Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

ALHOS E BUGALHOS

Sílvio Romero (1851/1914) foi uma das figuras mais impressionantes do meio cultural brasileiro. Além de jurista, filósofo e folclorista, foi crítico literário e historiador da literatura. Segundo João Ribeiro, foi o autor da melhor história de nossa literatura até então publicada. Numa de suas inúmeras conferências, fez observações que continuam válidas até hoje pela acuidade com que analisou a realidade nacional. Apontava ele, em certa passagem, a nossa tendência de procurar bodes expiatórios para nossos problemas quando, muitas vezes, a solução está em nós mesmos. Procuramos – escreveu ele – “um responsável pelos nossos desacertos, uma espécie de bode expiatório em que descarregamos nossas cóleras e maldições, quando o mal é imanente à nossa própria índole, ao nosso caráter, que urge reformar por adequados e enérgicos meios.” E enumera exemplos: o mal estava na escravatura, depois no império, mais tarde no voto a bico de pena, na velha Constituição Federal, no modelo educacional e por aí além. No entanto, tudo isso foi mudado, reformado, esquecido e, não obstante... nossos problemas continuam os mesmos, em especial aquele que mais nos indigna – a corrupção. “À vista de todos esses passos errados – indagava ele, - onde se acha a raiz do mal? Em nós mesmos, em nossa própria índole, que urge modificar, quanto possível, encaminhando-nos por outras estradas mais largas e mais seguras.” Em vários trechos alude ele aos políticos profissionais, antes como hoje objeto de constantes críticas. E, no entanto, o político não é um extraterrestre, mas, como todos, um produto da mesma sociedade em que vivemos. Diante disso, a pergunta a ser feita é: por que nossa sociedade vem criando tantos corruptos? Como se dizia nos tempos de dantes, aí é que está o busilis. No momento em que escrevo o tema dominante é a reforma da Previdência. Nela estaria a panacéia milagrosa para todos nossos males e no dia imediato o país será outro. Haverá quem acredite?

Essas e outras observações foram sugeridas pelo livro “Sílvio Romero e a Europa dos Pobres”, de Francisco de Vasconcellos, cuja leitura é das mais interessantes.


Dois assuntos voltaram a ocupar espaços na mídia nestes últimos tempos. O primeiro diz respeito à entrevista concedida por Jacqueline Kennedy em 1964, poucos meses após o homicídio de seu marido, o presidente John F. Kennedy, em Dallas, no Texas. Numa passagem de sua longa fala ela confessa que o marido, em 1962, já tramava contra o presidente João Goulart em secretas conversas com o embaixador americano no Brasil. Segundo trechos transcritos em jornais, o Departamento de Estado americano “propõe o rápido reconhecimento e apoio a qualquer regime que os brasileiros instalem, substituindo Goulart. E os EUA reconheceram o novo governo no dia 2 de abril, enquanto João Goulart ainda estava no Brasil.” Concluindo: o bom moço, herói de guerra, campeão dos direitos civis, enquanto se fantasiava de democrata insuflava golpes e apoiava ditaduras em outro país. Triste realidade.

O segundo assunto trata da Comissão da Verdade, a quem cabe fazer a narrativa oficial das violações dos direitos humanos entre 1946 e 1988 no Brasil. Seu objetivo não é uma caça às bruxas mas colocar em pratos limpos todas as barbaridades cometidas, inclusive antes de 1964, no regime da Constituição de 1946, período em que perseguições políticas levaram muitos brasileiros à prisão e ao exílio, embora houvesse no país uma democracia formal. O pintor Cândido Portinari, por exemplo, teve que se exilar na Argentina. Muita coisa interessante vai ganhar registro oficial.


O jornal “Folha de S. Paulo” publicou um caderno especial denominado “O custo da corrupção.” Ali estão listados os grandes escândalos que vêm emporcalhando a vida pública do país. Como de costume, porém, os corruptos são execrados mas os corruptores são omitidos, como se não existissem. Como se fosse possível uma corrupção de mão única.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/06/2019 às 14h42 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Sílvio Romero (1851/1914) foi uma das figuras mais impressionantes do meio cultural brasileiro. Além de jurista, filósofo e folclorista, foi crítico literário e historiador da literatura. Segundo João Ribeiro, foi o autor da melhor história de nossa literatura até então publicada. Numa de suas inúmeras conferências, fez observações que continuam válidas até hoje pela acuidade com que analisou a realidade nacional. Apontava ele, em certa passagem, a nossa tendência de procurar bodes expiatórios para nossos problemas quando, muitas vezes, a solução está em nós mesmos. Procuramos – escreveu ele – “um responsável pelos nossos desacertos, uma espécie de bode expiatório em que descarregamos nossas cóleras e maldições, quando o mal é imanente à nossa própria índole, ao nosso caráter, que urge reformar por adequados e enérgicos meios.” E enumera exemplos: o mal estava na escravatura, depois no império, mais tarde no voto a bico de pena, na velha Constituição Federal, no modelo educacional e por aí além. No entanto, tudo isso foi mudado, reformado, esquecido e, não obstante... nossos problemas continuam os mesmos, em especial aquele que mais nos indigna – a corrupção. “À vista de todos esses passos errados – indagava ele, - onde se acha a raiz do mal? Em nós mesmos, em nossa própria índole, que urge modificar, quanto possível, encaminhando-nos por outras estradas mais largas e mais seguras.” Em vários trechos alude ele aos políticos profissionais, antes como hoje objeto de constantes críticas. E, no entanto, o político não é um extraterrestre, mas, como todos, um produto da mesma sociedade em que vivemos. Diante disso, a pergunta a ser feita é: por que nossa sociedade vem criando tantos corruptos? Como se dizia nos tempos de dantes, aí é que está o busilis. No momento em que escrevo o tema dominante é a reforma da Previdência. Nela estaria a panacéia milagrosa para todos nossos males e no dia imediato o país será outro. Haverá quem acredite?

Essas e outras observações foram sugeridas pelo livro “Sílvio Romero e a Europa dos Pobres”, de Francisco de Vasconcellos, cuja leitura é das mais interessantes.


Dois assuntos voltaram a ocupar espaços na mídia nestes últimos tempos. O primeiro diz respeito à entrevista concedida por Jacqueline Kennedy em 1964, poucos meses após o homicídio de seu marido, o presidente John F. Kennedy, em Dallas, no Texas. Numa passagem de sua longa fala ela confessa que o marido, em 1962, já tramava contra o presidente João Goulart em secretas conversas com o embaixador americano no Brasil. Segundo trechos transcritos em jornais, o Departamento de Estado americano “propõe o rápido reconhecimento e apoio a qualquer regime que os brasileiros instalem, substituindo Goulart. E os EUA reconheceram o novo governo no dia 2 de abril, enquanto João Goulart ainda estava no Brasil.” Concluindo: o bom moço, herói de guerra, campeão dos direitos civis, enquanto se fantasiava de democrata insuflava golpes e apoiava ditaduras em outro país. Triste realidade.

O segundo assunto trata da Comissão da Verdade, a quem cabe fazer a narrativa oficial das violações dos direitos humanos entre 1946 e 1988 no Brasil. Seu objetivo não é uma caça às bruxas mas colocar em pratos limpos todas as barbaridades cometidas, inclusive antes de 1964, no regime da Constituição de 1946, período em que perseguições políticas levaram muitos brasileiros à prisão e ao exílio, embora houvesse no país uma democracia formal. O pintor Cândido Portinari, por exemplo, teve que se exilar na Argentina. Muita coisa interessante vai ganhar registro oficial.


O jornal “Folha de S. Paulo” publicou um caderno especial denominado “O custo da corrupção.” Ali estão listados os grandes escândalos que vêm emporcalhando a vida pública do país. Como de costume, porém, os corruptos são execrados mas os corruptores são omitidos, como se não existissem. Como se fosse possível uma corrupção de mão única.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/06/2019 às 14h42 | e.atha@terra.com.br



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