Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

INCIDENTE NATALINO

Naquela manhã, quando saía de casa, Neco estava feliz. Sentia-se leve e tranquilo como poucas vezes acontecera. Chegando à área que se abria para a praça, contemplou do alto a cidade parada e silenciosa naquele começo de dia de Natal. Estendeu o olhar pela campanha que cercava a cidade e se admirou com o verde vivo que reverberava à luz do sol e que em geral não observava, envolvido nas ocupações e negócios. Permaneceu por alguns momentos entregue àquela muda contemplação e depois desceu devagar os dois lances de escada que o separavam do solo. Na rua, envergando roupas novas e bem talhadas, caminhou em passos lentos até a avenida principal, cumprimentando sorridente os conhecidos com quem cruzava. Entrou, afinal, na floricultura que ainda abria as portas e adquiriu um ramalhete de flores para a mulher. Ela, com certeza, gostaria da gentileza, atitude frequente no passado e que aos poucos se tornou rara. Sem dúvida, ela merecia!

Retornando para casa, meio sem jeito, com as flores na mão, ruminava bons pensamentos. A empresa estava bem, o ano fora positivo para os negócios, o filho, ainda garoto, se revelou um bom aluno e a mulher continuava bonita e sensual. Aconteceram algumas confusões, entre elas o boato de que havia falado mal do padre vigário e ele tentara processá-lo, além de desancar os linguarudos num sermão raivoso de domingo. Os comentários foram maldosos, provocaram grande tensão, mas tudo acabou em nada. Também aconteceu o atropelamento da carroça com o velhinho que a conduzia, quando dirigia um calhambeque que estava a seus cuidados. Depois de muita discussão, o caso se resolveu a contento, ainda que desembolsando boa quantia. Ah! – lembrou de repente – houve a discussão (ele dizia discutição) com certo Arcidioso, tido e havido como perigoso, mas ele o enfrentou de revólver em punho e o outro fugiu com o rabo entre as pernas. Problemas menores ainda aconteceram, como é natural no correr da vivência. Agora, passado o tempo, todos se tornaram motivo de piadas e brincadeiras.

Em casa, Neco almoçou com a esposa e, depois de um bom descanso, começaram a beber. Aproveitando a ausência do filho que se encontrava em viagem, passando os festejos com os avós, avançaram nos brindes e empinaram consideráveis doses de champanhe. Depois se recolheram ao banheiro, encheram a enorme banheira de água espumante e se entregaram às carícias e ao amor. Ele enchia as taças e estimulava a mulher a beber. Ela já dava mostras de embriaguez, não tinha o hábito de beber, mas continuava ingerindo a bebida, estendida na banheira, lânguida e sonolenta, o corpo nu relaxado dentro da água tépida. Para estimulá-la, ele a puxou para baixo pelo dedo do pé, fazendo com que escorregasse, submergindo. Ela levantou a cabeça, tossindo a água que engoliu e rindo molemente. Outras doses foram tomadas e Neco repetia a perigosa brincadeira, puxando a mulher para baixo e fazendo-a submergir. E assim as mesmas manobras se repetiram até que, tomado por um repentino sentimento maligno, ele a manteve por mais tempo em baixo da água espumante. Só então, alarmado, percebeu que a mulher não voltava e nem se movia. Desesperado, puxou-a para fora e compreendeu num instante que fora longe demais. Ela não respirava; estava morta.

Tentou de todos os modos reanimá-la. Massagens no peito e nas costas, respiração boca-a-boca, tapinhas no rosto. Tudo inútil. O corpo bronzeado e sensual não tinha sinais vitais e permaneceu inerte sobre o tapete onde ele o colocou.

Tomado de desespero, saiu gritando por socorro pela rua a fora. Mas era tarde demais.

A notícia explodiu como uma bomba na pacatez da cidadezinha e ganhou todos os recantos. Pessoas cercaram a casa, curiosas e incrédulas. Os mais estranhos comentários dominaram as conversas por longo tempo e os incidentes do passado de Neco voltaram detalhados, esmiuçados e exagerados, inclusive alguns que se encontravam esquecidos. Mesmo sem julgamento, ele foi condenado, e aquele Natal permaneceu indelével na memória local.

Preso e condenado, Neco tudo recebeu com indiferença, como se não lhe dissesse respeito. Parecia desligado da realidade e cumpriu a pena sem reclamações. Expiava conformado a própria culpa. Deixando a prisão, mostrava-se triste e envelhecido. Em silêncio, liquidou os negócios e desapareceu.

Soube-se mais tarde que fixara residência numa fazendola das proximidades de outra cidade. E, para surpresa geral, casou-se com uma japonesa, cedendo talvez à curiosidade de verificar pessoalmente se as orientais são mesmo diferentes. Tratava-se de uma dúvida que o acicatava de longos anos.

Escrito por Enéas Athanázio, 27/05/2019 às 15h34 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Naquela manhã, quando saía de casa, Neco estava feliz. Sentia-se leve e tranquilo como poucas vezes acontecera. Chegando à área que se abria para a praça, contemplou do alto a cidade parada e silenciosa naquele começo de dia de Natal. Estendeu o olhar pela campanha que cercava a cidade e se admirou com o verde vivo que reverberava à luz do sol e que em geral não observava, envolvido nas ocupações e negócios. Permaneceu por alguns momentos entregue àquela muda contemplação e depois desceu devagar os dois lances de escada que o separavam do solo. Na rua, envergando roupas novas e bem talhadas, caminhou em passos lentos até a avenida principal, cumprimentando sorridente os conhecidos com quem cruzava. Entrou, afinal, na floricultura que ainda abria as portas e adquiriu um ramalhete de flores para a mulher. Ela, com certeza, gostaria da gentileza, atitude frequente no passado e que aos poucos se tornou rara. Sem dúvida, ela merecia!

Retornando para casa, meio sem jeito, com as flores na mão, ruminava bons pensamentos. A empresa estava bem, o ano fora positivo para os negócios, o filho, ainda garoto, se revelou um bom aluno e a mulher continuava bonita e sensual. Aconteceram algumas confusões, entre elas o boato de que havia falado mal do padre vigário e ele tentara processá-lo, além de desancar os linguarudos num sermão raivoso de domingo. Os comentários foram maldosos, provocaram grande tensão, mas tudo acabou em nada. Também aconteceu o atropelamento da carroça com o velhinho que a conduzia, quando dirigia um calhambeque que estava a seus cuidados. Depois de muita discussão, o caso se resolveu a contento, ainda que desembolsando boa quantia. Ah! – lembrou de repente – houve a discussão (ele dizia discutição) com certo Arcidioso, tido e havido como perigoso, mas ele o enfrentou de revólver em punho e o outro fugiu com o rabo entre as pernas. Problemas menores ainda aconteceram, como é natural no correr da vivência. Agora, passado o tempo, todos se tornaram motivo de piadas e brincadeiras.

Em casa, Neco almoçou com a esposa e, depois de um bom descanso, começaram a beber. Aproveitando a ausência do filho que se encontrava em viagem, passando os festejos com os avós, avançaram nos brindes e empinaram consideráveis doses de champanhe. Depois se recolheram ao banheiro, encheram a enorme banheira de água espumante e se entregaram às carícias e ao amor. Ele enchia as taças e estimulava a mulher a beber. Ela já dava mostras de embriaguez, não tinha o hábito de beber, mas continuava ingerindo a bebida, estendida na banheira, lânguida e sonolenta, o corpo nu relaxado dentro da água tépida. Para estimulá-la, ele a puxou para baixo pelo dedo do pé, fazendo com que escorregasse, submergindo. Ela levantou a cabeça, tossindo a água que engoliu e rindo molemente. Outras doses foram tomadas e Neco repetia a perigosa brincadeira, puxando a mulher para baixo e fazendo-a submergir. E assim as mesmas manobras se repetiram até que, tomado por um repentino sentimento maligno, ele a manteve por mais tempo em baixo da água espumante. Só então, alarmado, percebeu que a mulher não voltava e nem se movia. Desesperado, puxou-a para fora e compreendeu num instante que fora longe demais. Ela não respirava; estava morta.

Tentou de todos os modos reanimá-la. Massagens no peito e nas costas, respiração boca-a-boca, tapinhas no rosto. Tudo inútil. O corpo bronzeado e sensual não tinha sinais vitais e permaneceu inerte sobre o tapete onde ele o colocou.

Tomado de desespero, saiu gritando por socorro pela rua a fora. Mas era tarde demais.

A notícia explodiu como uma bomba na pacatez da cidadezinha e ganhou todos os recantos. Pessoas cercaram a casa, curiosas e incrédulas. Os mais estranhos comentários dominaram as conversas por longo tempo e os incidentes do passado de Neco voltaram detalhados, esmiuçados e exagerados, inclusive alguns que se encontravam esquecidos. Mesmo sem julgamento, ele foi condenado, e aquele Natal permaneceu indelével na memória local.

Preso e condenado, Neco tudo recebeu com indiferença, como se não lhe dissesse respeito. Parecia desligado da realidade e cumpriu a pena sem reclamações. Expiava conformado a própria culpa. Deixando a prisão, mostrava-se triste e envelhecido. Em silêncio, liquidou os negócios e desapareceu.

Soube-se mais tarde que fixara residência numa fazendola das proximidades de outra cidade. E, para surpresa geral, casou-se com uma japonesa, cedendo talvez à curiosidade de verificar pessoalmente se as orientais são mesmo diferentes. Tratava-se de uma dúvida que o acicatava de longos anos.

Escrito por Enéas Athanázio, 27/05/2019 às 15h34 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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