Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O Exterminador

Desde guri Vico ouvia que o pinheiro prejudica o campo. As grimpas pontudas que se juntam no chão, afiadas e duras, espetam o gado e não permitem que ele paste. E quanto maior a quantidade de grimpas espalhadas, maior o espaço perdido na pastagem. Quando o pai saía para camperear, Vico ia montadinho na frente do arreio e, mais tarde, já mais taludo, na garupa. Nessas andanças pelo campo o pai cortava a facão os pinheirinhos novos que estavam começando a crescer. Pelo menos esses não vão incomodar! – dizia o fazendeiro. E assim Vico se tornou inimigo dos pinheiros.

Com o tempo chegou a primeira serraria. Pequena indústria, usando uma serra Tissot lerda e barulhenta, principiou a devorar os pinheiros de São Simão e das redondezas. Ainda distante das poderosas serras-fitas e com as toras arrastadas do mato por junta de bois, provocou a valorização das árvores e elas ganharam um preço que ninguém poderia imaginar. O pai de Vico encontrou uma aliada e em pouco tempo sua fazenda estava livre dos incômodos pinheiros e suas aguçadas grimpas. Novas serrarias surgiram, o preço dos pinheiros subia sem parar e muitos vizinhos que conservaram os seus enriqueceram do dia para a noite. O pai de Vico ganhava bom dinheiro com a venda de suas árvores e se arrependia em silêncio das que havia abatido. Mas era tarde.

Vico, no entanto, viu ali uma grande oportunidade. Decidiu instalar uma serraria para exterminar os pinheiros e, ao mesmo tempo, obter bons lucros. Estudou o assunto, aconselhou-se com técnicos, adquiriu maquinário moderno, guinchos e caminhões. Visitou a instalação da Companhia Lumber, em Três Barras, então considerada a maior e a mais moderna serraria da América Latina, conhecida como “o colosso”, e tratou de montar a sua. Foi comprando os pinhais da região, cujas árvores eram devoradas com celeridade pelos poderosos dentes das serras-fitas e transformadas em caibros, vigas, pranchões, tábuas, dormentes, sarrafos, ripas e tudo mais, transportados em imensos caminhões de reboque até a ferrovia e dali embarcados em vagões para os mais variados destinos. Os pinhais principiaram a minguar. Vico enriquecia.

Não tardou muito e os pinheiros desapareceram. Nos campos e matos nenhum deles farfalhava ao vento que soprava nas coxilhas e canhadas. Acabado o “material”, não houve outro recurso: a serraria foi desmontada e transplantada para região diferente, agora no Oeste. E lá reiniciou sem cansaço sua faina devoradora. Dia a noite as serras giravam, cresciam os montões de serragem e os aleijados nos acidentes de trabalho. Manetas, pernetas, cotós, cegos, deformados ficariam como testemunhos vivos do monstro nômade e implacável.

Como tudo no mundo, as florestas de araucárias acabam quando não replantadas. E assim, a poderosa serraria de Vico mudou outra vez, agora para o Extremo-Oeste e, depois de algum tempo, para o Paraná, o Mato Grosso e a Amazônia, quando concluíram que árvores de outras espécies também se prestavam ao corte.

E a faina devoradora avançou sem parar, abrindo clareiras monumentais. (Vi muitas em Rondônia, no Tocantins, no Acre, em Roraima).

Orgulhoso, Vico deu entrevistas contando as vanglórias de sua obra e sustentando que as árvores não fizeram falta alguma à natureza. Conquistou seguidores, adeptos, discípulos. E todos eles, ricos, gordos, felizes, prosseguem impávidos, saboreando genuíno prazer a cada árvore que cai.
________________________
Inspirada em entrevista televisiva.
 

Escrito por Enéas Athanázio, 13/05/2019 às 20h04 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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O Exterminador

Desde guri Vico ouvia que o pinheiro prejudica o campo. As grimpas pontudas que se juntam no chão, afiadas e duras, espetam o gado e não permitem que ele paste. E quanto maior a quantidade de grimpas espalhadas, maior o espaço perdido na pastagem. Quando o pai saía para camperear, Vico ia montadinho na frente do arreio e, mais tarde, já mais taludo, na garupa. Nessas andanças pelo campo o pai cortava a facão os pinheirinhos novos que estavam começando a crescer. Pelo menos esses não vão incomodar! – dizia o fazendeiro. E assim Vico se tornou inimigo dos pinheiros.

Com o tempo chegou a primeira serraria. Pequena indústria, usando uma serra Tissot lerda e barulhenta, principiou a devorar os pinheiros de São Simão e das redondezas. Ainda distante das poderosas serras-fitas e com as toras arrastadas do mato por junta de bois, provocou a valorização das árvores e elas ganharam um preço que ninguém poderia imaginar. O pai de Vico encontrou uma aliada e em pouco tempo sua fazenda estava livre dos incômodos pinheiros e suas aguçadas grimpas. Novas serrarias surgiram, o preço dos pinheiros subia sem parar e muitos vizinhos que conservaram os seus enriqueceram do dia para a noite. O pai de Vico ganhava bom dinheiro com a venda de suas árvores e se arrependia em silêncio das que havia abatido. Mas era tarde.

Vico, no entanto, viu ali uma grande oportunidade. Decidiu instalar uma serraria para exterminar os pinheiros e, ao mesmo tempo, obter bons lucros. Estudou o assunto, aconselhou-se com técnicos, adquiriu maquinário moderno, guinchos e caminhões. Visitou a instalação da Companhia Lumber, em Três Barras, então considerada a maior e a mais moderna serraria da América Latina, conhecida como “o colosso”, e tratou de montar a sua. Foi comprando os pinhais da região, cujas árvores eram devoradas com celeridade pelos poderosos dentes das serras-fitas e transformadas em caibros, vigas, pranchões, tábuas, dormentes, sarrafos, ripas e tudo mais, transportados em imensos caminhões de reboque até a ferrovia e dali embarcados em vagões para os mais variados destinos. Os pinhais principiaram a minguar. Vico enriquecia.

Não tardou muito e os pinheiros desapareceram. Nos campos e matos nenhum deles farfalhava ao vento que soprava nas coxilhas e canhadas. Acabado o “material”, não houve outro recurso: a serraria foi desmontada e transplantada para região diferente, agora no Oeste. E lá reiniciou sem cansaço sua faina devoradora. Dia a noite as serras giravam, cresciam os montões de serragem e os aleijados nos acidentes de trabalho. Manetas, pernetas, cotós, cegos, deformados ficariam como testemunhos vivos do monstro nômade e implacável.

Como tudo no mundo, as florestas de araucárias acabam quando não replantadas. E assim, a poderosa serraria de Vico mudou outra vez, agora para o Extremo-Oeste e, depois de algum tempo, para o Paraná, o Mato Grosso e a Amazônia, quando concluíram que árvores de outras espécies também se prestavam ao corte.

E a faina devoradora avançou sem parar, abrindo clareiras monumentais. (Vi muitas em Rondônia, no Tocantins, no Acre, em Roraima).

Orgulhoso, Vico deu entrevistas contando as vanglórias de sua obra e sustentando que as árvores não fizeram falta alguma à natureza. Conquistou seguidores, adeptos, discípulos. E todos eles, ricos, gordos, felizes, prosseguem impávidos, saboreando genuíno prazer a cada árvore que cai.
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Inspirada em entrevista televisiva.
 

Escrito por Enéas Athanázio, 13/05/2019 às 20h04 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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