Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A NOVELA DO JÚRI

Eduardo Sens acaba de lançar um livro primoroso. Refiro-me a “De quando éramos iguais” (Editora Penalux – S. Paulo – 2019), que o autor rotula de romance mas eu prefiro qualificar como novela, naquele sentido de obra síntese sobre determinado tema. É um texto como não recordo de ter visto nada semelhante, retratando um julgamento pelo Tribunal do Júri através dos olhos do promotor encarregado da acusação. Literatura a respeito desses julgamentos é o que não falta, mas aqui é o próprio representante da sociedade olhando de dentro para fora e analisando tudo que acontece. O inesperado reconhecimento do réu cria um tal ambiente de tensão que vai envolver o leitor de forma inquietante até o final.

O autor escreve com desenvoltura e tem uma linguagem rica de observações, sugestões e ideias, desenvolvendo com freqüência formulações filosóficas que casam com perfeição com o momento. Ao reconhecer o réu, depois de tantos anos, o promotor se vê diante do próprio passado e os acontecimentos daquele tempo distante voltam à memória com intensidade. Os tempos de infância desfilam pela cabeça num memorialismo minucioso e sofrido que o acompanha durante todo o desenrolar do processo, ato por ato, até a inesperada conclusão. Até mesmo um acontecimento doloroso em que se envolveu no colégio e que julgava esquecido volta com toda força. E o promotor vive um drama indescritível. Por um lado o dever funcional de acusar; pelo outro, o desejo de perdoar o amigo de infância. Para completar, a dúvida sobre a culpa do réu parece se infiltrar no seu coração. Esgotado, ele mal pode acreditar que o julgamento terminou.

Promotor experiente, atuando há dezessete anos no Tribunal do Júri e com mais de uma centena de julgamentos em sua carreia, o personagem fica chocado ao ver na sua frente, no banco dos réus, ninguém menos que o Tainho. Menino pobre, morador de uma favela vizinha à sua morada, ele pertencia ao mesmo grupo de crianças que por ali brincavam sem que houvesse diferença entre elas porque se sentiam iguais. E um caso que deveria ser apenas mais um dentre tantos, de repente se transforma em pesadelo.

Procurando se controlar e manter a frieza necessária, ele vai vencendo as etapas do julgamento. A oitiva das testemunhas, o interrogatório do réu, a leitura das peças processuais, a fala do defensor e, por fim, a angustiante votação dos quesitos na sala secreta, tudo desfila diante do leitor de forma lenta e exasperante. Surgem observações as mais curiosas, dignas dos mais experimentados e assíduos profissionais do Júri. Mesmo vivendo um drama íntimo, observa tudo que acontece: as palavras da defesa, a postura dos jurados, as reações da platéia, o comportamento do réu. Traça um retrato tão perfeito que a gente vê o Tribunal em funcionamento.

Não temo em dizer que se trata de um livro pioneiro pela forma com que o tema é abordado e ficará como algo inovador. Agradará, sem dúvida, a quantos se entregarem à sua leitura e sentirem o impacto da experiência vivida pelo promotor de Santa Bárbara. Eduardo Sens merece as melhores felicitações.

Os integrantes do Ministério Público têm contribuído de forma positiva com a boa literatura catarinense: Artêmio Zanon, Villa Real, Eduardo Sens. Que venham outros! 

Escrito por Enéas Athanázio, 13/08/2019 às 15h39 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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A NOVELA DO JÚRI

Eduardo Sens acaba de lançar um livro primoroso. Refiro-me a “De quando éramos iguais” (Editora Penalux – S. Paulo – 2019), que o autor rotula de romance mas eu prefiro qualificar como novela, naquele sentido de obra síntese sobre determinado tema. É um texto como não recordo de ter visto nada semelhante, retratando um julgamento pelo Tribunal do Júri através dos olhos do promotor encarregado da acusação. Literatura a respeito desses julgamentos é o que não falta, mas aqui é o próprio representante da sociedade olhando de dentro para fora e analisando tudo que acontece. O inesperado reconhecimento do réu cria um tal ambiente de tensão que vai envolver o leitor de forma inquietante até o final.

O autor escreve com desenvoltura e tem uma linguagem rica de observações, sugestões e ideias, desenvolvendo com freqüência formulações filosóficas que casam com perfeição com o momento. Ao reconhecer o réu, depois de tantos anos, o promotor se vê diante do próprio passado e os acontecimentos daquele tempo distante voltam à memória com intensidade. Os tempos de infância desfilam pela cabeça num memorialismo minucioso e sofrido que o acompanha durante todo o desenrolar do processo, ato por ato, até a inesperada conclusão. Até mesmo um acontecimento doloroso em que se envolveu no colégio e que julgava esquecido volta com toda força. E o promotor vive um drama indescritível. Por um lado o dever funcional de acusar; pelo outro, o desejo de perdoar o amigo de infância. Para completar, a dúvida sobre a culpa do réu parece se infiltrar no seu coração. Esgotado, ele mal pode acreditar que o julgamento terminou.

Promotor experiente, atuando há dezessete anos no Tribunal do Júri e com mais de uma centena de julgamentos em sua carreia, o personagem fica chocado ao ver na sua frente, no banco dos réus, ninguém menos que o Tainho. Menino pobre, morador de uma favela vizinha à sua morada, ele pertencia ao mesmo grupo de crianças que por ali brincavam sem que houvesse diferença entre elas porque se sentiam iguais. E um caso que deveria ser apenas mais um dentre tantos, de repente se transforma em pesadelo.

Procurando se controlar e manter a frieza necessária, ele vai vencendo as etapas do julgamento. A oitiva das testemunhas, o interrogatório do réu, a leitura das peças processuais, a fala do defensor e, por fim, a angustiante votação dos quesitos na sala secreta, tudo desfila diante do leitor de forma lenta e exasperante. Surgem observações as mais curiosas, dignas dos mais experimentados e assíduos profissionais do Júri. Mesmo vivendo um drama íntimo, observa tudo que acontece: as palavras da defesa, a postura dos jurados, as reações da platéia, o comportamento do réu. Traça um retrato tão perfeito que a gente vê o Tribunal em funcionamento.

Não temo em dizer que se trata de um livro pioneiro pela forma com que o tema é abordado e ficará como algo inovador. Agradará, sem dúvida, a quantos se entregarem à sua leitura e sentirem o impacto da experiência vivida pelo promotor de Santa Bárbara. Eduardo Sens merece as melhores felicitações.

Os integrantes do Ministério Público têm contribuído de forma positiva com a boa literatura catarinense: Artêmio Zanon, Villa Real, Eduardo Sens. Que venham outros! 

Escrito por Enéas Athanázio, 13/08/2019 às 15h39 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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