Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

PROEZAS DE LAMPIÃO

O cangaço foi uma forma de banditismo organizado típica do Brasil, sem similar no mundo ou na história. Ela só foi possível graças aos imensos espaços vazios, abertos e livres de obstáculos, com a população escassa vivendo em fazendas isoladas ou pequenas cidades e vilas com poucos moradores e destituídas de meios de proteção. Graças a isso, o cangaço se espalhou por todo o Nordeste, partes de Minas e de Goiás e, apesar das chamadas “volantes policiais” fervilharem na região em perseguição aos cangaceiros, eles resistiam e seus bandos se tornavam cada vez mais ousados e poderosos. Muitos cangaceiros se transformaram numa espécie de heróis populares, imitações toscas de Robin Hood, que supostamente roubavam dos ricos para dar aos pobres. O Cabeleira, Jesuíno Brilhante, Antônio Silvino, Sinhô Pereira e Corisco (Cristino Gomes da Silva Cleto, o Diabo Loiro) e, acima de todos, Lampião (Virgulino Ferreira da Silva), se notabilizaram em todo o país e até no exterior graças ao noticiário da imprensa a respeito de suas tropelias. A crueldade deles, no entanto, não conhecia limites. Invadiam as povoações, roubavam, sequestravam, destruíam, estupravam e depois se retiravam levando o bárbaro butim.

Lampião granjeou imensa fama. Suas proezas chegaram a ponto de desafiar o governador de Pernambuco, propondo a divisão do Estado entre eles, ficando o cangaceiro como o rei do sertão. Em muitos ataques deixava recados e bilhetes desafiadores às autoridades. Chegou a visitar Juazeiro do Norte, uma das cidades mais importantes da região, avistando-se com o Padre Cícero Romão Batista e as autoridades locais, levando em sua companhia numerosa cabroeira armada. Prometeu combater a Coluna Prestes, obtendo armas e munições, mas jamais a combateu e usou essas provisões em benefício próprio. Encorajado pelo cangaceiro Massilon, aventurou-se a atacar Mossoró, cidade grande e bem guarnecida, mas a população indignada se armou e se defendeu com bravura. Lampião e seu bando sofreram constrangedora derrota e tiveram que se retirar com os rabos entre as pernas. A fuga até Pernambuco, viajando à noite e com toda cautela, foi um episódio épico.

As proezas de Lampião e outros cangaceiros, no entanto, causavam imenso constrangimento ao país, em especial pelo noticiário da imprensa internacional. Era uma vergonha, uma nódoa que em pleno Século XX o cangaço ainda agisse em vasta porção do nosso território. Apesar do intenso combate, ele persistiu até 1938, ano da morte de Lampião, e que os historiadores assinalam como o final do cangaço. As atividades cangaceiras chegaram até quase metade do século passado, enquanto o mundo superava a I Guerra Mundial, a Revolução Russa e outros acontecimentos que alteraram o panorama geopolítico do planeta. Mas os cangaceiros prosseguiam na sua faina assassina, indiferentes a tudo e desafiando o poder do Estado. Com a posse de Getúlio Vargas, na crista da vitoriosa Revolução de 1930, o governo federal “apertou” os governadores para que acabassem com o cangaço o mais depressa possível. Sua sobrevivência constituía uma vergonha nacional. Acabar com ele se tornou uma questão de honra.

Dentro do país, os protestos contra o cangaço não cessavam. Nos discursos e nos jornais muitas vozes se levantavam, exigindo seu fim. Entre os muitos que se manifestaram nesse sentido estava Humberto de Campos, escritor de grande mérito e prestígio, integrante da Academia Brasileira de Letras e temido pela combatividade e pela inaudita coragem. Em seu livro “Notas de um diarista”, 1ª. série, edição póstuma, nada menos que três ensaios são dedicados ao assunto. No primeiro deles, o autor registra sua indignação diante da invasão da vila de Curuçá pelo grupo de Lampião, composto de 60 cangaceiros, e praticando as maiores atrocidades; no segundo, comenta a anunciada formação de uma coluna militar com mais de ml homens e formidável armamento, inclusive com aviões, sob o comando do capitão do exército Carlos Chevalier; no terceiro e último, volta a comentar a Expedição Chevalier, cuja partida fora suspensa em face do elevado custo da operação. Relembra que – como havia previsto – ela estaria fadada ao fracasso, uma vez que metralhadoras pesadas, canhões e tanques de pouco serviriam na caatinga adusta, onde os cangaceiros exercitavam uma guerra móvel, precursora das guerrilhas, contando com grande mobilidade e absoluto conhecimento do terreno.

Enquanto se discutia, o bando de Lampião e outros agiam com a maior liberdade, colocando em pânico as populações sertanejas a um simples boato sobre sua chegada. Em virtude de sua excentricidade, o cangaço é um fenômeno de patologia social dos mais estudados, existindo hoje imensa bibliografia a respeito.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/03/2019 às 11h07 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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PROEZAS DE LAMPIÃO

O cangaço foi uma forma de banditismo organizado típica do Brasil, sem similar no mundo ou na história. Ela só foi possível graças aos imensos espaços vazios, abertos e livres de obstáculos, com a população escassa vivendo em fazendas isoladas ou pequenas cidades e vilas com poucos moradores e destituídas de meios de proteção. Graças a isso, o cangaço se espalhou por todo o Nordeste, partes de Minas e de Goiás e, apesar das chamadas “volantes policiais” fervilharem na região em perseguição aos cangaceiros, eles resistiam e seus bandos se tornavam cada vez mais ousados e poderosos. Muitos cangaceiros se transformaram numa espécie de heróis populares, imitações toscas de Robin Hood, que supostamente roubavam dos ricos para dar aos pobres. O Cabeleira, Jesuíno Brilhante, Antônio Silvino, Sinhô Pereira e Corisco (Cristino Gomes da Silva Cleto, o Diabo Loiro) e, acima de todos, Lampião (Virgulino Ferreira da Silva), se notabilizaram em todo o país e até no exterior graças ao noticiário da imprensa a respeito de suas tropelias. A crueldade deles, no entanto, não conhecia limites. Invadiam as povoações, roubavam, sequestravam, destruíam, estupravam e depois se retiravam levando o bárbaro butim.

Lampião granjeou imensa fama. Suas proezas chegaram a ponto de desafiar o governador de Pernambuco, propondo a divisão do Estado entre eles, ficando o cangaceiro como o rei do sertão. Em muitos ataques deixava recados e bilhetes desafiadores às autoridades. Chegou a visitar Juazeiro do Norte, uma das cidades mais importantes da região, avistando-se com o Padre Cícero Romão Batista e as autoridades locais, levando em sua companhia numerosa cabroeira armada. Prometeu combater a Coluna Prestes, obtendo armas e munições, mas jamais a combateu e usou essas provisões em benefício próprio. Encorajado pelo cangaceiro Massilon, aventurou-se a atacar Mossoró, cidade grande e bem guarnecida, mas a população indignada se armou e se defendeu com bravura. Lampião e seu bando sofreram constrangedora derrota e tiveram que se retirar com os rabos entre as pernas. A fuga até Pernambuco, viajando à noite e com toda cautela, foi um episódio épico.

As proezas de Lampião e outros cangaceiros, no entanto, causavam imenso constrangimento ao país, em especial pelo noticiário da imprensa internacional. Era uma vergonha, uma nódoa que em pleno Século XX o cangaço ainda agisse em vasta porção do nosso território. Apesar do intenso combate, ele persistiu até 1938, ano da morte de Lampião, e que os historiadores assinalam como o final do cangaço. As atividades cangaceiras chegaram até quase metade do século passado, enquanto o mundo superava a I Guerra Mundial, a Revolução Russa e outros acontecimentos que alteraram o panorama geopolítico do planeta. Mas os cangaceiros prosseguiam na sua faina assassina, indiferentes a tudo e desafiando o poder do Estado. Com a posse de Getúlio Vargas, na crista da vitoriosa Revolução de 1930, o governo federal “apertou” os governadores para que acabassem com o cangaço o mais depressa possível. Sua sobrevivência constituía uma vergonha nacional. Acabar com ele se tornou uma questão de honra.

Dentro do país, os protestos contra o cangaço não cessavam. Nos discursos e nos jornais muitas vozes se levantavam, exigindo seu fim. Entre os muitos que se manifestaram nesse sentido estava Humberto de Campos, escritor de grande mérito e prestígio, integrante da Academia Brasileira de Letras e temido pela combatividade e pela inaudita coragem. Em seu livro “Notas de um diarista”, 1ª. série, edição póstuma, nada menos que três ensaios são dedicados ao assunto. No primeiro deles, o autor registra sua indignação diante da invasão da vila de Curuçá pelo grupo de Lampião, composto de 60 cangaceiros, e praticando as maiores atrocidades; no segundo, comenta a anunciada formação de uma coluna militar com mais de ml homens e formidável armamento, inclusive com aviões, sob o comando do capitão do exército Carlos Chevalier; no terceiro e último, volta a comentar a Expedição Chevalier, cuja partida fora suspensa em face do elevado custo da operação. Relembra que – como havia previsto – ela estaria fadada ao fracasso, uma vez que metralhadoras pesadas, canhões e tanques de pouco serviriam na caatinga adusta, onde os cangaceiros exercitavam uma guerra móvel, precursora das guerrilhas, contando com grande mobilidade e absoluto conhecimento do terreno.

Enquanto se discutia, o bando de Lampião e outros agiam com a maior liberdade, colocando em pânico as populações sertanejas a um simples boato sobre sua chegada. Em virtude de sua excentricidade, o cangaço é um fenômeno de patologia social dos mais estudados, existindo hoje imensa bibliografia a respeito.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/03/2019 às 11h07 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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