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Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Os escrúpulos de Maigret

Com esse título, a L & PMPocket publicou mais um dos múltiplos romances do escritor belga Georges Simenon (1903/1989) tendo como personagem central o célebre comissário da Polícia Judiciária francesa Jules Maigret. O investigador obteve grande renome por sua maneira hábil de desvendar os crimes, agindo sempre de maneira humana e respeitosa, procurando entender os infelizes que cometem crimes e caem nas malhas da lei. Sua figura impressionante fez dele um dos mais notórios detetives da ficção, ao lado de um Sherlock Holmes, um Hercule Poirot ou um Shell Scott. Para não fugir à regra, neste caso, como em tantos outros ele como que prevê o resultado sem que, no entanto, possa impedi-lo. Seu método de agir consiste em não ter método e, muitas vezes, deixa no leitor a impressão de que mais adivinha que desvenda.

Tudo tem início num dia marasmático na Polícia Judiciária, fato difícil de acontecer, e que ele descreve com absoluta precisão e economia de palavras. “Isto raramente acontece mais de uma vez ou duas por ano no Quai dês Orfèvres, e às vezes dura tão pouco que nem se tem tempo de perceber: de repente, após um período febril, durante o qual os casos se sucedem sem descanso, quando não chegam a três ou quatro simultaneamente, deixando todo o pessoal exausto a ponto de os inspetores, por falta de sono, terem os olhos vermelhos e esgazeados, de repente é a calmaria completa, o vazio, apenas pontuado por alguns telefonemas sem importância.” Assim estava o ambiente, descrito de forma tão precisa e enxuta que humilha qualquer narrador, numa manhã de 10 de janeiro, permitindo ao comissário observar com atenção o tempo reinante em Paris. “O céu, como as consciências e os humanos, - concluiu ele – era de um cinza neutro, quase o mesmo cinza das calçadas. Fazia frio, não o bastante para que fosse pitoresco e se falasse dele nos jornais, um frio apenas desagradável, que se sentia após ter andado por um certo tempo nas ruas.” É então que ele recebe uma estranha visita. Xavier Marton, vendedor de uma loja de brinquedos, especialista em trens elétricos, pede para vê-lo. Homem comum, sem nada de extraordinário, relata a Maigret que suspeita de que sua mulher deseja matá-lo. Mas não tem provas e assim não pode pleitear a instauração de um inquérito. Para completar, garante ao comissário que não é louco, tanto que havia consultado renomado psiquiatra e este atestara sua higidez mental. Tempos depois, Maigret recebe a visita da esposa de Marton, uma mulher bonita, sofisticada e muito elegante, que, por sua vez, suspeita do marido. Também não deseja processá-lo; quer apenas alertar o comissário. Nas conversas com o casal o mundo deles se abre e inúmeros detalhes são revelados. Com as mãos amarradas, Maigret nada pode fazer e só lhe resta encolher os ombros. Não há crime, não existe processo, nada que justifique uma ação policial. No entanto, o caso não lhe sai da cabeça e, por via das dúvidas, mesmo temendo parecer ridículo, põe um de seus homens a vigiar o casal. Ele parece farejar a tragédia no ar.

E então, num atropelo, as coisas acontecem numa certa manhã. Quando nem havia levantado da cama, o telefone toca e chega a notícia dura e fria tão temida: o crime aconteceu mais ou menos como ele presumia que haveria de acontecer. Não sabia quem era a vítima, tanto poderia ser um ou outro, mas agora se tratava de um fato consumado e não apenas de uma premonição.

A investigação tem início e Maigret não tarda a desvendar os fatos. Quando o juiz de instrução um certo Caméliau, de quem não gostava, entra no caso, ele já tem pronta a solução. Uma solução das mais engenhosas e que só a imaginação inesgotável de Simenon sabia engendrar. E que aqui não revelo para não estragar o prazer da surpresa do leitor.

Saindo do pesado palco do crime, Maigret se sente vazio e pesado. “Lá fora o frio fizera-se mais penetrante, e os flocos de neve, minúsculos e duros, visíveis apenas no foco das luzes, picavam a pele, onde pareciam querer se incrustar, pousavam nos cílios, nas sobrancelhas, nos lábios.”

Ler Georges Simenon é sempre uma experiência aliciante.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/06/2018 às 10h36 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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