênio de Dmitri Shostakovich se realizou na plenitude e sua obra é reverenciada em todo o mundo pelos apreciadores da boa música.

Outro excelente livro sobre o compositor é “O ruído do tempo”, de autoria de Julian Barnes, um dos expoentes da moderna literatura britânica (Editora Rocco – Rio de Janeiro – 2017). Nele o autor revela o sofrimento de Shostakovich, espírito sensível, diante da pressão a que foi submetido antes e depois da reabilitação. Teve que ler discursos que não escreveu, assinar artigos que não eram escritos por ele, fazer declarações que contrariavam seu pensamento e se conformar com uma vigilância permanente. Nomearam-lhe até mesmo um orientador com o objetivo de “reeducá-lo.” Em certa fase, temendo ser preso a qualquer momento, permanecia horas a fio em pé, diante do elevador e com a mala na mão para poupar a esposa de um trauma ao ser retirado da cama na calada da noite, como acontecia com frequência. Estarrecedor.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/12/2019 às 13h14 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.