Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Caro amigo Enéias Athanázio

Muito obrigado pelo envio de seu livro “O perto e o longe – volume 3”. Aprecio livros de viagens e li com gosto. Muito se aprende com os olhos dos outros sobre a geografia e os costumes de quem os relata com precisão jornalística e as tintas de escritor, como faz você. Mesmo em se tratando de paisagens que eu conheço, como Belém, Macapá e o território do Rio Doce. Às vezes vemos a floresta e não atinamos para a árvore, como é voz corrente e acertada. Com este seu livro, vi que temos mais sentimentos em comum, como o amor às ferrovias. É um tema que sempre me seduziu, pelas mesmas razões que moram no seu coração: também vivi a infância admirando os trens de ferro da Rede Mineira de Viação e da Central do Brasil. Quando viajo a outros países, privilegio os deslocamentos de trem aos de carro, ônibus ou avião, especialmente na Europa, onde os povos de lá souberam conservar as ferrovias como meio de transporte eficiente e cômodo, quando não ao luxo de suas carruagens. Sinto-me uma feliz criança ao tomar um assento ao lado de uma ampla janela para apreciar a paisagem que vai sendo recortada, como fez você e dona Jandira ao percorrer a Vitória-Minas. A última vez em que viajei por esta estrada de ferro foi para conhecer o Caraça, célebre educandário onde estudou o meu avô materno em fins do século 19. Lá dormi na pousada em que foi transformada parte das instalações dos padres e dos alunos. Vivi a emoção de encontrar no livro de matrículas a do meu avô Benigno Magnânimo do Couto, que lá chegou em 1896 em lombo de burro com a escolta de um peão da fazenda de meu bisavô, procedente de Rio Pomba, a léguas de distância.

Mas o menino não pode fazer o curso completo porque o oculista do Rio de Janeiro disse ao pai dele que, fraco da visão, o estudante a perderia de vez se continuasse debruçado nos livros escolares. Benigno, sabendo ler, escrever e fazer contas, foi para o comércio e depois para o jornalismo engajado, tendo sido o proprietário de jornal político em Rio Casca, Zona da Mata mineira, e depois coletor federal.

Miopíssimo, não via as diabruras do neto Pedrinho.

Muito aprendi também sobre as impressões que você anota sobre Hemingway, grande figura humana e de escritor. E mais soube sobre os embates do Contestado e, milhares de quilômetros ao norte, a guerra dos cangaceiros. São dois temas que, percebe-se, você cultiva com curiosidade jornalística de atento repórter. O perto e o longe do seu umbigo de escritor.

Agradeço, também, o envio do artigo sobre Lima Barreto em que cita o saudoso Vivaldi de “A frauta de Mársias”. Meu Pai era como você: um divulgador de seus interesses históricos e literários. São escritores que, por generosidade, gostam de compartilhar o que leram, o que aprenderam. Não guardam só para si o ouro que amealharam no conhecimento dos livros e da realidade. Eis aí um sentido mais alto para o ofício de escrever. Não se deve escrever por escrever, para extravasar apenas a nossa emoção, mas sobretudo para ampliar aos semelhantes essas emoções e o conhecimento adquirido em campo. Parabéns, escritor Enéas Athanázio!

Com esta cartinha, que componho no computador porque minha letra cursiva está cada dia mais amarfanhada, receba o afetuoso abraço do
Pedro Rogério Moreira.


Brasília, madrugada de 24 de julho de 2019.


Nota do Colunista: Pedro Rogério Moreira é escritor e jornalista, foi correspondente televisivo na Amazônia e tem vários livros publicados. É filho de Vivaldi Moreira, que foi presidente da Academia Mineira de Letras por longos anos e em cuja gestão recebi um prêmio daquela Academia pelo meu livro "As Antecipações de Lobato." 

Escrito por Enéas Athanázio, 26/08/2019 às 13h39 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Enéas Athanázio
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Caro amigo Enéias Athanázio

Muito obrigado pelo envio de seu livro “O perto e o longe – volume 3”. Aprecio livros de viagens e li com gosto. Muito se aprende com os olhos dos outros sobre a geografia e os costumes de quem os relata com precisão jornalística e as tintas de escritor, como faz você. Mesmo em se tratando de paisagens que eu conheço, como Belém, Macapá e o território do Rio Doce. Às vezes vemos a floresta e não atinamos para a árvore, como é voz corrente e acertada. Com este seu livro, vi que temos mais sentimentos em comum, como o amor às ferrovias. É um tema que sempre me seduziu, pelas mesmas razões que moram no seu coração: também vivi a infância admirando os trens de ferro da Rede Mineira de Viação e da Central do Brasil. Quando viajo a outros países, privilegio os deslocamentos de trem aos de carro, ônibus ou avião, especialmente na Europa, onde os povos de lá souberam conservar as ferrovias como meio de transporte eficiente e cômodo, quando não ao luxo de suas carruagens. Sinto-me uma feliz criança ao tomar um assento ao lado de uma ampla janela para apreciar a paisagem que vai sendo recortada, como fez você e dona Jandira ao percorrer a Vitória-Minas. A última vez em que viajei por esta estrada de ferro foi para conhecer o Caraça, célebre educandário onde estudou o meu avô materno em fins do século 19. Lá dormi na pousada em que foi transformada parte das instalações dos padres e dos alunos. Vivi a emoção de encontrar no livro de matrículas a do meu avô Benigno Magnânimo do Couto, que lá chegou em 1896 em lombo de burro com a escolta de um peão da fazenda de meu bisavô, procedente de Rio Pomba, a léguas de distância.

Mas o menino não pode fazer o curso completo porque o oculista do Rio de Janeiro disse ao pai dele que, fraco da visão, o estudante a perderia de vez se continuasse debruçado nos livros escolares. Benigno, sabendo ler, escrever e fazer contas, foi para o comércio e depois para o jornalismo engajado, tendo sido o proprietário de jornal político em Rio Casca, Zona da Mata mineira, e depois coletor federal.

Miopíssimo, não via as diabruras do neto Pedrinho.

Muito aprendi também sobre as impressões que você anota sobre Hemingway, grande figura humana e de escritor. E mais soube sobre os embates do Contestado e, milhares de quilômetros ao norte, a guerra dos cangaceiros. São dois temas que, percebe-se, você cultiva com curiosidade jornalística de atento repórter. O perto e o longe do seu umbigo de escritor.

Agradeço, também, o envio do artigo sobre Lima Barreto em que cita o saudoso Vivaldi de “A frauta de Mársias”. Meu Pai era como você: um divulgador de seus interesses históricos e literários. São escritores que, por generosidade, gostam de compartilhar o que leram, o que aprenderam. Não guardam só para si o ouro que amealharam no conhecimento dos livros e da realidade. Eis aí um sentido mais alto para o ofício de escrever. Não se deve escrever por escrever, para extravasar apenas a nossa emoção, mas sobretudo para ampliar aos semelhantes essas emoções e o conhecimento adquirido em campo. Parabéns, escritor Enéas Athanázio!

Com esta cartinha, que componho no computador porque minha letra cursiva está cada dia mais amarfanhada, receba o afetuoso abraço do
Pedro Rogério Moreira.


Brasília, madrugada de 24 de julho de 2019.


Nota do Colunista: Pedro Rogério Moreira é escritor e jornalista, foi correspondente televisivo na Amazônia e tem vários livros publicados. É filho de Vivaldi Moreira, que foi presidente da Academia Mineira de Letras por longos anos e em cuja gestão recebi um prêmio daquela Academia pelo meu livro "As Antecipações de Lobato." 

Escrito por Enéas Athanázio, 26/08/2019 às 13h39 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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