Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

TUDO JUNTO (I)

A globalização atual, - porque outras aconteceram ao longo da história, - trouxe múltiplas consequências. Se, por um lado, facilitou o intercâmbio de produtos e informações, por outro descurou das coisas da cultura em nome do lucro e da vantagem. Assim aconteceu, por exemplo, com o chamado “globês”, por demais comentado na imprensa há alguns anos. Tratava-se da opinião de que não se justificava a existência de muitas palavras com o mesmo significado, devendo a linguagem, em consequência, ser enxugada dos sinônimos para que se usasse uma só e mesma palavra para designar alguma coisa. Diziam que não era econômico e nem prático manter vários vocábulos com o mesmo significado e, assim, o empobrecimento do vocabulário das pessoas se impunha. Ora, é justamente pela amplitude de seu vocabulário que se mede a cultura da pessoa, tornado-a capaz de interpretar qualquer texto escrito, de tal forma que a esdrúxula teoria propunha um movimento para trás, isto é, da incultura e da ignorância. Ninguém precisaria conhecer mais que 300 a 500 palavras para ganhar dinheiro, o valor maior e único dos afinados com a tal teoria. E todos falariam da mesma forma, como se fossem cópias.

Agora, porém, as coisas foram adiante. Uma ideia aberrante que se denomina “pedagogia pragmática” vem plantando notinhas na mídia no sentido de negar a necessidade de alfabetizar as pessoas, ou seja, não se ensinaria mais as pessoas a ler e, acima de tudo, a escrever. Seriam coisas supérfluas, pouco práticas e econômicas pelo tempo que tomam, uma vez que o audiovisual seria suficiente para a vida normal. Ler para quê? Escrever para quê? São atividades arcaicas e inúteis. Em duas ou três gerações o mundo voltaria a ser ágrafo, como nos áureos tempos das cavernas. A suprema consolidação da modernidade!

Tudo se resumiria ao som e à imagem. As cédulas de dinheiro trariam desenhos que representassem seus valores. E, com certeza, surgiriam um código semelhante à linguagem para surdos e outros recursos que dispensassem por completo a palavra. Os cidadãos, felizes e realizados, ficariam ricos com tanta praticidade e economia. Nos momentos de lazer sentariam diante da televisão de última geração e se comunicariam com os demais através de gestos, caretas e guinchos. Como os macacos.


O irrequieto líder modernista Oswald de Andrade, ainda que por linhas traversas, sempre volta à cena. Lavrou nos jornais aguda polêmica entre os poetas Augusto de Campos e Ferreira Gullar, ambos pioneiros do Movimento Concretista e mais tarde rompidos. Segundo Gullar, em almoço no Rio de Janeiro, há cerca de cinquenta anos, Augusto teria declarado que Oswald de Andrade fôra um irresponsável, desmerecendo o valor de sua obra. Indignado, o poeta paulista protestou e os dois passaram a se xingar através dos jornais de maneira virulenta. Embora seja uma questão de somenos constatar se o tal almoço aconteceu ou não, o assunto tocou em ponto sensível, uma vez que a obra de Oswald de Andrade foi a inspiradora do Concretismo e está na sua própria raiz.

Por coincidência, ou feliz acaso, estreou em São Paulo na mesma época a peça teatral “Macumba Antropófaga”, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa, incorporando o célebre Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, uma das peças mais importantes e polêmicas do Modernismo.

Dois acontecimentos fortuitos tiraram do esquecimento, ainda que por tempo limitado, um escritor genial cuja obra é pouco lembrada e, menos ainda, lida.


Na coleção Cine Europeu que o jornal “Folha de S. Paulo” lançou, um dos primeiros números foi “Fitzcarraldo”, de Werner Herzog, com Klaus Kinski e Cláudia Cardinale. É a história do sonhador alucinado que desejava apresentar uma ópera em plena selva amazônica e para isso teve que enfrentar as mais inacreditáveis dificuldades, entre elas a de arrastar um navio completo pelo chão, através da selva, de um rio até outro, para prosseguir na viagem. Os cenários são grandiosos, as cenas chocantes, ainda mais para quem conhece a Amazônia e pode imaginar o tamanho da tarefa de cruzar um matagal fechado e inóspito. Dizem os críticos que tal foi o esforço feito que, após a filmagem, o ator Klaus Kinski teria ficado exaurido, esgotado, como se tivesse perdido a energia vital. Ele e o diretor Herzog brigavam o tempo todo e se consideravam inimigos íntimos. É uma aventura que merece ser vista e revista. 

Escrito por Enéas Athanázio, 17/06/2019 às 08h58 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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A globalização atual, - porque outras aconteceram ao longo da história, - trouxe múltiplas consequências. Se, por um lado, facilitou o intercâmbio de produtos e informações, por outro descurou das coisas da cultura em nome do lucro e da vantagem. Assim aconteceu, por exemplo, com o chamado “globês”, por demais comentado na imprensa há alguns anos. Tratava-se da opinião de que não se justificava a existência de muitas palavras com o mesmo significado, devendo a linguagem, em consequência, ser enxugada dos sinônimos para que se usasse uma só e mesma palavra para designar alguma coisa. Diziam que não era econômico e nem prático manter vários vocábulos com o mesmo significado e, assim, o empobrecimento do vocabulário das pessoas se impunha. Ora, é justamente pela amplitude de seu vocabulário que se mede a cultura da pessoa, tornado-a capaz de interpretar qualquer texto escrito, de tal forma que a esdrúxula teoria propunha um movimento para trás, isto é, da incultura e da ignorância. Ninguém precisaria conhecer mais que 300 a 500 palavras para ganhar dinheiro, o valor maior e único dos afinados com a tal teoria. E todos falariam da mesma forma, como se fossem cópias.

Agora, porém, as coisas foram adiante. Uma ideia aberrante que se denomina “pedagogia pragmática” vem plantando notinhas na mídia no sentido de negar a necessidade de alfabetizar as pessoas, ou seja, não se ensinaria mais as pessoas a ler e, acima de tudo, a escrever. Seriam coisas supérfluas, pouco práticas e econômicas pelo tempo que tomam, uma vez que o audiovisual seria suficiente para a vida normal. Ler para quê? Escrever para quê? São atividades arcaicas e inúteis. Em duas ou três gerações o mundo voltaria a ser ágrafo, como nos áureos tempos das cavernas. A suprema consolidação da modernidade!

Tudo se resumiria ao som e à imagem. As cédulas de dinheiro trariam desenhos que representassem seus valores. E, com certeza, surgiriam um código semelhante à linguagem para surdos e outros recursos que dispensassem por completo a palavra. Os cidadãos, felizes e realizados, ficariam ricos com tanta praticidade e economia. Nos momentos de lazer sentariam diante da televisão de última geração e se comunicariam com os demais através de gestos, caretas e guinchos. Como os macacos.


O irrequieto líder modernista Oswald de Andrade, ainda que por linhas traversas, sempre volta à cena. Lavrou nos jornais aguda polêmica entre os poetas Augusto de Campos e Ferreira Gullar, ambos pioneiros do Movimento Concretista e mais tarde rompidos. Segundo Gullar, em almoço no Rio de Janeiro, há cerca de cinquenta anos, Augusto teria declarado que Oswald de Andrade fôra um irresponsável, desmerecendo o valor de sua obra. Indignado, o poeta paulista protestou e os dois passaram a se xingar através dos jornais de maneira virulenta. Embora seja uma questão de somenos constatar se o tal almoço aconteceu ou não, o assunto tocou em ponto sensível, uma vez que a obra de Oswald de Andrade foi a inspiradora do Concretismo e está na sua própria raiz.

Por coincidência, ou feliz acaso, estreou em São Paulo na mesma época a peça teatral “Macumba Antropófaga”, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa, incorporando o célebre Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, uma das peças mais importantes e polêmicas do Modernismo.

Dois acontecimentos fortuitos tiraram do esquecimento, ainda que por tempo limitado, um escritor genial cuja obra é pouco lembrada e, menos ainda, lida.


Na coleção Cine Europeu que o jornal “Folha de S. Paulo” lançou, um dos primeiros números foi “Fitzcarraldo”, de Werner Herzog, com Klaus Kinski e Cláudia Cardinale. É a história do sonhador alucinado que desejava apresentar uma ópera em plena selva amazônica e para isso teve que enfrentar as mais inacreditáveis dificuldades, entre elas a de arrastar um navio completo pelo chão, através da selva, de um rio até outro, para prosseguir na viagem. Os cenários são grandiosos, as cenas chocantes, ainda mais para quem conhece a Amazônia e pode imaginar o tamanho da tarefa de cruzar um matagal fechado e inóspito. Dizem os críticos que tal foi o esforço feito que, após a filmagem, o ator Klaus Kinski teria ficado exaurido, esgotado, como se tivesse perdido a energia vital. Ele e o diretor Herzog brigavam o tempo todo e se consideravam inimigos íntimos. É uma aventura que merece ser vista e revista. 

Escrito por Enéas Athanázio, 17/06/2019 às 08h58 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.