Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

O ROMANCE DE UMA VIDA

Ao publicar minhas reminiscências do internato, no livro “Vida Confinada”, lançado em 1997, classifiquei-o como autoficção. Eu me rendia à posição mais recente da crítica européia, fundada em princípios psicanalíticos, de que memórias exatamente fiéis aos fatos não existem e que a cada vez que nos lembramos de algum episódio ele volta acrescido de novos ingredientes imaginários ou, ao contrário, despido de alguns detalhes. Eu andava lendo na época alguns escritos da psiquiatra e escritora Betty Milan, que vinha divulgando entre nós esses conceitos inovadores. Alguns resenhistas estranharam um pouco o novo gênero, mas parece que ele não encontrou maior aceitação e permaneceu pouco usado. Como leitor inveterado de autobiografias e memórias, não me lembro de ter encontrado outro livro com tal classificação.

Mas eis que agora me vem às mãos o romance autobiográfico “Innocens Manibus”, de autoria de Vasco de Sant’Anna, publicado no Rio Grande do Sul (2012), e que acabo de ler. Para surpresa minha, ele é classificado como autoficção, vale dizer, é um livro de memórias. É muito mais abrangente que o meu, uma vez que procura reconstituir de forma romanceada toda a existência do personagem central, alter-ego do autor-narrador, desde os bancos escolares até os dias atuais. E nesse particular ele revela o fôlego do romancista, estendendo-se por 330 páginas repletas dos mais variados acontecimentos, sempre contextualizados com a história regional e do país. É um vasto painel que exibe um homem vivido e que, como ministrava Gilberto Amado, nunca foi um distraído mas soube prestar atenção à vida.

As recordações mais antigas remontam aos tempos do seminário. Esses anos de vida reclusa têm a característica de se incrustar para sempre na memória, talvez porque naquela idade ela funciona como disco virgem e retém tudo de maneira indelével. Nessa fase se entremeiam as lembranças da terra natal, típica cidade gaúcha da fronteira com todos seus tiques e cacoetes. É ali que explode como bomba em família a sua revelada intenção de virar padre. Para os machões do clã, aquilo soava como o maior dos despautérios. Onde já se viu semelhante coisa? As reações de Tio Henrique, em particular, são antológicas, e as soluções que indica para debelar a “vexata quaestio” são extraordinárias. E quando é advertido pela mãe do rapaz de que irá para o inferno, ele retruca: “Mas é isso mesmo que eu quero, festa e mulherada. O céu deve ser muito chato, só santos, anjos e beatas!” (p. 25). O dia-a-dia no seminário, com os pequeninos acontecimentos da rotina ganhando relevância aos olhos da garotada reclusa e submetida a rígida disciplina. Surgem os dramas, as comédias, os atos de grandeza e de mesquinharia, como as delações, e tudo mais que é próprio de uma vida vigiada. Mas o tempo implacável se escoa e um dia o rapaz deixa o seminário para ingressar em outras fases da vida. As páginas sobre esse período são intensas e absorventes, talvez o ponto alto do livro.

Marcha da Liberdade (foto Reprodução/Arquivo)

Segue-se o período universitário na busca da profissão. Forma-se em engenharia e se especializa na construção de rodovias. Depois de um casamento algo arranjado, inicia a lenta e dura luta pela afirmação profissional. A ascensão é difícil, enfrentando as disputas e, mais que isso, a corrupção institucionalizada no setor, onde as propinas, o tráfico de influência e as maquinações parecem uma constante. Nesse ponto o livro se torna um libelo contra corruptos e corruptores, entrando em minúcias espantosas de quem viveu para contar. A Justiça e sua proclamada lentidão, as malandragens dos burocratas para obter vantagens e a venalidade de muitos não escapam ilesos. Sucedem-se quadros admiráveis de situações e personalidades que se cruzam e entrecruzam ao longo dos anos, não faltando os eternos e inúteis embates entre capitalistas e socialistas na defesa de suas convicções. E permeando tudo, a situação do país, desde a marcha pela Legalidade, liderada por Brizola, até o golpe e os pesados anos de chumbo. Um amor de maturidade, espécie de tábua de salvação, culmina em desastre. E o final é trágico mas, de certo modo, intuitivo. Para alguém com tais princípios de formação e tão a fundo marcado pela vida, quer me parecer que não haveria outra saída para continuar fiel a si mesmo.

Afinal, como expressavam as frases inscritas na capela do seminário e gravadas a ferro na memória do personagem: “Quem subirá ao monte do Senhor? Aquele que tiver as mãos inocentes e o coração limpo!” 

Escrito por Enéas Athanázio, 18/11/2019 às 11h56 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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O ROMANCE DE UMA VIDA

Ao publicar minhas reminiscências do internato, no livro “Vida Confinada”, lançado em 1997, classifiquei-o como autoficção. Eu me rendia à posição mais recente da crítica européia, fundada em princípios psicanalíticos, de que memórias exatamente fiéis aos fatos não existem e que a cada vez que nos lembramos de algum episódio ele volta acrescido de novos ingredientes imaginários ou, ao contrário, despido de alguns detalhes. Eu andava lendo na época alguns escritos da psiquiatra e escritora Betty Milan, que vinha divulgando entre nós esses conceitos inovadores. Alguns resenhistas estranharam um pouco o novo gênero, mas parece que ele não encontrou maior aceitação e permaneceu pouco usado. Como leitor inveterado de autobiografias e memórias, não me lembro de ter encontrado outro livro com tal classificação.

Mas eis que agora me vem às mãos o romance autobiográfico “Innocens Manibus”, de autoria de Vasco de Sant’Anna, publicado no Rio Grande do Sul (2012), e que acabo de ler. Para surpresa minha, ele é classificado como autoficção, vale dizer, é um livro de memórias. É muito mais abrangente que o meu, uma vez que procura reconstituir de forma romanceada toda a existência do personagem central, alter-ego do autor-narrador, desde os bancos escolares até os dias atuais. E nesse particular ele revela o fôlego do romancista, estendendo-se por 330 páginas repletas dos mais variados acontecimentos, sempre contextualizados com a história regional e do país. É um vasto painel que exibe um homem vivido e que, como ministrava Gilberto Amado, nunca foi um distraído mas soube prestar atenção à vida.

As recordações mais antigas remontam aos tempos do seminário. Esses anos de vida reclusa têm a característica de se incrustar para sempre na memória, talvez porque naquela idade ela funciona como disco virgem e retém tudo de maneira indelével. Nessa fase se entremeiam as lembranças da terra natal, típica cidade gaúcha da fronteira com todos seus tiques e cacoetes. É ali que explode como bomba em família a sua revelada intenção de virar padre. Para os machões do clã, aquilo soava como o maior dos despautérios. Onde já se viu semelhante coisa? As reações de Tio Henrique, em particular, são antológicas, e as soluções que indica para debelar a “vexata quaestio” são extraordinárias. E quando é advertido pela mãe do rapaz de que irá para o inferno, ele retruca: “Mas é isso mesmo que eu quero, festa e mulherada. O céu deve ser muito chato, só santos, anjos e beatas!” (p. 25). O dia-a-dia no seminário, com os pequeninos acontecimentos da rotina ganhando relevância aos olhos da garotada reclusa e submetida a rígida disciplina. Surgem os dramas, as comédias, os atos de grandeza e de mesquinharia, como as delações, e tudo mais que é próprio de uma vida vigiada. Mas o tempo implacável se escoa e um dia o rapaz deixa o seminário para ingressar em outras fases da vida. As páginas sobre esse período são intensas e absorventes, talvez o ponto alto do livro.

Marcha da Liberdade (foto Reprodução/Arquivo)

Segue-se o período universitário na busca da profissão. Forma-se em engenharia e se especializa na construção de rodovias. Depois de um casamento algo arranjado, inicia a lenta e dura luta pela afirmação profissional. A ascensão é difícil, enfrentando as disputas e, mais que isso, a corrupção institucionalizada no setor, onde as propinas, o tráfico de influência e as maquinações parecem uma constante. Nesse ponto o livro se torna um libelo contra corruptos e corruptores, entrando em minúcias espantosas de quem viveu para contar. A Justiça e sua proclamada lentidão, as malandragens dos burocratas para obter vantagens e a venalidade de muitos não escapam ilesos. Sucedem-se quadros admiráveis de situações e personalidades que se cruzam e entrecruzam ao longo dos anos, não faltando os eternos e inúteis embates entre capitalistas e socialistas na defesa de suas convicções. E permeando tudo, a situação do país, desde a marcha pela Legalidade, liderada por Brizola, até o golpe e os pesados anos de chumbo. Um amor de maturidade, espécie de tábua de salvação, culmina em desastre. E o final é trágico mas, de certo modo, intuitivo. Para alguém com tais princípios de formação e tão a fundo marcado pela vida, quer me parecer que não haveria outra saída para continuar fiel a si mesmo.

Afinal, como expressavam as frases inscritas na capela do seminário e gravadas a ferro na memória do personagem: “Quem subirá ao monte do Senhor? Aquele que tiver as mãos inocentes e o coração limpo!” 

Escrito por Enéas Athanázio, 18/11/2019 às 11h56 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.