Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

JAIR, O CRONISTA

Jair Francisco Hamms (1935/2012) foi, para mim, o mais inspirado e completo cronista catarinense. Publicou cinco coletâneas de crônicas antes estampadas na imprensa e que fizeram bastante sucesso, nos restritos limites em que trabalhos desse gênero conseguem fazer sucesso em nosso acanhado meio literário. “Estórias de gente e outras estórias” (1971), “O vendedor de maravilhas” (1973), “O detetive de Florianópolis” (1984), “A cabra azul” (1985) e “Samba no céu” (2002) foram os volumes por ele publicados, afora trabalhos de outros gêneros e participações em coletâneas. Numa leitura comparativa, acredito ainda hoje que o segundo livro alcançou o melhor nível e não foi superado pelos demais, embora estes também contenham textos da melhor qualidade literária.

Jair escrevia bem, em linguagem simples e direta, sempre precisa. Tinha um faro aguçado e estava atento aos fatos “cronicáveis” que aconteciam à sua volta, captando-os de maneira admirável. Conhecia como poucos a fala, as manhas e os truques dos ilhéus, retratando-os com autenticidade nas crônicas ambientadas em Florianópolis e que constituem a maioria. Não foi muito feliz na concepção do detetive particular que exercia suas atividades na Ilha porque, acredito, é pouco verossímil o exercício dessa profissão numa cidade com as características de nossa velha capital. Domingos Tertuliano Tive, mais conhecido como D. T. Tive, seria o único detetive particular de Santa Catarina e suas investigações estavam sempre repletas de surpresas.

As crônicas de Jair são permeadas de muito humor e algumas hilariantes.

Em “A cabra azul”, ele começa instigando a curiosidade do leitor com a figura bizarra, toda vestida de azul, que se apresentava no centro da cidade tangendo pela corda azul uma cabra também azul. O espanto que provoca atrai considerável número de curiosos, enquanto o homem de azul permanece impávido e misterioso, mesmo quando a imprensa procura desvendar o mistério. O desfecho é surpreendente e revela a criatividade popular.

Nesse mesmo livro o autor põe em ação personagens já conhecidos de crônicas anteriores e que compõem um mundinho que vem se constituindo no correr das narrativas. Ali aparecem a cidade de Lendária, alguns de seus moradores e visitantes. Padre Celestino, Tomé (que só acreditava vendo), Romildo (o primo complacente), a benzedeira Apolônia, o velho leiteiro Estácio, o Tavinho, dono da venda, o negro Porfírio e outros tantos que se cruzam e entrecruzam no correr dos dias.

Também surgem crônicas que formam séries. Assim. nada menos que meia dúzia tem como personagem central um certo Alexander Graham Bell Pereira, cuja ocupação principal consistia em dar trotes (telefônicos, para ser fiel ao nome) nos conhecidos. E nessa atividade revelava extraordinária imaginação, inventando as mais incríveis histórias, perturbando as pobres vítimas, salvo nos raros casos em que elas o identificavam. Padre Jesuíno, Antoninha Esperança e uma socialite foram algumas delas, mas registraram-se ainda os estranhos casos da cocoroca de cócoras, do zanfrosprócrava e da Rádio Família. Outra série acontece no céu e lá se reúnem, em torno de Pedro Álvares Cabral e Frei Henrique de Coimbra (o da primeira missa), numa rodinha brasileira, nada menos que Pixinguinha, Castro Alves, Tiradentes, Érico Veríssimo, Cecília Meireles, Orestes Barbosa, Jorge de Lima, Manuel Bandeira, Pedro Nava, Noel Rosa, Vinícius de Moraes e outros mais, bebendo vinho e proseando prosas bem típicas de brasileiros. Nem São Pedro escapa das troças e até Ele, o Maioral, a tudo assiste, tolerante e compreensivo. O catarinense Seixas Neto observa e ri, como era de seu feitio. É claro que tudo acaba em samba.

Mas há mais, muito mais. Surge o “artista” que se passa por rico, frequentador de lautos banquetes, mas que come escondido o sanduíche enrolado em papel pardo; o Erasmo que se exasperava com a mulher que posava de biquíni para o fotógrafo de uma revista masculina; o estranhíssimo colecionador de penicos e outras figuras não menos curiosas. É um mundo movimentado, divertido e imprevisível em que não falta imaginação para engendrar as mais estranhas situações.

Jair faleceu cedo, quando muito ainda poderia dar. Como diz o povo, viajou antes do combinado, mas deixou uma excelente herança. Suas crônicas são para ler, reler e não esquecer. 

Escrito por Enéas Athanázio, 11/11/2019 às 11h40 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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JAIR, O CRONISTA

Jair Francisco Hamms (1935/2012) foi, para mim, o mais inspirado e completo cronista catarinense. Publicou cinco coletâneas de crônicas antes estampadas na imprensa e que fizeram bastante sucesso, nos restritos limites em que trabalhos desse gênero conseguem fazer sucesso em nosso acanhado meio literário. “Estórias de gente e outras estórias” (1971), “O vendedor de maravilhas” (1973), “O detetive de Florianópolis” (1984), “A cabra azul” (1985) e “Samba no céu” (2002) foram os volumes por ele publicados, afora trabalhos de outros gêneros e participações em coletâneas. Numa leitura comparativa, acredito ainda hoje que o segundo livro alcançou o melhor nível e não foi superado pelos demais, embora estes também contenham textos da melhor qualidade literária.

Jair escrevia bem, em linguagem simples e direta, sempre precisa. Tinha um faro aguçado e estava atento aos fatos “cronicáveis” que aconteciam à sua volta, captando-os de maneira admirável. Conhecia como poucos a fala, as manhas e os truques dos ilhéus, retratando-os com autenticidade nas crônicas ambientadas em Florianópolis e que constituem a maioria. Não foi muito feliz na concepção do detetive particular que exercia suas atividades na Ilha porque, acredito, é pouco verossímil o exercício dessa profissão numa cidade com as características de nossa velha capital. Domingos Tertuliano Tive, mais conhecido como D. T. Tive, seria o único detetive particular de Santa Catarina e suas investigações estavam sempre repletas de surpresas.

As crônicas de Jair são permeadas de muito humor e algumas hilariantes.

Em “A cabra azul”, ele começa instigando a curiosidade do leitor com a figura bizarra, toda vestida de azul, que se apresentava no centro da cidade tangendo pela corda azul uma cabra também azul. O espanto que provoca atrai considerável número de curiosos, enquanto o homem de azul permanece impávido e misterioso, mesmo quando a imprensa procura desvendar o mistério. O desfecho é surpreendente e revela a criatividade popular.

Nesse mesmo livro o autor põe em ação personagens já conhecidos de crônicas anteriores e que compõem um mundinho que vem se constituindo no correr das narrativas. Ali aparecem a cidade de Lendária, alguns de seus moradores e visitantes. Padre Celestino, Tomé (que só acreditava vendo), Romildo (o primo complacente), a benzedeira Apolônia, o velho leiteiro Estácio, o Tavinho, dono da venda, o negro Porfírio e outros tantos que se cruzam e entrecruzam no correr dos dias.

Também surgem crônicas que formam séries. Assim. nada menos que meia dúzia tem como personagem central um certo Alexander Graham Bell Pereira, cuja ocupação principal consistia em dar trotes (telefônicos, para ser fiel ao nome) nos conhecidos. E nessa atividade revelava extraordinária imaginação, inventando as mais incríveis histórias, perturbando as pobres vítimas, salvo nos raros casos em que elas o identificavam. Padre Jesuíno, Antoninha Esperança e uma socialite foram algumas delas, mas registraram-se ainda os estranhos casos da cocoroca de cócoras, do zanfrosprócrava e da Rádio Família. Outra série acontece no céu e lá se reúnem, em torno de Pedro Álvares Cabral e Frei Henrique de Coimbra (o da primeira missa), numa rodinha brasileira, nada menos que Pixinguinha, Castro Alves, Tiradentes, Érico Veríssimo, Cecília Meireles, Orestes Barbosa, Jorge de Lima, Manuel Bandeira, Pedro Nava, Noel Rosa, Vinícius de Moraes e outros mais, bebendo vinho e proseando prosas bem típicas de brasileiros. Nem São Pedro escapa das troças e até Ele, o Maioral, a tudo assiste, tolerante e compreensivo. O catarinense Seixas Neto observa e ri, como era de seu feitio. É claro que tudo acaba em samba.

Mas há mais, muito mais. Surge o “artista” que se passa por rico, frequentador de lautos banquetes, mas que come escondido o sanduíche enrolado em papel pardo; o Erasmo que se exasperava com a mulher que posava de biquíni para o fotógrafo de uma revista masculina; o estranhíssimo colecionador de penicos e outras figuras não menos curiosas. É um mundo movimentado, divertido e imprevisível em que não falta imaginação para engendrar as mais estranhas situações.

Jair faleceu cedo, quando muito ainda poderia dar. Como diz o povo, viajou antes do combinado, mas deixou uma excelente herança. Suas crônicas são para ler, reler e não esquecer. 

Escrito por Enéas Athanázio, 11/11/2019 às 11h40 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.